Terra Morta
5 Capítulo 5
“Não é da morte que temos medo, mas de pensar nela” — Sêneca
–Você não devia ter dito aquilo – cochichou Andrew no meu ouvido.
Simplesmente virei à cabeça e o ignorei. Meu tornozelo doía, torcido, e minha barriga roncava vorazmente. Joe andava alguns metros a nossa frente, checando o caminho. Atrás de nós, cinco criaturas se arrastavam lentamente em nossa direção. Andrew olhava para trás toda hora, mas eu não dava a mínima atenção.
–Mike – Andrew chamou e novamente fingi que ninguém estava falando comigo – Mikaela! – ele agarrou meu braço e me virou de frente para ele. Arregalei os olhos, espantada com a mudança repentina no tom de voz dele. Paramos no meio da estrada, um encarando o outro – Você pode prestar atenção?
Puxei meu braço com violência e meu ombro estalou. Angel ergueu as orelhas atentamente olhando para as poucas criaturas que se aproximavam mais e mais. Dei as costas para Andrew e continuei a caminhada com pressa, a cadela em meu encalço.
Andrew bufou e apertou o passo para me acompanhar, resmungando o quanto eu era idiota e sem educação. Uma adolescente em seus piores momentos.
Eu não tinha culpa. Não queria falar com ninguém, muito menos com meu primo idiota que não compreendia meus problemas femininos. Minha barriga roncou outra vez e tirei minha mochila das costas, abrindo o zíper e procurando por alguma coisa que tivesse passado despercebida antes. Porém havia apenas papéis de bala vazios e pacotinhos de carne desidratada, contendo apenas farelo de sal. Peguei todo o lixo e joguei na estrada. Quem ia ligar para a poluição, agora que as palavras “ecologicamente correto” não existiam mais.
Me virei para as criaturas e, frustrada, peguei uma pedra grande no chão, jogando-a com toda a força que tinha na cabeça de uma daquelas coisas. A pedra atravessou sua testa e ela – era uma mulher – caiu no chão, dura. Duas das coisas pararam e começaram a atacar o corpo.
–Me lembre – disse Andrew, impressionado – de nunca irritar você.
–Fica esperto – respondi. Estávamos falando baixo, para não atrair coisas e para o Joe não nos escutar – Tem muitas pedras por aqui.
Um sorriso mínimo surgiu em seus lábios.
–Eu duvido você acertar outro.
Aceitei o desafio e me abaixei, pegando mais uma pedra. Mirei em um homem gordo, com parte do peito faltando, e joguei a pedra. Ela voou raspando na cabeça redonda e podre dele, caindo longe.
Andrew riu baixo, zombando de mim.
–Bela pontaria.
–Cala a boca.
Ele pegou um seixo pontudo e o arremessou. O objeto passou vários metros acima das criaturas, caindo além da primeira que eu acertei. Eu sorri e o gesto abriu fissuras nos meus lábios secos, o gosto metálico de sangue invadindo minha boca.
–“Bela pontaria” – falei fazendo uma imitação de Andrew. Ele deu uma cotovelada em meu braço e continuou a caminhada, de cabeça baixa, mas ainda assim sorrindo um pouco.
–Ei – chamou Joe, bem mais à frente. Ele fez um sinal e entrou em uma floresta aberta, que havia começado alguns metros atrás. Eu e Andrew fomos para a floresta também e seguimos por uma trilha onde o ar era mais gelado.
Nossos passos faziam um barulho alto nas folhas secas e acastanhadas que cobriam o chão. As criaturas e seus gemidos e murmúrios aos poucos foram ficando para trás e o som de água corrente preenchia o silêncio breve que ficara. Comecei a correr em direção ao som, ultrapassando Andrew. Angel disparou feito um raio, pulando troncos e pedras. Ela sumiu de vista e ouvi algo pesado caindo na água.
Apertei o passo, a lateral do meu corpo doía e pulsava incessantemente. Cheguei à beira de um barranco úmido e me abaixei escorregando por ele. Quando a descida terminou, caí sentada em uma clareira, na beira de uma lagoa clara e resplandecente sob o sol. Angel nadava pela superfície parecida com um espelho brilhante, com a língua para fora e o rosto molhado, seus olhos castanhos brilhando de alegria.
Cobri a boca com a mão e soltei um riso abafado. Ali na clareira, as aves pareciam ter voltado a vida e cantavam encantadoras, uma música que até então se tornara uma lenda. Pedrinhas e bolotas de terra rolaram ao meu lado e Andrew caiu ali, agachado. Os olhos azuis dele brilhavam ao observar a lagoa.
–Filho da... – murmurou, mas sem completar a frase. Então ele se levantou, jogando a espingarda no chão e tirou a camiseta, revelando o tronco magro e pálido.
–Andy! – exclamei rindo e cobrindo meus olhos como se aquilo fosse uma visão horrorosa. Pela fresta dos meus dedos, pede vê-lo correndo até a lagoa e pulando na água, formando ondas que atingiam a praia.
Joe surgiu do meu lado. Ele tirou o boné, como se agradecesse a mãe natureza, e colocou a mão sobre o peito. Parecia prestes a chorar.
–Isso é tão lindo – disse dramático.
–Por quanto tempo mais acha que vamos conseguir? – perguntei, falando com ele pela primeira vez desde a estação.
–Sobrevivemos por onze anos, Mike – ele colocou a mão no meu ombro e apertou consolador – Acredito que ainda tenhamos uma longa jornada pela frente.
Eu não fazia aquilo há meses.
Vinha guardando um pacote com cigarros na minha mochila, bem escondido, e ainda me restavam cinco. Peguei um deles e um isqueiro, depois subi numa árvore não muito alta. Eu estava como vigia naquela noite enquanto Andrew e Joe dormiam, e da árvore eu podia ver tudo num raio de quilômetros.
Acendi o cigarro e coloquei-o rapidamente na boca, então vendo a fumaça espiralar até uma certa altura. Sempre me ensinaram que fumar era errado, e essas coisas, mas agora era a única coisa que conseguia me distrair dos mortos que rondavam a área.
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