Terry

3 Capítulo 3


Notas iniciais
"A recordação da felicidade já não é felicidade; A recordação da dor ainda é dor." - George Lord Byron

Acordando daquela outra visão que estava tendo, Terry olha para frente e percebe que estava andando em direção a um penhasco no meio da rua. Ele tenta frear, virar o carro, dar um jeito de parar, mas estava rápido demais. O carro começa a rodopiar na estrada enquanto Terry tenta controlar seu veículo. Ele sente que estava muito perto de cair naquele penhasco e a idéia de estar tão perto de morrer era algo que causava um desespero sem igual em Terry. E o carro continuava rodopiando até que uma hora, ele chega à beirada do penhasco. Terry arregala os olhos quando percebe isso. Seu coração acelera MAIS ainda e seu corpo inteiro estremece, junto ao suor desenfreado.

E parece que em câmera lenta, o carro de Terry pende penhasco abaixo. Até que então, ele despenca.

Por breves segundos, tudo fica silencioso. Nada podia ser ouvido, além das palpitações do coração de Terry. Ainda segurando no volante, Terry olha horrorizado e desesperado seu carro voando livremente para baixo, em direção às pedras do penhasco. O estranho é que não se via um fim para aquele abismo. Não havia como enxergar. E não era apenas porque estava noite, realmente parecia não haver nada abaixo.

E naqueles poucos segundos, parece que Terry pode reviver horas, dias, meses e anos de sua vida. Tanta coisa que ele havia vivenciado; tanta coisa que ele havia experimentado. E toda luta e esforço que ele teve até agora para se manter vivo e não perder tudo que havia feito até então, estava tendo um final. Seu fim era certo, sabia que o carro explodiria com ele dentro, ou simplesmente ficaria aos pedaços com a queda.

Terry pode rever todas as boas coisas que aconteceram na sua vida. E também, todas as ruins. E parece que tudo naquele momento se passava em câmera lenta. Ele via tudo acontecendo e apesar do desespero de saber que logo estaria morto, podia ver com bastante calma os objetos do carro voando, as pedras do penhasco caindo junto com ele.

Mas em certo momento, o carro bate nas pedras. E começa a dar piruetas, batendo, capotando e rolando nas pedras do penhasco. Toda lataria do carro vai ficando destruída. Os vidros do carro quebram ao mesmo tempo. Os pedaços do carro voam para todos os lados. Pneus, pára-choques, as coisas de dentro do carro, motor, peças... Rolando e ruindo. Aquela era uma queda sem fim. Quando parecia que já não havia mais como piorar aquele acidente, via-se que tinha muito ainda para chegar ao chão. Dentro do carro, Terry já devia estar totalmente despedaçado. Destroçado dentro do carro. Pois o próprio carro já se tornara apenas um monte de lata retorcida. Imagine então o que não faria com uma pessoa.
Muito tempo se passou naquela queda, e Terry já não estava mais consciente de nada, fazia um tempo já.

Uma manhã cinzenta e silenciosa. Onde um simples feixe de luz pode dizer tudo sobre o dia que você irá viver. No dia que se seguirá.

Desta vez, as sensações que vieram acompanhadas deste acordar, foram bem diferentes do que vinha sendo para Terry.

– Ah... Droga, outro sonho bizarro.

Terry pensava no quão ruim era ficar vendo Laura em seus sonhos. Pois assim ele não conseguia superar a perda. Então, ele resolve ver que horas eram. E ao tentar apoiar a mão no criado-mudo ao lado da sua cama, ele leva um tombo. Terry então desperta assustado, e tenta achar o interruptor da luz do seu quarto. E ao tentar apoiar a mão na parede, perde o equilíbrio de novo e cai. Na segunda queda somente que ele reparou. Ele não estava no seu quarto. Não estava na sua casa. Então ele viu que na verdade, havia caído de um banco acolchoado. E o lugar onde estava, parecia ser uma lanchonete, restaurante, algo desse tipo. Havia algo de diferente naquilo tudo: estava de dia. Mas não havia uma forte iluminação, pois havia uma neblina muito forte no ambiente que não permitia que o sol iluminasse bem o lugar. E, no entanto, havia algo igual à antes: não se via ninguém. Mais uma vez, tudo estava deserto e Terry, ainda no chão, tentava entender onde estava. Como fora parar ali. Para onde as pessoas foram. Tentava entender um pouco daquela loucura toda. Então, ele se levanta e resolve dar uma olhada no lugar. Parecia ser um lugar bem conservado. Estava tudo bem arrumado e guardado, então não dava a impressão que o lugar tivesse sido abandonado ou algo assim. Mas não havia ninguém mesmo no lugar, Terry podia notar.
A única coisa diferente que Terry viu ali, era um pedaço de papel em cima de uma das mesas do lugar. Terry se aproximou para ver do que se tratava, e viu escrito: “I Will Love you, forever and ever”. Terry na mesma hora já se lembrou de onde era esse bilhete.


Terry e Laura tinham uma brincadeira, copiada de um filme que ambos adoravam, de ficar escrevendo em bilhetinhos, recadinhos apaixonados assim. De repente, Terry ouve um choro no fundo da lanchonete. Era um choro bem baixo e com certeza, de mulher. Terry se vira e vê de onde vem o choro. Numa das últimas mesinhas mais longes dentro da lanchonete, uma garota estava sentada e debruçada em uma mesa. Em qualquer lugar do mundo, Terry reconheceria aquela cor e corte de cabelo, assim como o corpo daquela mulher, mesmo que estivesse toda cheia de blusas.

Terry caminhou lentamente, não acreditando no que estava vendo. Não acreditando que aquilo estivesse acontecendo. Sabia que só podia ser mais uma fantasia da sua cabeça, mas mesmo assim, ele não acreditava no que estava vendo.

Então ele chega até a mesa onde a garota estava, e se senta. Terry não sabia o que fazer. Mal conseguia mexer os braços ou pensar em alguma coisa para falar.

– Laura...

– Não, Terry. – Laura interrompe – Não...

– Laura, por favor...

– Não, Terry! Chega disso, por favor. Deixe-me em paz. Deixe-me ir.

– Mas Laura... Ir para onde? Onde nós estamos? – Terry pára para pensar que estava falando com Laura, sua noiva que ele viu morrer na sua frente – Como posso estar falando com você? Como isso pode ser pos...

– Terry, por favor, vá embora. Se tiver algo que eu possa fazer por você, me peça, me diga, faça algo... Mas por favor, me deixe em paz.

Aquilo para Terry foi como uma facada no coração. Mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, ouvir aquilo de um suposto espírito da mulher que ele tanto ama... Pedindo para ele ir embora daquele jeito. E Laura continua chorando tão sofrida que Terry só queria fazer um carinho nela. Consolar ela. Dar um pouco de paz para sua mulher, naquele lugar onde parecia que ele podia estar em contato com sua falecida noiva. Então, um barulho de trás do balcão da lanchonete chama a atenção de Terry. Um barulho muito alto que o assustou. Rapidamente ele se vira para olhar na direção do barulho, mas nada vê. E quando ele se volta para a mesa, Laura não estava mais lá. Havia sumido. E acima da mesa, havia aquele mesmo bilhete que ele havia visto na outra. “I Will Love you, forever and ever”.

Terry estava sozinho de novo. E já não sabia mais se as visões sobre Laura eram coisa da sua cabeça ou se ela realmente estava tentando se comunicar com ele, ou algo do tipo.

– A única coisa que eu quero... É você de volta pra mim... – disse Terry.

Ele pega o bilhete, sai de perto da mesa e guarda aquele bilhete no seu bolso. Terry foi olhar atrás do balcão da lanchonete, ver o que era aquele barulho e encontra uma mochila aberta. Ao passar pro outro lado do balcão, Terry abre a mochila e vasculha o que há dentro dela. Encontra uma pequena lanterna sem pilha. Ele a leva consigo, e então resolve sair da lanchonete em que estava mas a porta estava trancada. E não havia janelas que ele pudesse abrir para sair dali. Sem pensar muito numa solução, já tomando de uma certa fobia de ficar preso ali, Terry pega uma cadeira da lanchonete e joga contra as paredes de vidro da entrada da lanchonete. Mas nada acontece e elas continuam inteiras. Terry então resolve jogar a cadeira de novo, mas dessa vez com muito mais força. Ele joga, esperando que desta vez o vidro se quebrasse. Mas nada acontece novamente. Então ele percebe que não conseguiria sair dali por esses meios. Então ele resolve ir fuçar na cozinha da lanchonete, a fim de achar alguma porta ou algum meio de sair daquele lugar. Ao parar na entrada da cozinha, Terry olha para trás, pro lugar onde ele “conversou” com Laura. Ele não queria dar as costas pro lugar onde ele conversou com ela. Também não entendia como havia ido parar dentro daquela lanchonete. A última coisa que se lembrava, era de ter caído naquele penhasco e da primeira batida do carro nas rochas. E de repente, havia acordado ali. Sem machucados ou ossos quebrados. Só os ferimentos que já carregava com ele anteriormente. Mas era algo que ele já não conseguia dar muita atenção. Seu maior desejo era sair daquele lugar, não sabia direito o porquê.

Ao entrar na cozinha, vê todas as coisas em ordem. As facas penduradas na parede, uma mesa de preparar os alimentos muito limpa, tudo em perfeito estado. E ao fundo, consegue ver uma porta de ferro. Terry vai até ela e dá uma analisada, supondo que ela também estaria trancada. Mas não estava. Ao girar a maçaneta, a porta se abriu e Terry poderia passar tranquilamente. E mesmo sem entender ao certo o que estava acontecendo, sabia que não deveria estar ali. A qualquer momento, o dono do lugar poderia chegar ou alguém poderia vê-lo ali dentro e chamar a polícia. Então, logo ele saiu da cozinha, chegando aos fundos da lanchonete.

Notas finais
"Espero que ninguém tenha notado minha presença aqui. Nem sei como vim parar neste lugar. E agora... como vou voltar ou sair daqui, sem meu carro?" Obs.: Uma pessoa me disse que essa história é uma releitura de Silent Hill 2. Gostaria apenas de explicar que esta história é bastante diferente do que se passa em Silent Hill 2 ou em qualquer outro. Vocês logo irão notar.