Ten Years Later
15 I keep my word
Notas iniciais
CAPÍTULO XV
I keep my word
x.x.x
Ever wonder 'bout what he's doin'
(Sempre me pergunto o que ele está fazendo)
How it all turned to lies
(Como tudo se tornou mentiras)
Sometimes I think that it's better
(Às vezes penso que é melhor)
To never ask why
(Nunca perguntar por quê)
Quando todos já haviam chegado na Estação de Esqui de Colorado Springs, passava das oito horas da noite. Os alojamentos da estação estavam reservados para as crianças e as mulheres responsáveis pelo orfanato. Ficariam separados por gênero, tudo custeado previamente pela prefeitura de South Park em parceria com a própria Estação de Esqui que, uma vez por ano, dedicava alguns dias de baixa temporada para receber crianças carentes sem custo adicional. Haviam instrutores de esqui e patinação no gelo para dar aulas e ficarem responsáveis pelos passeios de trenó puxado por cães e lobos.
O lugar não era luxuoso, mas recebia turistas e locais todos os anos e era popular na região. Os garotos da universidade conheciam desde criança, eventualmente frequentavam o lugar com suas famílias e amigos. Ao lado da estação, havia um pequeno hotel onde os quartos foram pagos pela universidade e seria onde os garotos e as meninas iriam ficar por duas noites. Tinham café da manhã e almoço incluídos, mas existiam vários outros pubs, cafés e restaurantes ao redor da área para quem quisesse ter outra opção.
As crianças se reuniam com seus padrinhos no saguão da estação, onde foram recebidos pelo dono com chocolate quente, biscoitos de vários sabores, chás e bolinhos. Tudo muito simples, mas para a maioria deles era quase melhor que Natal. Todos conversavam animadamente, brincavam, desenhavam e contavam histórias ao redor de uma pequena lareira, com cadeiras e um tapete vermelho felpudo, confortável.
As crianças menores no geral estavam acompanhadas pelas meninas, que pareciam ter mais jeito em cuidar de crianças pequenas. Estavam as quatro junto com cerca de dez crianças observando Damien fazer mágicas simples, com moedas saindo de orelhas e com cartas de baralho. Todas elas estavam maravilhadas vendo aquilo ser feito tão de perto, por mais que não fosse nada demais e não passasse de um hobby adolescente de Damien.
De longe, Pip olhava com mais intensidade do que deveria. A menina de quem tomava conta tinha cinco anos e morava no orfanato desde que nasceu. Ele a carregava nos braços pois a menina havia adormecido depois que ele leu uma história pra ela. Ela tinha as pernas ao redor da cintura dele e a cabeça deitada em seu ombro. Phillip a balançava de leve mesmo sabendo que ela não mostrava nem resquícios de que acordaria mesmo com o barulho das conversas. Ele tinha tirado a jaqueta para cobri-la melhor.
Ele tinha que admitir que não reconhecia direito o homem que via fazendo mágica, rindo e brincando com um bando de crianças. Aquele não se parecia com nada com o Damien que o ameaçou dias atrás, chegava a ser um pouco bizarro. Mas não conseguia controlar seus pensamentos, seu coração e, obviamente, independente do passado, era impossível não se comover com aquela cena. Especialmente se tratando de alguém sensível e romântico por natureza como Pip.
O que o fazia muito perceptivo.
Especialmente quando alguém olhava pra ele como se tivesse laser nos olhos. Igual Clyde estava fazendo naquele momento.
Ele estava em pé também ao redor da lareira tomando conta de Isaac, o garotinho fã dos Broncos que fora designado a ele. O menino também divertia-se com as mágicas de Damien, mas Clyde há muito havia parado de prestar atenção, quando focou em Pip, que não tirava os olhos de Damien há vários minutos e sequer percebeu que Clyde estava há menos de dois metros dali.
Where there is desire there is gonna be a flame
(Onde há desejo vai haver uma chama)
Where there is a flame someone's bound to get burned
(Onde há uma chama alguém logo vai se queimar)
But just because it burns doesn't mean you're gonna die
(Mas só porque queima, não significa que você vai morrer)
You gotta get up and try, and try, and try
(Você tem que levantar e tentar, e tentar, e tentar)
Phillip imediatamente sentiu seu rosto esquentar como se estivesse sido pego fazendo algo terrível, especialmente pela forma dúbia com que Clyde olhava pra ele, Pip não era bom com aquele misto de expressões, nunca sabia direito qual era a interpretação certa. Ele se dirigiu a uma das professoras e, num sussurro, pediu que ela levasse a pequena Barbara para a cama. A moça, gentilmente tirou a menina dos braços dele e a levou para a cama.
Quando Pip voltou a olhar para onde Clyde estava, o moreno alto já havia saído dali. Ele sentiu seu coração acelerar e olhou de um lado para a outro a procura dele — não era como se Clyde Donovan fosse um cara difícil de se esconder com todo aquele tamanho.
Ele saiu do saguão do alojamento da estação e sentiu o vento frio da noite cortar seu rosto, até mesmo machucar um pouco seus olhos. Ele pôs o casaco de volta e olhou ao longe a figura gigantesca de Donovan andando em direção ao hotel onde ficavam os quartos dos alunos. Ele andou na direção do namorado a passos largos para alcançá-lo antes que ele chegasse a seu destino, mas sem sucesso. Ele entrou alguns minutos depois de Clyde no hotel e subiu as escadas. O lugar tinha apenas dois andares e poucos quartos por andar, não tinha certeza de onde Clyde estava ficando, mas resolveu arriscar tentar segui-lo.
Ainda no primeiro andar, ouviu a última porta no fim do longo corredor se fechar, imaginou que só poderia ser ele. Andou até lá e bateu cuidadosamente na porta, não tinha certeza de Clyde estava sozinho ou com os membros de seu grupo.
— Clyde? — Ele chamou uma vez que ninguém atendeu quando ele deu a primeira batida. — Clyde, por favor, se você estiver aí, abre a porta. — Ele já estava sentindo aquele nó no estômago sabendo que uma discussão era bastante provável e, naquele momento, ele nem estava em posição de argumentar ou se defender.
— A porta está aberta. — Ele ouviu após alguns segundos de silêncio. Era definitivamente a voz de Clyde.
Pip respirou fundo e sem titubear abriu a porta dando de cara com um Clyde completamente nu, apenas amarrando uma toalha branca na cintura. Phillip respirou fundo e tinha acabado de perceber que, desde a festa a fantasia, os dois não dormiam juntos. Ele tinha o olhar tão fixo em Clyde que o jogador sentiu-se tão desejado que por um momento esqueceu que Phillip estava com os olhos grudados em Damien há poucos instantes.
— Bom saber que preciso ficar pelado pra que você olhe pra mim. — Ele provocou tirando a toalha da cintura, ficando de costas para o namorado.
— Você sabe que isso não é verdade. — Phillip tentou começar a se explicar mas não tinha exatamente uma real explicação do porque estava tão encantado por Damien.
— Será que sei, Phillip? — Clyde continuou enquanto entrava no banheiro ligando o chuveiro.
— Clyde, eu sou completamente apaixonado por você! — Pip dizia com sinceridade na voz e Clyde sabia que, ao menos aquilo, era verdade mesmo. — Não tem nada acontecendo entre eu e o Damien ou qualquer outra pessoa.
Ele se aproximou do moreno alto que agora voltava ao quarto exibindo novamente aquele corpo digno de um Apolo. Clyde buscou a toalha branca em cima da cama quando sentiu o toque gelado das mãos de Pip em um de seus ombros. O jogador virou-se de frente pra ele e tentou resistir àqueles olhos azuis intensos, os lábios rosados e o rosto parcialmente coberto pelos cabelos loiros. Ele segurou o rosto de Pip e o beijou jogando-o contra a parede do quarto de uma maneira não muito agressiva, mas certamente como se quisesse tomar de volta o que era seu.
Segurou Pip pelos quadris levantando-o do chão alguns centímetros enquanto sentia seu próprio membro endurecendo, beijava Phillip de maneira cada vez mais intensa, mais forte, com mais língua e com uma das mãos espalmadas segurando sua coxa levantando uma de suas pernas.
Realmente se tinha algo que fazia Phillip esquecer qualquer coisa — e qualquer um — eram aquelas pegadas fortes e dominadoras de Clyde. Ele realmente era algo insaciável na cama, seu excesso de testosterona pelo estilo de vida que levava o deixava como um verdadeiro predador sexual, que urrava, gemia alto, respirava forte e exalava aquele cheiro de homem característico que, em todas as vezes, fazia com que Pip se sentisse tonto, desnorteado e incapacitado de se negar a qualquer coisa, se esquivar, fugir ou segurar a vontade de chupá-lo não importando onde estivessem.
Funny how the heart can be deceiving
(Engraçado como o coração pode ser enganado)
More than just a couple times
(Mais do que uma ou duas vezes)
Why do we fall in love so easy?
(Por que nos apaixonamos tão facilmente?)
Even when it's not right
(Mesmo quando não é certo?)
— Estou atrapalhando? — Damien Thorn era a criatura mais inconveniente da face da terra.
Clyde virou imediatamente para ver de quem se tratava e Pip tomou um susto tão grande que teve certeza que seu coração pulou uma batida.
— Vai embora daqui agora. — As palavras ditas pro Clyde nem pareciam ter saído dele. Ele era geralmente um cara doce, tranquilo e por isso era difícil imaginar aquele tom gutural, cheio de ódio impulsivamente saindo de sua boca. Ele segurou Phillip perto de si de uma maneira tão brusca que o loiro sentia seu braço doer.
— Esse é o meu quarto também. — Damien disse jogando a mochila em cima da cama. Ele não estava demonstrando, mas estava com tanta raiva que definitivamente poderia matar alguém aquela noite.
— A gente conversa depois, meu amor. — Pip disse sussurrando no ouvido de Clyde e tentando se desvencilhar da mão pesada do jogador.
— Você não vai sair daqui. — Ele disse olhando firme para o loiro no mesmo tom que falou com Damien.
— Você está machucando ele, seu gorila estúpido. — Damien disse não conseguindo esconder a raiva ao ver a clara expressão desconfortável de Pip com seu braço.
Clyde o soltou imediatamente, realmente não havia se dado conta. Respirou fundo tentando se acalmar e realmente tinha que admitir que Pip parecia assustado e Damien agora é quem parecia um psicopata, com seus olhos praticamente flamejando de ódio. Aos poucos era como se o jogador fosse voltando ao normal.
— Depois eu ligo pra você. — Pip continuava falando baixo e tentando de todas as formas não olhar para Damien, pois sabia que era o que faltava para que os dois homens ao seu lado começassem a se comportar como animais pré-históricos brigando por comida. — Por favor se acalme. — Foram as palavras finais do estudante de Arte que deixou o quarto com a mesma velocidade que entrou. Nem Damien nem Clyde o impediram, apenas permaneceram encarando um ao outro sem dizer nada.
— Você deveria ter vergonha nessa sua cara, Damien, e perceber quando perdeu e tirar seu time de campo. — Clyde dizia sem se importar de estar completamente nu, ainda de pau duro.
Damien não respondeu, deu uma boa olhada no corpo de Clyde, provocando obviamente. Parou por alguns segundos no membro do jogador, como se quisesse perceber cada detalhe do corpo liso e sem pêlos de um homem que era quase o dobro do seu tamanho, apesar de terem basicamente a mesma altura.
— Tirar meu time? — Damien riu com a comparação. — Acredito que se está nesse estado é justamente porque viu o que aconteceu lá no saguão. — Ele estava quase orgulhoso daquilo, de saber que seu precioso Pip gastou alguns minutos de vida olhando pra ele. — Acho que você deve deixar Phillip escolher com quem quer ficar.
— Escolher? — Clyde quase gargalhou nervoso enquanto amarrava a toalha na cintura. — Ele está comigo! Não há nada que você possa fazer, Damien, que não aceitar esse fato. Ele não tem nada pra escolher, ele é meu. — Clyde estava espumando de raiva mas tentava controlar-se e parecer superior. Pela cara de Damien ao ouvir aquelas palavras, percebeu que realmente havia funcionado. — Agora saia daqui, eu não vou dividir o quarto com você.
— Você não terá escolha. Butters e Cartman escolheram o melhor quarto primeiro e eu duvido que algum deles queira trocar com você. — Damien disse sentando-se na cama onde tinha colocado a mochila.
— Você está brincando com a minha cara... — Clyde passou uma das mãos pelo rosto com raiva. — Eu preciso tomar banho definitivamente. — Ele disse tirando a toalha da cintura e novamente recebendo o olhar provocador de Damien enquanto pegava cuecas limpas na mochila. — E pare de me olhar, seu esquisito.
— Só estou tentando entender o que Pip viu num cabeça-oca feito você, Clyde. — Ele disse suspirando e olhando para a bunda jogador, mas Clyde não se ofendeu, apenas revirou os olhos. — Mas acho que agora entendo. — Damien sorriu passando a língua pelos lábios e não fazendo nenhuma questão de disfarçar que realmente estava quase comendo Clyde com os olhos.
— Vai se foder, Damien. O que eu e Pip temos é muito mais do que sexo. Ele me ama pelo que eu sou, não importa o corpo que eu tenha. Você o conhece, deveria saber que ele não se envolve por causa de físico. — Clyde quase sentiu que deveria defender a honra de Pip de certa forma.
— Eu sei, mas também sei que você também pode ser um parque de diversões, Clyde. — Damien cerrou os olhos levantando-se e andando na direção de Clyde, ficando a centímetros de distância dele.
— É a sua cara objetificar as pessoas mesmo, Damien. — O jogador disse pensativo.
— Nossa, está usando palavras difíceis, Clyde. — Damien agora era um sussurro perto do rosto de Clyde, que mordia o maxilar com raiva de tê-lo tão perto daquele jeito. — Continua, estou quase de pau duro.
Clyde imediatamente e já completamente sem paciência, segurou Damien pelo colarinho da jaqueta o jogando contra a parede com força, com raiva. Damien, como se já tivesse previsto aquilo, apenas sorriu, gemendo baixinho de dor quando suas costas tocaram a parede.
— Sabe que pode me bater se quiser, não vou nem revidar. — Damien começou sentindo a respiração de Clyde em seu rosto. — Pode acabar comigo, pode me jogar pela janela se achar que é uma boa ideia. — Ele fez uma pausa e Clyde começou a sentir-se tentado a fazer tudo aquilo mesmo. — Mas nada vai mudar o fato de que Phillip tem sentimentos por mim. Não importa o que faça, não pode mudar isso, Clyde. Nem todo seu dinheiro, nem seu contrato com os Broncos, nem seu corpo e nem a surra que quer me dar. — Ele percebeu que, mesmo com raiva, Clyde sabia daquilo. Por um momento apenas torceu para que ele acreditasse naquilo, pois a última coisa que queria, era sentir um soco daquela mão pesada de jogar de Clyde Donovan.
Clyde sabia que aquilo era verdade, que não se tratava apenas de uma cartada, uma provocação, palavras vazias que Damien dava um jeito de terem significado. Era verdade que Pip estava confuso, que tinha um passado intenso com Damien e que aquele moreno alto, com olhos perigosos e um sorriso amarelo tinha ocupado um capítulo inteiro no livro da vida de Pip. E não haveria surra no mundo capaz de apagar aquilo.
Ever worry that it might be ruined?
(Já se pensou que isso pode ser arruinado?)
Does it make you wanna cry?
(Te faz querer chorar?)
When you're out there doin' what you're doin'
(Quando está por aí fazendo o que faz)
Are you just getting by?
(Ou está apenas sobrevivendo?)
O jogador soltou Damien e alinhou a postura, respirou fundo mais de uma vez e se afastou. Parte dele já estava cansado das provocações de Damien, mas outra parte dele dizia que aquilo fazia parte do jogo de Thorn: cansar as pessoas. Se ele não pudesse derrotá-lo, ele o cansaria até que desistisse. Isso geralmente funcionaria e especialmente com relacionamentos, até que a coisa ficasse insustentável, até que Damien percebesse que tinha espaço.
Mas Damien nunca teve a resposta que queria, apenas observou Clyde parecer resignado entrando no banheiro com sua toalha e sua roupa íntima. Era verdade que ele bateu a porta com uma força desnecessária.
Damien respirou fundo e jogou-se de volta na cama, fechou os olhos e, ao menos quando eu estava sozinho, podia relaxar sua mente que raramente se aquietava. Gostava de pensar que aquilo estava funcionando e sabia que tudo que precisava era uma próxima chance de estar sozinho com Pip e, antes mesmo de voltarem pra faculdade, ele sabia que encontraria a oportunidade perfeita.
x.x.x
Já passava das dez da noite quando finalmente os garotos estavam com tempo para conversarem sem estar com as crianças por perto, que já dormiam há pelo menos uma hora. Kyle tinha uma caneca de chá verde em mãos e, perto da lareira, conversava com Stan, sobre o dia que tiveram, sobre Cartman e o final de semana que passaram juntos.
— Sabe que eu ainda acho graça em falar disso. — Kyle dizia rindo conversando com o melhor amigo mas, de longe, observava Eric conversando com Butters e parecia animado, provavelmente falando sobre os planos do dia seguinte. — Quer dizer, sempre fomos íntimos, todos nós, não é como se nunca tivéssemos nos visto sem roupa ou algo assim.
— Isso é verdade, mas não é a mesma coisa. — Stan dizia pensativo.
— Claro que não, mas mesmo assim não foi tão difícil. — Kyle dizia mas não sabia até que ponto poderia ir sem deixar a conversa estranha. — Mas Eric é um cara extremamente... sexual. — Ele queria usar um adjetivo mais real, mas pela cara que Stan olhava pra ele, percebeu que nada poderia ser mais claro naquele momento.
— Eu realmente estou com dúvidas se quero falar sobre isso com você. — Stan dizia rindo e Kyle quase se afogou quando tomou um gole de seu chá. — Somos amigos desde sempre, mas também sou amigo dele e acho que não estou preparado para tantos detalhes!
— Não se preocupe, nem eu estou pronto pra dividir. — O ruivo dizia ainda se divertindo com a situação apesar de ser um tanto constrangedora. O que o fez pensar que envolvia alguma espécie de auto-preconceito, já que se aquilo se tratasse de uma garota, independentemente do quão bem a conhecia, não teriam problemas em comentar os detalhes sórdidos.
Aparentemente com homens a coisa era um pouco diferente.
— Estou vendo que Cartman e Butters estão se dando bem aparentemente, apesar daquele grupo... — Stan pensou um pouco antes de completar. — Aquele grupo é uma bomba atômica.
— Concordo. — Kyle disse arqueando as sobrancelhas e observando Butters anotar algumas coisas que Eric dizia. — Mas talvez seja o que faz funcionar, imagine se isso fosse uma competição...
— Eles ganhariam. — Stan filosofou pensando na fortaleza que poderiam formar juntando o poder persuasivo de Cartman, com a manipulação de Damien, a força de Clyde e a capacidade de direcionamento de Butters. — Ainda bem que não é, eu diria.
— Ei. — Kenny disse se aproximando dos dois. — Estou morto, acho que vou dormir. — O loiro disse massageando as têmporas. — Steve é muito ativo, não sei se terei energia pra cuidar desse garoto. — Ele dizia rindo lembrando-se do menino hiperativo que tinham escolhido pra ele. — Estávamos brincando de esconde-esconde, eu demorei quase vinte minutos pra achar o moleque e ele estava dormindo dentro do armário de limpeza. — Kenny dizia lembrando do breve pânico que passou quando não conseguia achar o menino.
— Eu passei muito tempo com a Wendy, acho que dei sorte. — Kyle dizia tocando o ombro de Kenny em forma de apoio. — Julie é muito doce, mas quis ficar o tempo todo com a irmã, Anne, que está com Wendy... Julie tem sérios problemas de confiança. Já percebi isso em apenas algumas horas.
— Wendy estava muito comovida com isso também. — Stan tomou a palavra. — Ela estava me contando que as meninas meio que já passaram por três ou quatro orfanatos. Nunca dá certo de adotá-las, pois querem ficar juntas e os pais geralmente só querem uma delas.
— Bom, aí está o problema de confiança. — Kenny acrescentou o óbvio. — Podemos conversar sobre isso amanhã, de repente podemos até encontrar uma forma de ajudar.
— Contem comigo, Julie é muito madura pra idade dela, fiquei até assustado. — Kyle comentou lembrando das poucas palavras ditas pela meninas, mas ainda assim não condizentes com uma menina de 10 anos.
— A pequena também queria muito ficar perto de Alexia, a menina que está com Butters. — Stan continuou. — Acho que as duas têm a mesma idade, deve ser por isso. Podemos falar com ele pra tentar fazermos atividades com as três juntas.
— Cara, muito boa ideia, Stan. — O ruivo comentou animado dando o último gole em seu chá.
— Até porque acho bom que isso nos aproxime um pouco mais do Butters. — Kenny direcionou o olhar para o loiro que agora estava sozinho guardando algumas coisas em sua própria mochila e Cartman se aproximava dos três. — Ele está precisando se aproximar de nós, está muito andando com Damien.
— Quem? Butters? — Cartman intrometeu-se na conversa ficando ao lado de Kyle, passando o braço pelo ombro do ruivo. Stan e Kenny olharam a cena como se fossem duas crianças prontas para tirar sarro. — E nem comecem. — Cartman ficou sério já conhecendo bem aquelas caras. — Estamos juntos e vocês já sabem, e se alguém estiver achando ruim, é só avisar que a gente resolve lá fora. — O problema de Cartman era mesmo querer compensar demais.
— Ninguém está achando ruim, Cartman... — Kenny disse rindo. — Mas acho que vai levar um tempo pra gente se acostumar. Não que isso seja novidade pra alguém, você disfarçava muito mal...
— Kenny, você adora falar que “já sabia” das coisas depois que elas já aconteceram. Muito conveniente. — Cartman disse sem se importar muito, no fundo sabia que Kenny era mais esperto do que as pessoas pensavam.
— Mas voltando ao assunto que interessa... — Stan interrompeu os dois. — Cartman, você vai ficar no quarto com quem? Eu sei que eles separaram dois por quarto.
— Vou ficar com Butters. — Cartman disse e os outros três arregalaram os olhos.
— E vai deixar Clyde e Damien sozinhos? Eric! — Kyle disse recriminando a atitude do namorado.
— Eles vão se matar, Cartman. — Kenny disse como se aquilo fosse óbvio.
— Meu quarto e do Butters é o melhor. E eu não vou sair de lá e nem ele. — Cartman respondeu com o mesmo tom de obviedade. — Eu queria ficar com Clyde, mas... — Ele disse ligeiramente frustrado. — Na verdade vocês sabem com quem eu de fato queria ficar, né. — Ele disse com um meio sorriso, quem visse, diria que ele até estava um pouco com vergonha. Mas os três riram e Kyle ficou vermelho.
— Vamos parar com isso, por favor. — O ruivo disse sorrindo.
— Cedo demais? — Eric perguntou e Kenny e Stan responderam um sonoro “sim” em uníssono.
— Certo, certo. Eu acho uma boa ideia mesmo, Eric. — Kyle voltou a referir-se ao fato de Cartman e Butters dividirem o quarto. — Butters está precisando voltar a ser nosso amigo, ele anda meio estranho.
Cartman não respondeu mas sabia melhor que todos o que estava acontecendo. Viu-se feliz e imaginou que realmente tinha causado um dano muito maior do que admitiria em voz alta. Pensou em contar a história para os amigos mesmo depois de tantos anos, mas achou que seria mais recriminado que compreendia. Não que fosse alguma novidade os amigos não segurarem a língua quando se tratava de dizer a ele que ele estava errado. Mas aquilo era um pouco mais grave do que ele calculou na época e, inclusive, estava com Kyle agora, não queria deixar o ruivo desconfiado ou preocupado com o fato de que Butters ainda tinha sentimentos por Eric, o que era óbvio.
Decidiu não dizer nada, embora soubesse, pelo histórico de amizade de Kenny e Butters, que o loiro à sua frente desconfiava de algo. Virou o rosto para acompanhar Butters deixando o saguão do alojamento provavelmente indo para o hotel.
— É, vou conversar com ele. — Foi tudo que Cartman disse sentindo Kyle o abraçar pela cintura.
— Boa noite, rapazes. — A diretora do orfanato aproximou-se dos quatro claramente preocupada e apreensiva. Os quatro responderam baixinho percebendo a aflição dela. — Eric, você sabe nos dizer onde Dave poderia estar?
— O que? — Eric estranhou a pergunta, lembrava-se perfeitamente de ter deixado o garoto em seu quarto no alojamento quando chegaram à Estação. O garoto chegou com o ônibus e ficou com Eric o tempo todo durante a confraternização da chegada. — Não... Quer dizer, ele estava comigo o tempo todo. Não conversamos muito, mas fizemos planos do que fazer amanhã e ele quis ir pro quarto mais cedo, disse que queria ouvir música e descansar. — Eric sentiu-se um pouco amador de ter acreditado naquilo, mas a realidade é que ele estava quase feliz de ter se livrado do garoto mais cedo aquele dia, assim poderia ficar com Kyle.
— Ele não está no quarto e não conseguimos encontrá-lo. — Ela disse arrumando o casaco fino de lã que vestia.
— Nós vamos procurá-lo. — Stan foi o primeiro a se manifestar. — Não se preocupe, senhora.
— É, fazemos questão de ajudar. — Kenny complementou e Kyle concordou com a cabeça.
— Não se preocupe, diretora Marshall, vou encontrá-lo, tem a minha palavra. — Eric dizia franzindo o cenho e ela realmente viu que ele falava sério, mas na verdade estava furioso e os outros três perceberam.
Quando ela se afastou, Eric bufou quando os amigos o cercaram. Ele estava frustrado pois sentia que aquele menino, ele gostando ou não, era responsabilidade dele, e o fato dele ter sumido não apenas o fazia sentir-se culpado, mas pior, o fazia sentir-se incapaz, como se tivesse falhado em algo e isso sem dúvidas, pra ele, era a pior coisa que ele poderia sentir.
— Onde você acha que ele pode ter ido, Cartman? — Stan perguntou já pegando o celular para olhar o mapa da região.
— Ele disse alguma coisa pra você sobre fugir? Sobre alguém? — Kenny perguntou, meticuloso em seu raciocínio. — Tem alguma ideia se ele pode ter ido especificamente para o orfanato ou estava já querendo fugir de lá?
— Ele não queria vir. — Eric respondeu. — Isso é tudo que eu sei, e realmente não fui a melhor pessoa do mundo com ele... Caralho, se alguma coisa acontecer com esse moleque... — Eric disse esmurrando a parede de madeira maciça, e mal prestando atenção na dor.
— Calma. — Kyle dizia olhando nos olhos dele, tentando sentir o mesmo, mas também estava preocupado. — Não vamos alarmar ninguém, vamos cada um para um lado.
Eric pensou por uns minutos olhando pela janela, tentando conectar alguma pista do que o garoto havia dito pra ele em alguma conversa no início daquela noite, mas não conseguia pensar em nada, precisava antes desanuviar a raiva que estava sentindo especialmente porque parecia que tinha sido enganado por um garoto idiota de 14 anos e aquilo mexia com seu orgulho pessoal.
— Stan, me deixa ver esse mapa. — Ele teve um pequeno insight ao perceber onde estavam.
O moreno alto passou o celular para as mãos de Eric que olhou atentamente onde estava, dando zoom na tela e criando direções em sua mente.
— Eu já sei onde ele está. — Cartman disse confiante devolvendo o celular para o amigo. — Kenny está certo, ele está fugindo.
— É o que órfãos geralmente fazem. — Foi a resposta do loiro que aos poucos ficava mais tranquilo ao perceber a segurança de Cartman, que colocava a jaqueta de frio preparando-se para sair.
— Vamos com você. — Kyle disse prestativo.
— Não precisa. — Cartman ajeitou o capuz da jaqueta colocando as mãos nos bolsos. — Ele está indo para a velha estação de trem há 3 quilômetros daqui, aquela que vai pra Denver.
— Como tem tanta certeza? — Stan perguntou franzindo o cenho e Cartman respirou fundo não querendo admitir muito aquilo, mas falou por fim quando puxou o zíper da jaqueta até o queixo.
— Porque ele não queria vir. Eu sabia, estava fácil demais. — Ele respondeu checando as chaves do carro no bolso. — Ele só aceitou vir porque teve alguma ideia. Volto logo. — Eric saiu com pressa e pisando pesado no chão indo até seu carro.
x.x.x
A estrada estava praticamente vazia até a antiga estação de trem. Cartman não parecia muito preocupado com a velocidade, pois realmente deu um novo sentido à expressão “pisar fundo”. Só parou de morder a parte interna da bochecha quando sentiu gosto de sangue.
Não demorou muito para chegar onde queria, mesmo parecendo uma águia olhando ao redor da estrada para ver se não via o garoto andando sozinho, mas estava realmente tudo vazio. Por alguns momentos, chegou mesmo a pensar o pior, mas logo afastava o pensando, pois acelerava o carro ainda mais quando coisas ruins lhe minavam a mente.
Estacionou o carro derrapando e cantando pneus, chamando atenção de algumas poucas pessoas que estavam do lado de fora do local. Saiu do veículo e correu até dentro do lugar olhando em cada canto das cabines que emitiam passagens e então viu Dave, deitado num banco velho usando a mochila como travesseiro e dois casacos para se cobrir.
Poucas vezes na vida Eric Cartman sentiu aquele alívio como se subisse de volta à superfície da água para respirar.
Não queria demonstrar que estava uma pilha de nervos, andou sem muita pressa até o banco onde o garoto estava deitado, enterrou as mãos nos bolsos e mordeu o lábio inferior. Alguns instantes antes de chegar até ele, pegou o celular e mandou uma mensagem para os três amigos avisando que tinha encontrado o garoto, que poderiam tranquilizar a todos que logo estariam voltando.
Ele ficou parado de frente para o banco esperando ser notado pelo garoto que, quando o viu ali, mal podia acreditar. Dave bufou com raiva, ajeitou os cabelos tirando os casacos de cima de si e puxando a mochila para o chão, colocando sobre seus pés, como se desse espaço para o jogador sentar, e Cartman assim o fez.
O moreno alto não sabia bem por onde começar, não queria ser agressivo e não queria ser condescendente ao mesmo tempo. Queria naquele momento, sem nem saber porquê, enfiar alguma coisa produtiva na cabeça daquele garoto e se frustrava muito por não saber o que dizer para convencê-lo de que estava sendo infantil e idiota sem exatamente usar esses adjetivos.
— Como sabia que eu estava aqui? — Dave perguntou sem olhar Cartman, resignado e tendo a certeza que aquele cara era mesmo teimoso e não o deixaria ir a lugar nenhum.
— E por que não saberia? — Cartman perguntou como se aquilo fosse óbvio. — É o que qualquer idiota faria.
O garoto respirou fundo cansado, pegou a mochila e colocou no ombro direito, juntou seus casacos e preparava-se para sair. Se Cartman quisesse que ele ficasse, teria que amarrá-lo no carro. Eric levantou-se junto com ele e percebeu que ser “ele mesmo” não iria funcionar.
— Espera. — Eric disse tentando catar o mínimo de paciência dentro de si. O garoto não disse nada, apenas parou virando-se de frente para Cartman com cara de poucos amigos. — É o que eu faria. — Ele disse por fim. — Por isso sabia que estaria aqui.
— Está querendo dizer que sabe alguma coisa de mim? — O garoto sorriu irônico. — Você não sabe nada sobre mim, sou só o seu projeto social de final de semana, cara.
— Não, não é. — Cartman chegou mais perto do garoto. — Eu nem queria estar aqui, essa é que é a verdade.
— E por que veio então? — Dave largou a mochila no chão e, pela primeira vez desde que se conheceram, Cartman percebeu que estava começando a realmente se aproximar do menino.
— Porque meus amigos estão aqui e um deles insistiu muito pra que eu viesse, achando que seria uma boa ideia. — Ele foi parcialmente sincero. Não mencionou o que Kyle realmente era.
— Senhor Cartman...
— Eric. — Ele corrigiu interrompendo.
— Eric. — O garoto repetiu dando a entender que aquilo não significava qualquer tipo de intimidade de qualquer forma. — Eu só quero ir para a Califórnia cuidar da minha vida.
Cartman deu uma sonora gargalhada. Não só pelo fato daquilo ser totalmente infundado para qualquer pessoa, especialmente para um menor de idade, mas porque realmente aquele menino era mais parecido com ele do que ele jamais iria imaginar.
— E vai fazer o que lá? — Cartman dizia em meio a risos.
— Vou pra San Diego tentar encontrar meu pai. — Ele disse sério, decidido. Cartman parou de rir.
O jogador respirou fundo e realmente não sabia o que poderia falar para fazer o garoto mudar de ideia, pois aquilo realmente era a situação mais difícil que ele já tinha enfrentado e, novamente, iria ter que fazer algo que fugia o tempo todo: criar empatia e falar de suas próprias feridas nunca curadas.
— Certo... — Ele começou voltando a sentar-se no banco que estavam antes. — Sente-se.
— Pra quê? — O garoto perguntou franzindo o cenho. — Ou melhor, por que eu deveria confiar em você?
Eric achou que aquela sim era uma pergunta bastante razoável. Ele certamente não confiaria numa pessoa que conheceu há poucas horas, especialmente para falar de seu pai ou de algo extremamente íntimo, perturbador e que ainda doía muito.
— Porque você pensa que não sei o que está passando, mas eu sei sim. — Ele foi sincero a um ponto que poucas pessoas já tinham visto. — Eu também não conhecia meu pai até o começo desse ano. — E aí estava, um de seus maiores segredos que nem seus amigos sabiam. — Nunca soube quem ele era e recentemente consegui encontrá-lo.
O garoto percebeu que Eric estava tão desconfortável de falar aquilo que não tinha como ser mentira. Eles trocaram olhares e então Dave cedeu e sentou-se ao lado do jogador de basquete.
— Sua vez. — Eric disse ao ver que o garoto estava um pouco mais aberto, sentado ao seu lado, encarando o próprio Adidas velho.
— Minha mãe morreu quando eu nasci. — Ele começou e Cartman percebeu que ele também não queria falar sobre aquilo. — Meu pai foi embora quando minha mãe ainda estava grávida e fui criado pela minha tia, irmã da minha mãe, até os 3 anos, ela era minha única família mas morreu de câncer. — Ele contava como quem já havia repetido aquela história triste algumas boas vezes. Eric sentiu-se mal pelo garoto.
— E como sabe que seu pai está em San Diego?
— Minha tia tinha dito para uma assistente social um pouco antes de morrer. Ela deixou o nome a cidade de onde ele era quando namorava minha mãe.
— Dave, me desculpe, mas não posso deixar você ir. — Cartman foi até carinhoso ao dizer, mas firme. — Sabe que preciso te levar de volta. Têm pessoas pra ajudar, existem meios de fazer isso.
— Você realmente acha que é a primeira vez que isso acontece? — E lá estava o garoto enfezado novamente. — Sempre me prometem coisas e nunca cumprem. Talvez meu pai esteja também procurando por mim.
— E talvez ele não esteja. — Cartman disse recebendo um olhar triste como resposta. — Você precisa estar preparado pra isso, não sabe o que esperar. Você tem 14 anos, cara, não pode sair por aí achando que vai conseguir alguma coisa. Pegou carona pra chegar até aqui? — O garoto fez que sim com a cabeça. — Está vendo? Ficou louco? Você é menor de idade, é responsabilidade do orfanato, acha mesmo que ninguém procuraria por você? E se a pessoa que te trouxe até aqui, não tivesse trazido? — Ele entendeu a implicação de Cartman que ele poderia estar morto ou ter sofrido qualquer tipo de abuso.
— Por que se importa? Porque acha que sou criança? Porque eu não sou. — Ele disse num tom de voz mais alto.
— Se quer ser tratado como o adulto que pensa que é, saiba que fugir no meio da noite sem ter pra onde ir não é uma atitude muito esperta. — Cartman respondeu no mesmo tom e o garoto se calou. — Vamos, vou te levar de volta.
— Eu não vou voltar, pode me bater se quiser. — Dave realmente acreditava que Eric estava pronto para dar uma surra nele a qualquer momento.
— Não vou te bater. — Eric disse levantando-se do banco e ficando de frente para o garoto que parecia mais assustado do que bravo. — Mas se vier comigo, tem a minha palavra que vamos encontrar seu pai.
— E por que eu acreditaria em você? Todos dizem o mesmo! — O garoto disse e Cartman percebeu que ele realmente queria acreditar naquilo daquela vez.
— Eu estaria aqui se não me importasse? — Eric respondeu convicto. — Eu não tenho obrigação de estar aqui, provavelmente sua diretora chamaria a polícia ou qualquer algo assim e você teria que voltar pra lá de qualquer jeito, ou pra qualquer outro orfanato. — Eric disse e pode ver os olhos do garoto marejados. — Eu prometo que vou te ajudar, confie em mim. — Ele disse abaixando-se na frente dele. — Sei que não estou em posição de pedir o que quer que seja de você, mas se me conhecesse... Ou melhor, quando me conhecer, vai saber que eu tenho vários desvios, mas eu cumpro o que eu digo.
O garoto ainda titubeou alguns segundos, deixou uma lágrima teimosa escorrer pelo rosto, mas aparentemente aquele homem à sua frente não iria a lugar nenhum e, por alguma razão, pela primeira vez em anos, gostou de ter a certeza daquilo. Levantou-se e seguiu com Cartman até o Porsche estacionado de qualquer jeito no frio.
You gotta get up and try, and try, and try
(Você tem que levantar e tentar, e tentar, e tentar)
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