Terra Morta
2 Capítulo 2
"A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais." — Epicuro
Meu pai estava sentado à mesa da sala de jantar, massageando as têmporas.
Meu irmão, Devan, havia ligado mais cedo dizendo que não poderia vir para o dia de ação de graças. Ele era do exercito, mas não era por causa disso que não viria para casa. E eu nunca soube o porquê.
De trás da porta do quarto, ouvi meu pai gritando com Devan, e minha mãe soluçando e se perguntando o que ela fez de errado. Eu tinha seis anos na época, mas isso não me impedia de entender que Devan não queria estar com a família dele.
Respirei fundo e abracei meu coelho de pelúcia.
–Papai? – chamei me aproximando devagar da mesa. Meu pai sorriu, rugas se formando no canto dos olhos. Ele tinha olhos castanhos como os de Devan. O cabelo escuro e cacheado se assemelhava ao meu, que descia até o comprimento dos ombros – Dave não vai vir?
Meu pai me pegou e colocou-me em seu colo, arrumando minha camisola cor-de-rosa.
–Não, coelhinha – ele me chamava assim por causa do coelho de pelúcia que eu levava para tudo quanto é lado – Mas, em compensação, o tio Joe vai passar a semana com a gente. Eles chegam amanhã.
–Eles? – torci o nariz e apertei mais o coelho – Andrew vai vir também?
–Ele é seu primo, Mike – meu pai pegou meu nariz e me abraçou forte, fazendo escapar um riso – Não devia falar assim dele.
–Mas ele é chato – resmunguei empurrando a mão do meu pai. Ele me ajeitou em seu colo – Não gosto dele.
–Eu também – sussurrou meu pai, fingindo seriedade – Não conte para sua mãe.
Assenti e passei os dedos nos lábios, como se fechasse um zíper.
Sempre tive uma ligação forte com meu pai. Minha mãe não tinha tempo para cuidar de mim quando nasci, e Devan já tinha treze anos e não queria saber de uma irmã. Então era meu pai que cuidava de mim e fazia tudo o que era possível para ser uma “ótima mãe”. Uma vez ele até prendeu com fita adesiva uma caixinha de leite no peito dele e fingiu que me amamentava.
O nome dele era Thomas, mas o chamávamos de Capitão Tom, porque ele realmente era o comandante da casa.
Morávamos em uma casa grande e arejada, perto da área rural da Carolina do Norte. A casa ficava em uma pequena vila, daquelas que se viam em filmes onde a vizinhança se ajudava e as casas eram simples, normais e alegres, com cerquinhas nos quintais, vários parques arborizados, e sem o perigo de ser assaltado enquanto caminhava até o mercadinho da esquina.
Outra coisa eram os cães. Viam-se muitos deles na rua, mas nenhum sem dono. Eu tinha uma cadelinha, Angel, que ganhei no meu aniversário de seis anos. Já fazia cinco meses que ela estava em casa. Angel era uma border collie, a pelagem uma mistura de branco com manchas em cinza e preto, e alguns pontos castanho claro.
Felizmente, o quintal de casa era grande o bastante para ela não ter que ficar na lavanderia o tempo todo – minha mãe não queria pelos no sofá dela, então Angel só ficava lá fora ou na lavanderia.
Franzi a testa quando me lembrei de Angel.
–Será que a Angel tá bem?
–Você vai mesmo me perguntar a mesma coisa todos os dias?
Ri.
–Talvez.
Meu pai sorriu e olhou para o relógio. Então ficou assustado.
–Meu Deus, já é quase meia noite! – ele me encarou – Você devia estar dormindo.
Fiz um muxoxo.
–Mas eu não quero...!
–Vamos, Mike, já passou na hora de você ir para cama – meu pai se levantou comigo ainda em seu colo e me levou até o quarto. Ele me colocou na cama e me cobriu até o queixo.
–Boa noite, pai – suspirei enquanto ele prendia o cobertor debaixo do colchão.
–Boa noite, Mike – ele se inclinou e me beijou na testa. Então foi até a porta e apagou a luz, mesmo que eu ainda pudesse vê-lo por conta da luzinha ao lado da minha cama – Eu te amo.
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