Terra Morta

3 Capítulo 3


"A morte parece menos terrível quando se está cansado."- Simone de Beauvoir

O cheiro pútrido de morte me atingiu em cheio e tive que me afastar.

Tapei nariz e boca com as mãos e fechei os olhos que começavam a lacrimejar. Olhei por cima do ombro, mas Andrew e Joe continuavam olhando a massa escura de criaturas. Preparei-me para entrar na estação, contando até dez e respirando ar puro o que parecia ser uma última vez.

Virei-me para Angel e pedi que ela ficasse alí fora.

Dei dois passos e olhei a minha volta. A única iluminação disponível era a luz do sol, que entrava pela porta aberta e pelas frestas das tábuas nas janelas. O lugar havia sido transformado em um depósito, com prateleiras de ferro cheias de comida enlatada. Tinha muito lixo espalhado pelo chão, incluindo latas, jornal velho e roupas. O cheiro horroroso vinha de um canto a esquerda, onde pude distinguir um vulto amorfo.

Eu sabia o que era o vulto, e não tinha a menor vontade de conferir se estava certa.

Dei um pulo quando ouvi um guincho alto e um rato magro demais passou pelos meus pés. Poderia ser comida em potencial, mas era nojento e doentio comer um rato, ainda mais de origem desconhecida. Observei o rato correr até as sombras onde o perdi de vista.

Estava indo analisar melhor o local, quando o animal guinchou outra vez, porém mais alto e de puro terror. Ouvi o som de algo sendo mastigado vorazmente e gemidos terríveis, como se alguém a beira da morte estivesse sendo torturado. Algo se levantou, gemendo mais alto com o esforço, mesmo que não precisasse fazer esforço algum.

Só tive tempo de pensar: “Merda”.

A criatura saiu das sombras e chegou à luz. Só tinha visto duas delas durante minha vida, e nunca me acostumara com o cheiro e os sons. Elas tanto gemiam quanto gritavam, como se aclamassem por suas vidas de volta.

Ele era tão ruim quanto um dos que eu vira. Não tinha um dos braços, que parecia ter sido arrancado por algum tipo de dentição, com pedaços de pele rasgada e ossos quebrados, pendurados por tendões. A mandíbula caia torta do rosto, sustentada por tiras de pele embebidas em sangue seco. As costelas eram visíveis através do que um dia fora uma camiseta. Ele – sem duvida era um homem – arrastava a perna torcida em um ângulo estranho.

Ele fez um som engasgado com a garganta e esticou o pescoço, os olhos brancos e opacos esbugalhados para fora das órbitas.

Fiquei paralisada por um momento antes de tentar me afastar, porém meu pé ficou preso em um amontoado de cabos. Meu tornozelo estalou quando cai no chão, sobre minha mochila. O desespero de sair dali não me deixava pensar direito, e quanto mais puxava meu pé tentando solta-lo, mais ele ficava preso.

Pensei em gritar por ajuda, mas isso atrairia todos que estivessem próximos da estação.

Angel latia assustada. Eu podia ouvir suas unhas raspando na madeira da estação.

Olhei a minha volta, procurando algo para me defender, quando meus olhos encontraram o vulto, que se mexia e gemia baixinho.

Havia duas criaturas alí comigo.

Um grito ficou preso na minha garganta. A primeira coisa já estava se aproximando, e a segunda começava a se arrastar em minha direção, mesmo que eu pudesse ver apenas algo sem forma.

Já estava quase berrando por Joe e Andrew, quando um barulho altíssimo soou atrás de mim, meus ouvidos zumbiram, e a cabeça da criatura explodiu. Pedaços de carne podre e sangue estragado voaram pelo local, respingando meu rosto com gotículas de sangue.

Fiquei encarando a coisa, agora sem cabeça, cair sobre um amontoado de lixo e não se mexer mais.

Meu corpo tremia quando senti alguém passar os braços por baixo dos meus e me erguer, fazendo meu tornozelo estalar novamente. Mãos fortes e calejadas me viraram e fiquei cara a cara com Joe.

–No que estava pensando?! – murmurou com a voz seca e gutural, e isso significava que estava realmente uma fera – Você poderia estar morta!

Abri a boca, mas as palavras não saiam. Fiquei olhando para ele tentando dizer alguma coisa, qualquer coisa. Impossível.

Joe me puxou e me abraçou forte, quase me esmagando.

–Pelo amor de Deus, nunca mais faça isso.

Franzi a testa e me afastei dele, o encarando quase que indignada.

–Se Deus existisse, isso nem mesmo teria acontecido – resmunguei. Andrew olhou para chão e então para dentro da estação. Ele ergueu a espingarda e deu um tiro, acertando algo carnudo.

Continuei encarando Joe, até que ele franziu o cenho, acenou para Andrew com a cabeça e recomeçou a caminhada deixando nós dois para trás.

E isso significava que o assunto estava encerrado.