Notas iniciais
A música do capítulo é "Supposed to be", do Default

CAPÍTULO XIV

“Talking”

x.x.x

Aquela manhã de terça-feira não poderia ser melhor para o que estavam para fazer. Estava frio, mas nada muito anormal, temperaturas abaixo de zero que só iriam cair ainda mais conforme subiriam as montanhas do Colorado naquela manhã que preparavam-se para viajar. Matt e Trey davam instruções de como chegar a Estação de Esqui para aqueles que iriam de carro. As crianças iriam no ônibus cedido pela prefeitura de South Park, acompanhados da diretora do orfanato e duas professoras.

Antes de iniciarem a viagem, todos encaminharam-se para o estacionamento da universidade e ainda iriam para o orfanato conhecer as crianças, falar sobre as atividades com as mulheres responsáveis por coordenar o orfanato e apresentar cada criança designada aos alunos. Enquanto as meninas adoraram a ideia e alguns meninos também, outros não tinham gostado tanto. E “outros”, leia-se, Eric Cartman.

Tweek deu partida em seu carro já pronto para ir com os membros de seu grupo confortáveis dentro do Prius que dirigia, assim como Brad, que já tinha buzinado duas vezes avisando que estava saindo com seu grupo. Luke tirava algumas dúvidas com Matt, e Cartman estava há mais de quinze minutos letrando Damien sobre como se comportar em seu carro. Butters estava começando a ficar com dor de cabeça e Clyde estava era torcendo para que Damien se irritasse e mudasse de ideia sobre ir à Estação de Esqui.

Mas é claro que aquilo nunca iria acontecer. Damien esteve preso, Cartman era fichinha pra ele.

— Vamos logo, Eric. — Butters dizia interrompendo mais uma vez Cartman falando sobre ninguém tocar no som do carro dele. — Está todo mundo saindo.

— Clyde, você vai na frente. — Ele disse ignorando Butters solenemente, enquanto entravam os quatro no Porsche. Eric checou a se a capota estava presa, já que era um modelo Carrera GT conversível.

Ele entrou no carro, todos colocaram o cinto de segurança e, assim que Cartman deu partida, o som ligou automaticamente tocando Jason Mraz e lembrou-se que era Kyle quem ouvia aquilo.

— De onde saiu esse carro, Cartman? — Damien perguntou ajeitando-se ao lado de Butters no banco de trás. Estava ligeiramente surpreso ao dar-se conta do tipo de carro que se tratava. Custava uma fortuna.

— Não que seja da sua conta, mas minha mãe me deu. — Cartman respondeu sem emoção. Damien não achou estranho, já que a mãe de Cartman sempre fora condescendente, com exceção de uma ou outra vez que Eric fazia birra quando era criança.

— Uau. — Damien respondeu ainda impressionado.

— Mas mesmo assim, Eric... — Clyde recomeçou já que tinham entrado no assunto e o fez pensar por um segundo. — Nem eu dirijo um carro desses, esse carro é muito caro. Custa mais de cem mil dólares. — Ele disse e Butters agora também estava curioso.

— Eu sei quanto esse carro custa. — Cartman não estava entendendo porque estavam fazendo caso daquilo. — Eu disse que queria esse, minha mãe disse que tudo bem. — Para ele era algo mais do que normal. Sempre fora acostumado a ter tudo que queria de qualquer forma.

Ele dirigia para fora do campus e, mesmo com os amigos insistindo no assunto, ele estava mais concentrado em sua visão na estrada e naquela música baixinha de um cantor que nem gostava, mas o fazia lembrar de Kyle sussurrando a letra durante o caminho que fizeram de sua casa de volta à universidade.

— Cartman! — Clyde chamou mais alto já que estavam falando com ele e não obtendo resposta alguma.

— Que foi, porra? Eu tô dirigindo, caralho. — E lá estava ele com sua boca suja e a cara fechada à toa. Aparentemente se enfezava até de ter seus pensamentos em Kyle atrapalhados. — Me deixem em paz.

Os quatro, conhecendo bem com quem estavam lidando, resolveram se calar por alguns minutos, até que Butters puxou assunto com Damien e Clyde trocou de música, ouvindo novamente Cartman reclamar sobre “ninguém ouvir suas regras de não tocar no som”. Ele andava numa velocidade considerável, o que era bastante compreensível, uma vez que tinha mesmo em mãos um carro como aquele, era fácil começar a correr, devido a suavidade.

Foram o segundo grupo a chegar lá e, logo na entrada do lugar realmente precisando de ajuda, podiam se ver sucos e vários mini-sanduíches feitos para a pequena recepção que o orfanato estava oferecendo aos estudantes. As crianças variavam de 5 a 12 anos, apenas um garoto de 14 anos, era o mais velho e — consequentemente — o mais rebelde entre eles. Estava num canto, de cara feia, claramente não querendo participar de nada.

— Boa tarde. — A diretora disse ao ver o segundo grupo a chegar se aproximando. Os quatro responderam educados. A diretora sorriu mais aberto ao ver Clyde. — É um prazer recebê-los.

— O prazer é nosso, diretora. — Butters tomou a palavra oferecendo a mão para cumprimentá-la. — Espero que possamos fazer a diferença de alguma forma. — Ele concluiu quando ela retribuiu o gesto.

— As crianças estão tão felizes só de vocês estarem aqui que, certamente, já seria o bastante para fazer a diferença. — Ela respondeu enquanto entravam no cômodo enorme que parecia ser o lugar onde as crianças faziam suas refeições.

— Podemos já saber quem são as crianças que monitoraremos pessoalmente? — Clyde perguntou abrindo um sorriso.

— Sim. — Ela respondeu feliz de ver a empolgação deles. Até mesmo Cartman, que estava distraído olhando o local, teve a curiosidade despertada. — Vou buscá-los. — Ela disse retirando-se em busca das quatro crianças que ficariam com eles.

Butters olhou os colegas estudando as expressões de todos. Viu Clyde esticando o pescoço para não perder a diretora de vista, viu Damien literalmente caçando com os olhos, certamente em busca de Phillip e Cartman mandando mensagem de texto com o celular em mãos. De longe viu que as meninas haviam acabado de chegar também bem como o restante dos grupos.

Brad enfiou um dos mini-sanduíches inteiros na boca, Kenny fez quase mesmo, Stan conversava com Wendy, como se combinassem algumas coisas juntos. Os veteranos conversavam com as professoras e Craig e Tweek olhavam um grupo de crianças brincarem, Tweek sorria e Craig sorria ao ver Tweek sorrir. Gostaria de dizer a ele o quanto ele ficava adorável mostrando as covinhas e não parecendo apreensivo ao estar entre tanta gente. Token acabava de se aproximar de Brad e Kenny na mesa com as comidas.

— Damien Thorn? — A diretora havia acabado de voltar com uma menina que parecia mais alta para sua idade do que o normal.

— Sou eu. — Ele sorriu de um jeito charmoso que contrastava com seu olhar de predador de alguns segundos.

— Esta é Amelia. — A diretora começou.

— Amy. — A menina corrigiu revirando os olhos e imediatamente Damien percebeu um traço claro de personalidade forte.

— Tudo bem. — A última coisa que a diretora queria naquele momento era criar caso. Os outros três apenas observavam a cena, inclusive Kyle, que tinha acabado de chegar posicionando-se ao lado de Eric. — Amy é sua afilhada por um dia. Por que não se apresenta ao Damien, querida? — A diretora disse olhando pra ela e Damien percebeu o quão incomodada Amy estava. Não por Damien, mas porque claramente a diretora estava tratando-a como criança e a menina certamente não estava gostando.

— Me chamo Amy, tenho doze anos. — Ela disse sem olhar Damien, tentou ser educada, mas estava sem nenhuma paciência.

— Muito prazer, Amy. Me chamo Damien. — O moreno alto disse aproximando-se dela. — Também gosto muito de Iron Maiden. — Ele disse referindo-se a camiseta com Eddie, o “monstro” símbolo da banda há quase trinta anos.

Ela olhou a própria camiseta e então finalmente olhou Damien com um pouco mais de interesse, mas ainda assim não cederia tão fácil, porém Thorn soube naquele momento que talvez aquilo fosse mais divertido do que ele pensava. A menina se retirou e perdeu-se de vista no meio da multidão. Os garotos podiam ver que a diretora praticamente se desculpava com o olhar pela suposta atitude um pouco grosseira da menina, mas nenhum deles parecia incomodado. Damien sabia bem que aquela fase não era fácil, especialmente se tratando de passá-la em um orfanato, todos evitaram julgamentos. Com exceção talvez de Cartman, que provavelmente pensou alguma coisa, mas ao menos não havia aberto a boca para dizer nada.

— Clyde Donovan. — Dessa vez ela continuou, mas sem perguntar. Claro que sabia quem era Clyde. O moreno alto sorriu em resposta. — Este é Isaac. — Ela apresentou um garotinho sorridente, cabelos pretos e a pele levemente bronzeada.

— Meu nome é Isaac e eu tenho oito anos. — Ele disse um pouco tímido olhando da diretora para Clyde, na expectativa de conhecer o jogador. Donovan, por sua vez, abaixou-se para ficar a altura dele.

— E aí, cara. — Clyde disse erguendo a mão pedindo um high five correspondido pelo menino, que agora estava ainda mais animado. Era uma cena bonita, uma coisa tão simples capaz de arrancar um sorriso daquele em uma criança. Até mesmo Cartman moveu o canto do lábio num meio-sorriso discreto.

— Eu torço para os Broncos. — O menino disse orgulhoso.

— Então já sei que é um garoto esperto. — Clyde respondeu de um jeito engraçado.

— Eu fiz um desenho, você quer ver? — Ele perguntou animado e orgulhoso de si mesmo. Clyde indicou que sim e então acompanhou o garoto até onde estava o restante de seus amigos. Sabia que seria a atração do pequeno grupo de amigos e sentiu-se feliz consigo mesmo pelo que estava fazendo.

— Butters Stotch... — A diretora voltou a falar com o loiro de moicano que já conhecia e, ao seu lado, Butters viu uma garotinha tímida, um pouco assustada, por volta de seus dez anos. — Esta é Alexia. — A menina estava quase se escondendo atrás das pernas da diretora.

— Oi Alexia. — Butters disse sorrindo. — Está com vergonha? — Ele perguntou e ela apenas baixou os olhos. — Não precisa, está tudo bem. Vem aqui. — Ele esticou uma das mãos carinhosamente. Relutante, ela deus dois passos na direção dele segurando a mão dele, muito maior que a dela. — Quantos anos você tem? — Ele abaixou-se na frente dela quando perguntou.

— Seis. — Ela disse baixinho.

— Está tudo bem passar dois dias comigo? — Ele perguntou paciente, com o olhar calmo, mostrando a ela que ela tinha escolha. Ela apenas concordou com a cabeça e o estudante de Literatura mostrou o sorriso bonito que tinha. — Prometo que vamos nos divertir. — Ele disse recebendo o sorriso um pouco inseguro da garotinha como resposta.

— Pode voltar para a festinha, Alexia. — A diretora disse. — Daqui a pouco já vamos para a Estação. — Ela disse e a menina deu uma última olhada para Butters e saiu correndo para perto das outras meninas.

Butters agradeceu a diretora e saiu ao encontro dos outros veteranos, para saber que horas iriam para a Estação. A diretora virou-se para falar com Damien, aparentemente uma das professoras queria conversar com ele sobre Amy, provavelmente falar o que já sabia: que a menina era um pouco complicada. Thorn seguiu o caminho até a professora indicada. A diretora voltou sua atenção ao último garoto que faltava e olhou para um Cartman um pouco confuso, pois não via nenhuma criança a mais pra ele. Será que ele tinha sorte o suficiente para não passar por aquilo? Trocou olhares com Kyle quando ela respirou fundo para falar com ele.

I'm not afraid to show emotion
(Não tenho medo de demonstrar emoção)
It's what I need to get me through
(É o que eu preciso para seguir)
And I would swim across the ocean
(E eu atravessaria o oceano)
A thousand miles to get to you
(Mil milhas pra chegar até você)

— Suponho que seja Eric Cartman. — Ela disse um pouco sem graça e Eric assentiu que era de fato quem ela citou. — Peço desculpas, Eric, estamos tentando encaixar uma das crianças pra você... — Ela fez uma pausa não tendo certeza se deveria falar sobre aquilo. — Achamos que seria bom para Dave que ele participasse, mas ele realmente não está facilitando as coisas. — Ela olhou inconscientemente para o garoto mais afastado, o mais velho de todos. Estava perto da porta com fones de ouvido o que parecia ser um rádio a pilhas pequeno.

Cartman a seguiu com o olhar e viu a cena, acompanhado por Kyle que também estava curioso.

— Posso falar com você um segundo? — Kyle sussurrou para o namorado que ouviu sem tirar os olhos do garoto. — Diretora, nos dê só um segundo, ok? — Ele sorriu gentil e ela assentiu enquanto os dois se afastavam alguns passos.

— Que foi? — Cartman perguntou franzindo o cenho e Kyle ainda olhou para o garoto por mais alguns segundos antes de começar a falar. — Esse moleque tem cara de quem é aqueles adolescentes pé no saco, cheio de problemas. Eu não estou a fim, Broflovski. — Ele concluiu já sabendo que Kyle certamente o incentivaria a ir falar com o garoto.

— Eu tenho certeza que você é a melhor pessoa para ajudá-lo aqui, Eric. — Kyle dizia sério, já sabendo que Eric não colocaria lá muito esforço mesmo. — Você é a pessoa para trabalhar com essas crianças se tivesse o mínimo de empatia e inteligência de perceber que você as entende melhor do que pensa. — Ele fez uma pausa antes de continuar e Eric o encarou nos olhos, sabendo o que ele diria a seguir. — Você também não tem pai.

Fez-se um certo silêncio estranho entre os dois. Não por parte de Kyle, ele sabia a história de Eric melhor do que ninguém e era amigo íntimo dele o suficiente para tocar naquele assunto, mesmo sabendo que era algo que Cartman nunca queria sequer falar a respeito. Kyle sabia bem o quanto aquele assunto o incomodava e o quanto o deixava frustrado, nervoso e extremamente agressivo, comportamento esse que poderia durar até mesmo dias. Mas achou que o momento era propício porque sabia que, mesmo que estivesse tentando fingir que aquilo não o comovia, Cartman teve o mínimo de compaixão naquele momento e soube, mesmo que por um segundo, como aquele garoto se sentia.

— Pare de mexer com a minha cabeça, Kyle. — Ele disse sério para o namorado, respirando fundo. — É baixo pra caralho da sua parte usar isso pra me comover. — Cartman engoliu a seco diante do silêncio do ruivo. Não, ele não iria retirar o que disse. Não somente o garoto, mas sabia perfeitamente que o próprio Eric precisava daquilo. — Tá bom! — Ele disse entre dentes fechando os olhos conformado, não vendo o sorriso vitorioso contido nos lábios do judeu à sua frente.

— Vai lá falar com ele. — Kyle maneou a cabeça apontando para onde o garoto estava e Eric bufou. Odiava quando conseguiam convencê-lo a fazer algo que, no fundo, ele não queria. E naquele caso nem era birra ou desvio de caráter da parte dele, ele simplesmente queria se proteger dos sentimentos que aquela situação pudessem lhe proporcionar porque se tinha coisa que Cartman sabia muito bem, era enterrar lá no fundo sua vulnerabilidade para que ninguém a encontrasse. Nunca. Muito menos uma criança-problema de quatorze anos.

— Você tem muita sorte que eu te amo muito. — Ele começou olhando nos olhos de Kyle. — Porque a vontade de te bater é grande, seu judeu idiota. — Ele saiu murmurando e Kyle apenas segurou o riso ao ver o outro parecendo uma criança birrenta marchando contra a vontade.

Maybe I'm crazy but I
(Talvez eu seja louco mas eu)
Feel for once in my life
(Sinto pela primeira vez na vida)
Like the stars in the sky have all aligned
(Que as estrelas no céu estão todas alinhadas)
I never will deny that you and I…
(Nunca negarei que eu e você...)
We will live forever
(Nós vamos viver para sempre)
Love each other
(Nos amarmos)
Die together
(Morrer juntos)
How can we deny what feels so right?
(Como posso negar o que parece tão certo?)

Eric mordia a parte interna da boca sempre que estava nervoso e ansioso; tanto que às vezes chegava a sangrar e doer. Ele tentou se acalmar, tentar pensar que seria apenas por dois dias e depois não teria mais que lidar com aquilo e nem ver a cara azeda daquele garoto. Ele se aproximou e o garoto o encarou de volta revirando os olhos e tirando os fones de ouvido.

— Olha, cara, não me leva a mal, não é nada pessoal, só não estou a fim de fazer isso. — Ele disse antes mesmo que Cartman pudesse dizer alguma coisa. O garoto era alto e aparentava pelo menos uns 17 anos. Cartman reparou que o garoto tinha um pequeno curativo no queixo.

— Realmente essa curva do queixo é difícil, a gente se corta mesmo. — Ele disse depois de um breve silêncio, sabendo bem que aquele corte era provavelmente resultado de falta de habilidade para se barbear. O garoto tocou o rosto instintivamente e olhou Cartman por um segundo e logo desviou o olhar novamente.

Eric respirou fundo e encostou-se na parede ao lado de Dave, enterrou as mãos no jeans preto que usava e dobrou um dos joelhos apoiando o pé na parede, o garoto continuou ignorando-o sem cerimônias e ele continuava se perguntando porque as pessoas insistiam em querer ajudar quem claramente não queria ajuda.

— O que está ouvindo? — Eric perguntou fingindo não estar muito interessado. O garoto bufou e guardou o rádio no bolso, virando-se de frente para Cartman e, nesse momento, Eric pode ver que o garoto estava realmente perdendo a paciência. Provavelmente Eric era a quinta pessoa tentando convencê-lo de algo.

— Não ouviu quando eu disse que não estou interessado? — Ele disse num tom de voz agressivo e Cartman, com sua mania de erguer o queixo cada vez que falavam com ele daquele jeito, tentou manter-se calmo ao invés de “mandar à merda” e sair de perto.

— E o fato de eu ter continuado aqui não te fez perceber que eu não dou a mínima e você vai participar dessa parada sim? — Ele disse firme e o garoto arregalou um pouco os olhos.

— Você não pode falar comigo assim. — Dave disse quase rindo da situação. — E não pode me obrigar a fazer nada. Sou menor de idade e se fizer qualquer coisa, ligo para a polícia e denuncio. — Ele certamente já havia usado aquele argumento antes e, pela confiança que tinha quando falava, Cartman percebeu que as pessoas de certa forma acabavam cedendo a uma vontade ou outra dele já que ele tinha uma carta na manga.

Definitivamente aquela situação lhe era mais do que familiar.

— Você não vai fazer porra nenhuma. — Eric disse seguro, chegando mais perto do garoto que agora tinha que erguer um pouco a cabeça para encará-lo. — Pare de ser idiota com as pessoas que querem te ajudar e vai falar agora pra diretora que você mudou de ideia.

— Se não o que? — Dave nem disfarçou o tom desafiador.

— Se não eu racho a sua cara no meio. — Cartman respondeu sem demonstrar medo e com credibilidade. A última coisa que ele precisava era que aquele menino percebesse que ele jamais faria uma coisa daquelas com ele.

Dave encarou Cartman por mais alguns segundos antes de notar que realmente aquelas ameaças não funcionariam com o homem confiante à sua frente. Ele bufou, deu as costas ao jogador de basquete e, mesmo que sem nenhuma pressa, andou até a diretora que conversava com Kyle e disse a ela que havia conhecido Cartman e que decidiu que iria participar. Cartman notou o sorriso alegre da mulher e o olhar apaixonado de Kyle andando em sua direção.

— Você é o cara mais legal do mundo quando quer. — Foram as palavras discretas mas cheias de significado que Kyle usou para definir o quanto sentia-se orgulhoso do outro.

We will live forever
(Nós vamos viver para sempre)
Love each other
(Nos amarmos)
Give each other
(Nos entregarmos um ao outro)
Isn't that the way that life's supposed to be?
(Não é assim que a vida deveria ser?)

— Eu queria ficar no mesmo grupo que você. — Cartman disse um tanto quanto manhoso. — Já viu o meu grupo? — Ele arqueou as sobrancelhas e ouviu a risada gostosa do ruivo.

— Aposto que deve ser um clima maravilhoso. — Brincou ele divertindo-se ao imaginar como seria estar num grupo tão improvável.

— Aquele idiota daquele Damien nem deveria estar aqui. — Cartman dizia já ficando enfezado. — Que história é essa que ele estuda na universidade agora?

— Stan me contou, parece que o pai dele está querendo colocar ele na linha. — Kyle recomeçou lembrando-se da breve conversa que teve com o melhor amigo sobre aquilo. — A Wendy comentou com ele que as meninas o adoram agora. Ele é o “bad boy que estava preso”. — Kyle riu ao explicar o clichê.

— Essas garotas... Depois não sabem porque se fodem. — Cartman respirou cansado e já perdendo o interesse no assunto. — Qual curso ele faz?

— História. — Kyle respondeu como se tivesse adivinhado a pergunta.

— Não sei como isso é possível, Damien tem o QI de uma batata. — Eric disse sem emoção.

— Damien é inteligente pra porra, você sabe muito bem disso. Pena que ele emprega para as coisas erradas. Ou pelo menos costumava. Ele parece diferente agora. — Kyle concluiu ao vê-lo conversando com uma menina com camiseta de banda.

— Pois pra mim ele continua o mesmo boçal de sempre. — Eric disse coçando a cabeça e chegando discretamente mais perto de Kyle. — Ei, eu quero ficar com você em Colorado Springs... Acha que poderíamos dormir juntos pelo menos?

— Ficou maluco? — Kyle disse em meio a risos, puxando Eric pela porta e saindo do salão principal.

Os dois seguiram pelo lado de fora, contornando a casa antiga que abrigava o orfanato, até ficarem um pouco longe do barulho e das pessoas. O ruivo abraçou o namorado e em seguida foi beijado tão carinhosamente que sentiu uma vontade enorme de realmente poder dormir com ele naquela noite. Toda vez que Eric o beijava daquele jeito, ele sentia-se a criatura mais amada da face da terra, chegava a ser contrastante com as palavras que Eric geralmente usava e a forma que se comportava no geral com os outros e, por isso mais do que tudo, sentia-se especial, único e seguro de saber que Cartman era apenas daquele jeito com ele e com mais ninguém. Não que Kyle fosse admitir seu lado um pouco egoísta, mas ter o privilégio de ter o melhor de Eric Cartman só para si realmente o fazia sentir melhor do que ele podia descrever.

Aqueles breves segundos que Eric olhava pra ele quando afastavam seus rostos e paravam de se beijar, que o segurava pelo pescoço com aquelas mãos enormes e ele podia ver mais de perto aquele castanho pontilhado dos olhos transparentes de Eric, era o momento que ele tinha certeza que tinha encontrado sua alma gêmea e sorria. Sorria tendo a certeza, pela primeira vez desde que se conheceram na vida, do que Eric sentia por ele.

I use to think that my obsession
(Costumava pensar que minha obsessão)
Was just a phase that I go through
(Era só uma fase eu estava passando)
And now I know without a question
(E agora sem dúvidas eu sei)
You're the one, I always knew
(Você é o único, eu sempre soube)

— Temos que ir. — Cartman disse calmo sem a menor vontade de sair dali, voltando a abraçar Kyle, beijando seu pescoço tão devagar e de um jeito tão sensual que o ruivo realmente achou que era melhor saírem dali.

— Temos. — Kyle respondeu sentindo um arrepio lhe correr pelas costas quando Eric agarrou sua bunda. — Nem pense nisso! — Ele tentou se afastar rindo, já sabendo bem como aquilo terminaria.

— Eu sei, eu sei. — Cartman deu-se por vencido mas com certeza aqueles minutos ali o tinham ajudado muito a relaxar, sentia-se muito melhor.

Os dois ainda se tocavam e resistiam a sair dali, mas afastaram-se com uma velocidade absurda, pareciam ter tomado um verdadeiro choque elétrico ao ouvirem a risada de um Kenny McCormick acompanhado de um Stan Marsh com um sorriso maroto, quase infantil, se aproximando dos dois pela lateral da casa.

Cartman fechou os olhos aliviado e Kyle rendeu-se ao riso quando viu que se tratava de seus amigos. Era estranho ser aquele casal que todo mundo sabia mas ninguém sabia ao mesmo tempo. Eles não tinham conversado sobre contar às pessoas, mas era claro que ambos estavam um pouco inseguros quanto àquilo ainda.

— É sério que agora vamos ter que ficar passando por isso? — Kenny disse em meio aos risos divertidos e o jeito de olhar de Cartman que havia perdido um pouco da moral de “malvadão”.

— Cala a boca, McCormick. — Eric disse sem ser agressivo, porque a verdade é que ele meio queria rir também. A risada de Kenny era uma das coisas mais engraçadas que ele já tinha escutado.

— Vão ficar se amassando escondido por aí? — Stan disse chegando mais perto de Kyle. — Parece que tem quinze anos, vocês não tem vergonha não?

— Cuidem da própria vida, ok? — Kyle disse rindo para o amigo, o empurrando de leve pelo ombro. — Estamos conversando só!

— Ô Kenny! — Stan foi agora que se rendeu aos risos. — Mão na bunda e beijo na boca agora é “conversar”, tá sabendo dessa já? — Kenny, que já estava gargalhando, sentia que aquilo iria ter graça pra sempre e ele nunca mais iria conseguir parar de rir.

— Vai se foder, Marsh, sua putinha. — Cartman disse puxando o namorado mais pra perto, como se quisesse protegê-lo inconscientemente, mas Kyle mal conseguia segurar o riso também. — Estávamos conversando e outras coisas também. — Mas Stan estava com a mesma sensação que Kenny — aquilo seria engraçado para sempre.

— Vamos logo, tá todo mundo saindo. — Stan disse enquanto os quatro andavam de volta por onde tinham vindo.

— Como convenceu Dave a ir com você? — Kyle perguntou curioso.

— Disse que quebraria ele se ele não viesse. — Cartman usou uma normalidade absurda pra dizer aquilo e Stan o recriminou na hora.

— Que merda, Cartman!

— É claro que eu não vou fazer isso, seu retardado. — Cartman respondeu como se estivesse explicando o óbvio para alguém. — Mas ele não sabe disso.

Os quatro seguiram o caminho de volta discutindo as técnicas duvidosas de Cartman convencer um menino de quatorze anos de alguma coisa, mas fazia bastante sentido. Kyle teve certeza pelo jeito de falar do namorado que ele se identificou com o garoto mais do que admitiria. Stan contou que tinham escolhido pra ele uma menina de 10 anos, muito alegre. Kenny cuidaria de um menino de onze, que tinha acabado de chegar ao orfanato e Kyle, com uma menina de oito anos que tinha uma irmã menor, que havia ficado no grupo das meninas.

Mais do que ajudar, prestar solidariedade e tentar melhorar a vida da comunidade da cidade onde nasceram e passaram a vida inteira, aquelas crianças também tinham algo a ensinar a eles e eles mal sabiam daquilo.