Ten Years Later
18 Unfinished business
CAPÍTULO XVIII
Unfinished business
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Mal chegava as nove horas da noite e Kenny sentia um sono absurdo. O menino de quem ele cuidava estava o deixando maluco, quase o fez repensar na ideia de um dia ser pai. Toda sua energia havia sido sugada e estava mais do que feliz em apenas observá-lo agora com as professoras tomando chá com bolachas. A equipe das crianças que Kyle havia montado tinha sido a vencedora do quiz, mas não haviam presentes. Todos ganharam brinquedos vindos de doações e, mais cedo, Clyde havia conseguido alguns equipamentos esportivos também para as crianças através de seus próprios patrocinadores.
Kenny, Stan e Kyle sentavam ao redor da lareira do saguão da estação e o loiro mal conseguia manter uma conversa sem bocejar. Kyle trocava mensagens de texto com Cartman, que ainda estava voltando das montanhas com Dave. Stan acabava de receber a namorada que, confortavelmente sentava em seu colo dizendo o quanto estava cansada e, apesar de feliz em ajudar, estava louca pra ir pra casa, contente que seria a última noite.
Num canto um pouco mais afastado da multidão, Butters passou por Clyde e Pip indo para seu dormitório. Craig estava louco para fumar um cigarro mas não queria fazer aquilo quando Tweek estava por perto, lhe oferecendo um chocolate quente e contando animado o quanto aquilo estava lhe fazendo bem, aquele contato com as pessoas, especialmente com crianças. Craig, apesar de estar prestando atenção, revezava os olhares de longe para Clyde.
— Pára com esse negócio de tempo, Pip. — Clyde dizia se aproximando mais de Phillip, que respirava fundo. — Eu te amo... Você sabe o quanto eu te amo, por favor, vamos ficar bem.
— Você tem certeza que quer ficar com um cara como eu? — Phillip disse inseguro, mas Clyde só conseguia se apaixonar mais por aquele sotaque britânico que adorava tanto. — Acho que até agora, só provei o quanto tudo é complicado.
— Não fale assim. — Clyde queria desesperadamente tocá-lo, abraçá-lo, mas só conseguiu dar um passo na direção dele ficando ainda mais perto. — Você é maravilhoso, Pip. — Clyde disse olhando nos olhos do loiro, mas Pip baixou a cabeça, deixando alguns fios de cabelo lhe cobrirem os olhos. — Estou falando sério, talvez eu não tenha dito muitas vezes, mas você realmente fez toda a diferença pra mim em Denver. — Clyde discretamente segurou a mão do outro. — Pip, o que eu faria sem você? Eu prometo não me incomodar com Damien mais. — Clyde disse lembrando-se num relance o que tinha acontecido aquele dia entre os dois. Estava certo que não encarava mais Damien como um cara que deveria temer.
— Clyde, eu não quero mais brigar com você. — Pip respondeu jogando a cabeça para o lado a fim de afastar os cabelos. — Estou falando sério, eu não lido bem com isso, não gosto de conflitos. — Pip respondeu num sussurro e, sem conseguir aguentar mais, abraçou o namorado com carinho e Clyde não pode resistir a fazer o mesmo, já que ter aquele corpo frágil de Pip em seus braços era seu ponto fraco quando se tratava de proteção. O loiro deitou a cabeça no peito de Clyde e sentiu uma das mãos acariciando seus cabelos perto da orelha.
— Então estamos numa boa? — Clyde perguntou o segurando mais perto.
— Estamos. — Pip sorriu fraco afastando-se contra a vontade do jogador do Broncos.
— Quando voltarmos para South Park, vamos sair um pouco daquele campus... — Clyde sugeriu colocando as mãos nos bolsos da jaqueta. — Vamos jantar, vamos ficar mais tempo com meus pais...
— Acho ótimo. — Pip abriu um sorriso genuíno, calmo, realmente achando que as coisas estavam voltando ao normal. — Sinto sua falta.
— Também sinto a sua. — Clyde respondeu sussurrando e controlando a vontade de beijá-lo. — E tenho que dizer que você aparentemente será um ótimo pai. — Clyde sorriu fazendo Pip rir baixinho, virando o rosto para encarar Barbara, a garotinha que apadrinhava, enquanto ela comia um biscoito de manteiga dado por uma de suas amiguinhas.
— E você também. — Pip respondeu agora encarando o namorado novamente. — Deve estar adorando ser a celebridade entre essas crianças. — Phillip sentia que as coisas estavam mesmo voltando ao normal entre eles dois.
— Talvez um pouco. — Clyde respondeu fingindo uma cara convencida, mas rindo logo em seguida. — Vem, vamos sentar com eles. — Ele disse tocando o braço de Pip carinhosamente o puxando para segui-lo onde as crianças estavam sentadas após o jantar.
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Do lado de fora, há poucos metros da entrada do saguão principal da estação de esqui, Cartman andava sem pressa ao lado de Dave enquanto o garoto carregava seu par de esquis cedidos pela própria estação, assim como foi dado à todas as crianças. Eric tinha seus próprios esquis, um dos melhores encontrados no mercado, praticamente nível profissional.
— Você namora? — Dave perguntou despretensiosamente enquanto Cartman ajeitava o próprio equipamento nas costas.
— Namoro. — Cartman respondeu sem transformar aquilo numa grande coisa, mas sua hesitação de um segundo praticamente o entregou e Dave apertou os olhos desconfiado.
— Com quem? — O garoto insistiu e Cartman sorriu nervoso. Era a primeira vez que ele realmente estava de fato admitindo para alguém que não era solteiro, que realmente tinha alguém especial. Estava tão acostumado com a presença constante de Kyle em sua vida que não deu-se conta de que agora o título de "amigo" não era mais apropriado.
— O nome dele é Kyle. — Cartman respondeu olhando a expressão de Dave, mas o garoto não expressou nenhum tipo de surpresa ou reprovação. Apenas arqueou as sobrancelhas como se tentasse lembrar onde havia escutado aquele nome.
— Aquele ruivo? — Ele perguntou incerto e Cartman apenas confirmou com a cabeça. — Ah! Sei quem é.
Cartman não disse nada por alguns segundos, apenas observou o garoto olhar para os próprios pés afundando de leve na neve e jogar a franja do cabelo preto para trás. Eric se perguntou por alguns segundos se não haveria julgamentos, até mesmo alguma piadinha, mas nada. O garoto não disse nada e, sinceramente parecia já estar até pensando em outra coisa. Cartman sorriu para si mesmo percebendo que seu medo e autopreconceito fossem único e exclusivamente seus próprios problemas. Ninguém parecia ligar muito com que ele andava transando.
— E você? — Cartman perguntou tentando focar o assunto no garoto.
— Eu o que? — Dave respondeu confirmando o que Cartman já sabia: que ele realmente já estava pensando em outra coisa.
— Está namorando?
— Eu? Não. — Dave respondeu um pouco inseguro. — Tem essa menina que eu gosto, lá da escola, mas... — Ele começou a contar mas parou como se tivesse se arrependido de mencionar. Chegaram à uma pequena sala com vários equipamentos de esqui para alugar onde Dave iria devolver o que tinha usado.
— Mas o que? — Cartman perguntou segurando a porta para que ele passasse com toda aquela tralha envolvendo esquis, bastões e capacete.
— Bom, ela é bonita e muito legal... — Ele dizia um pouco tímido, mas não querendo se abrir muito. Eric estava realmente curioso, mas não queria pressionar. Não era exatamente fácil um garoto de 14 anos confessar que estava atraído por uma garota que, aparentemente, não o correspondia. — Mas ela está sempre cercada de outros garotos... — Ele disse assumindo um olhar mais triste mas não querendo demonstrar muito.
— E daí? — Cartman disse tocando o ombro do garoto gentilmente quando eles saíram. — Mostra pra ela que você é o cara pra ela. — Cartman dizia como se sua própria autoconfiança fosse algo fácil de se encontrar em qualquer pessoa.
— Não acho que você entenda como é não se sentir bom o suficiente para alguém. — Dave disse fechando a porta quando os dois saíram do local. Por um segundo aquilo Fez Cartman pensar no que aquilo realmente significava.
É claro que ele sabia como era aquilo, a diferença é que ele sabia exatamente como não demonstrar ou até mesmo canalizar as coisas pro lado errado – geralmente o lado agressivo. Ele sabia sim, muito bem inclusive, como era não se sentir com o suficiente para ficar com alguém e ouvir isso das pessoas constantemente, já que ele tinha um temperamento e uma personalidade que poucas pessoas eram capaz de suportar, especialmente alguém dono de uma doçura e de um senso de ética como tinha Kyle Broflovski. A verdade é que na vida de Eric, sua sexualidade não havia sido um grande problema, ele não se importava com o fato de que gostava de garotos assim como gostava de meninas, mas quando se tratava de Kyle, ele tinha uma necessidade quase insana de ser perfeito pra ele e, apesar disso jamais ter passado pela cabeça do ruivo judeu, Cartman entendia o poder que Kyle tinha de mexer com sua própria autoestima.
— Eu acho que entendo sim. — Cartman respondeu andando lado a lado com o garoto. — Mas não deixe sua mente pregar peças em você. — Ele disse num tom mais filosófico e o garoto apenas riu colocando as mãos nos bolsos para protegê-las do frio. — Você é um garoto foda.
— Como conheceu o Kyle? — Dave perguntou abrindo a porta do saguão principal da estação para juntar-se a todos os outros. Cartman o acompanhou abrindo um sorriso e procurando Kyle com os olhos.
— Digamos que eu não tenha nenhuma lembrança na vida que não envolva aqueles três ali. — Eric disse olhando para os três amigos perto da lareira, que não o viram entrar. Kenny estava quase dormindo sentado no chão, aos pés de Stan e Wendy, que riam de alguma coisa que Kyle contava animado, provavelmente sobre o quiz daquela tarde.
— São amigos de infância? — Dave perguntou seguindo os olhos de Cartman para ver de quem ele especificamente falava.
— Stan e Kenny se conheciam desde bebês praticamente. — Cartman começou dizendo puxando pela memória o pouco que lembrava de quando era criança. — O pai de Kenny era um dos melhores amigos do pai de Stan, eles eram escoteiros quando crianças. Então Kenny e Stan sempre conheceram. Alguns anos depois, Kyle mudou de casa e passou a ser vizinho do Stan e então se tornaram melhores amigos. Eu os conheci no primeiro dia de aula, quando tínhamos cinco anos. — Eric puxou o garoto pelo ombro fazendo-o acompanhar até onde seus amigos estavam.
Os dois chegaram mais perto e então foram vistos por todos. Kenny despertou ligeiramente e levantou-se do chão. Queria falar com Cartman sobre o que ouvira naquele dia, mas estava tão cansado que iria para seu quarto de hotel dormir. Wendy não suportava estar no mesmo ambiente que Cartman e não eram raras as vezes que saía quando ele chegava. Ela beijou Stan e, sem olhar Eric, foi em busca das amigas. Cartman há muito havia parado de se importar com aquilo.
Kyle sorriu aberto e abraçou o namorado olhando para Dave em seguida.
— Dave, esse é Kyle... — Cartman disse fazendo uma pausa para sorrir claramente envergonhado antes de continuar. — Meu namorado. — Kyle quase gargalhou, mas se conteve.
— E aí, Dave. — Kyle disse cumprimentando o garoto com um aperto de mão não muito convencional, era naquele estilo queda-de-braço.
— Oi, cara. — O garoto respondeu simpático, com um sorriso contido. — Eric, vou pegar chocolate quente. — Ele avisou e olhou uma última vez para Kyle antes de rumar até as mesas com vários tipos de bebidas e comidas.
Eric o observou com os olhos e Kyle observou Cartman. Era quase inacreditável o que ele via em Cartman quando ele tinha aquele olhar vigia, quae protetor em cima do garoto que tinha quase a altura dele. Cartman nunca teve irmãos, não sabia como era a sensação especialmente se fosse um irmão mais novo. Ter irmãos era um tipo de dinâmica difícil de ser explicada, é coisa de pele, de tato, de vivenciar aquilo. Não que ele fosse pensar muito sobre aquilo, mas talvez entendesse como Kyle e Ike funcionavam naquele momento. Ou como Shelly, que ligava para Stan praticamente toda a semana somente para saber como estava, ou ainda da união incompreensível criada pelos irmãos McCormick por terem pais tão irresponsáveis.
— Senti sua falta. — Kyle disse sorrindo tímido, chegando mais perto do outro para receber um carinho no queixo. — Se divertiu?
— Dave mais quis conversar do que esquiar. — Cartman respondeu abraçando o namorado pelo ombro fixando os olhos na lareira acesa.
— Como ele está? — Stan perguntou ouvindo o comentário.
— Está bem, está diferente. — Cartman respondeu pensativo, novamente olhando o menino de longe. — Tem conversado, dito como se sente...
— Massa o que você tá fazendo, Cartman. — Kenny tocou o ombro de Eric trocando olhares cúmplices com ele de quem realmente sabia mais que os outros o que ele estava fazendo.
Eric não respondeu, apenas olhou Kenny mais alguns segundos e, mesmo sabendo que ele tentava demonstrar que compreendia, parecia desesperadamente preocupado em demonstrar que todos estavam ali pra ele e queria que ele soubesse que poderia contar com seus amigos. Não que Cartman precisasse que dissessem aquilo, ele sabia desde os cinco anos, quando entrou na sala de aula no primeiro dia e todos se ofereceram para dividir brinquedos com ele.
— Posso falar com vocês? — Eric disse olhando para os três homens à sua volta. Ele massageou as têmporas e mordeu a parte interna na bochecha.
— O que você fez, Cartman? — Stan perguntou com naturalidade, vencido pela experiência de saber que não se poderia muitas coisas boas vindas daquele homem com as pontas dos cabelos castanhos um pouco mais escuras por estarem molhadas pela neve que derreteu.
— Nada, Marsh. — Ele quase se defendeu, Kyle riu divertido e Kenny sorriu de canto baixando os olhos. — Idiota.
— Vamos lá pro bar do hotel. — Kenny sugeriu assim que todos se espalharam para se despedirem das crianças e das professoras, que se encarregariam de levar as crianças para a cama.
Ainda ficaram conversando por mais alguns minutos com as crianças até irem em grupos diferentes até o bar; Cartman foi com Kyle e Kenny os seguiu alguns minutos depois. Stan ainda ficou falando com Wendy por mais alguns minutos antes de seguir o caminho dos amigos.
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— Amy, acho que você deveria ir dormir. — Damien dizia para a garota com os cabelos quase cobrindo o rosto completamente. Ele carinhosamente afastou uma mecha colocando atrás da orelha. Já conversavam por horas durante o jantar e a ceia.
Ela não respondeu, apenas encarou o garoto por mais alguns segundos tentando disfarçar o olhar triste. Damien, que há tempos havia parado de se importar em como as pessoas se sentiam e focar apenas no que ele queria e achava que precisava, não era de perguntar coisas como "o que houve?" ou "por que está assim?", ele não achava justo perguntar quando não poderia se importar menos com a resposta. Era parte da essência dele e tinha aprendido a cuidar apenas de si mesmo, mas por alguma razão, aquela menina era diferente. Ele realmente queria saber o que havia de errado com aquele olhar distante.
— O que foi? — Ele perguntou quase num sussurro, em segredo sentado ao lado dela, apenas esperando que ela tirasse os olhos da janela e olhasse de volta pra ele. — Conversa comigo. — Ele insistiu mostrando-se desarmado. Tinha realmente se afeiçoado à menina.
— Nada, Damien. — Ela respondeu realmente não querendo ceder àquela conversa. A última coisa que ela precisava era mais alguém sentindo pena da órfã.
— Amy... — Damien recomeçou a falar no segundo que sentiu que era bastante provável que a menina levantasse dali. Ele tinha um tom compreensivo, fraternal. — Quero que saiba que você não é meu projeto social de final de semana. — Thorn praticamente adivinhou qual era o problema da garota só de vê-la tão incomodada. — Pode contar comigo, pode me ligar quando precisar de algo, vou estar na universidade. — Ele dizia e, aos poucos, a menina ia virando-se na direção dele para finalmente encará-lo. — Vou estar por perto. — Ele finalizou tocando o ombro dela e então sentiu a menina abraçá-lo de um jeito tímido.
Ele poderia ter certeza certeza absoluta que a última pessoa que o abraçou carinhosamente daquele jeito tinha sido Pip. Há tempos não sentia aquele calor, aquele pedido desesperado por proteção num abraço que, aos poucos, ia se tornando apertado.
— Quer que eu te leve dormir? — Ele perguntou mal acreditando que estava mesmo se voluntariando para fazer aquilo. Ela não respondeu verbalmente, apenas disse que "sim" com a cabeça.
Damien levantou-se abraçado com ela e então perguntou à diretora do orfanato se estava tudo bem que ele a levasse pra cama, ela abraçava Damien pela cintura com tanta força que realmente fez aquele homem acreditar que nada a faria soltá-lo. A diretora respondeu que não via problemas, mas que ele não deveria demorar. A menina sorriu sem mostrar os dentes e enterrou a cabeça na barriga de Damien, na altura do estômago.
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Os quatro amigos estavam sentados numa mesa ao fundo do bar do hotel onde estavam hospedados e riam de algo que Stan contava sobre algumas das crianças que, naquele dia, estavam esquiando pela primeira vez. Kenny havia dispersado de leve seu sono enquanto tomava goles grandes de água em uma garrafa mineral. Kyle estava muito bem protegido embaixo de um dos braços de Eric Cartman ao seu lado e, embora estivesse prestando atenção na conversa, achou que poderia facilmente dormir ali mesmo, deitado no ombro do namorado e sentindo o cheiro de seus cabelos.
Quando o silêncio das risadas cessaram-se, Stan olhou para o relógio vendo que já era quase dez da noite. Não queria apressar o assunto, mas estava curioso, assim como Kyle. Apesar do ruivo estar mais interessado em claramente acariciar a barriga do namorado e Kenny, com um certo olhar apreensivo, tinha a sensação de que Eric estava enrolando pra realmente dizer porque estavam ali.
— Anda logo, Cartman. — Stan disse assim que o silêncio se prolongou. Kenny olhou para Cartman, que parecia já ter se arrependido de ter "convocado" aquela pequena reunião. Kyle permaneceu em seu lugar, apenas ergueu o queixo para ouvir o que o namorado aparentemente estava prestes a dizer. — Por que estamos aqui?
Eric respirou fundo lentamente, não achou que aquilo seria tão difícil quanto estava parecendo. Falar de seu pai já era uma parte naturalmente sensível de sua vida – que ele odiava verbalizar. Mas chegar ao ponto de fato de contar a história não tão longa sobre como sua vida havia mudado há alguns meses – ao menos relativo a esse aspecto – era um pouco mais difícil do que ele pensava. Tinha ao seu redor naquela noite, as três pessoas mais importantes de sua vida; ele não dizia aquilo com tanta frequência, mas era possível que desse sua vida por cada um daqueles três pares de olhos que o cercavam curiosos. Eric Cartman amava seus amigos com tanta intensidade, que sabia que estava fazendo a coisa certa ao dividir aquilo com eles.
— Encontrei meu pai. — Ele disse após uma longa pausa. Os três paralisaram nos primeiros segundos. Kenny trocou um olhar compreensivo com Cartman e passou a observar as reações dos outros dois. Levou um tempo até que Stan processasse e Kyle tivesse certeza que não ouviu errado.
Stan Marsh piscou algumas vezes, como se quisesse ter a certeza que não estava sonhando ou imaginando algo daquela natureza. A cada piscada, pensava que acordaria deitado em sua cama. Mas a única coisa que ele via era o Eric Cartman mais vulnerável de toda a sua vida, baixando os olhos no momento em que Kyle saiu do seu abraço e passou a encará-lo com uma expressão de choque, surpresa e preocupação.
— Como é que é? — O ruivo disse percebendo o quão sério aquilo era.
— Como descobriu? Quando foi isso? — Era inevitável que Stan Marsh fosse aquele que o questionasse porque simplesmente não conseguia raciocinar rápido o suficiente para entender o quanto aquilo afetava a vida de Eric.
— Antes das aulas começarem, eu tive uma conversa com minha mãe, e ela finalmente abriu o jogo e me contou. — Cartman começou ainda não querendo encarar os amigos propriamente. Ele olhava para as próprias mãos em seu colo. Sentia apenas Kyle o tocando no ombro e Stan remexendo-se na cadeira de couro velho, fazendo barulho como se deixasse claro o quão desconfortável estava, apesar daquilo não estar relacionado ao móvel em si.
— Quem é ele? — Kyle perguntou baixinho, perto do ouvido do moreno alto, como se testasse o fato de poder perguntar algo ou não.
— A parte curiosa é que tudo começou justamente porque eu queria saber de onde o"Theodore" do meu nome tinha saído. — Cartman continuou como se aquilo fosse uma espécie de maldição que o perseguiu. — Theodore Dixon. — Ele concluiu e, novamente, tinha três pares de olhos arregalados à sua frente.
— O senador? — Kenny disse quase vomitando as palavras. — Seu pai é a porra do senador Dixon? — Kenny, que antes mal podia aguentar o cansaço e sono em seu corpo, agora não podia sequer pensar em dormir.
— É bizarro o quanto isso explica muita coisa. — Stan disse não aguentando o riso nervoso que sustentava agora.
— Eric... — Kyle estava chegando tão perto que quase estava sentado no colo do namorado. — Como se sente?
— Ele é um escroto como todo mundo sabe. — Cartman não estava abalado com o fato de quem seu pai era e muito menos com o fato dele ser considerado mesmo um político corrupto. Era óbvio que aquele homem tinha muito dinheiro e não foi difícil para os amigos perceberem o motivo pelo qual ele nunca havia procurado Cartman antes. Era bastante provável que tivesse a ver com sua carreira política.
— Ele sabe de você? — Stan perguntou ajeitando-se na sua cadeira ao lado do Kenny, que colocou a garrafa de água na mesa de centro que separava os quatro em duplas.
— Sabe. — Eric finalmente ergueu a cabeça para encarar os amigos. — Eu fui a Washington e ele me recebeu.
— Você disse que tinha ido passar a última semana de férias em Vegas. — Stan disse lembrando-se que de fato Eric havia ido viajar antes de iniciar o semestre. — Por que mentiu pra gente?
— Caso você não tenha percebido, não é lá um assunto que eu gosto de falar, Marsh. — Cartman respondeu com obviedade, mas desnecessariamente agressivo.
— Só estou dizendo que não precisava ter escondido da gente. — Stan disse como se aquilo fosse igualmente óbvio. Sentiu o toque da mão de Kenny em seu braço, como se dissesse a ele que não era a melhor hora para fazer cobranças naquele sentido.
— Cartman, leve o tempo que precisar. — Kenny disse entendendo a intensidade da situação. — Converse conosco quando estiver pronto.
— Ele te tratou bem, Eric? — Kyle estava mais preocupado em saber o quanto a nova figura paternal seria responsável dali em diante em relação a como Cartman se comportaria. Era uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo que poderia ajudá-lo absolutamente, poderia igualmente ser uma bomba capaz de terminar de estragar tudo que Cartman já tinha de errado.
— Tudo bem, certo. — Cartman ajeitou-se na cadeira onde estava. — Se vamos falar sobre isso, então eu tentarei ser breve em contar o que aconteceu. — Ele concluiu e os amigos agora pareciam ainda mais atentos.
Flashback
Cartman encarava a página aberta do site da Universidade de South Park e não sabia direito por onde começar. Ele tinha seu e-mail aberto e uma carta que havia chegado pelo correio há cerca de um mês. Carta essa que tinha certeza que sua mãe provavelmente emolduraria assim que ele saísse de casa. Era um símbolo grande de orgulho pra ela e significava muito mais do que ele poderia entender. A relembrava que absolutamente tudo que ela fez valeu a pena.
Liane estava encostada na soleira da porta da cozinha observando seu filho sentado na em uma das cadeiras na ponta da mesa olhando fixo a tela do laptop, que iluminava seu rosto conforme ele passava as páginas digitando algumas vezes. Ele tinha o cenho franzido e Liane sentiu um arrepio ao ver aquilo, como se estivesse vendo um fantasma.
— Mãe. — Ele disse sem tirar os olhos do computador. — Qual o número do meu seguro social? — Ele perguntou com as mãos pousadas no teclado, como se esperasse que ela ditasse os números para ele.
— Está no seu passaporte, Eric. — Ela respondeu calmamente, com um sorriso quase imperceptível nos lábios.
— Eu sei, mas eu estou com preguiça de levantar para buscar. — Ele disse abrindo um sorriso infantil engraçado, fazendo sua mãe sorrir também.
— Eric Theodore... Levante-se e vá buscar. — Ela disse sentando-se na cadeira ao lado dele.
— Tá, vou pular essa parte. Preencho depois. — Ele disse fazendo jus à sua malcriação de estar realmente acostumado que sua mãe sempre fizesse tudo pra ele.
Ele ouviu a mãe rir balançando a cabeça negativamente e, instintivamente olhou pra ela ao seu lado, com aquela doçura habitual, de uma mulher que não perdia a compostura facilmente e era um dos seres humanos mais tolerantes que Eric já havia conhecido. O fez pensar por um momento porque ele não tinha algumas características de uma personalidade tão fácil de lidar.
— Por que o "Theodore"? — Ele perguntou ao sentir uma das mãos dela acariciando seu braço. — Sempre me chama de “Eric Theodore”.
Ela olhou pra ele e, por alguns segundos, perguntou-se se iria um dia se arrepender de ter dito aquilo. Mas era como se o momento de tê-lo ali, começando sua vida profissional, indo morar sozinho no campus, era seu teste pessoal para saber se sua criação havia dado certo. Ela nunca teve a oportunidade de colocar à prova se tudo que fez e continuaria fazendo por Eric era mesmo eficaz e iria transformá-lo num homem que muito em breve, seria mesmo capaz de andar com as próprias pernas.
"Se ele ao menos soubesse o que está perdendo." Ela pensou relembrando seu passado, há vinte anos atrás, quando viu-se grávida e absolutamente sozinha.
— Seu pai. — Ela disse após um suspiro longo e o olhar curioso do filho. Era uma experiência única ouvir sua mãe falar daquela forma, já que ela se recusava absolutamente a falar daquele assunto. Teve brigas com Eric durante a adolescência inteira dele por causa da curiosidade do filho, mas ela nunca queria falar a respeito, sempre dizia que não era hora deles terem aquela conversa. Devido à atual circunstância, ela acabou percebendo que era sim hora de ele saber. — Seu pai se chama Theodore.
Ela concluiu de forma pacífica e com uma certa expectativa no olhar, mas Eric apenas a encarava inexpressivo. Na realidade, ele tinha uma mistura de sentimentos e mágoas que não sabia por quais delas deveria começar a sentir. Ele fechou o laptop empurrando-o um pouco mais longe dele em cima da mesa. Num piscar de olhos, seu foco passou de seu futuro e faculdade, para seu passado nebuloso e conflitante.
Ele tinha uma das sensações que mais detestava: assuntos inacabados. E aquilo significava ir lá no fundo da sua alma, resgatar aquela ferida esquecida, abrí-la novamente sabendo que iria doer. E não seria pouco.
— Theodore o que? — Eric perguntou com a mesma cautela que sempre teve ao tocar no assunto com a mãe ao passar dos anos. Ele desviou os olhos dela e passou a encarar seu próprios pés, que calçavam um Adidas branco extremamente sujo.
— Seu pai é o senador Theodore Dixon. — Ela disse o nome dele no tom que ele merecia: com estranheza. Sem familiaridade. A mesma sensação que teve quando o ouviu dizer que a decisão de manter aquele bebê era dela, mas ele não poderia se expôr para a família que já tinha e muito menos jogar pro alto seu futuro na política: a coisa mais importante pra ele naquela época.
Cartman levantou-se de onde estava como se não encontrasse uma posição confortável para estar. Tocou o telefone em seu bolso e pensou em ligar para Kenny – que era de fato a pessoa com quem ele mais sentia-se confortável para falar de coisas que envolviam uma certa vulnerabilidade, pois se tinha alguém que entendia o sentimento de nunca sentir-se bom o suficiente era Kenny McCormick.
— Ele sabe de mim? — Era natural que ele quisesse saber e sua mãe já estava preparada para as perguntas. Desde que Eric havia recebido a carta de admissão na universidade, ela passou a cogitar contar a verdade a ele. Não seria fácil, pois conhecia aquele homem melhor do que qualquer pessoa sonharia em conhecer.
— Sabe. — Ela levantou-se e foi de encontro ao filho, tocando seus ombros quando ele deu as costas à ela. — Eric, não quero mais esconder nada de você. Mas quero também advertir que a verdade não é bonita. — Ela foi honesta e já tinha lágrimas nos olhos. — Ele era casado, já tinha uma filha pequena e estava começando na política... — Ela não queria justificar o senador, mas independente de qualquer coisa, não queria que o filho o odiasse, apesar de ter plena noção de que aquele homem não merecia igualmente qualquer coisa positiva vinda de Eric. Ela conhecia o filho bem o suficiente para saber que, se Theodore quisesse fazer parte da vida de Eric de alguma forma, iria passar por provações muito maiores do que qualquer política seria capaz de dar a ele.
Estava para conhecer ser humano mais difícil de lidar que seu próprio filho.
— Ele manda dinheiro? Ele ajuda a senhora, mãe? — Eric virou-se para a mãe e tinha as mãos no quadril, tentando transformar aquilo numa conversa casual.
— É claro que sim. — Ela respondeu sabendo que o filho entendia melhor agora de onde suas roupas e brinquedos caros vinham. — Ele sempre ajudou financeiramente, isso foi algo que ele se comprometeu comigo, já que não podia ter uma relação com você. Ele abriu uma poupança quando você nasceu e, agora, é o que pagará sua faculdade.
— Mãe... — Cartman massageou as têmporas como se mal pudesse aguentar ouvir aquilo. Não conseguia engolir a ideia de que tinha qualquer coisa, o que quer que fosse, vinda daquele homem.
— Eric, por favor. — Ela limpou uma das lágrimas que caíram molhando seu rosto. — Por favor, filho, não odeie seu pai. — Liane tinha um coração tão bondoso que, mesmo sabendo que dinheiro não era o mais importante para ajudá-la a criar aquele menino. — Ele é seu pai e nada vai mudar isso.
— Eu não quero ter qualquer tipo de associação com ele, mãe. — Eric foi firme e agora deixava sua raiva tomar o lugar de seu choque e tristeza. Estava furioso.
— Escute, meu filho, por favor. — Ela tirou um pedaço de papel do bolso traseiro do jeans que usava e entregou a Eric. — Aqui tem o número de telefone dele e o endereço do escritório dele em Washington. — Cartman não parecia mover um músculo para pegar o papel das mãos de Liane. — Não precisa ligar, não precisa conhecê-lo se não quiser. — Ela continuou pegando uma das mãos filho fazendo-o segurar o papel mesmo contra a vontade. — Você tem o controle disso, Eric. Mas quero garantir que tenha essa escolha. — Liane Cartman, naquele momento, passou a ser ainda mais admirada pelo filho que a via chorando e ainda assim tentando sorrir. — Você é um homem feito, vai saber qual é a melhor escolha. Eu confio em você.
Liane se retirou da cozinha dizendo que iria ao banheiro lavar o rosto, mas Eric não prestou muita atenção. Aquele papel que ele segurava fraco com a mão esquerda representava tantas coisas que ele mal tinha coragem de olhar. Sua visão embaralhou ao ler os números e o endereço e, de repente, deu-se conta de quem realmente aquele homem era. Já o tinha visto muitas vezes na televisão, mas Cartman não poderia se importar menos com política. Sabia que o tal Theodore Dixon não era lá flor que se cheire mas não era a questão política que o incomodava.
E Eric Cartman odiava assuntos inacabados.
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Entender como os quadrantes que cercavam a capital americana funcionavam era um desafio e tanto. Nada que Eric Cartman admitiria, afinal, ele não teve lá tanta dificuldade em encontrar-se naquela cidade não tão grande. Quando sua mãe lhe disse, há cerca de uma semana, quem era seu pai, ele recusou-se a cogitar conhecê-lo. Mas o sentimento era maior do que ele, não tinha nenhuma intenção de ver aquele homem esperando ter algum momento pai e filho, queria mesmo era dizer algumas verdades.
Depois de muitos "bater de portas", caras amarradas, perguntas agressivas e até mesmo ofensas trocadas, Eric decidiu viajar e conhecer o pai, o homem que era o grande responsável por pagar a maioria das contas daquela casa em absoluto segredo. Uma das constantes dúvidas de Cartman depois dos quinze anos era realmente quando percebia que a matemática doméstica não estava batendo. E ele não era nenhum idiota.
Ao chegar em Washington, ele tinha apenas uma mala pequena, uma reserva num hotel no Quadrante Nordeste, perto de onde o escritório do senador Theodore Dixon ficava.
Conforme o táxi o levava até o endereço do escritório, Cartman estava incrivelmente arrependido de ter ido até lá. Ele não achava mais que era uma boa ideia e não estava mais fazendo questão de conhecer aquele homem. Seu quarto de hotel era algo tão provisório em sua mente que ele sequer desfez a mala. Estava sozinho, estava sem saber como agir e, aquele momento era completamente diferente de tudo que ele tinha imaginado quando criança.
Porque sim, Eric Cartman tinha fantasias quando criança que envolviam conhecer seu pai. Mas, como a vida passa, acabou se tornando algo totalmente irreal e ele não tinha sequer mais esperanças ou nada do tipo. Tinha curiosidade, sim, perguntas? Muitas. Mas ao mesmo tempo tinha, muito maior que todo o resto, uma mágoa e um ressentimento gigantesco. Sabia que parte de quem ele era atualmente se devia justamente à falta do pai. Ele tinha certa dificuldade em expressar aquilo, mas naquela cidade sozinho, teve vontade de simplesmente deitar no colo de sua mãe e agradecê-la por tudo, entendendo melhor o quanto deveria ter sido difícil para ela criá-lo.
Naquele momento, um momento de lucidez – ou até mesmo, um momento de total falta dela – Eric Cartman pôs-se em frente à entrada do enorme edifício comercial o qual deveria dirigir-se até o terceiro andar. Que diabos ele estava pensando? Aquele homem não merecia as quase quatro horas de vôo de Denver até a capital americana.
Iria encontrar seu pai e um pânico lhe tomou conta a ponto de fazê-lo não pensar em mais nada que não fosse fugir. Se aquele elevador demorasse mais do que trinta segundos, ele não se importaria em refazer o caminho de onde tinha vindo e simplesmente voltar ao hotel, pegar sua mala e ir embora no mesmo dia que tinha chegado. Iria reagendar seu vôo e pegaria o próximo para Denver assim que houvesse disponibilidade.
Antes que ele pudesse pensar melhor em seu plano, o elevador chegou e abriu-se em frente a ele como se o convidasse, como se o desafiasse. Algumas pessoas entraram e, naquele meio segundo de espera, um homem olhou para ele de dentro daquela caixa metálica, perguntando se ele entraria no elevador ou não, pois estava segurando a porta pra ele.
Ele titubeou por dois segundos, mas entrou. Não, não era hora de ter medo de nada. Quem deveria ter medo era o senador, quem tinha que sentir vergonha era seu pai, não ele. Ele amarrou a cara, endureceu a expressão e vestiu-se naquele Eric Cartman sarcástico e, como dizia Stan, totalmente insuportável.
Ele chegou até a porta da sala do escritório onde podia-se ler numa placa de vidro e metal “Senador Theodore Dixon”. Haviam algumas pessoas esperando e a fachada de vidro mostrava, do lado de dentro, uma moça extremamente bonita, parecendo uma modelo, muito bem vestida e com os cabelos castanhos prendidos em um coque elegante. Ela usava óculos e andava na recepção como se desse ordens. Cartman percebeu que ela tinha uma postura parecida com a dele e os mesmos olhos.
Ele estava ali, parado na entrada como se tivesse esquecido o que havia vindo fazer ali. Ele entrou, tentando parecer seguro e firme, mas suas pernas não obedeciam seu comando normal de andar com a mesma confiança tão comum naquele homem. Ele ajeitou os cabelos, tirando parte da franja dos olhos e alisou o suéter preto que vestia; na realidade, por ver todos usando terno, sentiu-se bastante deslocado, pois seu jeans contrastava com o ambiente de maneira a deixá-lo totalmente perceptível na sala, uma vez que ele destoava com o ambiente.
— Posso ajudá-lo? — A mesma mulher que ele havia visto pelo vidro antes de entrar, agora apareceu em sua frente, como se o impedisse de seguir o caminho. Ele suspirou e tomou a postura arrogante mesmo que já estivesse esperando ser abordado.
— Eu gostaria de falar com o senador. — Ele disse numa voz calma, ao mesmo tempo que se sentia estranho a ponto de perceber que parecia ter sido uma frase dita por outra pessoa.
— Você tem hora marcada? — Ela disse ajeitando os óculos de aro fino e o estudando com mais cuidado dessa vez.
— Não. — Ele disse como se tivesse acabado de se dar conta que não era assim que a política americana funcionava. Você não poderia falar com quem quer que fosse a hora que quisesse.
— Sinto muito, mas o Senador não está. E também não atende sem hora marcada. — Ela respondeu de forma automática, como se aquilo fosse algo que acontecesse diariamente e o tempo todo. — Só marcamos hora por telefone. Do que se trata? — Ela concluiu antes que ele pudesse se justificar.
— Estou em Washington por apenas três dias. — Ele disse após suspirar como se estivesse tentando, com muito esforço, manter a calma e não falar o que realmente queria. — É um assunto pessoal e importante, temo que não seria elegante da minha parte expôr com uma das funcionárias dele. — Cartman disse não conseguindo controlar a língua e o tom sarcástico.
— Assunto pessoal. — A moça repetiu mostrando o sorriso com os dentes bonitos. — Bem, senhor...?
— Cartman. — Ele respondeu imponente. — Eric Cartman. — Naquele tom de voz em que ele acha que as pessoas têm quase uma obrigação de reconhecê-lo.
— Senhor Cartman. — Ela repetiu paciente. — Me chamo Julie Dixon e o senador é meu pai. — Ela tentou parecer simpática, mas era quase inevitável que ela deixasse transparecer que realmente tinha um temperamento forte. — Não importa qual seja o assunto e o tempo que passará na capital, ainda precisa marcar uma hora. Temo que nossos horários estão cheios para o restante do mês.
Cartman a encarou com outros olhos naquele momento e era quase como se não tivesse ouvido o resto do que ela havia dito. Estava frente a frente com sua irmã e isso era algo que Eric não havia sequer calculado. Ele não sabia como era ter um pai, mas o impacto daquela situação de ter irmãos era ainda mais profundo. Entendia porque a tinha achado parecida com ele.
— Julie... — Ele se desarmou pois não sabia mais como agir. Passou uma das mãos pelo rosto e queria apenas dizer a ela o motivo que o levava ali, mas algo o impedia, algo que envolvia sua própria maneira de ver a situação e deixava sua própria sensibilidade aflorada, o impedindo de se abrir para uma total estranha, mesmo que aquilo tivesse tudo a ver com a vida dela também. — Ligue pra ele e diga que eu, Eric Cartman, filho da Liane, quero falar com ele.
Ele concluiu não querendo revelar mais do que aquilo, mas a moça, que não parecia ter mais do que 23 anos, olhou sua prancheta e não se deixou comover com aquilo e tampouco mostrou-se curiosa com o que aquilo poderia significar. Desde que tinha começado a trabalhar com seu pai, estava acostumada à pessoas aparecerem com os mais diversos motivos para que o senador os recebesse. Ela tinha aprendido a desviar das chantagens emocionais, de escândalos públicos e até de jornalistas que pareciam nunca se cansar de insistir em descobrir coisas apenas pela fama de escrever um bom artigo.
— Sinto muito, senhor Cartman. — Ela disse educada, polida e com um sorriso robótico no rosto. — Preciso que se retire. — Ela apontou educadamente para a porta.
Eric olhou para a mão delicada com as unhas bem feitas de sua irmã que apontava para a porta sem ter a menor noção de quem ele realmente era e, finalmente, percebeu o quão irracional estava sendo. Não era pela situação de não ser recebido, mas sim por achar que aquilo, em algum momento, tinha sido uma boa ideia. Ele concordou com a cabeça e sorriu triste para aquela moça que agora, parecia satisfeita por ele não parecer ser o tipo de pessoa que criava uma cena.
Na verdade, a vontade dele era mesmo a de criar. Talvez se fosse em qualquer outro caso, ele realmente faria. Para defender alguém ou até mesmo pelo seu simples deleite de fazer alguém pagar publicamente por algo que fez. Mas aquilo o envolvia, envolvia sua vida pessoal, envolvia sua mãe e seu passado, era parte de sua história. Quando ele estava profundamente dentro da história, as coisas mudavam.
Deu as costas à moça sem dizer nada e voltou a andar pelo mesmo caminho de onde tinha vindo. Sem dar tempo de dar mais que três passos, o homem alto, aparentando estar em ótima forma física apesar dos cabelos grisalhos e dos mais de cinquenta anos, entrava pela porta. Ele estava acompanhado de três homens, dois seguranças e um assessor pessoal.
Eric parou de andar e sentiu aquela sensação de uma onda cobrindo-o por completo e o tragando para baixo do oceano, o impedindo de respirar por alguns segundos. O homem cumprimentava algumas pessoas e parecia estar constantemente cercado de proteção. Era uma das experiências mais estranhas para ele dar-se conta de algumas características físicas parecidas, como a altura, o jeito de andar e os mesmos olhos ávidos, castanhos, sedutores e o apreço por roupas caras – ele vestia um terno cinza que Eric teve certeza que era de alfaiataria.
Eles trocaram olhares e, assim como Eric o reconheceu, o senador igualmente reconheceu o filho – percebendo inclusive que ele parecia pretender sair dali.
O homem se aproximou dele e Eric estava tão confuso, tão irritado, tão magoado que sentiu os olhos lacrimejarem, mas segurou o máximo que pode. Ele pôs as duas mãos nos bolsos percebendo que era tarde demais para tentar fugir dali. Theodore Dixon mantinha seus olhos colados em Eric como se mal pudesse acreditar naquilo.
— Eric. — Ele disse num sussurro ao ver o garoto e fez menção de abraçá-lo ali mesmo. Mas Eric esquivou-se imediatamente. Não disse nada, mas foi sua maneira de mostrar que não, ele não tinha esse direito e Cartman igualmente sequer tinha vontade de fazer aquilo. Viu ele trocar olhares com Julie, que parecia vir correndo se explicar. — Está tudo bem, Julie. — Ele disse com a típica voz política e o sorriso de campanha.
Ele tocou o ombro de Eric que não conseguia dizer absolutamente nada. Se ele soubesse daquilo antes de viajar, de como se sentiria com aquelas mãos enormes apertando seu ombro tentando forçar uma intimidade, ele nunca teria saído de casa. Ele sorria para algumas pessoas em volta e agora deslizou a mão até as costas de Eric, quase o segurando pela nuca.
— Vamos para minha sala. — Ele disse sorrindo para ele também, num tom de segredo. Seguido por seus seguranças e assessor, ele pediu privacidade e disse que não queria ninguém na sala. Passou pela filha enquanto andava com Eric dizendo que ela deveria cancelar todos os compromissos dele do dia, que ele não estaria disponível para absolutamente nada que não fossem emergências.
A garota assentiu sem entender. Seu assessor parecia fazer algum tipo de ligação na hora e, apesar de olhar de relance para ele, Eric percebeu que ele também sabia perfeitamente quem ele era.
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