Terra Morta

4 Capítulo 4


”Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida. ” — Gustave Flaubert

Meus pés raspavam na rua limpa e áspera, indo da sarjeta e se esticando até onde eu alcançava.

Angel estava deitada encolhida ao meu lado roncando suavemente, quando o som de vidro se quebrando veio da casa vizinha.

Ergui a cabeça, ouvindo a vizinha gritar xingamentos e quebrar mais coisas. Ultimamente, os vizinhos estavam estranhos demais. Não saiam de casa, não mandavam mais seus filhos para a escola e mantinham sempre as janelas e portas fechadas, como se, de algum modo, rejeitassem a luz do sol ou a interação com os outros seres humanos.

A porta atrás de mim se abriu e minha mãe saiu para a calçada. Ela era uma mulher alta e bonita, de cabelo loiro e liso e olhos verdes, iguais aos meus. Ela estava usando um vestido longo e branco-rosado, que realçava o cabelo claro.

–Mikaela, é melhor você vir para dentro – ela disse olhando nervosa para a casa ao lado. As cortinas de uma janela grande se moveram suavemente.

Franzi a testa e a encarei desse jeito. Mais cedo, eu havia perguntado se podia esperar pelo meu tio ali, sentada na calçada, e ela tinha dito que sim. E agora ela estava me mandando entrar?

–Por quê? – exclamei indignada. Angel se levantou e correu para os fundos da casa.

–Porque estou mandando – ela disse sem rodeios. Ela se aproximou e me pegou pelo braço, me colocando em pé. Puxei o braço do aperto dela, me afastando e entrando na casa de cabeça baixa.

Nunca gostei que minha mãe me tocasse, já que ela não tinha muito tempo para mim e sempre preferiu o Devan. Eu gostava muito mais do meu pai.

–Mikaela – minha mãe chamou, mas não dei ouvidos. Entrei em meu quarto e tranquei a porta.

Peguei meu coelho de pelúcia de cima da cômoda e sentei-me na cama, me agarrando ao coelho. Meu plano era ficar ali até que meu pai ou tio Joe chegasse. Ouvi batidas à porta e apertei mais o bicho.

–Mikaela! – a voz da minha mãe estava mais insistente. Ela bateu outra vez – Abra essa porta, agora!

–Eu quero o papai! – respondi – O que esta acontecendo?!

Minha mãe não respondeu. Ouvi os passos dela se afastando de meu quarto. Encostei o ouvido à porta e esperei.

Minha mão pegou o telefone e discou. Depois de alguns segundos ela disse:

–Tom, você vai demorar?... Ela quer saber sobre os vizinhos de novo, e não posso... Não, é claro que não... Ele ligou mais cedo, o carro emperrou... É, vão chegar só à noite... – a pausa dessa vez foi mais longa – Ok... Eu também te amo.

E ela desligou, o bipe baixinho indicando isso.

Ela bateu na porta de novo. Eu abri.

Minha mãe se ajoelhou e pegou meus pulsos frouxamente.

–O que o papai disse? – perguntei ansiosa. Minha mãe odiava que eu ficasse ouvindo as conversas dela por trás da porta, mas dessa vez ela nem pareceu ligar.

–Ele só vai chegar mais tarde – ela colocou meu cabelo atrás da orelha e continuou: — O chefe dele precisa de ajuda.

O chefe do meu pai era um cara importante, pelo que eu entendia. Quer dizer, meu pai trabalhava para o governo, no que eu não sabia. Então o chefe dele podia ser um general do exército, um cientista inteligentíssimo ou até mesmo o próprio presidente. Mas, pelo que Devan me disse antes de ir “lutar pela pátria”, o presidente era chefe de praticamente o país inteiro. Eu não gostava quando ele dava uma de sabichão.

–Você não está com fome? – perguntou minha mãe me tirando de meu devaneio – Passou a manha toda lá fora.

Fiz que sim com a cabeça. Minha barriga havia roncado umas cinquenta vezes. Parecia uma baleia pedindo socorro.

Deixei meu coelho em cima da cama e fui até a cozinha com minha mãe. Ela me ajudou a sentar em um banco alto em frente ao balcão de pedra preta e, enquanto ela pegava geleia e pasta de amendoim na geladeira, olhei pelas portas duplas de vidro.

Por aquela porta, eu podia ver a casa do vizinho. A janela grande com as cortinas estava aberta, e os panos pesados balançavam com o vento.

Quando as cortinas se abriram, pude ver a vizinha, parada em frente à janela. Faltavam vários tufos de seu cabelo, e seu rosto estava arranhado como se ela mesma tivesse tacado as unhas, como um animal. Seu olhar era de um louco, ensandecido.

Fiquei encarando a mulher, com os olhos vermelhos, o rosto magro e sangrento até que, como em um show, as cortinas se fecharam.