Terra Morta

8 Capítulo 8


"A morte de um ente querido é uma coisa estranha.
É como subir a escada para o seu quarto no escuro, e achar que tem mais um degrau…quando não tem.
O seu pé afunda no ar, e acontece um grande momento de grande susto". — Desventuras em Série

Como eu já disse, nunca soube quem era o chefe do meu pai, e com tantos homens em minha casa ficava difícil dar um palpite.

Todos usavam ou ternos ou uniformes camuflados e haviam chegado naquela manhã. Eu os observava do meu quarto enquanto eles rondavam a casa e tiravam fotos da casa vizinha, fazendo anotações. Minha mãe andava por eles, o olhar amedrontado, querendo saber se precisavam de alguma coisa. Meu pai estava em frente ao seu escritório conversando com homens cheios de medalhas, que pareciam ser de grande estima.

Depois de algumas horas os observando, um loiro de terno veio falar comigo. Era alto e magro, o cabelo claro perfeitamente penteado com gel e, apesar das feições sérias, ele parecia ser gentil.

–Mikaela, né? – ele disse sorrindo, se ajoelhando de frente para mim – Seu pai nos falou muito bem de você.

Tentei sorrir, mas o medo me impedia. O que meu pai havia dito a eles, e porque aquele homem foi falar comigo? Abracei o coelho mais forte.

–O que é isso? – perguntei, a voz trêmula.

O loiro abriu a boca, mas parecia não saber como me explicaria aquilo.

–Olha, Mike... Posso te chamar de Mike? – quando fiz que sim com a cabeça ele continuou: — Bem, nós estamos fazendo um tipo de... Inspeção. Agora eu preciso que você me diga o que viu ontem. Cada detalhe.

Franzi a testa e encarei aqueles olhos castanhos, cor de café, mas não falei nada. Ele suspirou exasperado.

–Mikaela, por favor...

–Você é do governo? – foi a primeira coisa que me veio à cabeça.

Ele juntou as sobrancelhas, contrariado, e olhou de lado para meu pai, fazendo uma pergunta silenciosa com os olhos. Meu pai simplesmente acenou com a cabeça como se dissesse que não havia alternativa senão falar.

–Sou.

–Quem é seu chefe?

Ele sorriu de lado, admirando minha curiosidade de criança.

–Seu pai.

Se meu pai era o chefe dele, então...

–Mike? – o loiro estalou os dedos em frente ao meu rosto e dei um pulo – O que você viu ontem. Precisa me dizer tudo,

Franzi a testa me afastando um passo. Não estava gostando nem um pouco da intromissão dele.

Ia começar a falar quando uma voz conhecida veio da porta da frente.

–Que merda é essa, Tom?! – gritou meu tio Joe puxando o braço para longe do aperto de um guarda.

Meu tio era muito parecido com o irmão, meu pai, exceto pelo cabelo ser preto e ter barba rala. Ele também era ligeiramente mais musculoso já que trabalhava como lenhador perto da fronteira entre Estados Unidos e Canadá, onde especificamente eu não sabia.

Dei a volta no homem loiro que viera me interrogar e corri para o meu tio que, ao me ver, se agachou e sorriu, várias rugas aparecendo no canto dos olhos exatamente como acontecia com meu pai.

–O que é tudo isso? – ele perguntou em meu ouvido quando o abracei.

–Eu também não sei – respondi aos sussurros. Por cima do ombro do meu tio, pude ver Andrew.

Ele era dois anos mais velho que eu e adorava me torturar, puxando meu cabelo ou me xingando. Às vezes, para inovar a amolação, ele tirava as asas das borboletas que ficavam no jardim e as colocava debaixo do meu travesseiro, e quando eu ia gritando contar para os meus pais ele limpava a cena do crime e jogava tudo pela janela.

Minha mãe dizia que eu estava sonhando ou incriminando Andrew por nada, já meu pai acreditava, é claro. Ele me disse uma vez que meu primo fazia aquelas coisas porque era perturbado, já que não tinha mais a mãe. Ela havia deixado ele e meu tio cinco anos antes.

Quando Andrew não estava me enchendo o saco ele gostava de queimar insetos na calçada e tirar suas asas, esmagando o pequeno corpo logo depois.

–Mike, Andy – disse meu pai atrás de mim. Eu não havia percebido ele chegando – Porque vocês não vão para o quarto?

–Mas tio Tom... – começou Andrew, a testa franzida escurecendo os olhos azuis.

–Andrew – meu tio Joe lhe lançou um único olhar, dizendo que ficasse quieto e obedecesse. Andrew ergueu as sobrancelhas para mim e dei de ombros.

De cabeça baixa fomos cada um para o seu quarto – Andrew para o quarto de hóspedes – e passamos o dia todo lá.

Ninguém mais quis saber nada sobre o que eu vi no dia anterior.

–Mike – a voz era quase um sussurro sem nexo. Senti alguém me empurrando e agarrei meu travesseiro, me encolhendo sob os cobertores – Mikaela! – dessa vez foi um puxão de cabelo.

Sentei-me no colchão, um grito preso em minha garganta quando uma mão pequena cobriu minha boca, impedindo que eu berrasse de dor. Encarei com raiva a figura pálida que era Andrew e esfreguei meu couro cabeludo que latejava e estava quente por causa do puxão.

Empurrei-o com força.

–O que foi? – exclamei baixinho, meu rosto ardendo de raiva.

–Vem cá, você precisa escutar isso – ele murmurou me puxando pela manga do pijama. Peguei meu coelho de cima do travesseiro e coloquei os pés no chão frio, um arrepio correndo pela minha espinha.

Segui Andrew enquanto esfregava meus olhos, meu coelho arrastando no chão sendo agarrado pela orelha.

Fomos até o escritório de meu pai. A luz escapava por debaixo da porta e vozes baixas vinham de lá de dentro.

Andrew encostou o ouvido à porta e fez um sinal para que eu fizesse o mesmo. Hesitando, encostei-me a porta e escutei o que se passava lá dentro.

–As portas estavam bloqueadas – disse uma voz masculina grave – Não havia jeito de entrar senão pelas janelas.

–E mesmo assim vocês não entraram – a voz era do meu pai. Ele parecia realmente com raiva.

–Era arriscado demais, Thomas. Podíamos ter sido infectados...

–Chamei vocês aqui para saber por que eles têm a célula...

–Era o único jeito de a testarmos – disse outro homem, cheio de autoridade.

–Vocês já estavam fazendo isso em animais – meu pai trincou os dentes, se contendo para não berrar – Por que...

–As pessoas fazem tudo por dinheiro, Thomas. Milhões de dólares convencem alguém a qualquer coisa. Como a célula não causava efeito algum em animais, injetamos algumas em seu vizinho e... – o homem fez uma pausa. Parecia ter nojo de si mesmo – Bem, ele voltou à vida e escapou do laboratório. Atacou a mulher e então tivemos de dar um fim nele. Pelo menos já sabemos como a célula funciona.

–Ela se espalhou – murmurou meu pai, incrédulo – Infectou a mulher e ela infectou os filhos. Você é doente!?

–A célula só é ativada por reprodução, Thomas. Desde que não sejamos mordidos ou mortos, ela não vai...

–Sejamos? – de repente, todos na sala prenderam a respiração, surpresos.

–Ela está em todos nós. A cápsula que a continha se quebrou com o ataque, está se espalhando por todos os Estados Unidos. Pelos radares detectamos uma em cada um nessa casa. Já nos seus vizinhos...

Então algo duro bateu contra a parede ao lado da porta. Cobri a boca contendo uma exclamação de surpresa quando carne atingiu carne. Meu pai havia dado um soco no homem que falara antes. E o que era essa célula?

–Você infectou minha família!

–Thomas! – a voz era do meu tio. Ele parecia estar segurando o irmão.

–Vou matar você, seu filho da... – meu pai não completou a frase. Um grito irrompeu em frente a nossa casa, assim como o barulho de coisas se quebrando.

Mais gritos e junto a eles gemidos de dor. O cheiro fraco de algo podre atingiu minhas narinas.

A porta do escritório se abriu repentinamente e eu e Andrew caímos com o susto.

Meu pai apareceu ali, os olhos arregalados e o rosto vermelho. Ele se abaixou e me pegou no colo, correndo até o próprio quarto. Por cima de seu ombro pude ver meu tio pegando Andrew enquanto os homens saiam do escritório. Havia muitos, todos de uniforme camuflado. Um deles, um homem musculoso de cabelo grisalho tinha o olho roxo.

No quarto dos meus pais, minha mãe estava sentada na cama, assustada e vestida com roupas normais. Meu pai me passou para ela e pegou um pé de cabra debaixo da cama. Ele o usou para puxar uma tábua do piso e de lá pude ver um rifle empoeirado, junto com caixas de munição.

Fiquei olhando boquiaberta enquanto meu pai guardava as caixas numa mochila e carregava a arma. Havia movimento lá fora, de portas batendo e homens gritando. Também parecia haver mulheres clamando por socorro.

Meu tio apareceu à porta com um revólver, segurando firme a mão de Andrew.

–Para o carro, rápido! – gritou meu pai com o rifle em riste.

Minha mãe me abraçou com força e correu para fora do quarto, junto com meu pai e tio. Não havia mais homens dentro de casa, e o som de tiros e berros preenchia tudo.

Meu tio correu para os fundos da casa com Andrew e quando voltaram, Andrew trazia Angel no colo, assustada e confusa.

Saímos de casa e soltei um berro quando meu pai atirou na cabeça de um homem, pedaços de carne voando para todos os lados. Lá fora, carros virados pegavam fogo, assim como casas e pessoas que jaziam mortas no chão, os membros arrancados e os órgãos estirados para fora do corpo. Alguns tinham espasmos e apesar de deverem estar mortos eles se arrastavam e gemiam, a pele cheia de manchas e os olhos cobertos por uma película branca. Tudo tinha cheiro de morte.

Avançávamos lentamente entre as pessoas correndo apavoradas, sangrando e algumas com partes dos membros faltando. Homens do exército atiravam contra elas.

Do outro lado da rua havia um carro preto e grande do governo. O homem loiro que falara comigo antes estava em frente ao carro, atirando em tudo o que se aproximasse.

Eu e Andrew chorávamos desesperados enquanto éramos colocados no carro junto com Angel, que latia e tremia excessivamente. Minha mãe também chorava, sentada ao meu lado e abraçando a mim e Andrew. Eu havia conseguido manter meu coelho comigo em meio a tudo aquilo.

Lá fora, o homem loiro e meu pai detinham as coisas mortas e as pessoas enquanto meu tio ligava o carro. O motor roncou alto e o loiro entrou. Meu pai se preparava para entrar, a mão na porta do carro, quando ele caiu de costas.

Gritei e comecei a socar o vidro, dizendo que fossem ajudar meu pai. Uma das criaturas mordia seu ombro, sangue espirrando para todos os lados e mais coisas se aproximavam lentamente, gemendo e gritando. A arma dele tinha escorregado para longe.

Meu pai tentava se livrar da coisa, fazendo gestos para que fossemos embora. Ele gritava de dor, sendo puxado para a rua. Continuei gritando, as lágrimas quentes molhando meu rosto. O carro começou a andar e pelo vidro de trás pude ver meu pai se afastando, sendo atacado.

Ele me olhou nos olhos e mesmo com a visão embaçada vi os lábios dele se moverem em um “Eu amo você”.

Essa foi minha última visão sua antes que as criaturas se juntassem em uma massa de morte a sua volta.