Ten Years Later
17 Who's the bitch?
Notas iniciais
CAPÍTULO XVII
Who’s the bitch?
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A manhã de esquiando tinha sido realmente divertida para as crianças do orfanato, especialmente para aquelas que estavam lá pela primeira vez. Pip mal conseguia esconder a ressaca – física e moral – que sentia naquele momento. Tinha tomado café da manhã com Clyde e a briga, apesar de não ter tomado as proporções que normalmente tomaria, Pip foi honesto e contou o que houve. Clyde, que não gostou nenhum pouco de ouvir que seu namorado tinha saído pra beber sob aquelas circunstâncias e, pior ainda, ter sido socorrido por Damien, mal conseguia esconder o mau humor durante a manhã toda.
Damien, que fazia alguma ideia sobre o que estava acontecendo, resolveu que aquilo seguia mesmo o rumo que ele queria. Não falou com nenhum dos dois, concentrou-se apenas em ficar com Amy, sua apadrinhada do orfanato. Eles estavam mais afastados do grupo e, na terceira vez em que desceram esquiando montanha abaixo, Damien percebeu que realmente estava ofegante e que tinha perdido as contas de quantos anos já haviam se passado desde a última vez que esquiou.
— Nunca veio aqui? — Foi a pergunta de Amy quando os dois, ao pé da montanha, esperavam pelos elevadores que levavam ao topo da montanha novamente. Já se passavam das dez da manhã.
— Já. — Damien respondeu lembrando-se de quando era criança e seu pai o trouxe poucas vezes até ali. Ele gostava muito, mas com o tempo e a falta de interesse de seu pai em sua vida, ele acabou esquecendo o quanto realmente poderia ter se dedicado mais ao esporte. — Mas já faz muito tempo.
— Achei que todos aqui conhecessem o lugar por virem com suas famílias. — Amy dizia distraída olhando ao redor, o movimento de pessoas, alguns colegas passando por eles, como Tweek, Craig e Rob.
— É, minha família não é exatamente muito tradicional. — Damien disse arqueando as sobrancelhas sem muito interesse ou drama no assunto. Aquilo havia parado de afetá-lo com o tempo.
— Bem, ao menos você tem uma. — Ela disse com um sorriso fraco, como se não quisesse demonstrar que aquilo a afetava. Amelia tinha aprendido a construir uma personalidade que a fazia forte, tipicamente consolidada na adolescência, que fingia não ter esperanças e estar acostumadas às tragédias. E Damien percebeu isso, pois havia feito exatamente a mesma coisa.
— Você também tem uma. — Ele disse procurando os olhos dela enquanto apoiava-se em um dos bastões de esqui que enterrava na neve numa parte mais macia do trajeto. — Seus amigos do orfanato, as professoras, a diretora, as coordenadoras que trabalham com vocês... — Ele gesticulava com certa obviedade. — Não diga que não tem família, pois essas pessoas se importam muito com você. E família é isso, pode até ter a ver com biologia, mas acredite... — Ele fez uma pausa lembrando-se dos próprios dramas pessoais, não buscava culpados, mas viu naquele momento que suporte poderia vir de qualquer direção e, algumas vezes, não vinha de pessoas que eram seu sangue. — Família são as pessoas que cuidam de você. E cuidam para que não faça escolhas erradas.
A menina se calou por um momento simplesmente porque não conseguia pensar em nada pra dizer ou reclamar. Damien havia conversado com ela o suficiente para que ela soubesse que não poderia usar a carta “é fácil pra você falar”, já que não era exatamente o caso. Damien tinha um pai rico que não tinha a menor ideia de como lidar com ele e, vendo a personalidade resistente de Amy, por um segundo ficou feliz que, mesmo sem uma estrutura de casal para criá-la, o que ela tinha ali era muito melhor do que o que muita criança tinha. E isso fez Damien repensar por um segundo as escolhas que andava fazendo.
— Vamos? — Ela disse subindo em um dos balanços do elevador que os levaria para o topo da montanha.
Damien sentou-se ao lado dela e o silêncio fez parte por alguns segundos, mas logo ela voltou a falar sobre algum CD novo de uma banda que gostava muito e Damien percebeu que desejou verdadeiramente em seu coração que aquela menina, tão parecida com ele, não fizesse jamais as escolhas que ele fez.
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Na hora do almoço, todos se reuniram em um salão grande na pousada onde as cozinheiras e as coordenadoras do orfanato haviam preparado a refeição com doações da população de South Park – e algumas coisas a mais que os pais de Clyde haviam mandado especialmente para aquele almoço. Gostavam de ajudar, era uma forma de retribuir para a cidade o grande apoio que davam a seu filho.
— E então hoje a tarde vamos ter um quiz. — Alexia dizia sentada ao lado de Butters. A menina conversava com as outras que estavam perto de Kenny e Stan. Kenny estava tão cansado que sentia-se até aliviado pelo garoto que acompanhava estar comendo calmo e em silêncio, ele era de longe um dos mais ativos do local, o loiro estava quase ficando maluco com a energia infinita do menino.
— Está tudo bem com Pip? — Stan perguntou num sussurro para Butters ao ver, de longe, o loiro bocejando várias vezes e tomando seu segundo remédio para dor de cabeça.
— Não. — Butters respondeu como se tivesse sido a pergunta mais idiota do mundo. — Isso é cara de ressaca.
— Pip está passando por um momento complicado. — Kenny respondeu intrometendo-se na conversa.
— Todo mundo tem uma história triste. Ele não é o único. — Butters respondeu com uma falta de empatia incomum. Kenny e Stan trocaram olhares mas não disseram nada.
Fez-se silêncio na mesa por parte dos universitários, mas as crianças continuavam conversando animadamente. Stan buscou Kyle com o olhos e o viu com uma garotinha que gostava de ficar perto da irmã, que estava com Wendy, os dois conversavam enquanto cuidavam da garota. Não viu Cartman, mas viu Dave entrar um pouco atrasado para almoçar, procurando um lugar para sentar.
— Dave. — O moreno alto acenou com a mão para que o garoto sentasse perto de onde eles estavam, e o menino assim o fez, aproximando-se dele, Butters e Kenny. — Onde estavam?
— Estávamos no topo da montanha. — O garoto respondeu tirando os fones de ouvido. Stan reconheceu os fones e o iPod de Cartman. — Eric disse que precisava fazer uma ligação e logo virá.
— Certo. — Stan respondeu e Kenny passou a prestar atenção na conversa. — Como estão as coisas entre vocês? — Stan perguntou enquanto entregava um prato limpo para o garoto servir-se.
— Estão bem. — Ele disse com um sorriso tímido. — Ele vai me ajudar a encontrar meu pai. — Ele disse preparando-se para levantar e Stan estava surpreso em ouvir aquilo. Kenny ajeitou-se em sua cadeira um pouco inquieto.
— Seu pai? — Kenny repetiu tentando não soar tão chocado.
— Sim, me disseram que ele estava na Califórnia. — Dave respondeu levantando-se novamente para pegar seu almoço.
— Tenho certeza que Cartman vai se esforçar. — Stan disse sério e o garoto agora sorriu confiante, andando até a mesa grande com diversos tipos de comida para que as crianças comecem o que gostavam.
Kenny não precisou dizer nada, apenas levantou-se trocando olhares cúmplices com Stan, que já sabia que iria procurá-lo. Não que tenha sido algo estranho Cartman ter tido uma certa conexão com o garoto, afinal, bastava passar cinco minutos perto deles pra saber que era mais parecidos do que admitiriam, mas Kenny teve certeza que Stan pensou a mesma coisa em relação ao fato de Eric oferecer ajuda. Com que meios?
Antes mesmo de Kenny chegar, Cartman chegou a digitar o número decorado duas vezes no smartphone para fazer a ligação, mas não tinha certeza se queria fazer aquilo. Ele andava a passos curtos pelo saguão principal da estação de esqui, sozinho, todos estavam almoçando. Ele olhou novamente para aqueles números e tudo que precisava fazer era apertar o botão verde para completar a ligação. Por fim, olhou para as próprias mãos sem as luvas e percebeu que precisava fazer aquilo.
— Eric? — A voz grave do outro lado da linha, genuinamente surpresa, fez Cartman quase desligar o telefone.
— Eu preciso da sua ajuda. — Ele respondeu seco não de maneira imediata.
— Qualquer coisa que precisar, meu filho. — O homem respondeu e Cartman pode ouvir o barulho de uma porta de carro se fechando, alguém chamando por ele, dizendo que estava na hora e ele apenas respondendo que precisava atender a ligação.
— Se estiver ocupado, não precisa. — Foi a resposta marrenta de Eric, que já estava arrependido inclusive de ter cogitado a ideia de fazer trabalho voluntário.
— Não estou, Eric. — O homem respondeu calmo, não estava em condições de dizer que 'seu filho vinha em primeiro lugar' sendo que esteve ausente por mais de uma década na vida de Eric. — Pode falar, do que precisa?
— Estou com o pessoal da faculdade fazendo um trabalho voluntário. — Cartman respondeu após um suspiro conformado. — É do orfanato de South Park.
— Precisa de dinheiro? — O homem perguntou naturalmente, Cartman revirou os olhos.
— Não. — Ele respondeu segurando o celular com mais força, com raiva. — Eu às vezes esqueço que pra você é tudo que importa.
— Por favor, filho, não vamos começar outra briga. — Ele disse tentando manter o tom mais calmo, mas Eric àquela altura sabia bem a quem tinha puxado o temperamento. — Diga o que precisa, sabe que pode contar comigo.
Eric quase gargalhou, mas resolveu não dizer nada, já tinham tido aquela conversa tantas vezes que havia até perdido o sentido. O próprio Eric naquele momento havia percebido o quanto havia, em pouco tempo, se apegado à causa de Dave: ele jamais ligaria para seu pai pra pedir o que quer que fosse.
— Tá. — Eric disse rindo da situação de “saber que pode contar” com um homem que, até um ano atrás, ele não sabia nem quem era. — Um dos garotos do orfanato diz que seu pai está na Califórnia. Pensei que posso te mandar por e-mail os dados que tenho do cara e você poderia pedir a alguém para encontrá-lo. — Eric resumiu a história porque não queria ficar muito mais tempo falando com aquele homem.
— Vou ver o que posso fazer com meus assessores e aviso. — Ele respondeu quase animado de poder ter mais uma oportunidade de impressionar o próprio filho, que até aquele momento, sequer havia ligado para ele. — Quer passar no meu escritório essa semana?
— Eu tenho aulas, não posso ir, pai. — Eric respondeu sem muito interesse e ainda não tinha se acostumado a chamar aquele homem de pai. — Mas quem sabe no final de semana. — Ele não quis parecer certo daquilo, odiava dar o braço a torcer.
— Tudo bem. Ligue quando quiser, Eric. — Ele disse tentando soar carinhoso mas Cartman não se comovia com aquele tipo de coisa.
— Obrigado pela ajuda. — Cartman disse quase baixando a guarda antes de se despedirem.
Ele desligou a ligação e encarou o celular por alguns segundos. Respirou fundo e passou as mãos repetidas vezes pelos cabelos, antes de girar os calcanhares para ir até o local onde todos estavam fazendo sua refeição, mas paralisado ao dar de cara com um Kenny McCormick e seus olhos azuis arregalados, a boca um pouco aberta e as mãos enterradas no jeans como se tivesse esquecido o que fazer com elas. Não era necessário ser muito esperto para saber o que era bastante provável que ele tinha ouvido parte da conversa.
Cartman, após alguns segundos de susto, voltou a suspirar deixando os ombros lhe caírem mais do que o normal, como se estivesse genuinamente cansado de ter que carregar um certo peso. Ele não queria contar aos amigos, não sentia-se preparado, ele era o tipo de pessoa que só falava em voz alta quando a situação havia deixado de ser um problema. Mas aqueles breves segundos encarando seu amigo de infância que parecia implorar com os olhos por alguma explicação plausível, foram mais do que suficientes para saber que ele, mais do que se tivesse contado antes, iria ter que dar muitas explicações.
— Podemos não fazer isso agora? — Cartman pediu como sempre naquele tom de quem não demonstra ser uma grande coisa, mesmo que a situação se compare ao apocalipse.
— Mas. Que. Porra. Foi. Essa? — Kenny disse as palavras tão pausadamente e tão devagar que quase o fez sentir como se estivesse soletrando. — Desde quando sabe sobre seu pai?
— Kenny, vai à merda. Eu não quero falar sobre isso. — Cartman disse crispando os lábios, chegando mais perto do amigo. — E fala baixo, caralho.
— Eu não acredito que não contou pra gente. — Kenny pôs as mãos no quadril não deixando Eric passar por ele, como se não temesse levar um soco que certamente Cartman não hesitaria em dar.
— Kenny... — Cartman respirou fundo massageando as têmporas. Não queria perder o controle, chamar atenção e tudo ser pior. — Podemos falar sobre isso depois? Quando Kyle e Stan estiverem junto? — Ele perguntou sabendo que Kenny concordaria com aquilo mas, mais do que isso, ele ganharia tempo para saber como abordaria o assunto.
O loiro bonito olhava Cartman nos olhos e percebeu que talvez não fosse exatamente a hora e a melhor forma para abordar aquele homem tão complicado sobre um assunto mais complicado ainda. Kenny não conseguiu deixar de surpreender-se com aquilo e, só pelo fato de Cartman ter guardado um segredo daquele por sabe-se lá quanto tempo, percebeu que aquilo era ainda mais difícil pra ele do que aparentemente parecia. McCormick girou o corpo em frente a porta após ponderar sobre aquilo, deixando espaço para que Eric passasse tentando não parecer abalado com aquilo.
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I like your pants around your feet
(Gosto das suas calças ao redor de seus pés)
And I like the dirt that's on your knees
(Gosto da sujeira nos seus joelhos)
Clyde evitou todo e qualquer pensamento envolvendo Phillip e briga que tiveram pela manhã. Ele sabia e sentia que Damien estava manipulando os dois mesmo que de forma indireta, e conseguia aquilo com uma maestria doentia. Ele olhou de longe para Pip àquela hora da tarde, já sentindo-se claramente melhor, brincar com a menina que apadrinhava – ele a ajudava a montar um quebra-cabeça simples – e resistiu ao fato de que ele estava realmente adorável segurando o ursinho Pooh de pelúcia que provavelmente pertencia a ela.
Buscou Damien com os olhos apenas para ter certeza de que ele não estava ao redor de Phillip ou olhando pra ele, mas não o viu em lugar algum. Ainda queria tirar satisfações com ele em relação ao que havia acontecido na outra noite, sabia que Phillip não havia mentido e Clyde se esforçou para esconder a surpresa da atitude de Damien. Desconfiou que ele estivesse provavelmente planejando algo.
— Oi, Amy. — Clyde perguntou andando entre as pessoas que se organizavam para um quiz presidido por Kyle e Luke. — Onde está Damien?
— Está no salão de festas do hotel onde vocês estão hospedados. — A garota respondeu distraída olhando o papel com as equipes que haviam sido separadas para disputar o quiz sobre conhecimentos gerais preparados para o nível de cada criança. — Foi devolver algumas cadeiras que pegamos para a hora do almoço.
— Entendi. — Clyde respondeu já olhando a saída. — Obrigada, querida. — Ele agradeceu e a menina seguiu seu caminho enquanto que o jogador do Broncos se encaminhou para o hotel, era até bom que Damien estava longe, assim se acontecesse alguma cena, ao menos estaria longe dos olhos das crianças.
O gigante Clyde Donovan andava a passos largos até a lateral do modesto hotel, onde o salão de festas nada glamouroso ficava. A iluminação não era das melhores e as janelas estavam ligeiramente sujas, pareciam mesmo que o local não era muito usado. As paredes pareciam ter sido pintadas originalmente num tom diferente de azul do que era agora. As janelas e as portas tinha soleiras de madeira e uma proteção de grades que, além de desnecessárias, ainda davam um ar mal-cuidado à estrutura. A porta era dupla, pesada e feita de madeira maciça, fez um barulho considerável quando Clyde a deixou bater atrás de si.
And I like the way you still say please
(E eu gosto da forma como ainda diz “por favor”)
While you're looking up at me
(Quando me olha de baixo)
You're like my favorite damn disease
(Você é como minha doença preferida)
Damien estava no fundo da sala sozinho terminando de organizar o que tinha vindo buscar para ajudar na hora do almoço. Ao longe, sorriu de canto para si mesmo ao ver Clyde ajeitando a jaqueta e vindo em direção a ele como um soldado em batalha. Damien soltou a última cadeira e, para encurtar caminho e acabar logo com aquilo, andou na direção de Clyde, fazendo com que os dois se encontrassem quase no fim da sala, numa parte que cheirava a poeira úmida e a iluminação das janelas quase não alcançavam.
Eles se encararam por alguns segundos e Damien não controlou o riso. Era estranho lembrar de Clyde como criança, do quanto era ligeiramente calado, mas sempre muito bonito. Damien não tinha problemas em admitir que Clyde Donovan era um homem absurdamente lindo e, toda vez que deixava sua mente passear daquele jeito, seus olhos entregavam o que ele pensava quando olhava Clyde com mais atenção e cuidado.
Clyde, por sua vez, nunca olhou para Damien daquele jeito, como se reparasse nele até porque, geralmente, era muito difícil desviar daquele sorriso torto e daqueles olhos tão negros que tornava difícil achar onde exatamente se moviam, como se não houvesse pupila. A forma como a franja de Thorn lhe caía sobre a testa e parte dos olhos não cobria totalmente sua sobrancelha grossa, reta, do mesmo tom dos cabelos. Damien Thorn era dono de um nariz fino, um rosto oval e lábios também finos, mas bem desenhados. Ele engoliu a seco diante do silêncio de Clyde e o jogador viu o pomo-de-adão de Damien se remexer em seu pescoço.
— Imagino que Pip tenha contado o que houve. — Damien começou a conversa já sabendo pra que Clyde havia vindo atrás dele. Não achou que Phillip iria esconder, até porque a cara que ele tinha mais cedo entregava mesmo que algo havia acontecido e envolvia bebida.
— Eu estou tão cansado desse seu teatrinho, Damien... Já perdeu a graça. — Clyde se aproximou mais do outro, sem temer coisa alguma, estava realmente farto de todos os joguinhos que Damien tinha começado e estava disposto a dar um fim naquilo.
— Eu não sei do que está falando. — Damien percebeu-se tão perto do outro que involuntariamente passou a língua pelos lábios de um jeito que lembrava uma serpente. E Clyde percebeu.
— Como é? Não sabe? — Clyde riu sem achar graça, coçou o nariz de leve e mordeu o lábio inferior com raiva. — Acha que vai bater uma olhando pra mim e eu não vou ouvir? — Clyde concluiu de maneira agressiva e Damien segurou uma gargalhada. Não estava nem de longe sem graça por aquilo, na realidade, só de Clyde ter feito menção de algo que ele quase havia esquecido, aquela sensação estava de volta e ele conseguia quase sentir seu corpo começando a queimar.
— Você... percebeu? — Damien disse tentando seguir um raciocínio que sabia que Clyde não acompanharia. — E por que não se cobriu de volta? — Damien dizia num sussurro e quase cerrando os olhos, novamente aquela visão da noite passada povoava completamente seus pensamentos. Ele mal sabia explicar porque aquilo havia mexido tanto com ele.
Clyde corou, sentia-se encurralado. Realmente era uma boa pergunta, ele poderia ter se remexido e coberto o próprio corpo se estivesse tão desconfortável ouvindo Damien respirar alto e gemer de um jeito que claramente não estava conseguindo controlar e nem ouvir a si mesmo. Donovan lembrava-se bem que estava paralisado demais para se mexer e igualmente, apesar de não admitir, tinha gostado daquilo de forma absurda. Nem que tivesse sido por alguns minutos, sentiu-se extremamente excitado de ter algum controle sob Damien Thorn.
— Damien, me deixe em paz, certo? — Clyde respirou fundo e não conseguiu sustentar o olhar do outro. — E Pip também.
— Ou o que? — Damien agora deu mais um passo na direção do jogador e sentia com toda certeza que o tinha ganho pelo menos por alguns minutos em que, mesmo sem querer ou calcular, o deixou excitado, com tesão e com suor brotando de sua testa. Clyde havia perdido o ritmo da respiração quando sutilmente, Damien ignorou qualquer outra coisa que ele falasse, e simplesmente tocou o quadril do jogador.
Clyde virou o rosto, mas não se moveu. Não sabia porque estava se deixando levar por aquilo, mas fechou os olhos com raiva quando sentiu Damien respirando perto de seu pescoço percebendo que era tarde demais para repreendê-lo: agora ele já sabia que toda aquela raiva e ódio geraram uma onda enorme de tensão entre eles que parecia que só se aliviaria a hora que ele finalmente pudesse enterrar seu pau dentro de Thorn.
And I love the places that we go
(E amo os lugares que vamos)
And I love the people that you know
(E amo as pessoas que conhece)
And I love the way you can't say no
(E amo o jeito como não consegue dizer não)
Too many long lines in a row
(Longas filas em uma linha)
I love the powder on your nose
(Amo a maquiagem no seu nariz)
Damien, que conseguia sentir o cheiro daquele tipo de ameaça vazia, sem absolutamente nenhuma pressa ou medo de que alguém aparecesse, levou os lábios ao pescoço do jogador e passou a beijá-lo calmamente, como se testasse até onde poderia ir. Colou seu corpo no de Clyde e segurou-o pela cintura e pelo braço, fazendo com que o jogador o abraçasse. A partir daquele momento, Clyde já não estava mais nem cogitando nenhum tipo de resistência e, com uma das mãos, agarrou os cabelos de Damien puxando sua cabeça para trás de uma maneira extremamente agressiva e juntou seus lábios nos dele, beijando-o com força, mordendo e chupando sua língua que passeava da maneira mais travessa e provocante dentro de sua boca.
Clyde tirou a própria jaqueta pesada e em seguida a de Damien, jogando ambas no chão sem o menor cuidado. A essa altura, Clyde já tinha deixado a razão parar de operar seu sistema nervoso e parecia um verdadeiro animal com as mãos em todos os lugares que conseguia alcançar em Damien, apertando sua bunda, sua cintura e segurando-o pelo pescoço várias vezes. Damien, em uma das raras vezes que não conseguia lutar com a força bruta de alguém do tamanho de Clyde, apenas se deixou levar pelo controle que estava exercendo deixando Clyde pensar que tinha algum poder sobre ele.
— Eu sabia que você era uma putinha safada, Clyde. — Damien disse num sussurro perto do ouvido de Clyde quando o jogador tirou a camiseta azul que vestia junto com o suéter branco. Clyde afastou sua boca da pele branca de Thorn e novamente o segurou pelos cabelos puxando sua cabeça para trás.
— Quem é a putinha aqui? — Ele perguntou e, em seguida, espalmou a mão no rosto de Damien dando-lhe um tapa barulhento. — Responde! — Ele exigiu enquanto via Damien sorrir de canto e sentir seu próprio membro pulsando apertado dentro do jeans. Não conseguia pôr em palavras o quanto tinha adorado aquilo.
— Eu. — Damien respondeu fraco, quase tonto de tão excitado. — Eu sou sua putinha, Clyde. — Ele repetiu ao mesmo tempo que Clyde abria as próprias calças e forçava uma das mãos de Damien a tocá-lo enquanto ele abria as calças de Thorn e baixava sem nenhum cuidado até os joelhos.
— Isso. — Clyde disse quando o virou de costas contra uma mesa pesada de madeira arredondada de festas. — De agora em diante, você é isso mesmo. — Clyde tinha tanta luxúria na voz e em seu próprio olhar que Damien nunca antes havia se visto tão submisso e tão excitado.
Clyde abaixou-se tocando a bunda de Damien e mordendo com força. Ouviu um grito abafado, exatamente como queria: ele sabia que deixaria a marca de seus dentes ali. Em seguida, ele abriu as nádegas de Damien e, totalmente sem pudores, enfiou a língua lubrificando sua entrada enquanto Damien não estava mais nem controlando seus próprios gemidos. Esqueceu-se completamente onde estava ao sentir a língua quente do jogador naquela parte de seu corpo. Macia, molhada, como quem sabia exatamente o que estava fazendo.
O jogador levantou-se e, sem o menor cuidado, enterrou deu membro de uma vez dentro do corpo de Damien, que gritou em resposta. Clyde percebeu que aquilo sairia do controle com a maior facilidade com que começara e, por isso, passou um dos braços ao redor do moreno alto e tapou a boca de Damien com certa violência, no mesmo ritmo que movia-se com pressa dentro dele, sentindo-o se abrir cada vez mais e empurrar-se contra ele, quase deitando o corpo na mesa, colocando uma das pernas em cima dela. Clyde, ao ver que Damien estava completamente entregue, soltou a mão da boca dele apenas para ouvir ele gemer mais alto pedindo por mais, mais forte e mais rápido. Clyde sentia que não queria que aquilo terminasse, porque foder Damien daquele jeito com a raiva que sentia dele, era muito mais satisfatório do que ele jamais poderia imaginar.
Damien se contorcia tentando segurar com a mão livre o próprio membro e masturbar-se, mas Clyde segurou seu pulso assim que percebeu, segurando-o nas costas dele, que mal conseguia aguentar aquele homem inteiro dentro dele.
— Não goza, seu filho da puta. — Clyde dizia perto do ouvido de Damien, uma ordem clara. Damien queria obedecer, mas estava difícil pra ele aguentar. — Não goza, sua puta desgraçada! — Ele repetiu sem perceber que cada vez que ele dizia alguma coisa, naquela voz grave e firme perto de seu ouvido, fazia surtir o exato efeito contrário.
And now I know who you are
(E agora sei quem você é)
It wasn't that hard
(Não foi tão difícil)
Just to figure you out
(Foi só entender você)
Não demorou mais que alguns minutos naquele lugar apertado para Clyde gozar com força, como se fosse tudo o que tinha dentro de si. Foi se acalmando conforme percebia que estava mais cansado e tenso antes do que imaginava. Relaxou seus músculos mantendo-se ainda dentro do outro, sentindo o cheiro de sexo, de homem e do shampoo barato nos cabelos finos de Damien. O puxou contra si, fazendo-o desencostar da mesa e tocou seu peito, sua barriga e então tocou no membro rígido e Damien que ainda estava ofegante, dolorido e suando apesar dos graus negativos lá fora.
Clyde, sem muito jeito e sem se preocupar muito, mais tratava Thorn como um pedaço de carne, moldando, jogando, puxando e revirando como bem entendia. Ao contrário do que poderia se esperar, Damien estava se divertindo mais do que já havia se divertido em anos.
Ele virou Damien de frente e, desde que haviam começado aquilo, foi a primeira vez que seus olhos se encontraram. O que não durou muito, pois não havia nada ali, não havia nada entre eles que não fosse puramente físico, não havia troca de sentimentos, não havia emoções e muito menos qualquer traço de romantismo. Ainda assim, Clyde queria fazer aquele homem gozar para, na verdade, satisfazer seu ego diante daquela situação.
O jogador chupou o queixo de Damien, passou a língua por seu pescoço, por seu pomo-de-adão e, sem pressa, circulou seus mamilos, beijando cada centímetro daquele tórax, fazendo mesmo de propósito a demora que estava levando para chegar até onde Damien queria que a boca dele estivesse.
Clyde passou a língua pelo umbigo do outro, descendo a boca pelos pêlos que formavam o caminho interessante até seu membro ereto, até que Clyde segurou com uma das mãos e enfiou na boca com tanta vontade que Damien não tinha certeza se tinha controle sobre seu próprio orgasmo, estava realmente sentindo-se amador justamente naquela arte que sempre achou que dominava qualquer homem ou mulher sob qualquer situação, mas a língua e os lábios macios de Clyde Donovan deslizando em seu membro, chupando-o com vontade, segurando seus quadris e batendo seus testículos no queixo do jogador, o fizeram repensar se ele era mesmo tão controlador quanto pensava.
— Se continuar me chupando assim, vou gozar na sua garganta. — Damien disse de olhos fechados com uma das mãos segurando de leve os cabelos de Clyde.
Mas Clyde não respondeu, afinal de contas, era exatamente aquilo que ele queria e Damien entendeu perfeitamente quando o jogador acelerou o movimento com uma habilidade que Damien jamais pensou que ele teria. Ele gemeu tão alto quando se derramou dentro da boca de Clyde que achou que não conseguiria nunca mais se mexer de onde estava.
I like the freckles on your chest
(Gosto das sardas no seu peito)
And I like the way you like me best
(Gosto de como você gosta mais de mim)
Clyde continuou os movimentos mesmo depois de ter engolido o esperma do outro, como se quisesse ter certeza de que aquilo era tudo. Ele lambeu mais devagar o membro sensível do outro e ouvia sussurros de um Damien implorando pra que ele parasse, pois não conseguia mais aguentar.
Clyde levantou-se, fechou as calças cansado, limpou os cantos da boca e encarou satisfeito um Damien completamente desfalecido, como se mal pudesse aguentar ficar em pé. E aí estava a vulnerabilidade do famoso Damien Thorn, Clyde podia ver naquele momento com clareza enquanto o outro igualmente vestia as calças de volta, fechava o zíper, o botão do jeans e o cinto preto.
O jogador vestiu a camiseta e o suéter, segurou a jaqueta em mãos enquanto observava Damien aos poucos igualmente vestindo-se.
— Precisamos fazer isso mais vezes. — Damien disse, provocando enquanto buscava o restante de suas roupas no chão, um pouco dolorido pelo sexo agressivo.
— Isso nunca mais vai acontecer. — Clyde respondeu calmo. — Espero que agora que você já teve o que claramente queria, me deixe em paz. — O jogador dizia, mas lá estava o sorriso de volta nos lábios de Damien de quem sabia que aquilo só estava começando.
Clyde andou até a porta deixando o outro sozinho, provavelmente iria pro hotel tomar banho, precisava tirar o cheiro de Damien de sua pele pois sentia-se absurdamente sujo, mas em seu íntimo, faria tudo de novo se tivesse a chance.
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