Ten Years Later

4 My passion, my poison


Notas iniciais
A música do capítulo se chama My Last Goodbye, do Trading Yesterda

CAPÍTULO IV

My passion, my poison

x.x.x

I've got to walk away while there's still hope
(Tenho que ir embora enquanto há esperança)
Learn to erase the love I know
(Aprender a apagar o amor que conheço)
And let you go
(E deixar você ir)

Era engraçado ver Cartman com óculos escuros durante a aula. Só não era engraçado para o professor, que sabia da fama do garoto. Ele suspirou ao ver Eric com um Ray-Ban espelhado segurando a cabeça com uma das mãos que eram apoiadas pelos cotovelos sobre a mesa.

— Senhor Cartman, tire os óculos por favor. — O professor pediu resignado. Todos voltaram-se para onde Eric estava sentado o observando enquanto tirava os óculos, revelando o olhar cansado e incomodado pela luz. Ninguém precisava dizer em voz alta que ele estava de ressaca, seria redundância.

Alguns lugares a frente, como de costume, estava Kyle, que dessa vez esticou-se todo para olhar Eric diretamente. Ele não tinha dormido direito na noite anterior pensando no beijo que Eric deu nele antes de irem pra casa. Não teve coragem de falar com Stan a respeito, simplesmente achou mais justo falar com Eric primeiro. O grande problema estava justamente no óbvio: falar. Ele sabia que não seria fácil e que Eric provavelmente fugiria dele como diabo da cruz.

Mas ele lidaria com aquilo depois, de qualquer forma Eric não poderia fugir dele por muito tempo, eventualmente iriam precisa conversar.

Na entrada da universidade, após estacionar o carro, Clyde andava sob olhares de muitas pessoas que cochichavam enquanto ele passava, especialmente as mulheres. Andava ao lado de Pip até o campus da faculdade de Educação Física, onde o jogador começaria a estudar. Pip, por sua vez, escolheu História da Arte.

O loiro britânico não sabia muito bem o que fazer, uma vez que estava morrendo de ciúmes por todos estarem olhando para Clyde. Sua vontade era segurar na mão do namorado pra deixar claro que ele não estava solteiro, mas apenas se limitou a baixar os olhos algumas vezes enquanto andavam e arrumar sua boina de maneira a esconder um pouco o olhar.

— Olha quem está de volta! — Patty Nelson foi a primeira a aparecer para cumprimentar o jogador que estava acompanhado do namorado.

— Eu disse que voltaria. — Ele respondeu abraçando amigavelmente a garota.

— Tudo bem, Pip? — Ela cumprimentou ao ver o garoto por perto. — Que bom que decidiu ficar na América.

— Meus amigos e as pessoas com as quais me importo estão aqui de qualquer forma. — Ele respondeu até simpático, lembrando-se que todos pensavam que quando ele revisse Londres, não ia mais querer voltar ao Colorado. A verdade é que ele provavelmente não iria querer, mas Clyde era o que importava pra ele. Londres podia esperar.

— Estão estudando juntos? — Ela perguntou olhando de um para outro.

— Não. — Clyde respondeu primeiro. — Estou fazendo Educação Física, Phillip faz História da Arte. — O jogador respondeu olhando o loiro ao seu lado e tocando no ombro dele ao responder. Patty não disse nada mas estranhou a intimidade, e especialmente de ter alguém o chamando pelo nome todo.

— Certo... — Ela disse tentando soar naturalmente. — Precisamos nos encontrar, todos, pra colocar todo papo em dia. Qualquer hora tomamos um café. — Ela disse já se afastando dos dois.

— Claro que sim. — Clyde respondeu sorrindo.

— Sem dúvidas. — Pip reforçou mas sem muita vontade enquanto a menina acenava para ambos já indo em direção a seu próprio prédio, o da faculdade de Artes Cênicas, onde estudava com Bebe e Wendy.

O casal bem que queria se despedir com um beijo, mas tudo que conseguiram fazer foi trocar um olhar cúmplice onde podia se ler um ‘eu te amo’ nos olhos de ambos. De longe, Craig Tucker vestia o jaleco branco entendendo o olhar dele para Pip no mesmo segundo.

x.x.x

'Cause what I thought was love was only lies
(Porque o que pensei ser amor, eram apenas mentiras)
Taking what you want, left me behind
(Leve o que quiser, me deixe para trás)
As my heart dies
(Enquanto meu coração morre)

South Park College, Faculdade de Medicina

— Preciso falar com você. — Kyle dizia com pressa ao ver Stan sair da sala de aula. O ruivo não queria parecer, mas estava ansioso. Precisava conversar com alguém e apesar de ter procurado Cartman pelo campus todo, não conseguiu encontrá-lo — e isso só acontecia quando realmente Eric não queria ser encontrado.

— Está tudo bem? — Stan respondeu vendo a apreensão do amigo. — Aconteceu alguma coisa?

— Não... — Kyle disse tentando tranquilizar o melhor amigo. — Quer dizer, sim... Mas ninguém morreu. — Ele fez uma pausa e Stan o encarava curioso agora. Kyle era sempre o cara mais tranquilo e controlado, mas naquele momento estava mais do que confuso.

— Ei, Kyle! — Foi a vez de Kenny aparecer, segurando livros e posicionando ao lado de Stan. Ambos estavam praticamente de frente para Kyle. — O que foi? Estou interrompendo?

— Não, pode ficar. — Kyle disse sem cerimônia. Talvez a melhor pessoa com quem falar a respeito era mesmo Kenny. — Nem sei por onde começar. — Ele disse quase num sussurro.

Antes que ele pudesse continuar — e ele realmente estava disposto a fazer após respirar fundo — sentiu seu ombro ser tocado de um jeito familiar. Quando virou-se, para sua surpresa, um Eric Cartman o encarava sério.

— Preciso falar com você. — Cartman disse olhando discretamente para Stan e Kenny. Os dois entenderam que o assunto dizia respeito apenas a ele e Kyle.

— Vamos lá pro outro prédio ver o Clyde, ele acabou de chegar. — Kenny foi quem disse enquanto ele e Stan se afastavam rumo ao prédio de Educação Física, onde aparentemente se aglomeravam um certo grupo de pessoas, curiosos para ver o jogador também.

Kyle não teve tempo de dizer nada, apenas observou os dois amigos saírem de perto, sequer prestando atenção onde iriam. Virou-se para encarar o moreno alto que voltou a colocar óculos, mas no momento em que ficaram a sós, tirou o Ray-Ban espelhado e respirou fundo.

— Não acredito que ia contar a Stan e Kenny o que aconteceu. — Ele começou e agora parecia um tanto quanto furioso. Kyle revirou os olhos, por um segundo ele achou que Cartman havia baixado a guarda. — Eu estava bêbado. — Ele repetiu com mais ênfase do que na noite anterior. — Não precisa fazer caso daquilo, não significou nada, eu nem lembro direito o que aconteceu. — Mentiu ele, ele sabia perfeitamente o que tinha acontecido, porque tinha acontecido e, especialmente, o gosto que sentiu.

— Cartman... Quer saber? — Kyle começou com desdém, cansado. — Foda-se. — O ruivo disse simplesmente, para a total surpresa e decepção do outro. Mas não parou por aí, o judeu continuou, arrumando o boné verde. — Passei aqui o dia preocupado em onde você estava, em como estava se sentindo, se... sei lá, se estava confuso, não só pelo beijo...

— Fala baixo. — Eric o interrompeu abruptamente.

— Mas por tudo. — Kyle continuou ignorando o aviso do outro. — Seu comportamento desde que as aulas começaram estão muito estranhos… Não que você algum dia tivesse sido normal, mas está extrapolando. E a única coisa com a qual está preocupado é com o que vou dizer ao Stan e ao Kenny? Nossos melhores amigos? — Kyle fez uma pausa, mas voltou a falar quando percebeu que Cartman estava pronto para abrir a boca. — Se não confia neles, vai confiar em quem? — Novamente o ruivo fez uma pausa e Cartman sentia que queria falar logo e abrir seu coração, mas não conseguia. Simplesmente olhou para qualquer outra direção que não fosse os olhos do outro. — Quando estiver pronto para ser nosso amigo de novo, pode nos procurar.

Kyle não queria saber se o amigo tinha uma resposta, ele simplesmente saiu, andando a passos rápidos, como se propositalmente não quisesse ser alcançado. Por outro lado, Eric não se mexeu. Achou que tinha se livrado da dor de cabeça e da tontura da ressaca, mas não. Tudo continuava ali e, o estresse que tinha acabado de passar, havia potencializado todas as suas dores.

So here we are again
(Então aqui estamos novamente)
Knowing this will never end
(Sabendo que isso nunca irá acabar)
So I must let go
(Então devo deixar pra lá)

x.x.x

South Park College, Faculdade de Educação Física

Os garotos conseguiram um pouco de privacidade para poder conversar com Clyde. Na roda de amigos depois das aulas, almoçavam Stan, Kyle, Kenny, Clyde, Butters, Bradley e Token. Eles pareciam descontraídos e rindo de quase tudo que conseguiam lembrar dos anos passados.

— E aqui estamos hoje. — Token dizia em meio a risos. — Membros do Coon and Friends reunidos. — O garoto referia-se ao grupo de super-heróis que tinham quando eram crianças e brincavam de salvar a cidade. Inclusive lembrando que Cartman era o Coon e fora expulso do grupo. — Por onde anda o Timmy?

— Está numa faculdade em Denver. — Respondeu Stan. — Ele está estudando Ciência da Computação e Jimmy está por lá também, estudando Jornalismo.

— Deveríamos nos reunir em Denver. — Clyde comentou. — Podemos nos reunir no meu apartamento mesmo, iria ser muito bom. — Ele continuou discretamente procurando Pip com os olhos, perguntando-se onde ele estava e porque não veio encontrá-lo.

— Coon and Friends, quem diria... — Foi a vez de Craig juntar-se ao grupo, andando na direção de Clyde para cumprimentá-lo de uma maneira não muito calorosa. — Como está, Clyde?

— Bom te ver, Craig. — O amigo foi sincero. — Não o vejo desde o Ensino Médio.

— Bom, eu sempre estive aqui. — Ele disse com uma pontada de mágoa por ter tido a impressão de que um de seus melhores amigos pareceu ter simplesmente esquecido da existência dele depois de ter ido para Denver. Acendeu um cigarro e conseguiu o que quase sempre conseguia: fazer todos ficarem desconfortáveis e em silêncio.

— Wendy disse que a faculdade de Artes Cênicas está organizando uma festa para calouros, será à fantasia. — Stan foi quem quebrou o silêncio quando sentiu o cheiro forte da fumaça do cigarro de Craig.

— Legal! — Kenny disse mostrando um de seus raros sorrisos. — Tá aí uma boa oportunidade para desenterrar o Mysterion. — O menino loiro tímido disse fazendo graça e todos riram e pareceram voltar ao assunto sobre Coon and Friends.

Já estavam planejando o que vestir, pareciam estar se divertindo muito, até mesmo Kyle esqueceu Cartman por um segundo. Mas não o suficiente para vê-lo se aproximando de longe. Não tinha como ser discreto dirigindo um Porsche prata em uma cidade daquele tamanho e ainda mais dentro do campus de uma universidade. Ele estacionou acompanhado pelos olhares de todos, Craig chegou a olhar a expressão de Kyle por um segundo apenas para confirmar suspeitas que já tinha. Clyde fez algum comentário sobre ser “a cara do Cartman” todo aquele “show”.

Quando desceu do carro, o moreno alto parecia outra pessoa, não parecia o mesmo garoto que falou com Kyle há algumas horas atrás. Ele vestia o uniforme de basquete, a jaqueta do time por cima e, sobre o ombro direito, uma mochila preta de treino. Claramente estava ali para usar a quadra e treinar com o time da faculdade. Ele tinha o mesmo bom e velho jeito prepotente de andar, olhando sempre em frente e com o queixo levemente levantado. Andava na direção do grupo e sorriu de canto, de um jeito extremamente charmoso, ao ver Clyde levantando-se para cumprimentá-lo.

— Como está? — Cyde perguntou abraçando o amigo, dando-lhe tapinhas nas costas. — Jogando basquete?

— Quem sabe eu serei o próximo atleta famoso de South Park. — Ele brincou sorrindo para o amigo. Ignorou solenemente a presença de todo o resto do grupo, focando sua atenção apenas em Clyde e, de canto, pôde perceber um sorriso malicioso de Craig. Era algo indecifrável, já que o garoto sempre tinha aquela cara de paisagem, de alguém que sempre sabe de tudo, mas ao mesmo tempo não quer saber de nada.

— Faço questão de ir assistir ao treino. — Clyde respondeu animado. — Quem sabe até sirva para minha aula.

— Como está Denver? — Cartman agora percebia os olhares de todos em cima dele, inclusive um cochicho breve entre Kenny e Token.

— Está ótimo, mas confesso que estou feliz de estar aqui. — O jogador dos Broncos foi sincero. — Estamos relembrando o Coon and Friends. — Mal terminou de falar a Cartman já estava gargalhando. — Vai ter uma festa à fantasia, estamos combinando de irmos como nossos antigos super-heróis. Topa?

— Claro! — Cartman agora sorriu aberto, realmente tinha gostado da ideia. — Não acredito que lembra daquilo, temos que ligar pro Timmy.

— Verdade. — Clyde riu e começou a apontar para os amigos. — Temos Mint-Berry Crunch... — Ele apontou para Bradley Biggle enquanto todos riam, especialmente Cartman, dizendo coisas como “até hoje não entendi seu super-herói, Brad”. — Eu sou Mosquito, Token era TupperWear... — Mais risadas e todos os olhares no futuro dentista. — Mysterion... — E Kenny fez uma cara engraçada. — Toolshed... — Stan cobriu o rosto um pouco ruborizado. — E Kyle era... — Clyde fez uma pausa como se tivesse esquecido por um momento.

— Human Kite. — Cartman respondeu por ele e foi a primeira vez desde que Eric tinha chegado, que os olhares dele e Kyle se encontraram.

— Isso. — Clyde voltou a rir e quase comemorou internamente por ter tantas boas lembranças. — E você, claro... — Ele olhou um Eric Cartman com um sorriso jocoso, com as mãos imitando garras. — The Coon!— Ele fez uma voz engraçada e todos, inclusive Eric, riram.

— Vamos fazer isso sim. — Eric disse por fim checando a hora no celular. — Mas realmente preciso treinar. — Ele já ia se afastando quando cumprimentou Clyde novamente. — Bom te ver, Clyde. — Um daqueles raros momentos de sinceridade e carinho que Eric demonstrava. Ele deu uma última olhada para Kyle e seguiu para dentro do ginásio do prédio.

This is my last goodbye
(Esse é meu último adeus)
Leaving all the memories of you behind
(Deixo todas as suas memórias para trás)
I will not wait here
(Não vou esperar aqui)
And waste my whole life
(E desperdiçar minha vida toda)
Waste my whole life
(Desperdiçar minha vida toda)

x.x.x

Kyle estava debruçado e dois livros de Introdução ao Direito por mais de três horas. Pegou o telefone para ligar para o pai mais de uma vez para pedir dicas e tirar dúvidas, mas não queria fazer aquilo justamente na primeira semana de aulas. O que seu pai iria pensar? Mal tinha começado e já estava com dificuldade, imagine quando estivesse lá pela metade da faculdade.

Mas a verdade é que ele não conseguia se concentrar direito no que estava fazendo. Lia as páginas do livro e então percebia que não fazia ideia do que estava lendo e tinha que voltar duas ou três delas. Quando se pegou fazendo isso quatro ou cinco vezes, rendeu-se e percebeu que era hora de parar. Mais do que isso, era hora de encarar de uma vez por todas que estava incomodado com a indiferença de Eric naquele dia, sendo o cara mais legal do mundo e sorridente com Clyde enquanto que com ele, Kenny e Stan ele estava se comportando como o pior ser humano.

Sim, era irritante até mesmo lembrar-se. Lembrar dele rindo e se divertindo ao falar sobre as brincadeiras de infância e até mesmo abraçar Clyde, dizer com clara sinceridade que era bom vê-lo — sim, isso incomodou Kyle profundamente. Por que Eric não poderia ser legal assim com seus amigos mais próximos? Os mais íntimos?

Pegou sua jaqueta laranja e saiu de seu dormitório, precisava respirar, precisava de um pouco de frio. Olhou o relógio e percebeu que era quase onze horas da noite. Sem pensar muito, viu-se tomando rumo do dormitório de Eric. Queria desabafar mesmo, reclamar e falar algumas verdades pra ele. Estava um pouco arrependido de ter dito “foda-se” quando poderia ter dito muito mais coisas. Ainda estava indignado ao lembrar de como Eric poderia ser o cara mais legal do mundo se... bem, se não fosse o mais insuportável ao mesmo tempo.

— O que está fazendo aqui, judeu? — Eric pareceu surpreso, não agressivo. Estava sem camisa, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, parte de sua boxer branca aparecendo e Kyle podia ouvir a TV, provavelmente algum filme de ação. Sentia cheiro de um Cartman que tinha acabado de tomar banho. Era loção de barbear e shampoo. Os cabelos estavam quase secos e despenteados. — Kyle? — Ele repetiu diante do silêncio do outro, que estava em contato com seus sentidos e tinha esquecido de responder.

— Precisamos conversar, Cartman. — Kyle disse de um jeito um pouco ensaiado e franziu o cenho. Estava incomodado de ter ido até ali, estava ainda irritado com ele, ainda lembrava da malcriação cedo naquele dia.

— O que foi? — Foi a resposta do moreno alto quando Kyle entrou em seu dormitório sem ser convidado. Eric fechou a porta mas permaneceu onde estava, Cruzou os braços estufando o peito. — Achei que Kenny e Stan eram seus amigos, por que não vai conversar com eles?

— Como você consegue ser esse grande imbecil conosco? — Kyle disse tentando não falar muito alto e nem parecer muito agressivo. — Se você nos tratasse com 1% da decência que tratou Clyde hoje, eu juro que seria o suficiente.

— Clyde não é um cuzão comigo. — Eric respondeu descruzando os braços e gesticulando como se aquilo fosse óbvio.

— Tentamos ser seus amigos! — Kyle se defendeu. — Falamos as coisas porque queremos seu bem!

Eric passou as mãos pelo rosto frustrado, não estava entendendo aquela conversa. Ele bocejou e virou de costas para o ruivo que, pela primeira vez, percebeu os músculos das costas do outro se moverem conforme ele jogava os braços enquanto passava as mãos pelos cabelos.

— São onze horas da noite. — Eric virou-se de volta para encarar o amigo, chegando mais perto dessa vez. Ele respirou fundo e sentiu que Kyle engoliu a seco. Ele juntou as mãos e disse mais calmo dessa vez. — Saiu de seu dormitório para reclamar que eu tratei o Clyde “bem demais”?

— Eric... — Kyle tentou se explicar porque realmente não sabia o que estava fazendo ali.

— O que você quer? — Eric insistiu sem paciência dessa vez.

— Você me beijou! — Kyle disse impulsivamente olhando fundo nos olhos do moreno. Era estranho e assustador falar aquilo em voz alta pela primeira vez. — E se repetir a frase “eu estava bêbado” eu juro, não me importa se você me bater de volta, eu vou socar a sua cara! — Eric ouvia aquilo mais surpreso do que jamais imaginaria estar.

I can see you now with opened eyes
(Posso te ver melhor agora)
When you come around I realize
(Quando você está por perto, percebo)
That I don't need you to survive
(Que não preciso de você para sobreviver)

— O que quer que eu diga? — Ele rendeu-se pela primeira vez em frente ao ruivo que agora tinha os cachos bagunçados por ter tirado o boné.

— Quero que seja honesto. — Kyle respirou fundo como se uma parte de si não queria muito ouvir a resposta. — Por que? O que aquilo significa? E não me venha com “nada”. Conheço você, Cartman, sei quando está mentindo. — A última parte foi em tom de ameaça.

Eric deu de ombros e sorriu de canto sem saber o que dizer, sem ter coragem de dizer nada, pois a única coisa que restava era a verdade. Uma verdade que ele não estava pronto para admitir nem para si mesmo, quanto mais explicar ao velho amigo. Por alguns segundos permitiu-se voltar àquela noite e lembrar do tal beijo e, principalmente, tinha se dado conta de uma coisa importante: tinha sido correspondido. Mesmo que talvez Kyle tivesse correspondido automaticamente pelo ato do beijo em si, o importante é que tinha incomodado ele o suficiente para fazê-lo vir pedir alguma espécie de satisfação do outro pelo que tinha feito.

— Eu não vou embora até que me explique. — Kyle insistiu sem tirar os olhos do outro que permanecia perdido em pensamentos, não sabendo o que fazer mas não querendo demonstrar muito.

— Não quero falar sobre isso. — Foi tudo que o jogador de basquete conseguiu pensar pra dizer. Em resposta, um suspiro furioso de Kyle. — Será que você não pode deixar pra lá? Esquecer o que houve? — Eric pediu sem firmeza, foram frases soltas de quem não tem o que dizer e não quer dizer o que realmente sente.

— Não. — Foi a resposta de Kyle, ele nem precisou pensar.

Fez-se silêncio por alguns segundos entre eles e os dois apenas trocaram olhares.

I will not begin
(Não vou começar)
The fight that we could never end
(Uma briga que pode nunca ter fim)
So I am letting go
(Então vou deixar pra lá)

— Certo. — Cartman recomeçou percebendo que o outro não ia mesmo ir a lugar nenhum. — Vou perguntar uma coisa então. — Ele disse e Kyle finalmente pareceu ver uma luz no fim do túnel.

— Tá bem. — O ruivo respondeu sentindo seu coração acelerar. Ansiedade e curiosidade.

— Você gostou? — Era como se Cartman tivesse se despido de toda a vaidade, orgulho e Kyle sabia que aquilo era a coisa mais difícil para ele: a nudez da alma era mais difícil que a nudez do corpo.

Kyle não tinha parado para pensar naquilo e certamente não era a pergunta que ele estava esperando. Ele havia sido pego de surpresa e não sabia como responder a pergunta. Olhava um Cartman que realmente queria saber a resposta, não importando qual fosse. Aquele momento parecia ser o verdadeiro divisor de águas na amizade e no relacionamento em geral dos dois. Tudo dependia do que Kyle iria dizer.

— Eric, eu sinceramente não sei dizer. Foi tão rápido, foi tão inesperado... você de fato estava alterado... — Kyle sentiu de leve sua cabeça dando voltas. — Eu não sei o que senti... Eu... É estranho pra mim. Não imaginava que me visse dessa forma. — Ele foi sincero e Eric continuava com a mesma expressão de expectativa como se Kyle tivesse mais coisas para dizer. — Não foi horrível e traumatizante, se é o que realmente quer saber. — Kyle respondeu um pouco sem graça. — Mas foi algo que não esperava de você e certamente de homem nenhum.

— Não sei o que deu em mim. — Cartman respondeu agora olhando de relance para os próprios pés. Culpar a bebida parecia desculpa, mas ele certamente foi impulsionado por ela.

— Está... a fim de mim? — Kyle perguntou extremamente hesitante, achando que talvez seria o fim da conversa, talvez fosse o estopim que Eric precisava pra surtar e chamá-lo de egocêntrico por achar que ele, Eric Cartman, poderia estar interessado em alguém tão simplório quanto Kyle Broflovski.

— Eu não sei. — Eric foi sincero. — Talvez eu esteja. — Já que ele tinha começado, achou a brecha para continuar. Não tinha como voltar atrás naquilo mesmo.

— Está tudo bem. — Kyle se aproximou tocando o ombro do amigo. — Não precisamos contar pros caras, isso fica entre nós. — Eles trocaram um olhar cúmplice e, pela primeira vez, era como se Kyle não tivesse mais receio de Eric.

Kyle o abraçou como se quisesse mostrar que estava seguro se aproximar. O ruivo sentiu as mãos de Eric em suas costas e cintura e, por um momento, ficou com medo do que sentiu. Aquele cheiro de banho recém tomado ficou ainda mais impregnado nele e ele teve que admitir na sua mente que estava sentindo-se diferente naquele momento.

Os dois se afastaram mas mantiveram os braços se tocando e, como se Eric pudesse já prever o que viria a seguir, olhou aqueles enormes olhos castanhos de Kyle como se inconscientemente pedisse permissão, a permissão que não tinha pedido na primeira vez. Cartman mordeu os lábios ao desviar dos olhos para os lábios de Kyle e já estava esperando que o ruivo o interrompesse a qualquer momento, já que meio que estava deixando óbvio que não conseguiria se controlar de novo.

Devagar, testando e aos poucos ele novamente se aproximou do rosto de Kyle e o envolveu num beijo calmo, muito mais cuidadoso que da primeira vez. Dessa vez, Eric sentiu a barba por fazer do outro roçar de leve em seu queixo e percebeu que, naquele momento, Kyle escolheu corresponder.

Tinha uma das mãos no rosto do amigo mais baixo que ele e seguia até sua nuca, tentando se aproximar mais, aproximar seus corpos e pode sentir a evolução do beijo inseguro para um totalmente consciente. Era como se fosse impossível daquilo ficar melhor, era como se todos os seus medos estivesse evaporado e tinha, finalmente, um Kyle que queria estar ali em seus braços.

Broflosvki não queria pensar em nada naquele momento, seu cérebro buscava as mais variadas informações e, inclusive, analisava o fato de Cartman beijar bem porque já tinha feito muito aquilo. A curiosidade agora passou a ser luxúria, passou a ser realmente desejo.

Cartman estava com medo de se afastar, de encerrar o beijo e Kyle enlouquecer de vez, pedir desculpas e, dessa vez, poder finalmente dizer a ele que não era aquilo que ele queria, tinha certeza. A curiosidade havia passado e agora ele tinha certeza que era um “não”.

Eric respirou fundo deixando Kyle livre para dizer algo ou simplesmente ir embora, mas o ruivo, apesar de ansioso ainda e confuso, sorriu de canto um pouco sem graça olhando para o chão. Aos poucos Cartman sorriu e, quando deram-se conta, estavam os dois se olhando e rindo, ficando cada vez mais confortáveis.

— Então era esse o seu problema comigo. — Kyle brincou. — No fundo você só estava...

— Nem comece. — Eric o interrompeu fazendo-o rir ainda mais. — Não vamos ter esses momentos de menina e falar sobre nossos sentimentos e blá blá blá porque não quero e não estou pronto pra isso. — Cartman parecia alterado mas mantinha o sorriso.

— Tudo bem, não tem muito o que falar mesmo. — Kyle disse andando até o sofá onde tinha jogado seu boné e o pôs de volta na cabeça, amassando os cachos como sempre. Cartman sorriu ao vê-lo fazer aquilo. — Nos vemos amanhã?

Cartman ainda sorrindo sinalizou que sim com a cabeça e observou enquanto o ruivo abria a porta para sair de lá. Eles trocaram olhares como se um esperasse que o outro dissesse algo, mas era bem claro que ainda levaria um tempo pra que ficassem bem resolvidos e a vontade com a situação. Era tudo muito novo para os dois.

— Boa noite, judeuzinho. — Cartman brincou abrindo o melhor sorriso que conseguia, um especial, do tipo que Kyle estava vendo pela primeira vez.

— Boa noite, seu gordo. — Kyle mal conseguia responder porque estava rindo muito.

Eric fechou a porta e, pela primeira vez em anos, sentia que muitas coisas estavam certas em seus lugares, e Kyle estava descobrindo uma coisa totalmente nova que o assustava e o deslumbrava ao mesmo tempo. E ambos estavam sim preocupados com a reação dos amigos, e sabiam que não conseguiriam esconder nada por muito tempo.

My passion, my poison
(Minha paixão, meu veneno)
The life and death of me
(Minha vida e minha morte)
I can't take you taking everything
(Não aguento você levando tudo)
From a love never meant to be
(De um amor que não era pra ser)