Terra, desligando
6 Zona de perigo - dia 13
Ayumi e mais uma garçonete nativa de Amophallus, Gionne, praticamente carregaram George até a pensão. O homem acabou passando um pouco dos limites na competição. Depois de toda a brincadeira, inventou de tomar cerveja, onde passou dos limites mais uma vez. Além de indigestão, George estava um tanto bêbado. Desabou na cama do quarto naquele inicio de noite. Apesar do trabalho que deu, Ayumi ficou orgulhosa de seu novo amigo. Podia estar bêbado e passando mal, mas pelo menos tinha ouvido Ayumi e seguido seu conselho de se divertir. A bióloga ainda voltou para a lanchonete para continuar atendendo clientes, embora a gerente a tivesse dispensado. Ficou até altas horas trabalhando, depois ajudou a limpar e organizar tudo. George conseguiu ficar em segundo lugar na competição, e talvez o prêmio fosse suficiente para tirá-los dali. As duas da manhã, Ayumi voltava sozinha para a pensão. Em uma mão, a medalha de George e o envelope com o prêmio. Na outra mão, o par de sandálias emprestadas de Gionne. Ao chegar em seu pequeno quarto, tratou de tomar um banho. Deixou a recompensa de George em cima do criado-mudo e dormiu em segundos. Em outras circunstancias poderia ter escondido o dinheiro, mas havia uma confiança entre ambos ali. Ayumi sabia que George não a roubaria de forma alguma. Havia harmonia e compreensão, simpatia e confiança em abundancia naquela amizade. Ayumi colocou a cabeça no travesseiro, cansada, com sono, mas muito feliz. Agora que estava aproveitando a vida como queria, começava a aceitar a ideia do fim do planeta Terra, começava a sentir que seus últimos dias de vida estavam valendo a pena.
Ayumi Kiyota sentiu um incomodo em seu ombro. Acordou de imediato. Era George a acordando.
– Precisamos ir – ele disse. – Vi que o dinheiro que ganhei com O Rei das Flores é bem medíocre, pensei que ia ganhar mais. O dinheiro é tão pouco que não vai poder pagar nossas passagens para fora da cidade. Mas tem pescador que pode nos levar de barco até uma cidade maior de Amophallus e que vai nos deixar mais perto de Carrietta. Mas tem que ser agora, ele já está de saída.
Pagaram os dias que ficaram hospedados na pensão, Ayumi despediu-se de Gionne, mas antes de partirem, Gionne deu uma mochila de presente para a oriental contendo coisas para sobrevivência básica. Ayumi contou um resumo de suas aventuras com George, mas pulou a parte onde a Terra estava acabando. Ayumi como parte do grupo do projeto Nascente, tinha um contrato de sigilo. Já havia violado a conduta confessando tal coisa para George.
Encontraram o pescador na beira de um rio que ficava atrás do jardim botânico de Amophallus. Usaram o dinheiro para pagar o homem, e sem cerimônias, subiram no barco a motor e partiram para a próxima cidade: Aquarius. O vento feroz esvoaçava os cabelos soltos de Ayumi. O rio era grande e cercado por grandes árvores, deixando a moça perdida na paisagem. Tinha um olhar sereno, vendo folhas verdes voando pelo ar, balançando nos galhos, as leves ondas na água... Olhou para George que estava igualmente absorto em seus pensamentos. Lá no fundo, começava a gostar da ideia de Ayumi, de aproveitar a vida, e a cada segundo, começava a acreditar no fim do planeta Terra. Estava deixando o brilho do Sol entrar em seu coração.
Tanto Ayumi Kiyota quanto George Norman assustaram-se com a súbita mudança de cenário. O pescador manteve-se como uma estátua. Havia duas máquinas gigantes, uma de cada lado do rio.
– O que é isso? – perguntou George.
– São máquinas usadas para filtrar a água e provavelmente abastecer alguma fábrica aqui por perto. Não é a toa que este planeta está morrendo.
Ayumi ficava muito triste ao ver tais atitudes da raça humana e seus egoísmos que pioravam a cada dia. Ficava chateada ao ver as noticias dizendo sobre a cidade Lumus no planeta Macronesia como se fosse a salvação de todos, e não de alguns. A mídia escondia muitas coisas, como os altos níveis de poluição e escassez de água. George viu a tristeza estampada na face da moça.
– É melhor não pensar nessas coisas – ele disse. – Vamos só aproveitar a vida, como você disse. Não é?
Ayumi olhou para George e lhe deu um sorriso como agradecimento. Finalmente o mendigo começava a demonstrar sutilmente algum tipo de sentimento além de grosserias. Subitamente o barco parou, e já era fim de tarde. Estavam em um píer, e mais longe podiam ver um cais onde grandes navios embarcavam e despachavam produtos. Assim que pisaram no píer o pescador disse:
– Boa sorte na rebelião?
– Rebelião? Que rebelião? – perguntou Ayumi.
– Que vai acontecer amanhã – respondeu o sujeito. – Muitas pessoas querem derrubar uma rede de farmácias da cidade, pois parece que estão alterando alguns compostos, estão vendo a altos preços, algo assim. Não me importo com essas coisas. Enfim, tenho que voltar agora, já está anoitecendo.
– Acho que seria melhor voltarmos – sugeriu Ayumi. – As rebeliões atualmente são bem violentas. E as autoridades não se importam com quem faz parte do ato ou não. Eles simplesmente atiram
– Espero que tenham dinheiro para pagar a passagem de volta – intrometeu-se o pescador.
– Ah vai se ferrar – disse George.
O barco acabou indo embora. Ayumi e George ficaram lado a lado. A leve brisa fria da noite balançou os cabelos da moça. Olharam os enormes prédios da cidade Aquarius e imaginaram a bagunça que a cidade iria virar no dia seguinte. Mas ficariam juntos até o fim, e tentariam sair dali o mais rápido possível para evitar todo o caos que se iniciaria.
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