The Art of Moving On
6 Capítulo 5
Notas iniciais
You gave me all your love, and all I gave you was goodbye. (Back to December – Taylor Swift)
— Jo. Jo! – A mão de quem chamava a minha atenção balançou na frente do meu rosto enquanto eu andava até o meu carro e mantinha meu olhar fixo no chão do estacionamento.
— Oh, desculpa. – Eu estava tão distraída que nem percebi Kevin se aproximando. Na verdade, eu estive muito distraída o dia todo. Digamos ainda não consegui digerir o café da manhã muito bem. – O que dizia?
— Eu estava falando sobre a gente ensaiar umas cenas na minha casa agora, o que acha? – Sugeriu Kevin, o garoto com quem estou saindo (leia-se “enrolada”) faz pouco mais de uma semana. Ele é um dos personagens principais do filme que estou protagonizando. Alto, branco, ombros largos e fortes, cabelos loiros lisos e olhos verdes miúdos e enormes bochechas. Sim, ele é um gato, e até me lembra alguém... Mas infelizmente, o que ele tem de bonito, tem de desinteressante.
— Hum… Não me leva a mal, Kev, mas eu estou super cansada. O dia de gravações foi longo, eu só quero ir pra casa. – Tentei dispensá-lo da melhor maneira.
— Você tá tão estranha hoje, toda caladona. O que te aconteceu?
— Nada, Kevin. Só estou cansada. – Apressei o passo disfarçadamente.
— Eu não vou cair nessa, Jo. Tem alguma coisa a ver comigo? – Ai, Deus. Uma discussão agora não.
— Claro que não, Kev. É sério, fui dormir tarde ontem e hoje as gravações foram intensas, só o que eu quero é dormir. – Dei um pequeno sorriso para ver se ele se convencia.
— Ok, então. – Dei graças a deus mentalmente quando cheguei ao meu carro. – Tchau. – Ele inclinou para me beijar e eu virei o rosto, fazendo a boca dele acertar minha bochecha. Entrei rápido no carro para não ter que ouvir nenhum outro resmungo. Por Deus, além de ser chato é grudento.
O meu problema é que eu não sei dar o fora em ninguém. Sim, tenho muita pena. Então eu geralmente me afasto até o cara se tocar de que eu não estou mais interessada e sumir de vez da minha vida. Neste caso, estou tendo um pouco de trabalho com Kevin.
— Contas, contas, contas, propaganda... Contas. – Eu disse depois ir até a minha caixa de correios e pegar a correspondência, enquanto caminhava em direção a porta da frente. Coloquei as correspondências debaixo do braço para procurar a chave da porta na bagunça da minha bolsa, e logo que a encontrei, pude entrar na minha casa. Minha enorme e vazia casa. Suspirei.
Joguei minhas chaves junto com a bolsa na mesa de canto ao lado da entrada, e comecei a abrir o envelope de conta de luz enquanto caminhava em direção ao telefone fixo em cima da mesinha da sala. Apertei o botão para escutar as minhas novas mensagens, mas a continuei a abrir os outros envelopes, dando uma rápida olhada no quanto eu precisaria tirar do meu bolso para pagar essas dívidas. Bem, nada que faça muita diferença.
As mensagens eram das mesmas pessoas de sempre. Uma do meu agente, avisando que a produção do Programa Da Hellen havia me convidado para participar do programa dela novamente. Outra era de um ex-ficante meu que me enche o saco desde que eu fiquei famosa, me chamando sempre que pode para ir às festas com ele. Durante a mensagem dele eu fui beber um copo d'água e voltei depois. Havia uma da minha mãe, dando notícias lá da minha casa na Carolina do Norte e dizendo que sente saudades. Eu estava prestes a pegar o telefone para ligar para a minha mãe quando a última mensagem ecoou na minha sala de estar.
“Oi, Jo, lembra de mim? Uh, que pergunta idiota essa. Claro que não. Você não deve nem se lembrar de quem é essa voz, né?” A mulher deu uma risada meio nervosa. Na verdade, aquela voz me era familiar... Eu só não conseguia me lembrar da onde a conhecia. “Sou eu, Lucy.”
As correspondências que ainda estavam na minha mão despencaram no chão. Não é possível. O quê? Como assim? Lucy? A que se casou com Kendall e teve um filho com ele? Aquela Lucy?!... Porque ela estava me ligando? Eu fiquei tão espantada, surpresa e confusa que tive que me sentar no sofá para conseguir escutar o resto da mensagem.
“Espero que você não se assuste com essa mensagem.” Ela deu um riso fraco e continuou. Tarde demais. “É... Pode parecer estranho, mas nós poderíamos nos encontrar qualquer dia desses? Eu sei que a sua agenda deve ser lotada, mas eu queria mesmo conversar com você. Hum... Amanhã às 8h vou levar Francis à escola. Se você puder me encontrar em uma lanchonete para podermos conversar, o endereço é...” Lucy o ditou, e eu fiz o máximo pra conseguir decorar cada palavra dela na minha mente enquanto eu tateava loucamente meus bolsos a procura do meu telefone. Quando eu o achei, consegui anotar e escutar o finalzinho da mensagem. “Eu estarei lá te esperando. Mas se você não puder ou não quiser ir, eu vou entender... Tchau-tchau, Jo.” E tudo ficou silêncio de novo.
A confusão que se passava pela minha cabeça era insana. Primeiro, como Lucy conseguiu o meu número? Segundo, o que será que ela quer falar de tão importante comigo? Uma tsunami de dúvidas me afogava. Mas de uma coisa eu não tenho dúvida: Eu vou matar a minha curiosidade. Por mais que doa encontrar a garota que há dez anos tirou de mim o garoto que eu mais amava no mundo, por mais que eu tenha inveja dela só relembrar Kendall a pedindo em casamento, por mais que seja torturante pensar que um dia ela já foi chamada de Lucy Knight, por mais que eu queira chorar quando ver no filho dela os traços de Kendall, por mais maluca que seja essa ideia, eu vou ver Lucy amanhã. Eu preciso esclarecer as coisas, porque pelo visto só ela pode fazer isso pra mim.
Eu não vou nem conseguir dormir de tanta ansiedade. E lá se vão as minhas unhas recém-pintadas.
No dia seguinte, pouco mais de oito da manhã, eu estava dirigindo em direção a lanchonete que Lucy me disse para ir. Eu tive que inventar uma desculpa muito esfarrapada pro meu diretor eu para poder chegar atrasada.
Confesso que antes de sair, eu pensei em desistir dessa ideia doida. Para quê desenterrar o passado, né? Para quê... Só sei que a voz dentro da minha cabeça disse-me que eu tinha que ir. Então eu resolvi confiar na minha consciência.
Ao entrar na lanchonete, e meus olhos procuraram o de Lucy a todo custo. Até que a ouvi me chamar.
— Jo! – Exclamou Lucy, acenando para mim da mesa onde estava. Eu tomei um baita susto ao reconhecê-la. Óbvio, se passaram dez anos e ela teve um filho, eu já esperava que ela estivesse diferente. Mas não a esse ponto. Lucy parecia praticamente outra pessoa.
Ela perdera sua aparência rebelde e rockeira, mas sua cor favorita ainda era preto, pois ela usava uma blusa preta de mangas longas e calça jeans. Desistira das mechas vermelhas, agora seus cabelos eram apenas fios castanhos e ondulados que iam até um pouco abaixo dos seus ombros. Eu quase não reconheci seu rosto sem toda aquela maquiagem preta, e se ela passou alguma maquiagem, foi pouca, somente o básico e necessário. Em outras palavras, Lucy Stone estava radiante.
Lucy
Eu estava sentada numa mesa afastada, com os braços cruzados e meu pé ansioso batendo no chão. Meu olhar não desgrudava da entrada. Já era a terceira vez que o garçom vinha me perguntar se eu já queria fazer meu pedido, eu estava quase perguntando a ele se ele não queria ir à puta que pariu. Ansiedade se tornou o meu sobrenome.
Até que, finalmente, vi a mesma garota loira de dez anos atrás adentrar a lanchonete. Eu mal podia acreditar. Jo veio mesmo. Ai meu Deus. Eu não acredito que eu vou fazer isso mesmo... O nervosismo agora também era um dos meus sobrenomes. Agora me chamem, por favor, de Lucy Ansiedade Nervosismo Stone.
Ok. Calma, Lucy. Você provocou tudo isso, agora enfrente. Vá em frente.
O engraçado era que, na aparência, ela continuava a mesma pessoa. A única coisa que diferenciava era que agora ela usava roupas mais chiques, e seu rosto não era mais de uma adolescentezinha. Jo agora era uma mulher. Esbelta, talentosa e madura, mas com a mesma delicadeza de sempre. Eu definitivamente não era a única a olhá-la naquele momento.
Percebi rapidamente pelo seu olhar desnorteado que Jo estava meio perdida aqui, então eu resolvi chamá-la. Logo ela me avistou, e por um momento pareceu estar muito surpresa ao me ver. Talvez porque, ao contrário dela, eu mudei drasticamente nesses últimos anos, não só um pouquinho. Principalmente depois que eu fiquei grávida, e também depois que decidi tirar as mechas vermelhas após parar de vez com a minha carreira de cantora de rock. Jo vinha com um sorriso tímido em seu rosto em direção à mesa, e eu me levantei amigavelmente para abraçá-la.
— Quanto tempo! – Eu disse aquela frase típica quando nos afastamos. – Que bom que você veio. Tenho muita coisa pra te falar.
— E eu estou muito curiosa para saber. – Ela retrucou quando nos sentamos, mas antes que ela pudesse continuar, eu tornei a falar.
— Eu imagino que esteja. Imagino que queria saber como eu consegui seu número, e o porquê de eu querer te encontrar assim, do nada, depois de tanto tempo. Não é?
Jo sorriu, embasbacada.
— Você leu os meus pensamentos.
Decidimos logo que era melhor fazermos nossos pedidos. Como eu já havia tomado café da manhã em casa, eu estava sem fome, então pedi apenas um chá gelado, e Jo pediu um café. Ficamos nos olhando desconfortavelmente enquanto o garçom não trazia nossos pedidos, e Jo acabou comentando sobre o quanto eu estava diferente.
— Bem, as mechas vermelhas ficaram bregas demais. – Eu brinquei. – Mas e você, continua a mesma.
— O loiro nunca sai de moda. – Ela jogou parte do cabelo por cima dos ombros, e nós demos leves risadas novamente. Bem, pelo menos a tensão entre nós havia passado um pouco. O garçom trouxe nossos pedidos, e enquanto Jo adoçava seu café, eu resolvi começar "A conversa".
— Então... Acho que já sabe sobre o que eu quero falar com você, né? – Indaguei, levando meu chá gelado à boca apenas para tomar um gole.
— Eu desconfio sobre o que seja. – Ela disse levantando a xícara para assoprar o café quente, com a voz tão baixa que eu quase não escutei. Mas é claro que ela sabia sobre o que era. Afinal, porque eu, uma garota que ela conheceu por apenas um dia dez anos atrás e que acabou se casando e tendo um filho com o cara que ela amava, iria querer falar com ela, pouco tempo após a separação? Falar sobre culinária é que não, né. Era mais que óbvio que o assunto de hoje era Kendall.
— Então... Eu não quero enrolar você, mas também preciso ir com calma. Mas antes de tudo, Kendall não pode saber nós nos encontramos, ok? – Se Kendall soubesse que eu vim falar com Jo, acho que ele me estrangularia. – Muito menos sobre eu ter pegado o seu número no celular dele quando ele não estava olhando.
—... Ok. – Jo concordou, um pouco confusa, mas não perguntou nada. Até ela conseguir processar a minha última frase. – Peraí, como você pegou-
— A questão agora não é essa. A questão é que... Kendall me contou que te encontrou na cafeteria, e que sem querer agora ele mora em frente a sua casa.
A expressão de Jo foi de pura confusão.
— Hã... Como ele te falou isso? Vocês não tinham se... separado, divorciado, sei lá? – Jo falou aquelas palavras como se fossem proibidas. Ela realmente acha que todos os casais que se separam param de se falar pra sempre?
— Sim... Mas depois de muita conversa decidimos continuar amigos, pelo menos.
— Ah...
— Enfim, ele me falou tudo, e me pediu até uns conselhos.
— Conselhos sobre o quê?
— Sobre como se reaproximar de você.
Jo deu uma risada não muito confiante.
— Ora, mas isso é simples. A casa dele é de frente pra minha.
— Não é tão simples assim, Jo. Kendall não quer se reaproximar de você pra ser só seu amigo.
Jo arregalou os grandes olhos castanhos. Acho que fui direta demais. E acho que ela não esperava que eu seria a pessoa que fosse dizer isso à ela. Eu sei, reconheço que essa situação é estranha. Mas o que posso fazer? Kendall agora é meu amigo, e eu só quero a felicidade dele. Mas na cabeça de Jo, eu sou a ex-mulher empurrando o ex-marido de volta pra ex-namorada. Soa até engraçado. Como vi que Jo estava em choque demais para falar, eu continuei.
— Mas ele está com medo, Jo. Ele tem medo de que você não sinta mais nada por ele. – Dei uma pausa e encarei no fundo dos olhos dela, impedindo-a de mentir. Mas em vez disso acho que acabei deixando ela nervosa. – Você ainda sente alguma coisa?
— E-eu não sei, eu não sei, Lucy. Se passou tanto tempo, eu não sei. Mas porque está me perguntando isso? T-tá errado, vocês acabaram de se separar, vocês tem um filho, vocês foram feitos pra ficar juntos, eu não posso simplesmente dizer que gosto de ele e depois... – Jo atirava suas palavras como metralhadora, dava pra sentir o nervosismo dela de longe. Então eu resolvi apelar pro plano B.
— Jo, me escuta. – Eu a interrompi. – Pelo visto eu vou ter que te contar tudo, né? – Eu disse, fazendo com que a careta dela ficasse ainda mais confusa.
— Contar o quê?
Puxei um pouco de ar e coragem pra dentro dos meus pulmões e terminei de tomar meu chá que agora não estava mais tão gelado.
— Jo, quer saber o que eu disse para Kendall depois que eu pedi a separação? – Perguntei. É claro que ela queria saber. Ela não deveria, mas queria. Então apenas confirmou com a cabeça. – Eu disse que nós não poderíamos ficar juntos no presente, se ele não se desligasse do passado. – Soltei da forma mais rápida e menos dolorosa para mim.
— Oh. – Ela ergueu as sobrancelhas.
— E quer saber também porque eu pedi a separação? – Porque eu continuava perguntando? É claro que Jo queria saber tudo. Ela balançou a cabeça afirmativamente de novo. – Um dia, eu estava fazendo uma limpeza geral na sala de música de Kendall, porque ele sempre deixa aquele lugar uma bagunça completa. Então, como eu caminhava de um lado pro outro sem parar, eu sem querer tropecei numa caixa de som, e pra minha surpresa, ela não era pesada. A caixa de som era mais leve do que eu pensei, então ela caiu no chão com facilidade. A princípio eu pensei que eu havia quebrado a caixa, então quando eu a ergui novamente, o fundo falso dela caiu. E junto com o fundo, caiu isso. – Eu me abaixei e peguei a sacola de pano que eu havia colocado no chão e a entreguei.
— O que é isso? – Perguntou, mas eu não respondi. Eu queria que ela descobrisse sozinha. Além do mais, acho que eu não aguentaria explicar o que havia ali dentro. O máximo que fiz foi um sinal com a cabeça para que ela puxasse o fio da sacola. Ela fez isso com cuidado, e a sua expressão de susto fora evidente.
Jo, à medida que ia tirando as coisas da sacola, ia colocando-as em cima da mesa. Havia enormes bolos de envelopes enrolados com ligas, que ela examinou com receio, e depois resolveu deixá-los de lado por um tempo. Então ela enfiou a mão no fundo da sacola, e abriu o álbum empoeirado de fotos em cima da mesa. Fotos dela recortadas de revistas e jornais, fotos em que ela aparecia da época de Palm Woods, umas com todo mundo, umas só dela, e no final do álbum, só havia fotos de Kendall e Jo. Ela fechou o álbum com rapidez, pois estava completamente em choque.
— E isso aqui são... – Disse segurando um dos bolos de envelopes. Ela não quis terminar a sentença, eu já havia entendido sua dúvida.
— São cartas, Jo.
“Aprendi que amar não significa estar junto, mas sim querer ver a pessoa feliz, mesmo que isso custe a sua felicidade.”
Querido John
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