Eu estava suando. A manga direita do meu pijama de frio estava suja de sangue. Me sentia tonta e quente, parecia que ia morrer. Levantei da cama e fui direto para o banheiro tomar banho, mas só de baixo do chuveiro me lembrei de ontem. De Leo. Das coisas que ele me disse. Da marca.

Arregalei os olhos quando lembrei de como ela estava ontem: uma ferida sangrenta e aberta, nojenta. Olhei para o meu braço e suspirei, aliviada. Um quadrado igual o de Leo só que menor se encontrava no canto direito superior de um quadrado maior, do tamanho da marca dele. Não demorei muito para perceber o L que se formava entre o quadrado maior e o menor. Sai do banho e me vesti, agradecendo pelo frio quando coloquei um casaco roxo da GAP. Não seria muito bom se as pessoas descobrissem que eu... Bom, tinha uma "tatuagem".

–-- Oi Zoe, dormiu tarde ontem?

Franzi o cenho e olhei as horas no microondas: 6:50. Droga. Mil vezes droga.

–-- Não me sinto muito bem, mas vou indo então.

A van já estava lá quando cheguei na portaria, então entrei correndo enquanto pedia desculpas para Marcos quando dei a falta de Leo.

–-- Ei Marcos... Leo não vai na escola

hoje?

–-- Quem?

Fechei os olhos e suspirei quando lembrei da história do nome falso:

–-- George. Quis dizer George. Ele não vem?

–-- Ah sim, Karson. Se for na escola não vem comigo.

Assenti e fui para o fundo.

Quando cheguei na van no outro dia, ele estava lá com seu Ipod. Meu coração deu um salto mortal quando o vi: o sol da manhã refletia em seus cabelos ruivos, os tornando laranjas, lindo. Eu não sabia exatamente por que tive essa sensação, já que conhecia ele há um dia.

–-- Oie!

–-- Porque não foi na escola ontem?

Falei fingindo estar brava. Ele abriu um sorriso, me tirando da encenação:

–-- Tinha algumas coisas para resolver, sentiu minha falta?

Ri e revirei os olhos:

–-- Você é meu único amigo lembra? Claro que senti sua falta.

Ele ficou me olhando com aqueles grandes olhos azuis e um meio sorriso por uns cinco segundos, quando ele balançou a cabeça e pegou meu braço direito:

–-- Como é sua marca? Fiquei tão curioso ontem que quase fui na sua casa!

Tenho certeza que fiquei um pouco vermelha, mas sorri e levantei a manga do casaco, revelando a marca roxa escura.

Saimos da van e fomos para a aula, que hoje era história. Ótimo, porque o professor era um velho gordo e surdo, então eu e Leo podíamos conversar sem sermos mandados para fora.

* * *

Um mês já tinha se passado desde o início das aulas. Leo tinha se mostrado um melhor amigo perfeito: era gentil, não ligava pro que os outros pensavam, protetor (mas não de mais), engraçado e companheiro. Hoje era sábado e estava caindo uma garoa na cidade, mas já que não planejava sair de casa mesmo isso nem me incomodou. Peguei o saco de pipocas pronto no microondas, coloquei em um pote e levei para sala. Estava procurando alguma coisa de bom TV quando alguem bateu na porta. Abri sem nem mesmo ver pelo olho mágico — o que, admito, foi idiota- e vi um borrão preto cobrindo minha cabeça. Gritei e esperniei quendo alguem me pegou e me colocou em seu ombro. Tentei tirar o saco da cabeça, mas senti uma pancada forte e apaguei.

Quando minha conciencia voltou, eu estava amarrada em uma cadeira de metal. Tentei me localizar, mas o lugar estava completamente escuro. Uma das luzes se ascendeu em cima de mim, e percebi que estava em um galpão. Do chão até o teto deviam ter uns 10 metros, no mínimo. Alguem puxou uma cadeira e se sentou longe o bastante para eu não poder ve-lo, mas ainda sim podia ouvir sua voz grossa e seu sutaque estranho. Soldado francês.

–-- O que você quer?

Falei angustiada pelo silêncio. Pude ouvir uma risada sufucada, mas o homem se levantou e caminhou até mim. Aparentava uns 25 anos, alto, cabelo espetado e forte. Muito forte. Seus músculos pareciam montanhas, resultado de, provavelmente, muita muculação e bomba. Sua cara era cheia de cicatrizes. Não, seu corpo inteiro era cheio de cicatrizes. Ele chegou perto de mim o suficiente para sentir o cheio de perfume forte misturado com desodorante e ver uma tatuagem de coração no seu pescoço, o que devido ao seu tamanho era bem engraçado.

–-- Onde está seu protetor?

–-- Meu o que?

Fingi não saber de nada. Eu assistia episódios suficientes de CSI para saber que esse era o melhor jeito para se livrar de um problema.

A única coisa que não falava no CSI é que ele iria me bater. Senhor tatuagem de coração me deu um tapa na cara. Mas esse foi O tapa na cara. Lágrimas rolavam do meu rosto, mas eu mal as sentia na bochecha esquerda, onde só sentia que ele tinha arrancado minha pele e jogado limonada e sal no lugar.

–-- Não se faça de desentendida Zoe. Eu sei onde você mora, sei sobre a mulher que fica na sua casa, sei onde é sua escola. Eu vi sua marca.

Eu escolhi continuar fingindo de desentendida. Se eu falasse onde Leo estava ele iria me matar. Entre morrer e ser agredida, acho que fico com a segunda opção.

–-- O que... Ah, minha tatuagem.

Fingi um riso fraco.

–-- É uma tatuagem. Sou a única menina de 14 anos que tem uma. Imagina minha popularidade na escola, sou tipo uma princesa Kate, todo mundo me conhece. Eles vão sentir minha falta, vão me procurar.

–-- Mentirosa!

Outro tapa. Fiquei ali, com a cabeça baixa, chorando, enquanto o Tatuagem de coração se virava para pegar alguma coisa em um tipo de mesa que estava mais ao longe. Quando ele voltou estava com uma faca que me fazia chorar só de olhar e uma soqueira inglesa. Tudo bem, acho que preferia morrer. Os únicos problemas: não queria trair Leo, e não fazia a menor ideia de onde ele estava. O cara pegou meu rosto com força e virou a bochecha onde ele bateu para sua direção. Pegou a faca e fez um corte que me fez gritar de dor. Eu queria morrer. Estava rezando para ter um ataque cardíaco, qualquer coisa que me fissese morrer, ali e agora. O corte foi desde o meu olho até um pouco a baixo da minha boca.

–-- Vai me falar agora?

Eu queria dizer que não sabia onde ele estava, queria gritar por socorro, queria falar qualquer coisa, mas tinha um nó entalado em minha garganta. O choro me empedia de fazer qualquer coisa. Rindo com a situação, ele me deu um soco com a soqueira bem baixo da cabeça que fez eu e a cadeira voarmos para trás.

–-- Fala! Não tenho o dia inteiro!

Um chute do diafragma. E mais um. E de novo. Eu não conseguia respirar direito. As únicas coisas que eu conseguia fazer era chorar e gritar. Uma garota fraca, amarrada em uma cadeira, no chão. Impotente. Fechei os olhos, esperando por um milagre, ou mais provavelmente, a morte.