Ten Years Later
13 Sorority
Notas iniciais
CAPÍTULO XIII
Sorority
x.x.x
Wake up kids
(Acordem, crianças)
We've got the dreamers disease
(Nós temos a doença dos sonhadores)
Age 14 we got you down on your knees
(14 anos, deixamos vocês de joelhos)
So polite, you're busy still saying please
(Tão educados, vocês ainda estão ocupados dizendo “por favor”)
Kenny era algum tipo de alma antiga. Fosse pelo fato dele ter vivido muito em tão pouco ou pelo fato dessas vivências serem em sua maioria muito sofridas. Uma coisa ele poderia dizer com segurança: quando você sofre demais na vida, envelhece antes do tempo. E isso poderia não ser claro em sua aparência física extremamente jovial, especialmente quando ele colocava os óculos para ler ou a forma como ainda conseguia se deslumbrar com tudo, nada para ele era muito comum ou normal. Muitas vezes, pegava-se completamente desligado apenas pensando em algo que só fazia sentido pra ele.
Sentado ao lado de Stan, ele teve aquela mesma sensação de quando estavam na última semana do Ensino Médio e estavam, os quatro, sentados no chão do quarto de Stan decidindo o que estudariam o que fariam e como juraram que seria a fase mais importante da vida deles e, apesar de Cartman estar minimamente sociável naquele dia, ainda lembrava de ouvir ele falar sobre festas e sobre o quanto tinha certeza que seria logo o próximo jogador da NBA. O fato é que tudo estava tão diferente de como havia começado, que Kenny não conseguia entender tanta confusão junta em sua cabeça.
Nada estava saindo como o planejado.
— Você não acha que está tudo muito estranho? — Ele começou após um longo silêncio entre ele e Marsh. — Quer dizer... As primeiras semanas já passaram e, sei lá, tem acontecido coisas estranhas.
— Tipo? — Stan concordava, mas não sabia exatamente sobre o que Kenny estava falando. — Cartman e Kyle?
— É! — Kenny riu, gesticulando que concordava. — Está rolando oficialmente alguma coisa? Porque eu sei que pelo menos extra-oficialmente está rolando desde sempre! — Ele riu referindo-se ao comportamento de eterno confronto desnecessário entre Kyle e Cartman.
— Eles estão juntos mesmo. — Stan disse olhando Kenny, que apenas riu murmurando um “eu sabia” em meio a gargalhadas. — Kyle veio falar comigo e é por isso que ele e Cartman não estão aqui nesse final de semana. Cartman chamou ele pra irem pra casa dele.
Kenny fez uma careta engraçada, estava surpreendido de Kyle ter lidado com aquilo sem dramas. Geralmente Kyle era o cara que mais pensava antes de fazer qualquer coisa, especialmente dar um passo tão importante. Por outro lado, sabia que o sentimento de Cartman não era unilateral, mas certamente ele deixava transparecer muito mais.
— Eu percebi mesmo que o Eric estava muito calmo. — Kenny comentou franzindo o cenho. — Isso não é normal. Estava indo às aulas e tinha parado de tentar levar Token para o mau caminho. — O loiro riu fazendo Stan rir também. — Menos uma coisa então.
— O que está te incomodando? — Stan perguntou sentando-se mais a vontade no banco que, há poucos momentos, Butters estava sentado.
— Stan, tem algo errado com o Butters. — Kenny disse pensativo. Stan, que não tinha mais tido tanto contato com o loiro, não saberia dizer a que Kenny se referia. — Ele... me chamou pra sair. — Ele disse e Stan apenas sorriu divertido.
— Aparentemente todo mundo quer se pegar mesmo. — Stan disse mais para si do que para o amigo. — Qual é o problema desse pessoal? Achei que estariam desfilando toda semana com meninas diferentes aqui, mas estão se pegando entre si. — Ele concluiu e Kenny gargalhou. — Se essa praga pega, a Wendy tá ferrada. — O moreno alto rendeu-se ao riso ao ver Kenny divertindo-se, mais tranquilo, muito menos apreensivo do que há alguns minutos.
— Eu só estou preocupado, porque alguma coisa aconteceu com Butters e tenho certeza que Cartman tem a ver com isso. — Kenny, que era subestimado por sua inteligência, mais uma vez surpreendia Stan com essa surpresa sagacidade. Stan nunca tinha pensado muito naquilo, simplesmente achou que Butters tinha uma estrutura familiar muito difícil e sua fase de rebeldia nunca havia passado.
— Sei lá, pode ser. Mas se formos culpar o Eric por todos os traumas do pessoal... — Stan voltou a rir. — Então tá todo mundo fodido mesmo, porque não teve quem passou ileso por ele.
— Incontestável. — Kenny concordou. — Mas acho que agora as coisas vão ser diferentes. Kyle é a melhor coisa que poderia ter acontecido pra aquele gordo escroto. Na verdade, Kyle é até bom demais, Cartman não merece.
— Também não parei de chamar ele de gordo. — Stan disse pensativo e Kenny sorriu pensando mesmo que aquilo nunca iria desaparecer, independente do fato de Eric estar mais em forma que o resto deles. — Enfim, o que disse ao Butters?
— Ele estava muito chapado. — Kenny voltou em pensamento à noite da festa. — E de papo com Damien... Foi estranho.
— Chapado e de papo com Damien? — Stan agora estava preocupado. — Cara, esse Damien... — Ele bufou ao lembrar do sorriso debochado do moreno alto. — Espero que ele fique longe.
— Acho que deveríamos nos reaproximar de Butters. — Kenny recomeçou como se tivesse pensado naquilo de última hora. — Acho que ele está se deixando influenciar por Damien, e você sabe que a única coisa que Damien sabe fazer com maestria é ir lá no fundo da sua alma e usar o que te machuca mais para te manipular. E sempre funciona.
Stan respirou fundo e, pela primeira vez, se deu conta de que ele e Kenny formavam um belo time. Apesar de ter uma afinidade única com Kyle, a sintonia que tinha com Kenny era, ainda que completamente diferente, totalmente cúmplice. Os dois trocaram olhares e Stan concordou com a cabeça.
— Cara, vamos tomar um café. — Kenny disse sentindo o vento bater quando a tarde começou a cair. — Eu pago dessa vez.
— Não me leva a mal, mas eu já passo meio período trabalhando naquele lugar. — Stan já estava cansado só de pensar em ir ao Jolly Rogers fora de seu período de trabalho. — Podemos ir naquela outra cafeteria?
— Claro. — Kenny riu entendendo bem como deveria ser pra ele.
Andaram pela direção oposta de onde ficava o Jolly Rogers e seguiram conversando no caminho até a outra cafeteria do outro lado do campus. Ambos não comentaram o fato, mas era realmente bom poder apreciar um pouco de paz e conversa agradável sem ter Kyle e Cartman por perto discutindo por absolutamente qualquer coisa.
Frienemies, who when you're down
(Amigos/inimigos que quando você está mal)
Ain't your friend
(Não são seus amigos)
Every night we smash their Mercedes-Benz
(Toda noite arrebentamos a Mercedes-Benz deles)
First we run; and then we laugh till we cry
(Primeiro fugimos e então rimos até chorar)
x.x.x
A segunda-feira tinha chegado a todos estavam à rotina, com exceção talvez de Kyle e Cartman, que pareciam ter uma rotina completamente diferente. O grupo em si não entendia muito bem porque Cartman andava suportável naquele dia, mas é claro que Kenny e Stan tinham chegado à uma boa conclusão sobre o que estava acontecendo. A verdade era que Eric tinha menos motivos para estourar, para bancar o idiota, pois não tinha mais qualquer necessidade de chamar atenção de Kyle. Ele já era dele.
Todos tinham ido às aulas na parte da manhã e alguns, como Stan, Kenny e Pip, haviam também tido algumas matérias à tarde. Stan e Kenny tinham algumas matérias juntos e estavam mais próximos do que o normal. Por volta das cinco da tarde, todos estavam reunidos no casarão-sede da fraternidade perto do campus da faculdade de Literatura.
A sala, que há algumas noites, havia sido palco da festa a fantasia, agora amontoava quase os mesmos garotos e algumas garotas. Eles conversavam entre si em pequenos grupos formados de acordo com o círculo de amigos de cada um. Wendy segurava uma prancheta e anotava o nome de todos em uma folha branca, com número de telefone e a qual faculdade pertencia. Ela conversava com Token e Brad naquele momento, pegando os dados deles. Cartman conversava animado com Stan e Clyde, Kenny estava por perto também ao lado de Pip, Craig e Tweek. Kyle, que havia chegado um pouco depois que todos, cochichou algo no ouvido de Cartman e, apesar da cara feia de desaprovação do namorado com o que ele disse, não o impediu de sair à procura de Bebe Stevens.
Cartman o seguiu com os olhos mas sabia que Kyle era sempre potencializado a “fazer a coisa certa” e nada o impediria de ir esclarecer as coisas com uma menina que, basicamente, deixou “pendurada” num assunto mal acabado, numa ligação que nunca fez e se tinha uma coisa que Kyle não era, era o tipo de cara que fazia essas coisas.
— Ei. — O ruivo disse ao tocar no ombro da loira que estava de costas pra ele. Ela conversava com Patty Nelson e Annie Faulk, mas as duas convenientemente saíram de perto ao ver Broflovski se aproximando.
Ela não respondeu, apenas virou-se de frente pra ele e cruzou os braços suspirando, já sabia o que ele diria, já tinha ouvido aquilo tantas vezes de tantos garotos diferentes que era difícil que se abalasse. Nem Clyde havia falado com ela desde sua volta, não estava mesmo esperando muita coisa de ninguém. Sentia-se triste apenas, porque nem que fosse por um segundo, pensou que Kyle não era um daqueles garotos.
— Acho que lhe devo desculpas, Bebe. — O ruivo começou, educado como ninguém, até mesmo doce. Ele realmente sentia-se mal, não estava ali para livrar sua própria consciência de nada.
— Está tudo bem, Kyle. — Ela disse percebendo que ele provavelmente sentia muito de verdade, mas pra ela não faria mais muita diferença.
— Falo sério. — Ele insistiu. — Você é linda e incrível...
— Kyle, pode parar. — Ela interrompeu rindo. — Já ouvi isso milhares de vezes. Já disse que está tudo bem. — Ela preparava-se para voltar para a companhia das amigas em outro canto da sala. — Fique tranquilo.
Kyle não achava que era suficiente o que tinha dito, mas ela não parecia interessada em ouvi-lo já que se afastava dando as costas a ele, que deitou a cabeça de lado de um jeito adorável, genuinamente triste. Kyle não era o tipo de cara que ficava com todas, ele era o típico garoto que gostava de namorar. Era mais parecido com Stan do que com Cartman e Kenny no quesito relacionamento.
Mas diante daquilo, ele não podia fazer nada que não fosse apenas conformar-se com a situação. Sempre tinha uma primeira vez para sentir-se o babaca da história, mesmo que ele não tivesse feito de propósito. Ele andou de volta para onde seus amigos estavam, explicando o que havia acontecido quando fora perguntado, desviando é claro das respostas certas. Stan e Kenny por vezes observavam as reações de Cartman quando Kyle dizia alguma coisa que, pra eles, era extremamente ambígua, cheia de duplo sentido. Craig revirou os olhos mais de uma vez e teve vontade de dizer coisas como “parem com esse teatro ridículo”, mas como sempre, resolveu cuidar da própria vida, especialmente quando olhou de canto vendo Clyde e Tweek conversando.
Do topo da escada, Butters descia com mais quatro amigos, líderes da fraternidade. Os olhares voltaram-se para os cinco garotos que pararam na metade dos degraus, pedindo a atenção de todos. Wendy entregou a lista a Matt, um dos veteranos, enquanto ele passava uma espécie de urna para as mãos de Butters.
— Pessoal, agradecemos por terem vindo. — Matt começou a falar enquanto, aos poucos, fazia-se silêncio. — Como vocês já devem saber, vamos para a Estação de Esqui em Colorado Springs, aquela que vocês provavelmente já conhecem. Nosso trabalho voluntário deste trimestre será com as crianças do Orfanato Snowflake. Vamos levá-las até lá com o ônibus cedido pela prefeitura. — Ele fez uma pausa e outro veterano tomou a palavra.
— Como somos muitos, ficaremos divididos em equipes. — Ele disse e automaticamente Cartman, Kyle, Kenny e Stan se entreolharam. Obviamente Butters percebeu e, mesmo sem que eles o notassem olhando, sorriu de canto tomando a palavra.
— Mas os grupos serão sorteados. — O loiro com o moicano mais alto naquela tarde observou alguns cochichos, alguns não tinham gostado muito da ideia. Especialmente Cartman, que já estava arquitetando sair dali se acabasse no grupo de alguém que não gostasse — e levando em conta o grupo seleto de pessoas que ele realmente gostava, as chances dele continuar ali era baixas.
— Os nomes de vocês estão nessa urna. — Matt recomeçou apontando para a urna nas mãos de Butters. — Seremos quatro equipes com quatro membros cada uma. Seus nomes estão aqui dentro e os líderes das equipes vão tirar um nome por vez. — Matt percebeu o desconforto geral naquele momento. — Pessoal, pensem pelo lado bom, vamos fazer amizades novas, faculdade é pra isso, especialmente para a maioria de vocês que estão chegando agora. Estamos no nosso último ano e podemos garantir que a melhor época pra vocês se conhecerem é agora, pois vão precisar de muitas informações no decorrer dos cursos.
— O que o Butters está fazendo aí, então? — Cartman disse com o típico tom arrogante, atraindo obviamente os olhares de todos, inclusive aquela revirada de olhos básica de Butters.
— Temos sempre um representante dos calouros também. — Um dos veteranos da faculdade de Biologia foi quem respondeu a pergunta.
— Não que alguém te deva algum tipo de satisfação, Eric. — Butters complementou num tom desinteressado. — E pare de interromper. — Cartman o fuzilou com o olhar ao ouvir aquilo.
— Certo, vamos ao que interessa. — Matt tomou a palavra antes que alguma discussão se iniciasse, especialmente porque já tinha ouvido falar da fama de Eric Cartman e não precisou de muito pra descobrir que aquele era exatamente ele. — Os líderes somos eu, Butters, Luke e Trey. Ele apresentou os amigos. Luke era o veterano da faculdade de Biologia e Trey era o mais conhecido entre eles, era o rebatedor do time de beisebol da universidade.
Butters, por estar com a urna em mãos, foi o primeiro a tirar o nome. Ele abriu o papel com um tamanho razoável e mostrou para a pequena plateia, mesmo que somente os que estavam mais a frente pudessem notar, estava claro o nome de Clyde Donovan.
— Clyde. — Butters anunciou pra quem não tinha visto o papel. — Pode ficar aqui atrás. — O moreno alto e forte sorriu de canto e subiu as escadas, ficando atrás de Butters. Olhou para Pip e apenas torceu para que eles ficassem na mesma equipe. Butters, por sua vez, olhou Clyde com um sorriso amigo, gostava do jogador apesar de não serem próximos. O loiro passou a urna para Matt.
— Stan Marsh? — Ele leu o nome antes de mostrar o papel e Stan prontamente imitou o movimento de Clyde subindo as escadas, mas ficando atrás de Matt, que passou a urna para Luke.
— Kenny McCormick. — Ele também leu o papel antes de mostrar e Kenny, tomou o mesmo rumo pela escada. A urna foi para as mãos de Trey.
— Craig Tucker. — Trey disse buscando o garoto com os olhos, Tweek sorriu antes de Craig começar a andar para o lugar que deveria ocupar.
A urna voltou às mãos de Butters e Cartman ficou apreensivo ao ver a expressão do loiro. Ele sorriu nervoso e Clyde, que também viu o nome antes de ser anunciado, sorriu pensando na ironia daquilo.
— Eric Cartman. — Eric mordeu a parte interna da bochecha ao ouvir Butters dizer seu nome. Estava furioso, quase disse que desistiria no momento em que hesitou subir as escadas, mas recebeu um discreto olhar desaprovador de Kyle, então resolveu ceder e andou, sem nenhuma pressa, ao encontro de seu grupo. Consolou-se de ao menos ter Clyde por perto, e não se importaria com Butters se por alguma sorte, Kyle caísse em seu grupo.
— Token Black. — Foi novamente a vez de Matt anunciar.
— Kyle Broflovski. — Foi a vez de Luke acabar com as esperanças de Cartman, que bufou irritado. O ruivo tentou não ver a cena, sabia que Eric tinha ficado frustrado, porque ele também estava. Ao menos estava no mesmo grupo que o Kenny, o que já era bom o suficiente.
— Bradley Biggle. — Trey disse e o garoto loiro, ainda um pouco perdido, seguiu os passos de de seu grupo, ficando perto de Craig.
Quando a urna voltou às mãos de Butters e ele viu de quem se tratava, leu o nome mais de uma vez e achou que aquilo fosse brincadeira. Olhou ao redor antes de dizer e escondeu o papel dos outros dois. Ouviu Cartman reclamar pra que dissesse logo quem era, já que não tinha dado tempo de conseguir ler o nome.
— Damien Thorn? — Butters disse em tom de pergunta e viu, no fundo da sala, quase perto da saída, o olhar convencido de Damien acompanhado de um sorriso pretensioso.
Os olhares estavam fixos no moreno alto que estava mais chamando a atenção por estar bem vestido do que por ser ele de fato. Ninguém estava entendendo muito bem o que estava acontecendo, mas Damien, confiante e sem pressa, parecia aproveitar e se deleitar naquele momento em que ele estava conseguindo ser mais celebridade do que Clyde Donovan.
— Você não estuda aqui, Damien. — Cartman disse sem perceber que aquele era a primeira vez que se viam frente a frente desde que Damien voltara.
— Estou matriculado desde hoje de manhã. — Damien respondeu com a maior paciência do mundo. Clyde estava sem palavras e Pip sentiu o sangue correr frio em suas veias. — E fui gentilmente convidado pelas meninas. — Ele apontou para Patty Nelson e Bebe Stevens, que confirmaram o convite e a matrícula. — Obrigada, lindas. — Ele disse e as garotas riram, Cartman revirou tanto os olhos que quase viu a parte de dentro de seu cérebro. Clyde estava vermelho de raiva, especialmente porque agora Damien estava há poucos centímetros de distância dele, olhando Pip de longe, que apenas desviou o olhar.
— Certo. — Butters disse baixinho, ainda estava tentando assimilar a quantidade extra de testosterona que tinha em seu grupo. Viu Craig segurar o riso, Tweek baixar os olhos, Kenny, Stan e Kyle com olhares preocupados e os veteranos sem entender direito o que estava acontecendo, mas igualmente não muito preocupados. — Matt. — Ele disse diante do silêncio fúnebre que se formou.
— Tweek Tweak. — Matt disse e viu o loiro respirando fundo e buscando seu lugar.
— Phillip Pirrup. — Luke disse e Pip já estava mais do que arrependido de estar ali, mas foi pra onde deveria ir, sem tentar olhar pra ninguém.
O quinto membro do grupo dos veteranos completaria o último integrante do grupo de Trey. Ele se chamava Rob e era conhecido por monitorar aulas na faculdade de Física, Craig o conhecia bem, já tinham tido aulas de exatas juntos.
— Bem, podemos agora nos organizarmos para a viagem amanhã. — Matt recomeçou. — Cada um se reunirá com seu grupo para que nós expliquemos as tarefas e como será a rotina das crianças nesses dois dias em Colorado Springs.
Matt foi seguido por seu grupo até um canto da sala. Ele, Stan, Token e Tweek prestavam atenção nas instruções sobre quais seriam as atividades que fariam e sobre a responsabilidade que teriam. Apesar de terem as responsáveis pelo orfanato junto com todos o tempo inteiro, era importante estar ciente que, por mais que não fossem adolescentes, não eram também os garotos mais maduros do mundo. Eram apenas universitários e, mesmo qualquer coisa que falassem, poderia implicar em responsabilidades para a própria universidade.
— Cada um de nós vai, inclusive, monitorar uma criança específica. — Matt dizia. — Vai ser como se fôssemos a referência para eles, como se os apadrinhássemos por dois dias. — Os outros três garotos pareciam interessados e sentiam-se importantes de certa forma por lhes ser designado tamanha responsabilidade.
— Meu carro está à disposição caso a gente precise. — Tweek acrescentou e os demais concordaram. — De repente alguma emergência, imprevisto, seria legal se quem tem o carro, pudesse levar, e pelas minhas contas... — Ele olhou ao redor checando os grupos. — Ao menos um em cada grupo dirige.
— Boa sugestão, Tweek. — Matt incentivou. — Vou passar a ideia adiante.
A notícia da sugestão não demorou a correr os ouvidos de todos. No grupo de Luke, Kyle, Pip e Kenny, Luke tinha carro e não se importou com a ideia, também levaria o seu. Explicou as regras para todos, falou sobre serem responsáveis por uma das crianças e Kyle era o mais cheio de ideias para brincadeiras na neve, Pip sugeriu que organizasse uma aula simples de desenho e Kenny sugeriu não apenas esquiar, mas também que fossem patinar na neve e, sabendo da situação das crianças, órfãs e provavelmente com alguns traumas de lares desestruturados e, por vezes, até violentos, disse que estaria disposto a conversar com as que precisassem de uma atenção especial. Luke pensou que não poderia mesmo ter mais sorte com o grupo que escolheu.
Trey, por sua vez, tinha Rob, Craig e Brad, que já estavam bolando um quiz de perguntas e respostas, Craig estava quase irreconhecível dando ideias de experiências de química que poderia ensinar as crianças, sabia de várias composições simples que poderiam encantar os olhos de qualquer criança. Brad era o dono do carro e igualmente gostou da ideia de poder dirigir até Colorado Springs. Sugeriu alguns esportes, que não envolviam apenas neve, mas era, dos quatro, o que melhor conhecia a Estação de Esqui, por ter estado lá várias vezes.
Tudo estava fluindo muito bem em todos os grupos, surpreendentemente, pareciam muito engajados. As meninas montaram seu próprio grupo, com Wendy liderando e Bebe Stevens, Patty Nelson e Annie Faulk como membros. Estavam planejando coisas mais específicas para as meninas, como alguns artesanatos para confeccionar bonecas e alguns jogos de tabuleiro também. Eram de longe as mais animadas de todos os alunos.
É, claro, nem tudo estava fluindo como deveria.
Butters olhava para seu grupo e não sabia exatamente o que pensar. Tinha quase certeza que era algum tipo de punição do destino, ter justamente as três pessoas com relacionamentos entre si mais complicados de todo o campus.
Só podia ser castigo. Quais eram as chances daquilo acontecer justo com ele?
Sabia que não teria problemas com Clyde pessoalmente ou até mesmo com Damien. Mas seu sangue fervia ao estar perto de Cartman que, apesar de gostar muito do Clyde, o jogador mal conseguia olhar para Damien sem rosnar. Mas o pior de tudo certamente era a relação extremamente conflituosa entre Damien e Clyde.
— Até parece que vou colocar meu carro à disposição. — Cartman dizia cruzando os braços. — Sem chance. E, mesmo que eu use, até parece que vou andar por aí com Damien dentro.
— Você não tem mesmo essa sorte, Cartman. — Damien riu. Sentia um prazer quase sexual de irritar Eric, que nem olhou pra ele e fingiu que não ouviu a resposta.
— Isso sem falar que agora vão colocar uma criança idiota pra eu tomar conta, é isso? — Cartman continuou, como se estivesse falando apenas com Butters, que suspirava cansado.
— Você está aqui porque quer! — Butters quase gritou. Cartman só não revidou porque não queria dizer que o real motivo de estar ali tinha sido a insistência sem fim de Kyle. — Essas são as regras e é assim que o programa funciona. — O loiro dizia não olhando apenas para Cartman. — Damien, você tem algum problema com alguma coisa?
— Absolutamente nenhum. — O moreno respondeu com um sorriso cínico olhando para Clyde. — Estou feliz em ajudar.
— Tem certeza que vai colocar esse demente perto de crianças? — Clyde dizia falando com Butters.
— Já chega! — Butters disse alto, gesticulando com as mãos. — Dá pra deixar, por dois dias, esses conflitos pessoais de vocês pra lá? Estamos tentando fazer alguma legal pela nossa cidade, pela nossa comunidade. Estamos representando a instituição onde estudamos! — Butters disse e os três finalmente se calaram. — Todo mundo está se dando bem e com ideias fodas, só nós estamos aqui discutindo e não apresentaremos nada! É isso que vocês querem? — Se tinha algo que funcionaria com três brutamontes como eram, era realmente apelar para a competitividade ávida presente nas três personalidades. Butters era esperto o suficiente pra não fazer daquilo um problema, mas sim usar a seu favor. — Nós temos que ser o melhor grupo!
Os três se entreolharam mas permaneceram calados. Cartman ergueu o queixo, respirando fundo, como se quisesse se livrar de todos os seus demônios internos por alguns instantes. Realmente Butters tinha tocado na ferida dele, que era aquela que gritava sempre em seu ego que ele queria ser o melhor, estar entre os melhores e fazer seus objetivos sempre darem certo.
— Clyde pode jogar com as crianças. — Eric disse mais calmo, resignado e tentando se concentrar em boas ideias. — Acho até que você poderia autografar algumas coisas... E poderia pedir pra algum de seus patrocinadores fazer uma doação para o orfanato, porque na real, é isso que eles precisam. Não somente de um final de semana de folga. — Eric surpreendeu Butters com a sugestão. O loiro realmente gostou de ouvir aquilo, assim como Clyde, que já tirava o celular do bolso para ligar para alguma das marcas esportivas que o patrocinavam para ver o que conseguia.
— Vou fazer algumas ligações agora mesmo. — O jogador disse e Butters assentiu com a cabeça.
— Damien, você sabe fazer mágica. — Cartman disse não olhando muito para o moreno alto. — Eu lembro que você fazia o tempo todo na sala de aula no oitavo ano.
— Não são truques sofisticados, mas acho que dá pra impressionar criança. — Ele disse olhando Butters, concordando que era uma boa ideia. — Cartman, você poderia levar seu videogame. Aposto que aquelas crianças nunca nem viram aquilo na vida direito. E você sempre tinha os melhores videogames, não precisa nem ser os mais novos. Qualquer PlayStation vai deixar elas muito satisfeitas. — Cartman balançou a cabeça dizendo sim. — E treinar cestas.
— Será que a universidade libera que levemos algumas bolas? Nem que sejam as mais velhas. — Cartman perguntou olhando de Damien para Butters.
— Podemos tentar. A universidade sempre apoiou a fraternidade, acho que não teríamos problemas. — Butters dizia encarando a própria prancheta de anotações, escrevendo ávido todas as sugestões dadas. — Já volto, vou falar com Matt.
Butters se retirou da varanda onde estavam deixando Clyde ao telefone, animado e tecendo elogios e ideias para promover a marca com aquela ação beneficente. Ele parecia igualmente se comprometer e emprestar a imagem para qualquer propaganda necessárias. Cartman enterrou as mãos nos bolsos olhando de lado Damien acender um cigarro.
— Ainda fuma? — Damien ofereceu ao ver Cartman olhando pra ele.
— Não essa marca vagabunda que é bem coisa sua mesmo. — Desdenhou o jogador de basquete que, no fundo até ficou com vontade, mas não aceitou. A verdade é que Kyle o repreendia por fumar e ele não iria fazer sabendo que o ruivo poderia ver.
— Kyle está lá dentro, nem vai ver. — Damien provocou com aquela habilidade insana de ler as pessoas com facilidade, até mesmo as mais inexpressivas.
— Cuida da sua vida, caralho. — Cartman foi agressivo como já era de se esperar, franziu o cenho e respirou fundo. Só de pensar que que teria que passar dois dias com Thorn, já estava emocionalmente cansado. — E nem pense em fumar essa merda no meu carro. — Ele avisou já dando a entender que tinha mudado de ideia em relação a levar todos em seu Porshe.
— Deu certo. — Clyde reapareceu com um sorriso no rosto, feliz por contribuir de alguma forma.
— Ótimo. — Cartman disse tocando o ombro do amigo. — Preciso fazer revisão no carro antes de irmos. — Eric tirou as chaves do bolso. — Vejo vocês mais tarde. — Ele não exatamente deixou o local, mas não fez muita questão de disfarçar que estava indo ao encontro do grupo de Kyle.
Clyde deu uma olhada de canto para Damien, que definitivamente retribuiu, mas não segurou o olhar muito tempo. Não queria dar aquele gostinho a Damien de ser temido, mas Thorn soube, no momento em que Clyde praticamente correu para onde Pip estava, que sem dúvidas só a presença dele deixava Clyde inseguro. E era tudo que ele precisava.
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