Terra Morta

7 Capítulo 7


"Enfrentei o terror da morte e, transpondo-o, encontrei a flor da vida." — Victor Hugo

Felizmente, naquela noite não tive pesadelos.

Normalmente eles envolviam morte, o que já era de se esperar. Eu havia dormido na árvore, onde Joe e Andrew haviam subido também quando as criaturas começaram a chegar. Agora, já de manhã, eu estava enchendo as garrafas d’água enquanto os “homens” foram procurar algum animal.

Angel rondava um pequeno pedaço da praia da lagoa, parando para cheirar as garrafas cheias e geladas. Depois de algumas horas esperando, observando através da névoa opaca da manhã, ouvi movimento vindo do barranco e os dois escorregaram por ele, trazendo uma ave grande.

–O que é isso? – perguntei baixinho quando eles amarraram o animal numa corda para pendura-lo na árvore, longe do alcance das criaturas.

–Algum tipo de peru – disse Andrew lavando as mãos sujas de terra na lagoa.

–Tem um ninho do outro lado da floresta – Joe começou a guardar as garrafas nas mochilas, dividindo-as igualmente – Vamos passar por lá quando continuarmos.

Levantei-me e examinei a ave. Tinha metade do tamanho de Angel e parecia ter muita gordura. Os olhos abertos encaravam o céu e em algumas partes as penas acastanhadas haviam sido arrancadas, deixando gotas de sangue. Um lado da cabeça estava amassado, como se tivesse sido atingida por algo pesado.

–Quando cozinharmos vai atrair as coisas – murmurei, tentando pensar em como iriamos comer aquela ave sem que nós fossemos comidos.

–Se jogarmos as tripas bem longe, pode ser que elas vão atrás – Andrew limpava uma faca de caça, pronto para abrir a barriga do animal. Torci o nariz ao ouvir a palavra “tripas”. Eu nunca me dei bem com nada disso.

–Eu vou vomitar – resmunguei sentindo enjoo.

–Se você fizer isso, te jogo para as coisas.

–Não se eu te jogar antes – falei empurrando ele. Andrew, com um sorriso maligno, me pegou no coloco e foi até a lagoa. Comecei a me espernear, hesitando em chamar por Joe já que isso faria muito barulho. Mas ele simplesmente olhou por sobre o ombro e ergueu as sobrancelhas.

–Andy, não faz isso – murmurei no ouvido dele enquanto ele se preparava para me jogar na água fria.

–Um...

–Andy!

–Dois... – ele contava me balançando com os braços em volta da minha cintura. Meus pés pairavam a quase um metro do chão, já que Andrew era muito mais alto que eu.

–Por favor, eu retiro o que disse!

–Três – e ele me jogou. Enquanto eu me afastava segurei-o pelo pescoço e o puxei para a lagoa comigo, caindo com força. Afundamos por alguns segundos, a água estava impossivelmente gelada, até que Andrew nadou rapidamente para a superfície me levando com ele.

Respirei com força, enchendo meus pulmões com ar. Cuspi água, agarrada ao pescoço de Andrew. Ele colocou a mão grande e forte na minha cabeça e me empurrou debaixo da água. Bati os braços e pernas com força e acabei chutando-o entre as pernas. Andrew me soltou e coloquei a cabeça para fora, rindo ao ver sua cara vermelha feito um tomate e os olhos arregalados e lacrimejando de dor.

–Vocês vêm? – perguntou Joe da praia. O peru estava amarrado a sua mochila, dentro de uma sacola azul que havíamos pegado em uma casa dois meses atrás – Ou vão ficar brincando?

Empurrei Andrew e nadei até a margem, deixando-o para trás. Sentei-me na terra molhada e peguei uma camiseta em minha mochila, tirando a que estava usando. Eu não me importava de ficar seminua na frente deles. Estávamos sobrevivendo juntos há onze anos e eu também não tinha muito o que mostrar.

Levantei-me, agora com roupas secas, e coloquei minha mochila nas costas. Andrew também pegou a sua, mas nem se importou em trocar de roupa. Subi o barranco com a ajuda de Joe e encontrei Angel me esperando. Ela ainda estava muito magra, mas parecia bem mais saudável. Retomamos a caminhada, dando a volta no barranco que, olhando bem, parecia uma cratera gigantesca. Do outro lado da lagoa, uma criatura estava recostada a uma árvore, de costas para nós. Ela cheirava como todas as outras: a carne estragada e sangue envelhecido. Sua nuca tinha a lâmina de um machado pequeno fincada ali e as pernas pareciam queimadas.

–É melhor irmos embora – murmurou Andrew me puxando pelo braço. Nós quatro estávamos nos afastando, quando um gemido veio de trás de nós. Os pelos da minha nuca se arrepiaram quando a criatura com o machado se virou. Ele, um homem, não tinha um dos olhos e o que restara estava envolvido por uma película branca e gosmenta. Atrás, uma moça com alguns tufos de cabelo preto ressecado se aproximava lentamente e mancando. Ela usava uma camisola rasgada e ensanguentada. Por um buraco na frente, pude ver um rasgo em sua barriga, os órgãos podres e retorcidos pendurados para fora.

Ao lado, o som de galhos se quebrando e o tronco de um homem careca e enrugado, a pele mais nojenta que a dos outras, veio se arrastando até nós, usando as mãos para se agarrar em raízes e pedras.

Meu estômago se retorceu e minhas pernas tremeram, bambas. Mais gemidos e gritos vinham de todos os lados.

Estávamos cercados.