O vento uivava através dos penhascos irregulares enquanto Amelia permanecia na beira do precipício, seus olhos fixos na terra fraturada abaixo. Daquela altura, a terra parecia se contorcer e se torcer sobre si mesma—imensos abismos se abrindo como se o próprio mundo estivesse sendo dilacerado de dentro para fora. O odor sulfúrico de terra queimada subia, misturando-se com a névoa fria que se agarrava às rochas.

Ao lado dela, Castiel permanecia em silêncio, seu olhar pesado com algo não dito, as mãos apertadas firmemente atrás das costas. Nenhum dos dois dizia nada. As palavras pareciam frágeis demais, insubstanciais demais, enquanto assistiam o solo se rasgar, sinalizando a aproximação inevitável da quarta trombeta.

O som distante de um sino—baixo e ameaçador—reverberou pelo vale, embora nenhum deles pudesse dizer se era real ou imaginado.

Então, sem aviso, uma voz.

“Sempre gostei dessa vista,” veio um tom familiar, quase reconfortante, atrás deles.

Amelia se virou bruscamente.

A poucos passos de distância, encostado casualmente contra uma pedra irregular, estava Gabriel.

Sua forma era exatamente como ela se lembrava—o sorriso travesso, os olhos castanho-dourados que pareciam captar luz mesmo no cinza sufocante daquele mundo morto. Seus braços estavam cruzados, sua postura enganadoramente relaxada, como se eles não estivessem parados no limiar do próprio apocalipse.

A respiração de Amelia ficou presa na garganta.

“Gabriel...” ela sussurrou.

A cabeça de Castiel se virou bruscamente para ele, seu corpo tenso, embora não dissesse nada. Seus olhos se estreitaram, como se algo dentro dele recuasse à visão, embora suas feições permanecessem compostas.

Gabriel não se aproximou diretamente deles—não, ele manteve distância, observando a ruptura na terra como se admirasse uma obra de arte. Então seu olhar deslizou preguiçosamente para Castiel.

“Não deixem que eu interrompa,” ele disse com um sorriso torto, antes de voltar sua atenção para o abismo.

Castiel hesitou, então deu alguns passos para longe, parando próximo à borda do penhasco, seus olhos agora fixos para baixo. Ainda assim, Amelia notou seus ombros rígidos, a leve inclinação da cabeça—ele estava ouvindo, observando.

Gabriel aproximou-se lentamente de Amelia, parando bem na sua periferia, sua voz suavizando-se em algo mais... destinado apenas a ela.

“É estranho, não é?” ele disse, seus olhos nunca deixando a terra quebrada. “Como tudo simplesmente... se desfaz.”




Amelia engoliu em seco, seu corpo tenso. O ar era denso, opressivo. Ela não sabia por quê, mas estar perto dele fazia seu pulso acelerar—não por conforto, mas por algo mais frio, algo que ela não conseguia nomear.

Gabriel inclinou a cabeça, como se ouvisse algum som distante e secreto.

“Você sente, não sente?” ele murmurou. “Esse... puxão. Essa fratura.”

Amelia franziu a testa, seus olhos estreitando-se levemente.

“O que quer dizer?”

Ele sorriu, tênue e triste. “A quebra dentro de você. Igual à terra.”

Ela inalou bruscamente, de repente consciente demais do poder enroscado dentro do seu peito, aquele que ela lutava para conter a cada momento desperto. O poder que, às vezes, escapava quando sua guarda falhava.

“Você tem segurado isso por tanto tempo...” Gabriel continuou, seu tom leve, quase conspiratório. “Mas para quê? Por eles?” Seus olhos se moveram, quase imperceptivelmente, em direção à figura de Castiel parada à parte. “Por ele?”

Os lábios de Amelia se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu.

Gabriel riu suavemente, quase gentilmente, e se aproximou, sua voz agora um sopro contra o ouvido dela, baixo demais para Castiel ouvir.

“Você realmente acha que ele é diferente dos outros?” ele sussurrou. “Acha que ele nunca pensou nisso? No que você poderia fazer... no que eles poderiam fazer você fazer?”

O coração de Amelia martelava contra suas costelas.

“Não,” ela murmurou, balançando a cabeça levemente, mas sua voz carecia de convicção.

Gabriel endireitou-se, olhando novamente para o abismo. “Todos eles querem você, Amelia. Um anjo, um demônio... não importa. Você é uma arma. É só isso que eles veem.”

As palavras dele afundaram nela como ganchos.

“Isso não é verdade,” ela disse, rápido demais.

Gabriel sorriu de lado, então suspirou.

“Eu também pensei isso, uma vez,” ele disse suavemente, como se relembrasse algo real. “Antes de me usarem até o fim.”

Amelia engoliu o bile que subia pela garganta. O rosto familiar, o tom gentil—tudo parecia tão real. Ainda assim, algo em seu estômago se torcia dolorosamente.

“Você nem confia mais em si mesma, confia?” Gabriel acrescentou de repente, sua voz como uma faca entre suas costelas. “Você sabe o que está dentro de você. Sabe no que poderia se tornar.”

Seus dedos se fecharam em punhos ao lado do corpo.

“Eu não sou—”

“Não é o quê?” Gabriel interrompeu suavemente, finalmente se virando para olhá-la plenamente. Seus olhos dourados brilhavam com algo antigo e cruel sob a superfície. “Não é perigosa? Não é inevitável?”

A terra estremeceu sob eles, um rugido profundo e grave quando outra fratura se abriu bem abaixo.

Castiel virou-se levemente, olhando de volta para eles, sua expressão sombreada pela preocupação—mas Gabriel apenas sorriu educadamente, erguendo a mão num cumprimento zombeteiro, como se nada de importante estivesse acontecendo.

A carranca de Castiel se aprofundou, mas ele não interveio.

Gabriel baixou a mão, inclinando-se novamente para Amelia.

“Você já perdeu o controle uma vez... não foi?” ele sussurrou, seu hálito frio contra a pele dela. “E vai perder de novo.”

A garganta de Amelia apertou dolorosamente.

“Eu não vou.”

Gabriel sorriu, quase com pena.

“Claro que não.”

O som de trombetas distantes começou a se elevar—baixo, lamentoso, ressoando pelo vale. Um som que parecia vir das entranhas da própria terra.

A quarta trombeta.

O céu acima deles escureceu de maneira antinatural, nuvens girando violentamente enquanto uma pressão opressiva caía sobre a terra.

Gabriel inalou profundamente o ar sulfuroso, como se saboreasse.

“Bem,” ele disse, afastando-se de Amelia suavemente, “parece que está começando.”

Ele lançou a ela um último olhar, cheio de algo frio e conhecedor.

“Tome cuidado, Amelia. Às vezes... a coisa que você mais teme... é você mesma.”

E com isso, ele se virou e se afastou, desaparecendo na névoa como se nunca tivesse estado ali.

Amelia permaneceu imóvel, seu pulso acelerado, sua respiração superficial.

“Amelia?” A voz de Castiel rompeu o silêncio opressivo.

Ela se virou para ele, forçando sua expressão a algo neutro, embora por dentro sentisse como se estivesse se partindo.

Castiel a estudou por um longo momento, seus olhos azuis se estreitando levemente—não com suspeita, mas com algo mais silencioso. Preocupação.

Ela lhe ofereceu um sorriso tênue, quebradiço.

“Não é nada,” ela mentiu.

Mas enquanto a quarta trombeta soava através dos céus e a terra se abria sob eles, Amelia sabia que a fratura dentro dela já havia começado.