Terry
2 Capítulo 2
Notas iniciais

Terry puxa a cadeira da mesa da cozinha e senta-se. Olha pro relógio, olha pra chaleira, olha para vários lugares da cozinha, e sente-se mais sozinho que nunca. Aquilo o deixava num estado mais desolado ainda. Olhava pra outra ponta da mesa, e parece que ainda conseguia ver Laura sentada ali.
– Hum... Está uma delícia, Terry!
– Não tá não. Pode falar a verdade, faltou tempero.
– Não faltou não, tolinho! – Laura se levanta e vai até Terry e lhe dá um beijo em seu rosto e de pé mesmo, ela abraça Terry, que estava sentado. São as lembranças que Terry ainda tem dela. E quando se dá conta, ele está esfregando seu rosto no ar... E percebe que aquele abraço não era real. Não passava de sua imaginação. E naquele momento, ele se debruça na mesa e começa a chorar sem parar. A falta que Laura fazia em sua vida era algo com que Terry não conseguia conviver. Seu choro era tão desesperador que qualquer vizinho que o ouvisse, podia jurar que Laura havia acabado de morrer em frente de Terry novamente. Mas nem mesmo os vizinhos pareciam se importar com a dor de Terry, ou se ele ainda estava vivo, pois desde que tudo aconteceu, e Terry voltou para sua casa, ele não recebeu nenhuma visita. Nenhuma palavra. Ninguém ligou para ele. Ninguém perguntou como ele estava, se estava bem, se precisava de alguma ajuda. E isso apenas agravava a sensação de solidão.
Então, um barulho agudo e estridente pode ser ouvido na cozinha. Começando bem baixo e aumentando com o passar do tempo. Aumentando e ficando mais agudo. Terry se deu conta que a água da chaleira já estava fervendo há um tempo, e a fumaça que saía pelo bico da chaleira estava fazendo um barulho estridente. Ele se levanta, enxuga o rosto, pega a chaleira e começa a despejar a água no filtro com pó de café. E novamente, mais uma lembrança de Laura.
Terry estava sentado na mesa, vendo Laura coar o café, enquanto conversavam sobre qualquer coisa. Até que Laura derruba a chaleira com água.
– Laura, tá tudo bem??? – pergunta Terry assustado.
– Sim, sim. Eu encostei o dedo na chaleira e queimei a pontinha dele.
Terry imediatamente foi até um armário na cozinha pegar uma pomada para queimaduras.
– Amor, não precisa. Foi só uma queimadinha de leve.
Mas para Terry, cuidar de Laura nunca era demais. E ele passou a pomada na ponta do dedo de Laura, com todo cuidado do mundo. E ainda no final, deu um beijo de leve no dedo dela.
– Você é um doce, sabia? Eu te amo demais. — Laura abraça Terry.
Terry derruba um pouco da água da chaleira fora do filtro do café, que respingam e caem em sua perna. E então, ele acorda daquela outra lembrança. Volta à realidade, chorando. E desta vez, com algumas queimaduras de leve nas coxas. A dor das queimaduras era ruim, mas não forte o suficiente para fazer a dor do coração ser apagada. Terry pega um pano em cima da pia e se abaixa para enxugar o chão. E enquanto estava abaixado, repara a pele de suas coxas. Vermelhas da queimadura da água. Aquilo doía muito. E por um instante, ele sentiu-se melhor, por estar um pouco como Laura estava. Um pouco melhor. Queimado. Sentia que estava mais igual a ela.
A cabeça de Terry era um emaranhado de idéias e pensamentos desconectados e sem nexo. Tantas coisas passavam por ela e um bilhão de sentimentos e pensamentos vinham à tona em tão poucos segundos, que ele não conseguia controlar mais nada de sua vida. Havia perdido totalmente o controle de tudo.
E ainda abaixado, ele vê o corredor que dava pro quarto dele, um banheiro e então a cozinha. Ele enxerga Laura saindo do banheiro, enrolada numa toalha.
– Amor, pega meu pente? Eu o esqueci em cima da cama.
– Claro. Aqui está. – Terry entrega o pente para Laura – Nossa, que cheiro bom. É algum xampu novo?
– Gostou? Comprei justamente porque imaginei que você gostaria.
– E gostei muito! Você toda cheirosa assim, enrolada apenas nessa toalha e eu sujo aqui.
– Ah, mas não se preocupe com isso, pois eu vou ter que tomar outro banho mesmo.
– Por quê?
Laura apenas puxa Terry pra dentro do banheiro e fecha a porta. E tudo que Terry pode ver agora, fora das lembranças da sua mente, é a mesma porta fechada. Ele se levanta, olhando fixamente para a porta e ele pode ouvir algumas vozes vindas de dentro do banheiro. Uma ou duas vozes. Ele chega bem devagar na porta e se arrepia. Era a voz de Laura lá dentro. Ela parecia rir, mas ao mesmo tempo, parecia estar ofegante. Em alguns momentos, parecia gemer. Terry não podia agüentar. Sabia que era tudo fruto de sua imaginação, mas ele precisava abrir aquela porta para ver o que havia ali.
E ao abrir a porta, ele vê Laura. Sua imaginação podia estar pregando uma peça nele ou talvez houvesse qualquer outra possível explicação, mas Terry vê Laura.
No entanto, a cena que ele vê, foi pior do que abrir a porta e não ver nada. Laura estava nua, apoiada de frente para a pia do banheiro, enquanto um homem segurava Laura por trás, pela cintura e este também estava nu.
E ao abrir a porta, Laura olhou para Terry e continuou rindo. Mas não era uma risada maléfica, ou sarcástica nem nada. Era uma risada alegre. Feliz. Ela olhava para Terry, mas olhava também para o homem que estava transando com ela. Este não olhava para Terry. Era como se ele não conseguisse ver Terry.
Terry ficou estático vendo aquela cena. Não entendia o motivo daquilo! Não conseguia acreditar. E num surto psicótico, ele avança na direção dos dois. Primeiro ele empurra Laura e logo depois pega o homem pelo pescoço e o joga no chão. E começa a dar alguns murros em sua cara. O homem rapidamente fica com o rosto bem machucado e ensangüentado, mas começa a rir com bastante calma. Terry pára o que estava fazendo e olha para o homem rindo. Terry então olha para trás, e não vê Laura. E quando ele se vira para olhar novamente o homem, Terry percebe que estava segurando um grande cano que estava encostado na parede do banheiro de sua casa. Toda a casa estava em reformas. Decisão tomada por Terry e Laura. Mas toda reforma havia parado depois da morte de Laura.
E Terry percebe que o sangue que ele via, não era de outra pessoa, mas sim de sua própria mão. Ele percebe que havia cortado toda sua mão, esmurrando aquele pedaço de cano.
Terry soltou o cano e parece que nem mesmo a dor em sua mão ele era capaz de sentir. Sua loucura havia deixado ele tão transtornado, que nada fazia sentido mais. A única coisa que ele era capaz de sentir naquele momento, era raiva. Fúria. E se perguntava que diabos foi aquilo que ele viu. Até então, ele apenas lembrava-se de Laura e as coisas belas que eles já haviam vivido juntos. Mas nunca algo daquele tipo.
– Não... Isso não é verdade. Não. Laura não era desse tipo de garota... Eu nem mesmo sei quem é esse homem. Por que ele... Não, espera! Eu estou imaginando coisas faz tanto tempo. Isso só pode ser loucura da minha cabeça.
Mas Terry sabia que todas as lembranças e pensamentos que o atormentavam até agora nesse ano que se passou, eram de coisas que realmente aconteceram. Nunca de algo que não havia acontecido de fato. No fundo, ele sabia disso. Mas manteve em mente que era uma criação mentirosa de sua cabeça.
Ele então resolve levantar-se para ir cuidar da mão que ele havia detonado naquele ato de loucura. Terry sai do banheiro, chegando ao pequeno corredor. Olha para a cozinha e percebe que ainda não havia limpado o chão que ele havia derramado a água do café. E só então ele lembra que suas pernas estavam queimadas. Então ao chegar na cozinha ele pega o pano que estava em cima da pia e começa a enxugar o chão. Quando já estava terminando seu serviço, Terry ouve:
– IMBECIL!
O susto que Terry tomou foi MUITO grande! Ele perde o equilíbrio e cai sentado no chão. Ele olha para os lados, mas não enxerga ninguém! Ainda com o coração acelerado, ele levanta, abre a janela da cozinha, mas não vê ninguém.
Olha para o corredor e também não vê ninguém. Terry corre até o banheiro, e também não vê nada. Vai até seu quarto e também não encontra ninguém. Nada em lugar algum. Sai de seu quarto, vai até a pequena sala, que ficava ao lado da cozinha e nada também. Abre a porta de entrada, olhando para fora de sua casa, e não encontra nem uma alma viva. E naquele momento, Terry percebeu que a situação estava ficando REALMENTE complicada para ele. Aquela loucura toda estava indo longe demais. Já não conseguia mais separar a ficção da realidade.
Terry fecha a porta da sala e vai até a cozinha. A voz que Terry ouviu era irreconhecível. Tanto que nem mesmo conseguia definir se era a voz de um homem ou uma mulher.
Terry sabia que sua vida andava atormentada. Mas aquela manhã estava deixando o jovem de tão pouca idade, absurdamente atormentado.
Tendo limpado o chão e coado o café, Terry abre um armário em busca de algo para comer. E a única coisa que havia ali para comer, eram alguns pães dentro de um saco. Estavam bem secos, pois estavam ali já fazia alguns dias. Sem se importar muito, Terry pega um deles e coloca à mesa. Ele vai até outra parte do armário e abre uma gaveta na altura da barriga, para pegar uma faca para cortar o pão.
Ao abrir a gaveta e pegar a faca que queria, ele se vira e vê Laura mexendo na geladeira da cozinha.
– Amor, o que você vai querer de sobremesa?
– Hm... Tem sorvete?
– Se você não tiver acabado com ele ontem... – Laura ri de forma bem sutil.
– Ah, mas você não reclamou quando usei metade do pote em você. – Terry lança um olhar um tanto quanto sensual em Laura.
– Ah, mas não mesmo. Mas vamos tentar COMER o sorvete hoje, sim? – ambos riem do comentário de Laura.
De repente, a gaveta atrás de Terry se solta e cai, fazendo Terry acordar daquela visão que estava tendo. Naquela gaveta, haviam algumas facas muito afiadas. E uma delas, justamente, cai na direção da perna de Terry, afincando na parte de trás da coxa de Terry.
– MAS QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO AQUI??? – grita Terry, sentindo uma dor imensa daquela faca encravada em sua perna.
Terry estava ficando completamente louco. Tentava entender o que era tudo aquilo que estava acontecendo, mas agora, aquele ferimento não permitia que ele pensasse em nada mais, além de procurar socorro. Terry não sabia se devia ligar e pedir socorro ou se devia tirar a faca da perna... Não sabia o que fazer.
Terry resolveu tirar a faca rapidamente. A dor que ele causou a si mesmo fazendo aquilo foi MUITO grande. Terry quis gritar de dor, mas não conseguia. Ele só conseguiu se concentrar em segurar bem forte sua perna para não deixar sair muito mais sangue do que já havia saído.
Com aquele pano mesmo que havia enxugado o chão, Terry amarra bem forte em cima do ferimento, sentindo mais dor ainda, mas estancando um pouco o sangue.
Terry vai com dificuldade até seu quarto colocar uma roupa qualquer, só para poder sair de casa. Ele, que já estava debilitado, agora com esses machucados estava mais difícil ainda conseguir manter-se em pé. Com muito esforço, ele vai até a sala da casa, pega a chave da casa e de seu carro e sai pela porta da frente. Com muita dor, ele caminha um pouco até o portão que dava para rua, depois de uma escadaria ao ar livre. Mas já na escada, ele percebe que estava tudo muito quieto. O sol ainda não havia nascido. Ele então pega seu celular para ver que horas eram. No celular, já marcava 06:48. E nessas horas, já deveria haver iluminação do sol. Mas não era o que se via. Também não havia pessoas na rua ou mesmo carros circulando. E pelo horário que o celular marcava, já deveria ter movimentação de pessoas indo pros seus trabalhos, levando seus filhos pra escola e coisas assim. Mas não havia nada em lugar algum.
Terry fica com bastante medo ao perceber tudo isso, mas sabia que naquele momento, ele precisava muito cuidar daquele ferimento em sua perna, pois percebia que sangrava muito e estava ficando cada vez mais fraco e zonzo. Terry então desceu as escadas até chegar à rua. Passa pelo pequeno portão e fecha o mesmo. Ele se dirige até seu carro que já estava na rua. Terry entra nele, dá a partida e segue então em direção ao hospital da cidade em que morava. Já tendo andado bastante pelas ruas da cidade, ele não vê uma pessoa sequer andando pelas ruas ou em lugar algum. E aquele sol não nascia nunca. A escuridão das ruas estava deixando Terry muito angustiado, pois parecia que estava sendo seguido por algo, mesmo que fosse aquela escuridão. E de repente, enquanto ele olhava para os lados, procurando alguma viva alma, Terry ouve a voz de Laura:
– Amor, não quer que eu dirija? Você já está dirigindo há horas sem parar.
– Não se preocupe. Eu estou bem, minha linda.
– Nossa Tê, achei que você não ia ter pique pra passar toda a madrugada comigo no velório da minha tia. Ainda mais a cidade sendo tão longe daqui. E você ainda nem dormiu, deve...
– Laura – interrompe Terry – não se preocupe, ok? Eu estou bem. Logo chegaremos em casa. E eu vou tomar um banho bem gostoso e vou desmaiar naquela cama.
– Eu te faço uma massagem pra você dormir bem relaxado.
– Ah, mas suas massagens geralmente sempre me deixam mais exausto ainda.
– E você acha que a idéia é qual, tolinho?
– Sabia que eu te amo? Você...
– TERRY, CUIDADO!!!!!
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