Ten Years Later

12 You dress like a homeless


Notas iniciais
No capítulo, há várias citações de George Orwell, especialmente do livro 1984. A música do capítulo é Sing for the moment, do Eminem.

CAPÍTULO XII

A Familiar Face

x.x.x

These ideas are nightmares to white parents
(Essas ideias são pesadelos para pais brancos)
Whose worst fear is a child with dyed hair and who likes earrings
(O maior medo deles é ter um filho com cabelo tingido e que gosta de piercings)

x.x.x

Se a liberdade significa alguma coisa,
será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas
o que elas não querem ouvir.
(1984, George Orwell)

Butters Stoch estava bem acompanhado de seu laptop e seus fones gigantes sentado na parte aberta do campus. Havia uma pequena fonte com bancos, já passava das três da tarde. Ele estava lá desde o meio dia. Sentava com as pernas esticadas cruzadas, ocupando o banco inteiro e com o computador no colo. Balançava a cabeça de leve enquanto digitava, deixando claro que estava ouvindo música. Não que desse para perceber, mas pelas ritmo que ele seguia, parecia rap.

Ele lia e relia sua resenha para um de seus livros preferidos — 1984, de George Orwell — como se estivesse já escrevendo uma tese de mestrado. Tinha tanto a dizer que mal se deu conta que tinha escrito quase vinte páginas em três horas.

Ele parou por um segundo para ler, roía as unhas por vezes — ansiedade. Posicionado de uma maneira perigosa no teclado, ele tinha um copo de café descartável que havia pego no pub Jolly Rogers — basicamente seu almoço. Ele mudava uma ou duas frases toda vez que relia, sentia que aquele livro dizia mais sobre ele e sobre as pessoas do que ele conseguia explicar, tinha essa necessidade de expressar como se sentia em todos os parágrafos.

— Butters? — O casaco branco já estava bem usado e, quem o conhecia, sabia que tinha pertencido a Kevin também. Eles ainda repassavam as roupas na casa do McCormick. Mas Kenny não obteve resposta. Sentia-se um pouco invasor ao perceber os olhos cinza de Butters tão concentrados na tela.

Like whatever they say has no bearing,
(Como tudo que eles dizem não serve pra nada)
It's so scary in a house that allows no swearing.
(É tão assustador numa casa que não permite palavrões)

x.x.x

Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante.
(1984, George Orwell)

Ao invés de chamá-lo, Kenny tocou seu ombro de leve, não queria assustá-lo. Mas foi um tanto quanto inevitável, apesar de nada de mais ter acontecido. Butters tirou o café de cima do teclado e fechou o computador, senta-se direito no banco, com os pés tocando o chão. O loiro que agora voltava ao seu impecável moicano, deixou o computador de lado e então tirou os fones quando Kenny sentou-se ao seu lado.

— E aí. — Ele disse ajeitando os fones em cima do laptop fechado. Tomou seu último gole de café e jogou o copo na lixeira ao lado do banco.

— Como está? — Kenny perguntou observando o outro dando de ombros.

— Estou ótimo. — Butters respondeu não muito interessado em conversar. Lembrava-se muito bem, apesar de ter “fumado um”: tinha descaradamente dado em cima de Kenny.

Kenny coçou a cabeça. Tinha pensado muito naquilo mas queria evitar estranhezas quando se encontrassem, ele não sabia muito bem por onde começar, mas era um analítico de primeira. A única diferença é que ele mesmo era quem estava em jogo também. Encarou Butters por alguns segundos procurando em sua mente a melhor maneira de começar uma conversa sem importância, mas percebeu que não iria conseguir aquilo em alguns milésimos de segundo. Se ele não dissesse algo, Butters provavelmente levantaria e iria embora.

— O que foi que houve ontem? — Kenny perguntou cuidadosamente, não tinha certeza se o outro sabia o que tinha feito.

— Qual parte da noite, Kenny? — Butters respirou fundo percebendo que não conseguiria fugir daquilo.

— Sei que está chateado pelo que viu de Cartman e Kyle. — Kenny foi honesto. — Sei que algo aconteceu entre você e o Cartman na escola.

— O que? — Butters arregalou os olhos e não sabia exatamente o que pensar ou se ele estava se referindo ao mesmo que ele estava pensando.

— Butters, qual é. — Kenny disse tentando não forçar a barra mas demonstrando que se tinha uma pessoa em que Butters poderia confiar, era ele mesmo.

O problema é que Butters realmente não gostava de tocar no assunto, não pela mágoa, mas não gostava de dar a Eric Cartman a importância que ele de fato tinha em sua vida e o que representou para sua sexualidade e suas descobertas no passado. Pela forma como lidou com tudo, Cartman não era nem perto da pessoa que deveria tomar créditos por algo tão marcante.

— Bem, isso pouco me importa. — Butters não queria pensar em lidar com aquilo agora. “Maldito Eric Cartman”, pensou. — Já fazem muitos anos, eu nem lembro direito de como eram as coisas naquela época. — Mentiu o estudante de literatura.

— Eu só quero que saiba que não sou exatamente o tipo de cara que serve para substituir Eric Cartman. — Kenny disse quase como se estivesse falando com um paciente. Butters franziu o cenho e olhou pra ele como se não o conhecesse direito.

— “Substituir”? — Ele olhou firme para Kenny que agora estava inseguro sobre dizer aquilo. — Kenny, conhece o Cartman melhor do que eu e, não que isso seja necessariamente um elogio, ele é uma pessoa insubstituível. Ele é muito único.

— Ainda bem eu diria. — Kenny virou-se de frente deixando de encarar Butters, quando viu um moreno alto andando na direção deles. Pela postura determinada e os olhos cerrados pelo vento frio que estava batendo, era impossível não reconhecer Stan Marsh e sua desenvoltura para andar sem ser notado.

Butters pegou seu laptop e os fones de ouvido levantando-se de onde estava, percebendo a real razão pela qual Kenny estava ali e, sem surpresas, não era ele.

— Te vejo segunda na seleção de calouros? — O loiro alto perguntou colocando os fones de ouvido ao redor do pescoço e segurando o laptop de lado.

— Claro, estaremos lá. — Kenny acompanhou o movimento e também levantou-se. Lembrou sobre o voluntariado promovido pela fraternidade que Butters fazia parte, Kelly havia comentado com ele no mesmo dia.

Butters acenou discretamente para Stan quando o garoto se aproximava, correspondido com mais simpatia do que tinha demonstrado — não que Stan fosse de fato de incomodar com aquilo, sentia que não conhecia Butters mais como na época da escola. Perguntou-se por alguns instantes antes de de fato chegar perto de Kenny, se Cartman realmente tinha alguma participação naquela mudança tão brusca.

Foi apenas uma fantasia desesperada,
Que passou como um dia de abril,
Mas um olhar, uma palavra, e os sonhos provocados,
Roubaram o meu coração gentil!
(1984, George Orwell)

To see him walking around with his headphones blaring
(Ver ele andando por aí com os fones no último volume)
Alone in his own zone, cold and he don't care
(Sozinho, na dele, frio e sem se importar)
He's a problem child
(Ele é uma criança problema)

x.x.x

Se tinha uma coisa que Clyde tinha aprendido era conviver com o silêncio excessivo de Craig. Sabia que ele pensava demais, analisava demais e julgava demais, mas raramente ou nunca exteriorizava. Era frustrante, enlouquecedor, fazia as pessoas o encararem por vezes como se pudesse entendê-lo por telepatia ou irritá-lo o suficiente a ponto de fazer com que ele falasse logo o que estava sentindo, pensando, querendo. Mas aquilo nunca foi um problema para Clyde, na verdade, ele aprendeu a assistir Craig, interpretá-lo pelo jeito de andar, pela inquietação na hora de sentar-se e pensou que finalmente fazia sentido de fato que ele fumasse o tanto de cigarros que imaginava que ele tinha passado a fumar por dia.

Mas lá estava ele, um Clyde Donovan perdido, sem saber exatamente por onde começar ou se deveria começar. Sentia que tinha que reaprender a lidar com Craig, só que dessa vez seria mais difícil, afinal, ele não estaria mais tão aberto dessa vez.

— Talvez eu não te conheça tão bem quanto pensava. — Clyde levantou-se de onde estava, observar Craig tocar incessantemente a ponta dos dedos cruzados, encarando os próprios pés, era absolutamente inquietante. — Não imaginei que fosse do tipo que guarda rancor por tanto tempo.

— Não guardo coisa alguma de você, Clyde. — Craig retribuiu o olhar do amigo de um jeito genuinamente indiferente, mas não ofensivo. Clyde dava-se por satisfeito apenas por ter conseguido arrancar alguma coisa que fosse de Tucker. — Isso não é questão de se ter algo mal resolvido. O problema é seu silêncio, sua atitude apática durante todos esses anos e sua volta esperando que tudo volte ao normal.

— E por que você nunca foi a Denver? — Clyde respondeu no mesmo tom, talvez com um pouco mais de indignação do que Craig jamais deixaria demonstrar. — Sequer foi assistir a um jogo, nunca ligou, nunca mandou e-mail... — Donovan fez uma pausa e viu em Craig um olhar confuso que ele deixou escapar. Podia jurar que o amigo sentiu-se, pela primeira vez, pelo menos um pouco culpado. Ele respirou fundo como se tentasse não se exaltar muito, andando de um lado para outro de frente para Craig.

— Aparentemente e inesperadamente é isso que importa pra você, afinal, se foi tudo que Pip teve que fazer pra “te ganhar”, então você realmente não é tão desafiador quanto eu pensava. — Craig mordeu o lábio inferior discretamente como se tivesse deixado aquelas palavras escaparem e transparecer o que ele não queria: que ele estava com um pouco de ciúmes.

Clyde, que sempre foi um pouco zoado na escola por ser devagar nos pensamentos, sorriu de um jeito quase infantil ao ouvir aquilo, diria que até estava orgulhoso de si mesmo por ter conseguido uma percepção mais aguçada do que Craig havia sentido ao dizer aquilo.

— Mas isso pouco importa, Clyde. — Ele deu-se por vencido e levantou-se da arquibancada. — Não tenho problemas com você, estou feliz por sua carreira e por você e Pip. Mas as coisas entre nós não serão como antes.

— Eu não quero que sejam. — Clyde respondeu aproximando-se mais do outro, ficando mais perto do que Craig gostaria que ele estivesse. — Nem podem ser. Mas gostaria que tivesse me contado sobre você e Tweek.

Craig se afastou passando uma das mãos pelo rosto, molhou os lábios ficando de costas para Clyde, era como se não se sentisse mais a vontade de falar sobre aquilo com ele — na verdade, com ninguém. Agora, mais afastado, virou-se novamente de frente para encarar o jogador que ainda esperava uma explicação do porque seu melhor amigo não sabia sobre uma parte importante da vida dele mesmo naquela época.

— Eu sabia o que você sentia. — Craig disse com uma calma que certamente não teria tido há três anos atrás. — Sabia que estava se apaixonando por mim. E não queria te magoar.

— O que? — Clyde ruborizou de um jeito quase imperceptível, mas Craig notou. Ele estava realmente surpreso por ouvir aquilo. — Que merda, Tucker. — Ele concluiu quase num sussurro.

— Eu estava esperando que você falasse alguma coisa! — Craig não conseguiu evitar levantar a voz. — Eu não estava em posição de dizer o que quer que fosse, eu estava esperando você dizer alguma coisa... — Ele queria completar seu pensamento, queria continuar suas conclusões, queria dizer que também havia pensado no fato de que tudo estaria completamente diferente se eles tivessem conversado. — Clyde... — Craig respirou fundo como se tentasse tomar sua postura normal de não fazer com nada despertasse seu interesse. — As coisas aconteceram como deveriam. Acredite, estou feliz por você.

Clyde não respondeu, apenas baixou os olhos resignado, sabia que era ilusão ter qualquer tipo de conversa profunda com Craig àquela altura das coisas. Não se falavam há tanto tempo que ambos, especialmente Clyde, estavam inseguros de dizer como realmente se sentiam ou ressentiam. O jogador pegou a bola laranja de basquete novamente e voltou à quadra onde estava antes de Craig chegar.

— Acho que seria bom começarmos com um mano a mano. — Clyde gritou de longe já quase no centro da quadra, batendo a bola no chão. Craig olhou a cena, balançou a cabeça negativamente sorrindo fraco, olhou o sorriso cada vez mais aberto de Clyde e então era como se tivesse entendido porque Pip tinha caído de amores por ele. Clyde havia se tornado um dos homens mais bonitos que Craig já havia conhecido e, com a mesma intensidade, jamais admitiria aquilo em voz alta.

Dizem que o tempo tudo cura,
Dizem que sempre se pode esquecer,
Mas os sorrisos e lágrimas, anos a fio,
Ainda fazem meu coração sofrer
(George Orwell)

Craig andou até o centro da quadra e, mesmo não jogando muito bem — ele realmente era péssimo naquilo — percebeu que as cestas que fez foram meio que deixadas de propósito por Clyde. Não que o jogador fosse muito melhor do que ele, mas era mais alto, mais ágil e mais forte. Craig era mais magro e, mesmo que fosse alto, não chegou à altura de Clyde. Aos poucos, foram ficando mais à vontade em estarem perto, em tocarem-se por vezes em bloqueios de bola, e realmente aqueles pequenos momentos fizeram a diferença. Clyde viu Craig sorrir mais de uma vez e aquilo foi muito mais recompensador do que deixar ele ganhar o jogo de propósito.

Jogaram por cerca de meia hora, perceberam que estava escurecendo quando olharam o céu em seus tons de laranja e púrpura. Voltaram às arquibancadas transpirando, com as respirações pesadas. Clyde sentia-se bem, já era esportista e estava em forma, mas Craig só não tirou a camisa porque estava frio demais mesmo cansado e com a camiseta e o suéter molhados de suor. Ele riu ao ver Clyde sorrir pra ele novamente, era bom sentir as coisas melhorando entre eles.

— O vencedor escolhe o prêmio? — Craig brincou quase deitando em um dos degraus da arquibancada. Clyde riu ao ouvir aquilo.

— Ótimo. — O jogador do Denver Broncos se aproximou do amigo pensando por alguns segundos. — Você ganha uma pergunta.

Craig levantou-se ajeitando a coluna e realmente pensou que precisava voltar a fazer algum tipo de exercício. Não tinha mais a mesma energia e sentiu-se um pouco culpado por causa do cigarro, precisou respirar fundo várias vezes para conseguir estabilizar sua própria respiração, sentia que o ar não enchia completamente seus pulmões, era horrível.

— Posso perguntar o que eu quiser? — Craig olhou para Clyde de um jeito que fez Donovan repensar se tinha sido uma boa ideia. Aparentemente Craig havia dado um jeito de refletir por um segundo que aquela era uma oportunidade e tanto e, talvez, Clyde não fosse gostar de responder. Mas o que ele tinha a esconder afinal?

— Certo. — O jogador sentou-se de frente para Craig, curioso, mas aparentando uma tranquilidade incomum.

— E não faça essa cara de quem está falando com jornalista. — Craig disse e ouviu uma sonora gargalhada do amigo.

— Não estou! — Ele disse entre risos. — Fala logo!

Craig olhou pra ele tomando mais ar antes de falar. A verdade é que ele queria falar mais sobre eles, queria saber onde poderiam estar, queria saber do que Clyde sentiu na época. Apesar de não ter tido tempo para falar sobre aquilo direito e por saber que o moreno alto provavelmente teria muito a dizer se Craig tivesse tido um pouco mais de paciência e jogo de cintura. Não tinha só uma pergunta, tinha várias. Mas pensou no quão aquilo poderia foder com tudo. Saber envolveria remexer em coisas que Craig sabia que não eram nem de longe uma boa ideia, aquela política do “não pergunte nada que não queira de verdade saber”. A situação de todos não era das melhores, haviam muitas dúvidas e comportamentos estranhos por parte dos garotos — lhe passou pela cabeça por um segundo as atitudes recentes, por exemplo, de Cartman e Kyle. Tinha tantas perguntas que acabou percebendo que só havia um fato a ser aceito e seguir em frente.

— Como você e Pip começaram a namorar? — Craig perguntou com um sorriso conformado. — Foi uma das coisas mais estranhas que já vi acontecer. — Ele acrescentou ouvindo Clyde suspirar e sorrir para si mesmo.

Flashback

Sede do Denver Broncos

Aquela pressão de ser novato e ainda não saber direito como se meteu naquilo ainda faziam parte dos pensamentos de Clyde Donovan. Já fazia uma semana que ele havia se mudado para Denver, alugado um apartamento e, apesar de grande parte da euforia ter dado espaço à responsabilidade, ele ainda não tinha certeza se aquilo daria certo, porque é claro que a insegurança também ocupava significativo espaço ali.

— Clyde Donovan? — Ele ouviu a voz grave do coordenador de publicidade do time de futebol americano que representava o Colorado. — Está pronto?

— Estou. — Ele disse num impulso, na verdade não estava nem perto de estar pronto.

Ele seguiu o coordenador, passando entre várias pessoas e alguns jogadores. Ele estava suando frio, estava nervoso, tinha tantas coisas na cabeça que só se deu conta de que uma luz forte cegou sua visão por alguns segundos. Eram tantos flashs de fotos e jornalistas amontoados à sua frente que era como se ele tivesse sido jogado numa arena com leões.

— Bom dia. — Disse o coordenador com uma entonação de voz simpática e foi então que Clyde percebeu que o treinador, Gary Kubiak, estava logo atrás dele. — Como prometido, estamos gostaríamos que todos dessem as boas vindas ao nosso novo jogador contratado, diretamente de South Park, Clyde Donovan. — Aplausos e muito mais fotos em cima de um garoto que não poderia sentir-se mais deslocado: por um momento ele percebeu que realmente o mundo era maior que South Park.

— Bom dia. — Ele falou rápido demais com medo de gaguejar. — É um prazer estar aqui. — Ele não queria parecer amador, não queria mesmo. Mas estava naquela situação em que todo seu corpo o atrapalhava. Não sabia onde ficar, não sabia o que fazer com os braços. Ficou numa briga interna sobre cruzá-los, e então soltá-los, cruzar os dedos das mãos, colocar as mãos para trás. Nunca antes ele tinha se sentido tão publicamente perdido.

Passou mais da metade daqueles vinte minutos com jornalistas se perguntando porque um dia achou que daria conta daquilo. Os repórteres acabavam tendo que repetir as perguntas até duas vezes porque Clyde mal conseguia prestar atenção quando falavam com ele. Por diversas vezes, o próprio coordenador, entendendo o nervosismo do jogador novato, respondia as perguntas por ele ou até mesmo complementava as respostas. Foram vinte minutos, mas pareceu uma eternidade.

Quando ele finalmente achou que tudo havia terminado, lhe foi informado que ele teria mais duas sessões particulares de entrevistas exclusivas: uma para uma revista de esportes e outra para um canal de TV famoso. Só que, dessa vez, ele estaria sozinho tendo que lidar com as perguntas. A única coisa aliviava era justamente o fato dele ter certeza que ao menos não precisaria enfrentar uma platéia.

Se ao menos Craig estivesse ali...

Craig era definitivamente o melhor apoio que ele poderia ter, mais até do que a presença constante de seus pais, que administravam sua carreira e boa parte do dinheiro que havia recebido pelo contrato com o time. Craig sempre sabia o que dizer, como animá-lo, precisava realmente sentir um abraço seguro de alguém em quem confiava a própria vida.

Ele entrou numa sala preparada especialmente na sede para receber a revista e o canal de TV. Um frio lhe correu a espinha ao se dar conta de que apareceria na televisão. Era tudo, tudo muito estranho e ele mal conseguia suportar. Quando definiu seu objetivo de ser jogador de futebol americano, pensava apenas no jogo, na preparação, nas estratégias, em sua preparação física e apenas focar em resultados em campo. Não tinha lhe passado pela cabeça que a parte publicitária não seria também sua obrigação mas também parte de seu trabalho para com o time.

A sala era um pouco escura, acarpetada e com duas cadeiras confortáveis. Uma mesa de centro com água e um espaço para câmeras e luzes para fotografias. Tinham dado a ele duas camisetas oficiais do time com seu nome já nas costas e ele deveria autografar para dar de presente aos repórteres que viriam. Quase riu quando se deu conta que nunca deu um autógrafo antes e não sabia exatamente o que deveria fazer. Escrever algo ou só assinar? O que ele colocaria? “Clyde” ou “Clyde Donovan”? Ou o que ele deveria fazer? Mandar abraços, beijos, quem sabe uma carinha sorridente? Tinha um pincel atômico azul na mão e não sabia o que fazer.

— Precisa só assinar seu nome. — Uma voz um tanto quanto doce e calma, deixando apenas muito claro o sotaque britânico, lhe chamou atenção porque era, ao mesmo tempo, familiar e distante.

— Pip? — Clyde estranhou a figura magra, quase andrógina, de Phillip Pirrup, com os cabelos loiros longos, quase na altura dos ombros. Muito bem vestido com um cardigã azul e calças sociais pretas. Tinha uma câmera fotográfica pendurada no pescoço.

— Como está, Clyde? — Ele perguntou diante da surpresa do jogador.

— Estou bem. — Ele respondeu incerto e Pip percebeu. — O que faz aqui? Ouvi dizer que terminou o último ano da escola na Suíça.

— Sim. Precisei me afastar de South Park depois que tudo aconteceu. — Ele respondeu com um ar triste. — Fiquei na reabilitação e estudava com uma professora particular. — Ele contava a história de um jeito calmo e conformado, mas deixava um pouco da amargura transparecer. Sentou-se na cadeira de frente para Clyde.

— Sinto muito. — Clyde disse com feições preocupada. — De verdade mesmo.

— Obrigado, mas estou bem agora. — Foi quando ele abriu aquele sorriso que fez Clyde sorrir também. Aquele mostrando os dentes, quase maior do que o rosto do loiro britânico, aquele sorriso que não era apenas na boca, mas nos olhos também. — E vejo que você também está. E é por isso que estou aqui.

— Vai me entrevistar? — Clyde perguntou arqueando uma das sobrancelhas.

— Não. — Pip riu quando respondeu. Apontou para a câmera. — Sou apenas o fotógrafo. Minha namorada é a mais nova estagiária do revista Mile High Sports. — O loiro complementou e Clyde obviamente reconheceu o nome de uma famosa revista de esportes de Denver.

— Que namorada? — Ele perguntou quase debochando. Depois de Damien, ele poderia jurar que Pip gostava de homens apenas.

— Estella. — Pip ficou sem graça já sabendo o que Clyde havia pensado. — Sou bissexual. — Complementou sem constrangimentos.

— Ah. — Clyde franziu o cenho confuso. Esse tipo de informação era demais para a cabeça dele, mas poderia entender perfeitamente essa questão das pessoas amarem quem elas quisessem. Mas lembrava-se de Estella Havisham e ela não era nem de longe a melhor pessoa do mundo. Mas aparentemente Pip tinha algum tipo de “queda” por pessoas dominadoras.

— Olha, sei que está nervoso. — Pip ajeitou-se ficando mais na ponta da cadeira, falando quase num sussurro.

— Dá pra perceber muito, é? — Clyde perguntou torcendo o nariz.

— Dá. — Pip sorriu novamente e Clyde desviou meio que sem querer seus olhos para a boca do loiro. — Mas está tudo bem, ninguém está esperando que você seja impecável, as pessoas tendem a ser compreensivas.

— A imprensa não me parece ser muito compreensiva. — Clyde disse de um jeito engraçado, fazendo uma careta.

— Tem razão, não posso contestar isso. — Pip riu levantando-se da cadeira ao ver a namorada se aproximando. — Mas estou aqui. — Ele finalizou tocando gentilmente no ombro de Clyde. — Sei que seus amigos não estão por perto, mas de qualquer forma espero que possa ajudar de alguma forma sendo um rosto conhecido.

Clyde sorriu ao ouvir aquilo. Foi definitivamente uma das coisas mais legais e sinceras que ele havia ouvido nas últimas semanas.

Fim do flashback

x.x.x

Uma das maiores casas em meio a área nobre de South Park pertencia a Scott Thorn, pai de Damien. Viúvo, ressentido, apagado, insosso, indiferente, mas que pareceu minimamente feliz ao rever Damien de volta em casa. Não que o filho fosse algum exemplo de brilhantismo ou motivo de orgulho para a família, mas só de não estar mais sozinho naquela casa fria, fazia uma diferença mesmo que quase imperceptível na situação de Scott.

Damien detestava seu pai. A verdade é que ele nunca teve a certeza se poderia contar ou não com ele. Achava que, no fundo, o fato de sua mãe ter morrido ao lhe dar a luz, o fazia carregar a culpa de tirar uma vida que seria essencial pra ele e, mesmo que seu pai nunca tivesse lhe dito claramente, sentia que seu pai igualmente o culpava e via em Damien não apenas seu filho, mas a materialização da morte da mulher da sua vida. Especialmente agravado pelo fato de Damien ser extremamente parecido com a mãe.

And what bothers him all comes out, when he talks about
(E o que o incomoda vem a tona quando ele fala)
His fuckin' dad walkin' out
(Sobre seu pai que o abandonou)
'Cause he just hates him so bad that he blocks him out
(Porque ele o odeia tanto que se afasta)

— Damien? — Ele ouviu a voz do pai abrindo a porta de seu quarto. Ele estava de costas, apenas encarando a janela pelo vidro ligeiramente sujo. Não tinha seu olhar fixo em nada, estava apenas imerso em tantos pensamentos que sentia seu cérebro cansado de pensar. Não respondeu, apenas moveu os olhos para a direção de onde o som vinha. — É a segunda vez que venho te chamar, seu oficial da condicional está aqui. Sabe que precisa vê-lo.

O moreno alto respirou fundo impaciente, mas não tinha mesmo escolha. Tentou não olhar para seu pai, mas ele ainda estava parado na porta, ao mesmo tempo que veio chamá-lo, parecia não querer que ele saísse do quarto, pois parecia que estava bloqueando propositalmente a porta. Damien deu alguns passos na direção do homem que tinha a mesma altura do filho e o encarou como se deixasse claro a confusão.

— Vai me deixar passar ou não? — Ele disse com aquele tipo desinteresse na voz, mas seu pai lhe deu uma boa olhada dos pés a cabeça, sem nem precisar dizer uma palavra sobre sua desaprovação sobre o que Damien estava vestindo.

Ele usava um jeans claro que certamente parecia ter ido pra guerra. Daqueles tipos que já estava manchado mesmo, nem era mais problema de estar sujo, nem lavando aquela aparência de empoeirado sairia. A calça arrastava, pois ele a usava com cintura baixa, quase no limite de mostrar as entradas perto do umbigo e alguns pêlos. Tinha as barras desfiadas e eram rasgadas nos joelhos. Ele tinha uma camiseta preta desbotada lisa e um casaco de moletom com capuz verde escuro, com o zíper estragado, alguns fios de linha soltando e já não tinha a mesma grossura de tecido.

Scott era um homem inteligente, entendia de negócios e era formado em economia. Não era a toa que tinha conseguido se manter rico, o que ele considerava o real desafio. Afinal, ficar rico era a parte fácil, manter-se rico já era outra história bem diferente. Apesar de ter um QI acima da média, ser um com consultor de análise econômica e negócios de risco, não conseguia entender o que fazia seu filho continuar se vestindo como um verdadeiro mendigo.

— Eu não sei porque perde seu tempo usando seu “super olhar reprovador de pai”. — Damien dizia de um jeito quase inaudível. — Não vou trocar de roupa. — Ele disse pondo uma das mãos na porta e abrindo-a a força, obrigando o pai a se afastar da fresta onde cabia apenas seu próprio corpo. — Agora me deixe passar. — Ele concluiu passando com o corpo colado em Scott, com aquele típico olhar destemido. Desceu as escadas fazendo mais barulho do que Scott estava acostumado a ouvir naquela casa.

Damien estava com o All Star verde gasto, sujo, daqueles que ninguém tem coragem nem dar para a doação, qualquer um jogaria aquilo direto no lixo. Os cadarços estavam desamarrados e um dia foram brancos. Ele desceu as escadas batendo os pés como se anunciasse que estava chegando, arrumou os cabelos sem notar e o policial Dan Jacobs observava o garoto descendo as escadas com aquele olhar sério, até mesmo um pouco intimidador. Alguns segundos depois, seu pai descia as escadas logo atrás.

— Como está, Damien? — Jacobs perguntou cruzando os braços.

— Estou bem, Jacobs. — Foi a resposta calma do outro, sincera.

— Arrumou emprego? — O policial sabia que não, mas perguntou para relembrar Damien que esta era uma das condições para que ele continuasse em liberdade condicional.

— Ainda não, mas estou procurando. — Ele respondeu sem muito receio. Mas sabia que precisava levar tudo muito a sério.

— Tenho falado com algumas pessoas, senhor Jacobs. — Scott entrou na conversa e Damien revirou os olhos ao ouvir. — Tenho certeza que ainda nessa próxima semana, Damien vai estar trabalhando. Pessoalmente lhe asseguro. — Scott concluiu com a corriqueira arrogância de achar que sua palavra geralmente valia mais que a dos outros.

— Ouvi dizer que estava pela universidade nos últimos dias. — Jacobs franziu o cenho ao dizer aquilo, como se esperasse uma boa explicação para aquilo. Scott compartilhou da mesma expressão.

— Tenho amigos, fui vê-los. — Damien respondeu demonstrando normalidade.

— Está pensando em começar a estudar, meu filho? — Scott perguntou de um jeito mais surpreso do que gostaria, um tom de voz que Damien raramente ou nunca tinha ouvido antes, quase com senso de esperança. Um fiapo, mas estava ali. Damien chegou a virar o rosto inconscientemente para aquele homem como se quisesse ver a expressão em seu olhar, que não conseguia conter que estava surpreendido com a ideia.

Jacobs arqueou as sobrancelhas igualmente surpreso, olhou Damien assim como Scott fazia e o moreno alto, que raramente se constrangia, sentia aqueles pares de olhos julgadores e cheios de expectativas olhando pra ele naquele breve silêncio e então, algo que antes não lhe passava pela cabeça antes,, pareceu uma boa ideia. Ele raciocinava rápido, tudo acontecia numa fração de segundo dentro da sua cabeça. Ele então relaxou os músculos soltando o ar sem nem perceber que havia prendido, abriu um sorriso sem mostrar os dentes e confirmou com a cabeça.

— Estou. — Foi a resposta dele olhando para o pai que agora chegou a parecer orgulhoso. — Pensei que poderia ser uma boa ideia pra provar que sim, sou um homem mudado. — Ele disse sério, mas teve que fazer um certo esforço para não parecer debochado. — Talvez eu melhore a minha imagem diante do promotor.

— Não tenha dúvidas que vai melhorar muito. — Jacobs disse sorrindo satisfeito. — Mas mesmo assim vai precisar do emprego, nem que seja meio período. — Ele advertiu enquanto abria a pequena mochila tirando de dentro um vidro transparente, Damien imediatamente reconheceu como os usados em exames de urina para detectar o uso de drogas ou qualquer outra substância ilícita. — Já sabe o que fazer. — Ele disse entregando o pote para o moreno alto que, resignado, pegou e foi para o banheiro.

Assim que Damien se afastou, acompanhado pelos olhares dos outros dois homens, Scott Thorn se aproximou do policial, que segurava agora alguns papéis e preenchia informações sobre seu encontro até agora. Tinha a ficha de Damien em mãos e, por mais que aquilo fosse algo rotineiro para ele, o pai de Damien achou que jamais se acostumaria a ver fotos de mugshots de Damien.

I guess words are a mothafucka, they can be great
(Acho que palavras é algo foda, elas podem ser ótimas)
Or they can degrade, or even worse they can teach hate
(Ou podem humilhar, ou até pior, podem ensinar a odiar)

Pensamento duplo indica a capacidade de ter na mente,
ao mesmo tempo, duas opiniões contraditórias e aceitar ambas.
(1984, George Orwell)

— O que acha dele, oficial? — Scott perguntou ligeiramente preocupado com a ideia ao dar-se conta de que aquilo na verdade se tratava de uma segunda chance à Damien. — Devo mesmo investir?

— É seu filho, me diga você. — O policial respondeu num tom reflexivo que realmente fez Scott sentir-se culpado.

— Não sei se estou preparado para enfrentar mais uma decepção. — Scott dizia colocando à prova sua própria criação. — Damien é instável, imprevisível. — Ele divagava em pensamentos, coçando a cabeça, incerto.

— Ele viu que os amigos estão todos na faculdade, é claro que deve ter se sentido um pouco pressionado socialmente pelo círculo. — Jacobos explicou. — Eu acho bom que, ao invés dele estar indo atrás de seus velhos amigos, está voltando a andar com seus amigos de infância. Ao menos a faculdade exercerá uma boa influência nele. Claro que ele não pode beber, não pode usar drogas, portanto espero que ao menos ele fique longe de festas.

— Ele vai ficar. — Scott disse num tom repreendedor. — Se ele vai estudar com meu dinheiro, vou exigir retorno.

O policial sorriu entendendo em parte porque Damien era como era. Com um pai daqueles, é normal mesmo se tornar uma criança-problema desde cedo e o resultado é sempre trágico. A conversa apenas parou pois o moreno alto voltava à sala entregando de volta o pote de amostra de testes para o policial.

— Fique longe de problemas. — Ele disse ao colocar o pote com urina dentro de uma saco plástico preto. — Espero não encontrar nada aqui.

Mas Damien apenas sorriu com o canto dos lábios, daquele jeito ambíguo, as pessoas nunca sabiam exatamente o que ele estava querendo dizer com aquela expressão irônica e inocente ao mesmo tempo. Mas não estava provocando, não estava nem pensando em teste nenhum, ele estava limpo de qualquer forma, apenas viu ali que seu pai fora quem tinha lhe dado uma das melhores ideias para voltar a se reaproximar de Pip.