Terra Morta
6 Capítulo 6
"O maior mistério da morte é que só o podemos saber quando já o não podemos saber" — Vergílio Ferreira
Os gritos eram terríveis.
Eu não conseguia pregar os olhos durante a noite, por mais que tentasse. Eles continuavam, sem parar, ecoando pelo meu quarto e pulsando em minha cabeça.
Levantei-me da cama e tropecei pelo escuro, indo em direção ao quarto dos meus pais. Fiquei perplexa ao encontrar a porta do quarto aberta e a luz acesa, iluminando a cozinha. Pensei em entrar, porém meu pai saiu do quarto antes que eu me mexesse. Ele me olhou assustado e então se ajoelhou e abriu os braços.
Corri para ele.
–O que é isso? – perguntei baixinho, envolvendo seu pescoço com meus braços pequenos, meu coelho de pelúcia pendurado em uma mão.
–Não é nada, querida – ele puxou meu cabelo carinhosamente, como sempre fazia para me acalmar – Por que você não volta a dormir, hein?
Hesitei antes de dizer o que havia visto mais cedo, porém mesmo assim contei a ele. Meu pai se afastou me segurando pelos punhos, os olhos arregalados e amedrontados.
–Você viu isso? – sua voz estava falha, como nunca havia ficado antes.
Assenti e engoli em seco. O medo começava a crescer mais e mais dentro de mim.
–Cadê o tio Joe? – respirei fundo, tentando conter a lágrimas quando imaginei meu tio como minha vizinha.
–Vai chegar amanhã cedo – meu pai franziu a testa, rugas de preocupação se formando entre as sobrancelhas. O cabelo castanho estava amassado de um lado e arrepiado do outro – O concerto para o carro chegou mais tarde do que ele imaginou.
Torci o nariz e abracei meu coelho, pensando se meu tio não havia sido atacado, ou pior...
–O que é isso? – repeti a pergunta. Os gritos continuavam, incessantes, e faziam meus ouvidos apitarem. Pela porta grande de vidro da cozinha pude ver as outras casas da rua, todas iluminadas. Menos a do vizinho – Angel pode dormir aqui dentro? – perguntei quando minha mãe apareceu, o cabelo preso em um rabo de cavalo frouxo. As olheiras embaixo dos olhos estavam mais escuras do que de costume, e ela parecia horrorizada.
–Claro querida – disse. E então eu percebi como a situação era séria. Minha mãe nunca deixaria Angel dormir dentro de casa.
Corri para os fundos da casa e ouvi a cadela raspando as unhas pequenas na porta de madeira. Destranquei a porta e ela entrou em disparada, indo direto para o meu quarto. Voltei e encontrei meus pais sentados à mesa da sala de jantar, discutindo aos cochichos. Quando me viram, pararam e meu pai ofereceu o colo. Sentei-me nas pernas dele e me aconcheguei contra seu peito largo, abraçando meu coelho com força. Ali, nos braços do meu pai, os gritos pareciam mais baixos.
Fechei os olhos e depois de alguns minutos eles começaram uma conversa:
–Quando vai contar para ela? – disse minha mãe.
–Não vou contar. O governo está controlando isso.
–Está? Tom, essas coisas são horríveis. E se o vírus começar a se alastrar...
–Não é um vírus, Carol. É uma célula.
–Uma célula não teria vindo para cá sozinha – murmurou minha mãe com raiva – Está se reproduzindo. Essas coisas estão do lado da nossa casa, não estamos seguros.
–Eu sei – senti meu pai estender a mão sobre a mesa – Mas até que descubramos como dar um fim nisso, o melhor a fazer é manter distância.
E então, contra minha vontade, adormeci.
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