Ten Years Later
3 You've got your dumb friends
Notas iniciais
CAPÍTULO III
x.x.x
Let's talk this over
(Vamos resolver isso logo)
It's not like we're dead
(Não é como se estivéssemos mortos)
Was it something I did?
(Foi algo que eu fiz?)
Was it something you said?
(Foi algo que você disse?)
South Park College, campus da faculdade de Artes Cênicas.
— Achei que com o tempo ele iria mudar. — Bebe dizia enquanto Kyle a deixava em seu dormitório na faculdade de Artes Cênicas. — Eu e Craig somos amigos e nosso relacionamento até terminou numa boa apesar do temperamento dele.
— E os boatos? — Kyle perguntou sem esconder a curiosidade.
— De que ele está com Tweek? — Bebe riu despreocupada. — Digamos que eu apenas não coloco minha mão no fogo por Craig Tucker.
— Acho que ninguém coloca. — Kyle também riu sem se preocupar muito. Mas que seria realmente estranho, ele pensou, isso seria, visto que Craig sempre foi metido a machão da escola, especialmente no ensino médio. Ou talvez fosse exatamente seu temperamento compensando sua sexualidade. E quanto a Tweek... Bom, nunca foi possível saber exatamente como Tweek pensava em determinados momentos.
— Mas isso não vai atrapalhar, não é? — Ela perguntou segurando em uma das mãos de Kyle. Nervoso, ele soltou da mão dela e fingiu arrumar um dos cachos ruivos que lhe caíam sob os olhos.
— Atrapalhar o que? — Ele perguntou colocando as mãos nos bolsos, um pouco sem graça por ver que a deixou sem jeito.
— Sei lá, nosso... lance. — Ela disse insegura, percebendo que talvez eles não estivessem pensando igual quanto a levar adiante para algo mais sério.
— Bebe, tem sido o máximo passar esse tempo com você. — Kyle começou, cuidadoso. — Mas não quero te dar esperanças. Eu realmente não sou nada bom com relacionamentos.
— Tudo bem. — Ela sorriu um pouco tímida. — Vamos mantendo nossa amizade... colorida. — Ela arriscou e viu o sorriso aberto de Kyle, aquele do tipo raro, mostrando todos os dentes. — Mas você está apaixonado por alguém?
Antes que Kyle pudesse pensar em responder, um Porshe prata passou por trás dos dois, deu quase um cavalinho-de-pau e parou, mostrando um Cartman convencido dando ares de quem havia bebido um pouco. No banco do carona, um Token que ainda entornava uma bebida provavelmente alcoólica num copo de plástico típico de festas de faculdade.
— Bebe... — Cartman começou ignorando a presença de Kyle. — Sabe onde está Patty? — Eric se referia a colega de escola de ambos, que morava no mesmo dormitório que Bebe, pois faziam o mesmo curso, Patty Nelson.
— Ela deve estar com Brad. — Bebe respondeu um pouco surpresa com a situação.
— Cartman... — Kyle olhou feio para o amigo que olhou de canto pra ele. — Você bebeu e está dirigindo? Quer morrer? Ser preso? Matar alguém?
— Cala a boca Kyle, ninguém aqui está falando com você. Resigne-se à sua insignificância. — Eric disse com ares de quem estava cansado de discutir com Broflovski.
— Token... — Kyle chamou pelo outro. — Esperava isso do Cartman, mas não de você.
— Só estávamos nos divertindo! — Token respondeu tentando não parecer ligeiramente alto. — Viemos chamar vocês pra festa que está começando no dormitório de alguns colegas do Butters.
— Ainda é dia! — Kyle disse como se fosse um absurdo.
— Está quase anoitecendo. — Eric respondeu. — E, foda-se, Kyle... — Ele disse e olhou de canto, de cima a baixo para Bebe. — Agora que você arrumou o que fazer, literalmente... — Eric finalizou e a menina revirou os olhos.
Kyle iria começar a protestar mais uma vez sobre a situação, mas Eric deu partida no carro cantando pneus fazendo uma volta brusca e indo por onde veio. O ruivo apenas observou o Porshe se afastar enquanto um sentimento de preocupação começou a lhe rondar.
— Kyle... — Bebe tentou fazê-lo voltar a prestar atenção nela. — Deixe ele pra lá, Cartman é um idiota.
— Eu sei. — Kyle respondeu alheio, sem prestar muita atenção nela. — Olha, preciso ir. — Ele disse e sobressalto, como se voltasse à realidade. — Você já está em seu dormitório, eu preciso falar com Stan... — Ele dizia e ia se afastando enquanto a menina apenas disse um “ok” baixinho. — E com Kenny também.
Don't leave me hangin'
(Não me abandone)
In a city so dead
(Nesta cidade tão morta)
Held up so high
(Pendurado no alto)
On such a breakable thread
(Num fio que pode arrebentar)
Ele andou a passos largos até o pub Jolly Rogers. Enquanto andava, pegou o celular e ligou para Kenny.
— Kenny, o que está fazendo? — Ele perguntou assim que ouviu o clique do celular do outro, sequer lhe deu tempo para dizer “alô”.
— Estou com Kelly. — O garoto loiro respondeu do outro lado da linha. — Parece que tem uma festa, Butters nos ligou.
— Está todo mundo indo pra essa festa? — Kyle não estava muito feliz com a notícia.
— Aparentemente sim. Parece que estão fazendo fama nessas festinhas dos amigos do Butters…
— Vou passar no Stan e estamos indo pra lá, certo?
— Certo, nos encontramos lá. Estou quase chegando.
— Beleza. — Kyle estava quase desligando quando lembrou-se de perguntar. — Espera aí, você e a Kelly Walters? De novo?
— Cala a boca, Kyle. — Kenny respondeu sem graça, era talvez exatamente o que Kyle estava pensando. O outro riu do outro lado da linha.
— Boa sorte com isso. — Kyle ainda disse entre risos após despedir-se rapidamente do amigo e desligar o celular.
Mais alguns passos e ele estaria no pub para falar com Stan.
x.x.x
South Park College, campus da faculdade de Literatura.
O menino que ria animadamente cercado de amigos, com um moicano loiro e o sorriso aberto, vestindo jeans e jaqueta do mesmo tom e tecido, era Leopold Stotch, o novo calouro da faculdade de Literatura, que parecia ter sido bem aceito e estava fazendo até um certo sucesso com as garotas.
Ao ver Cartman com Token em outra parte da sala onde ficava uma das fraternidades masculinas mas populares da universidade, Butters — como era chamado por seus amigos desde criança — foi ao encontro dos amigos cumprimentá-los.
— Onde estão Kyle, Stan e Kenny? — Butters perguntou assim que apertou a mão dos dois amigos.
— Eles falaram que não vão poder vir. — Mentiu Cartman. A verdade é que ele queria convidar Kyle, mas ao vê-lo com Bebe, uma onda de irritação correu seu corpo e ele inventou qualquer outra desculpa ao parar o carro. — Deixa pra lá, são idiotas. — Ele serviu-se de mais bebida quando alguém passou oferecendo.
You were all the things I thought I knew
(Você foi tudo que eu pensei que conhecia)
And I thought we could be
(E que pensei que poderíamos ser)
You were everything, everything that I wanted
(Você era tudo, tudo que eu queria)
We were meant to be, supposed to be
(Éramos pra ser um pro outro, deveríamos ser)
But we lost it
(Mas nos perdemos)
No outro canto da sala, uma morena com os cabelos na altura da cintura, não muito lisos mas também não encaracolados, usando uma boina púrpura e um vestido comportado, conversava animadamente com as amigas.
— Wendy! — Patty Nelson chamou por ela a abraçando em seguida.
— Que bom que veio! — Wendy respondeu feliz. — Achei que ia ficar por aí com Brad o dia todo.
— Ele está aqui de qualquer forma. — Ela riu um pouco sem graça quando as amigas olharam de um jeito engraçado pra ela.
— Está ficando sério então? — Annie Faulk também estava na conversa.
— Não sei, Brad é meio instável. — Patty respondeu pensativa.
— Um dia quem sabe vocês serão um casal como Wendy e Stan! — Foi a vez Emily se manifestar e elogiar o casal de longa data conhecido por South Park inteira. Wendy apenas sorriu um pouco tímida, depois de tantas idas e vindas, brigas e conciliações, parecia que ela e Stan conseguiram ficar firmes.
— Falando nele, olha quem chegou! — Annie comentou ao ver Stan e Kyle entrando no local.
— Vou lá, meninas, depois nos falamos. — Wendy Testaburger arrumou a boina e entregou o copo com bebida para uma das garotas e foi ao encontro do namorado.
All of our memories so close to me
(Todas as lembranças perto de mim)
Just fade away
(Apenas desapareceram)
All this time you were pretending
(Esse tempo todo você esteve fingindo)
So much for my happy ending
(Foi muito para meu final feliz)
No andar de cima, numa pequena sala mais íntima, Cartman e Token estavam sentados em um sofá vermelho com duas garotas, provavelmente colegas de Butters, trocando amassos e conversando sobre algo que certamente eles não lembrariam no dia seguinte.
Token há tempos não se divertia tanto, e certamente estava com o cara certo. A noite já havia quase caído completamente e Cartman estava mais bêbado do que normalmente estaria. Demorou pra perceber o garoto loiro com casaco laranja bem à sua frente.
Eric estava sentado — quase deitado — com um copo de bebida na mão e uma garota qualquer enroscada em seu outro braço. Ele piscou algumas vezes até ver que Kenny olhava pra ele de um jeito engraçado.
— Achei que tivesse parado com isso. — Kenny disse, referindo-se a bebedeira do outro.
— E eu achei que você tinha parado de usar essa porra de casaco laranja. — Eric riu sem vontade e desfez-se do abraço da menina. Quando olhou pro lado, Token já estava aos beijos com outra garota. — Estamos nos divertindo aqui, deveria tentar fazer o mesmo ao invés de vir aqui tentar me dar algum sermão.
— Não passamos nem pela primeira semana da faculdade, Cartman. — Kenny continuou, paciente. — Porque tem agido assim desde que as aulas começaram?
— Kenny... — Com um pouco de dificuldade, Eric levantou-se do sofá e encarou o outro garoto, mais baixo que ele. — Não tem nada de errado comigo, talvez tenha com você. Está com inveja porque eu tenho dinheiro pra fazer o que eu quiser e você, bem... Você não.
— Sério? O mesmo argumento de quando tínhamos oito anos, Eric? — Kenny suspirou e tinha acabo de descobrir que não tinha mais paciência para aquilo. — Kyle está preocupado com você então... Vou deixar que ele resolva. Porque tenho uma garota que eu sei o nome e que, mesmo que tenha custado pra ela aprender, ela sabe o meu. Ao contrário de você, que provavelmente nem vai lembrar o que fez hoje.
— Cala a boca, Kenny. — Eric disse baixo, sem realmente ter uma boa resposta. Kenny, no entanto, já tinha se afastado.
Ele olhou no andar de baixo e, com um pouco de dificuldade, viu Wendy enroscada no pescoço de Stan enquanto Kyle parecia procurar alguma coisa, perguntando a algumas pessoas. Calculou que poderia ser ele mesmo.
You've got your dumb friends
(Você tem seus amigos idiotas)
I know what they say
(Sei o que eles dizem)
They tell you I'm difficult
(Eles te dizem que sou difícil)
But so are they
(Mas eles também são)
But they don't know me
(Mas eles não me conhecem)
Do they even know you?
(Ao menos conhecem você?)
All the things you hide from me
(Todas as coisas que você escondeu de mim)
All the shit that you do
(Todas as merdas que fez)
Eric deu alguns passos em direção à escada, fazendo menção de descer, quando sentiu seu braço sendo puxado pela menina com quem aparentemente ele estava ficando. Ele nunca admitira, mas Kenny tinha razão, ele nem sabia direito quem ela era, no entanto, ainda assim retribuiu o beijo lascivo que ela começou a dar nele.
Não sabia muito bem por quanto tempo ficou beijando a garota, mas estava realmente começando a relaxar e não prestar mais atenção no ambiente à sua volta. Ele a segurou pela cintura com uma das mãos enquanto a outra passeava pelos cabelos dela, puxando devagar a fim de controlar o beijo melhor. Ele deixou o copo cair no chão e cada vez mais se deixava levar pela situação. Sua cabeça, apesar de estar confusa e dando voltas, parecia começar a pregar peças nele quando ele sentiu a menina soltar-se do beijo dele, talvez por achar que estava ficando um pouco quente demais por estar sendo em público.
— Kyle... — Ele murmurou ainda de olhos fechados, procurando beijar a garota de novo.
— Kyle? — Ela respondeu rindo, sem entender.
— Kyle... — Eric repetiu e afastou-se dela. — Ele está me procurando. — Ele continuou bastante enrolado sem saber muito bem porque chamou a garota de Kyle enquanto a beijava.
— Ah... — Ela disse achando que fosse mesmo verdade, já que Eric não parecia fazer sentido por causa da bebida. — Tudo bem, ele está bem ali no pé da escada olhando pra você. — Ela disse sorrindo e acenando para ele, e ele de volta pra ela, em seguida apontando para Cartman, como se dissesse que queria falar com ele.
Eric respirou fundo e com alguma dificuldade desceu as escadas esbarrando em algumas pessoas no caminho, que subiam e desciam numa velocidade maior que a dele.
— Kenny disse que estava aqui. — Kyle começou assim que Cartman parou em sua frente.
Eric não respondeu apenas ficou por um segundo com a visão embaralhada olhando um Kyle com uma expressão verdadeiramente preocupada, enquanto que, ao mesmo tempo sentia que não deveria estar.
— Vamos, você está bêbado demais. — Kyle continuou segurando Eric pelo braço e o puxando até a saída. Ele não queria ir, mas não queria que Kyle o soltasse. De longe Stan viu a cena e pediu um minuto para Wendy e andou com eles até a saída.
Na parte de fora da casa, na varanda um pouco mais afastados da porta, Kenny estava com Kelly e, quando viu os outros três passando, disse a ela para que esperasse por ele que logo ele estaria de volta.
It's nice to know that you were there
(Bom saber que você estava lá)
Thanks for acting like you care
(Obrigado por agir como se se importasse)
And making me feel like i was the only one
(Me fazer sentir como se fosse o único)
Quando os quatro tomaram uma certa distância do local da festa, Stan tinha as duas mãos nos bolsos do jeans, Cartman encostou-se em uma árvore, porque claramente não conseguia ficar em pé sozinho por muito tempo e acendeu um cigarro. Kenny cruzou os braços e ficou com a mesma cara que sempre ficava quando estavam só os quatro, aquela de deslocado, perdido e que nunca tinha uma opinião de nada. Kyle suspirou e tinha a mesma expressão de ódio das vezes em que perguntava a Stan porque eles ainda andavam com Eric depois de tantos anos.
— Só fazem dois dias e você está inacreditavelmente insuportável. — Stan foi o primeiro a dizer a Eric que apenas tragou o cigarro sem dizer nada.
— Token? — Kyle começou. — O cara é o maior CDF e você o traz aqui?
— Estão de brincadeira, não é? — Eric disse elevando mais o tom. Quando o efeito relaxante da bebida passava, Eric sempre se tornava agressivo. — Saiam do meu pé! — Ele reclamou. — Tudo que eu faço, vocês vêm atrás de mim me dar algum sermão. Se falo com Craig, é um problema. — Ele olhou para Stanley. — Se trago Token pra uma festa, é um problema. — Ele disse a frase olhando para Kyle. Por fim, direcionou seu olhar para Kenny. — E se fico com uma garota, também é um problema? Vocês não tem mais nada pra fazer não?
— Eu tenho. — Kenny respirou fundo e deu dois passos para trás. — Não adianta falar com ele, eu avisei. — Ele saiu de perto do grupo e voltou para onde estava com Kelly.
— Kenny tem razão. — Stan disse por fim. — Somos seus amigos desde sempre, Cartman, se não quer ouvir o que temos a dizer, então simplesmente não há nada que possamos fazer. Não estamos mais na escola, não somos mais adolescentes. Pare de agir como o valentão fútil e manipulador como sempre foi. Estamos sem paciência pra isso. — Stan disse e também começou a andar de onde veio. — Vamos Kyle.
— Já vou. — O ruivo respondeu ao melhor amigo. Eric continuava fingindo com a mesma expressão que não dava a mínima.
Ao passo que Stan se afastou, Kyle apenas esperou alguns segundos, o tempo necessário que ele sempre precisava antes de começar a falar. Era o tempo que Cartman levava para sair da defensiva, aquela posição que ele assumiu desde que nasceu e parecia não largar nunca. E, pior, era sempre sem absolutamente nenhum motivo.
It's nice to know we had it all
(Bom saber que tivemos tudo)
Thanks for watching as I fall
(Obrigado por ficar olhando enquanto eu caía)
And letting me know we were done
(E me avisar que tínhamos acabado)
— Vou te levar pra casa. — Kyle disse ao passo que começou a andar com Eric até o Porshe.
— Não vai dirigir meu carro. — Eric disse como se fosse mesmo aquilo o que importava.
— Então nós vamos a pé, porque nem você. — Kyle dizia enquanto se aproximava mais de Cartman a fim de pegar as chaves do Porshe estacionado logo a frente de onde estavam.
A noite estava fria e uma pequena neblina começava a se formar conforme eles se afastavam da casa onde a festa estava acontecendo. A umidade típica das cidades do Colorado, a névoa fina que molhava a superfície das casas, carros e plantas — naquele dia ainda mais, por ter chovido no dia anterior e à noite. Já estava escuro e era por volta das nove horas da noite. Eles teriam aula no dia seguinte e Kyle pensava na situação do colega quando a manhã chegasse.
— Me dê as chaves. — Kyle pediu gentilmente.
— Você não vai dirigir meu carro. — Eric disse rindo irônico enquanto pegava as chaves do bolso e rodava entre os dedos no chaveiro com o escudo da marca.
— Eric, eu estou morrendo de frio. — Kyle dizia ficando impaciente enquanto encostava-se no carro. — Vamos embora logo? Você não vai dirigir.
— Nem você.
— Ok. — Kyle respondeu rapidamente devido a birra do outro. — Amanhã você vem buscar.
— De jeito nenhum! — Eric tentou aproximar-se da porta do motorista, mas Kyle estava encostado bem na fechadura impedindo o outro de passar. — Me deixe passar.
— Me dê as chaves. — Kyle permanecia firme onde estava sem tirar o olhar de Eric.
Cartman maneou a cabeça como se mal pudesse acreditar que, de repente, Kyle não estava cedendo a sua birra. Num impulso, Kyle tentou pegar a chave das mãos do outro, mas Cartman foi mais rápido e puxou rapidamente a chave. Era mais fácil para ele, uma vez que ele era mais alto.
Ele riu ao ver a expressão de decepção de Kyle no momento em que ele pôs a chave acima da própria cabeça e Broflovski cerrou os olhos. Ele foi pra cima de Cartman crente que conseguiria pegar. O ruivo estava quase escalando o corpo de Eric que erguia o braço mais ainda no alto, mas agora era só pra sentir Kyle segurar-se nele ainda mais forte e não porque estava com medo que o outro alcançasse.
Seus olhos se encontraram por um segundo e foi então que Kyle percebeu o que estava fazendo: literalmente esfregando seu corpo no de Eric. Sentiu sua respiração falhar por um segundo, especialmente porque Cartman sustentava o olhar e parecia mais sóbrio do que nunca. Broflovski não se mexeu, parecia que tinha apenas paralisado, Eric baixou uma das mãos e segurou no rosto de Kyle. Antes que o garoto judeu pudesse fazer qualquer protesto, foi calado com um beijo do moreno alto, pegando-o completamente de surpresa.
Ele estava quase ligado no automático quando abriu a boca para dar espaço para a língua de Eric invadir sua boca — até pra beijar ele era marrento e gostava de controlar. Eric, por sua vez, conseguia ouvir o coração de Kyle bater com força contra seu próprio peito. Ele segurou o ruivo com uma força vinda do nada, como se tivesse medo que ele fugisse para algum lugar, mas tudo que Kyle fazia, embora confuso, era corresponder.
O gosto de bebida e cigarro misturava-se em ambas as bocas e Eric deve o deleite de ouvir Kyle gemer baixinho ficando cada vez mais relaxado em seus braços conforme o beijo parecia fluir com uma naturalidade muito maior do que realmente deveria.
— Eric... — Kyle soltou-se do outro parecendo que acordou de um coma profundo. — O que está fazendo?
A única coisa que o moreno fez foi ficar parado em frente ao outro sem sequer ter uma resposta decente. Ele não sabia o que estava fazendo e nem porque estava fazendo. Ao mesmo tempo, sentia um alívio inexplicável, era como se tivesse tirado um peso de anos dos ombros.
— Por que estava me beijando? — Kyle insistiu diante da falta de resposta do outro.
— Estou bêbado. — Eric respondeu deixando realmente demonstrar que foi a primeira coisa que lhe veio à mente.
— Ei... — Antes que Kyle pudesse concluir seu raciocínio, Cartman o tirou de frente da porta do carro e entrou no veículo. — Cartman, precisamos conversar. Pare com isso, sai desse carro. — Kyle pediu batendo no vidro, mas sem sucesso.
Eric apenas arrancou com o carro numa pressa absurda deixando o outro no estacionamento do campus apenas sentindo o orvalho da noite fazê-lo sentir frio novamente. Kyle, ainda completamente surpreso, tocou os lábios com uma das mãos como se quisesse ter certeza do que tinha acabado de sentir — na realidade ele tinha que admitir que era um dos melhores beijos que já tinha recebido.
He was everything, everything that I wanted
(Ele era tudo, tudo que eu queria)
We were meant to be, supposed to be
(Éramos pra ser um pro outro, deveríamos ser)
But we lost it
(Mas nos perdemos)
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