Gelado. Um pingo de chuva gelado atingiu minha testa. Criei coragem para abrir os olhos e vi um "teto" mal acabado, com as telhas completamente quebradas. Levantei a cabeça e vi que eu estava na mesma cadeira de antes. Não morri, viva. Olhei para a sala onde eu estava: era feita de tijolos postos às pressas, o cimento transbordando em alguns lugares. Percebi o cheiro horrivel que aquele lugar tinha e cometi o erro de olhar para o lado: um corpo fresco, com a carne já exposta em alguns lugares, e haviam ratos e baratas se alimentando da carne. Um rato comia, alegrimente, algo dentro do olho do infeliz morto. Com certeza era um cara, mais ou menos minha idade. Leo. Não. Não podia ser. Ele não sabia onde eu estava não é? Ele não viria me salvar se isso representasse um risco pra ele né? Leo não é o cadaver no chão. Não pode ser.

Comecei a pensar nas milhões de possibilidades de ser Leo e lágrimas escoreram por minhas bochechas, quando alguem abriu a porta de metal com força, o que me assustou. Olhei para o sujeito, que usava um uniforme completo de exército, que mais parecia de Paintball por causa do capacete, que não me deixava ver seu rosto, e do bracelete de "capitão" branco, igual o detalhe lateral do capacete. Me lembrou o Darth Vader, e era meio assustador meio engraçado:

–-- Eu quero falar com você sobre uma coisa chamada terceiros.

Havia um modificador de voz dentro do capacete, tornando a voz do cara completamente irreconhecível.

–-- Como falei para aquele cara, não sei do que vocês estão falando.

Disse firme, tentando não respirar aquele ar fedorento por causa do corpo atrás de mim. O homem riu:

–-- Eu conheci sua mãe.

Aquilo me atingiu em cheio. Olhei para baixo e respondi de novo para o homem:

–-- Tudo bem, o que você quer de mim?

–-- Quero te matar, claro. Mas tenho que te usar para achar seu protetor. Ele vem nos causando muitos problemas desde a morte dos pais.

–-- Como assim causando problemas?

–-- Você está fugindo do assunto. Quero que você ligue para Leo pedindo para que ele venha te salvar.

Saí o máximo que pude do medo e pânico que tomaram conta de mim e dei uma risada que saiu meio apavorada:

–-- Se ele souber que eu estou em perigo vai vir com reforços e vai matar todos vocês.

O cosplay de Darth Vader pensou um pouco, o silêncio sendo quebrado apenas pela respiração pesada dele dentro da máscara. Então uma coisa completamente inusitada aconteceu: Darth Vader chutou com força a parte de baixo da cadeira, correu, pegou a cadeira no ar e afundou minha cara com tudo no peito do morto. Eu entrei em pânico e comecei a chorar me sentindo uma completa idiota, claro.

–-- Você vai fazer tudo o que eu mandar está ouvindo?! Se você continuar assim vou te deixar igual a ele entendeu?!

Mesmo com o modificador de voz pude perceber o tom completamente raivoso. Estava tentando mecher minha cabeça para avisar que ele foi bem claro quando outro estrondo me assustou:

–-- Senhor, estamos em estado de alerta senhor, precisamos fugir antes que...

O cara foi silenciado, e o ambiente permaneceu assim. Darth Vader afrouxou a mão da minha cara, logo depois me levantando com força. Abri os olhos, mas tinha uma claridade forte vindo da porta, o que me fez fecha-los de novo.

–-- Nem precisei força-lo a vir então.

–-- Você vai soltar ela agora Dux. Eu dei um jeito em todos os seus soldados, e não vai ser você quem vai me empedir.

Leo. Droga, droga, droga. Abri meus olhos de novo, ignorando a luz e fazendo força para encherga-lo. Saber que ele estava bem. O silêncio estava me deixando ansiosa de mais para controlar minha cara de desespero e meu choro, acompanhado de soluços e muita, mas muita vergonha. Quando recuperei a visão, nem respirei antes de Leo correr pra cima de mim e nos jogar para quebrar uma parte da parede. Caimos em cima de um monte de sacos de areia, que foram postos em uma montanha perfeita. Lá de cima Darth Vader pegou uma arma e deu um tiro às cegas, na esperança de matar alguém. Leo me desamarrou da cadeira as pressas e meio que me levou correndo pra tras de um muro. Pude perceber que parecia um campo de treinamento de exercito, com todas aquelas escaladas, morros e varios muros:

–--Zoe, fica calma. Você pode me ouvir?

Fiz que sim com a cabeça sentindo uma dor forte no braço, e chorando. Não tinha entendido minhas próprias emoções até abrir os olhos e ver o que estava causando a dor: eu tinha levado o tiro. Dei um grito assustado, e olhei para Leo, que estava tirando a manga da camisa de frio preta.

–-- Ela não vai aguentar muito tempo, e você principalmente sabe disso.

Dei um grito de dor quando Leo apertou a manga da sua camiseta no buraco sangrento que provavelmente uma 20mm fez. Olhei para Leo, que fazia não com a cabeça, apertando os olhos e as mãos nos joelho. Ele olhou para mim, e ficamos nos olhando por um tempo, até ouvirmos outro tiro e Leo trocar de posição. Foi quando eu percebi que ele estava chorando. É isso. Acabou. Pro Leo estar chorando na minha frente, eu vou morrer. Pronto, fim da linha pra mim. Arrumei todas as forças que eu tinha e pulei nele para um abraço. Ele esperou um pouco e me abraçou também.

–-- Fala comigo. Eu preciso ouvir a sua voz. Preciso saber se ele fez alguma coisa com você. Preciso... Eu preciso...

Ele começou a se engasgar com o próprio choro, o que eu achei muito estranho, mas aí eu percebi que eu estava mais descontrolada que ele:

–-- Não quero morrer. Não aqui. Muito menos agora.

–-- Você não vai morrer. Zoe, enquanto eu estiver vivo, ninguém nunca mais vai encostar um dedo em você se for pra te machucar. Nunca mais, entendeu?

Darth Vader apareceu em cima de nós, e pude até sentir seu sorriso debochado por baixo da máscara:

–-- Que lindo.

E bateu com o cabo da arma na minha cabeça.