Ten Years Later
10 Shut up, Marsh
CAPÍTULO X
Shut up, Marsh
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Duas batidas na porta foram o suficiente para distrair Stan do filme que assistia. Aquele era o sábado mais preguiçoso que ele tinha desde que as aulas começaram. Wendy disse que passaria em seu dormitório mais tarde, mas achou que era cedo demais para ser ela. Ela tinha ido ao teatro com Bebe, não era possível que já estivesse de volta. Mesmo assim ele levantou-se da cama, pôs a TV no mudo e abriu a porta dando de cara com um Kyle com uma mochila nas costas.
— Desde quando eu tenho que abrir a porta pra você? — Stan riu dando espaço para o amigo entrar. — Sabe que pode simplesmente entrar.
— Não estou a fim de dar de cara com você e a Wendy transando. — Kyle foi direto, como se fosse óbvio e Stan riu. — Vai que ela me chama para me juntar a vocês? Seria estranho.
— Vai se foder, Kyle. — Stan riu ainda mais ao ouvir a brincadeira, Kyle jogou-se na cama deixando a mochila de lado. — Por que está de mochila?
— Eu preciso conversar com você. — O ruivo sentou-se na cama ficando mais sério, olhava Stan nos olhos, mas o moreno sorriu baixando a cabeça.
— Estava mesmo me perguntando quando você diria isso. — Stan mordeu o lábio inferior para não rir ao ver Kyle corar de leve.
Os dois trocaram olhares cúmplices por alguns segundos. Aquelas situações deixavam Cartman com ciúmes quando ele via, lógico que ele jamais admitiria. Mas a sintonia de Stan e Kyle era surreal, a ponto de se entenderem por gestos, olhares e linguagem corporal quase imperceptível para os outros. Eram melhores amigos desde que não tinham aprendido direito a falar e aquela cumplicidade rara já crescia e se fazia presente entre eles.
— Tem certeza disso que está acontecendo? — Stan disse diante do silêncio do outro, já sabendo que ele tinha entendido. — Conhece Cartman, ele pode ser difícil...
— Confesso que estou um pouco deslumbrado com ele estar me tratando bem depois de tantos anos. — Kyle disse sem tirar o sorriso do rosto. — Mas ele acabou despertando isso em mim... Acho que também sentia e não sabia. É estranho, acredite.
— Um pouco. — Stan ajeitou-se na cama ao lado do outro que estava mais confortável agora. — Mas fico feliz por vocês, são dois dos meus melhores três amigos.
— Acho que não conheço você tão bem quanto pensava. — O ruivo disse rindo arrumando os cachos que lhe caíam nos olhos.
— Achou que eu ia ter um ataque aqui? — Stan arqueou as sobrancelhas e também riu. — Sabe que vou te apoiar não importa o que decida, Kyle... Talvez eu não possa dizer o mesmo sobre Cartman, já que o normal dele é fazer escolhas terríveis... — Os dois riram com vontade. — Mas se tem uma coisa que sempre soube é que a implicância dele com você nunca foi a toa.
Os dois ficaram em silêncio mais uma vez e Stan apenas aguardou. Sabia que Kyle diria em seguida alguma coisa mostrando que estava inseguro e não quis "atropelar" a conversa, deixou o amigo extremamente a vontade. No fundo, ele não estava surpreso pela atitude de Cartman, já desconfiava há um bom tempo dos sentimentos do outro e, julgando pelas escolhas ruins relacionadas à namoradas, ele já sabia que nunca durariam. Mas sim, não esperava de Kyle uma aceitação tranquila como a que ele estava tendo. Poderia jurar que ele estava inclusive muito feliz.
— Acha que isso vai funcionar? — E aí estava a insegurança que Stan estava esperando aparecer. Kyle realmente estava esperando aquele baque, aquele choque de alguém dizendo que o que ele estava fazendo era burrice. Mas esse pensamento sequer passava pela cabeça de Stan.
— Não sei. — Stan sorriu tranquilo, dando de ombros. — E essa é a melhor parte, você nunca sabe.
— Como é que isso pode ser a melhor parte de alguma coisa? — Kyle riu confuso. As coisas pra ele eram sempre um pouco mais racionais.
— Porque está aí a graça! — O moreno alto coçou a cabeça pensativo. — E, acredite, se Cartman se deu ao trabalho de dizer como se sente... O mínimo que você deveria dar de crédito a ele é uma chance de se provar. — Ele fez uma pausa, ponderando antes de falar. — Se ele, que é daquele jeito, está se arriscando... Acho que isso vale de alguma coisa.
— Você é um puta cara esperto. — Kyle disse ao amigo de um jeito carinhoso.
— E de que outra forma eu conseguiria estudar Medicina? — Stan brincou, sorrindo mostrou os dentes bonitos, tocou o ombro de Kyle num gesto de apoio. — E tenho certeza que você será uma boa influência para aquele balofo. — Os dois riram alto. — "Judeu idiota". — Stan imitou a voz de Cartman fazendo uma careta engraçada.
— Ele me chamou pra passar o final de semana na casa dele. A mãe dele não vai estar. — Kyle disse meio de canto, já imaginando que Stan iria sorrir daquele jeito malicioso como justamente estava fazendo.
— Mas já nesse nível? Demorou tanto assim pra me contar por quê? — Stan ria e agora entendia a mochila do outro.
— Não é bem assim... — Kyle riu parecendo uma criança que estava prestes a aprontar alguma coisa. — Mas acho que vai ser divertido poder conhecer de fato esse lado dele com a guarda tão baixa. — Ele levantou de onde estava voltando a pôr a mochila nas costas.
Stan ria enquanto os dois caminhavam juntos até a saída do dormitório, ficando com a porta aberta do quarto, mas na parte de fora, onde havia uma espécie de varanda com escadas. De longe, observavam Cartman escorado em seu Porsche, de óculos espelhados Ray Ban, jaqueta de couro preta, jeans claro desbotado, olhando para o nada, parecia submerso em seus próprios pensamentos.
Stan observou ligeiramente a forma como Kyle olhava pra ele e teve certeza que finalmente Cartman tinha feito algo direito na vida. Eric, como se tivesse sentido os olhares dos dois, virou-se na direção deles e passou a andar ao encontro dos amigos. Nesse meio tempo, Kyle baixou os olhos, mas Stan encarou Cartman com um sorriso engraçado, como se tivesse pensando em alguma piadinha, como se estivesse esperado por aquele momento por um longo tempo e, ao ver que Eric percebeu e fechou a cara, ele não aguentou e começou a rir.
— Nem comece, Stanley. — Cartman disse quando chegou até os dois.
— Eu nem disse nada! — Stan defendeu-se rindo e Kyle tocou o ombro de Cartman rindo, murmurando algo como "vou colocar a mochila no carro", tirando sutilmente as chaves do carro das mãos de Eric.
Stan observou a cena ainda sorrindo, mas assim que Kyle se afastou, ele tomou uma postura mais séria, sincera e Eric retribuiu o olhar assim que tirou os olhos de Kyle andando até o carro.
— Já sei o que vai falar. — Eric começou coçando a cabeça. — Que ele é seu melhor amigo e mimimi, que eu não devo fazer mal a ele e blá blá blá, senão você vai quebrar a minha cara e não sei mais o que... — Eric desdenhou sem dar importância. Mas Stan apenas sorriu quando encontrou aqueles olhos castanhos tão desnecessariamente armados.
— Não, cara. — Ele disse encostando-se em um dos pilares na varanda. — Não preciso desses tipos de avisos com você... Talvez se fosse qualquer outra pessoa, eu realmente ficaria de olho... Mas não você.
— Ah é mesmo? — Cartman riu um pouco surpreso, jogando o corpo de leve para trás. — Quer dizer que sou uma boa pessoa agora? — Ele provocou, lembrando-se de todas as vezes em que Stan o recriminou — de maneira justa — por algo.
— Claro que não. — Stan franziu o cenho como se tivesse acabado de ouvir o maior absurdo. — Você é uma pessoa horrível, Cartman. — Ele tinha um tom despreocupado e Cartman apenas revirou os olhos. — Mas não me preocupo por um motivo muito simples. — Ele fez uma pausa, ajeitando as costas no pilar e Eric realmente prestava atenção. — Se tem uma pessoa que você ama mais do que a você mesmo, é o Kyle. — Ele fez uma pausa e Cartman desviou o olhar. Aquilo era verdade e ele sabia bem. — E isso é o suficiente pra mim. Você é louco por ele. Sempre foi. — Stan agora abria devagar um sorriso ao ver que Eric mal conseguia manter as feições carrancudas e também sorriu.
— Cala a boca, Marsh. — Ele apontou o dedo tentando parecer sério, mas o sorriso contido apareceu e Stan gargalhou ao ver o outro se afastar voltando ao Porsche. Trocaram olhares uma última vez antes que Eric entrasse no carro e, por mais que ele jamais em sua história de vida admitisse, a aprovação de Stan o fazia realmente sentir bem e digno de estar com Kyle. Não que fosse essencial, mas significava muito mais do que ele demonstraria para Stan que, mesmo sabendo que nunca ouviria tal coisa de Eric Cartman, tinha plena convicção de que Eric sentia-se aliviado naquele momento.
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Pip não parava de pensar em Clyde. De Clyde para Damien, de Damien para Clyde e ele não tinha nem dormido direito porque os dois em sua mente não o deixavam descansar. Sentia-se estranho, nunca antes havia passado por aquilo, de repente duas pessoas queriam sua atenção e ele realmente não sabia como lidar com aquilo. Nunca se sentiu desejado daquela maneira, querido, ele não era egocêntrico o suficiente para apreciar seu lugar naquela história, sentia-se o pomo da discórdia: de um lado, seu coração balançava pelo passado com Damien e ignorava toda e qualquer lembrança ruim ou fase difícil que passou por causa dele. Phillip tinha esse dom de apenas concentrar-se no que era bom. Era assim desde criança.
De outro lado tinha Clyde, que o tratava como a criatura um tanto frágil que de fato ele era. Era cuidadoso com as palavras, era mais carinhoso na hora de fazer sexo e, mesmo que não tivesse o assumido publicamente, podia sentir seu amor e seu carinho a cada beijo demorado, a cada abraço protetor dentro daqueles braços enormes, e Phillip lembrava-se daquela segurança única que Clyde transmitia. Suas mãos, seu toque, Clyde mostrava pelo olhar com a maior clareza o quanto o queria. Por mais que tivesse sua parcela de razão, Pip se arrependia de ter dito o que disse para Clyde na noite anterior.
Mas precisava ficar sozinho, precisa pensar em outra coisa, clarear as ideias e a cabeça. Lembrou que a faculdade tinha um museu de História da Arte dentro da universidade mesmo, onde os alunos iam para ver réplicas de obras famosas, estudar e aprender sobre as mais variadas classes dentro da pintura, escultura e escrita.
Assim que entrou na sala das obras Renascentistas — sua fase preferida da história — tratou de procurar o quadro que mais gostava: o escudo da Medusa Murtola, de Benini. O poder que aquela escultura exercia para Pip era quase invejável.
Para sua total surpresa, em frente à escultura da cabeça decepada do monstro petrificador grego, Clyde olhava com atenção para o que via, como se tentasse descobrir do que se tratava exatamente. Era certo que ele não era nenhum exemplo de inteligência, mas quem entendia de arte afinal? Ele era esportista, mas mesmo assim, parecia se esforçar para ler as letras miúdas que traziam uma explicação breve sobre o autor da obra, local onde foi feita e ano. Perguntou-se mais de uma vez porque alguém esculpiria uma cabeça decepada com cabelos em forma de cobras. Era nojento e estranho.
— O que está fazendo aqui? — Pip perguntou calmamente, falando quase num sussurro, mas mesmo assim Clyde assustou-se. Virou na direção do loiro britânico com nenhuma leveza.
— É sua obra de arte preferida. — O moreno alto respondeu com um sorriso fraco, enterrando as mãos nos bolsos. — Achei que poderia estar aqui, não te encontrei no seu dormitório.
— Eu estava na biblioteca. — Pip respondeu aproximando-se mais do outro.
— Você estava de príncipe vitoriano. — Clyde tinha aquele olhar de filhotinho perdido na chuva e Pip fechou os olhos para não ceder tão facilmente. — Eu lembro sim... Aqueles sapatos engraçados. — Ele acrescentou com um sorriso fraco.
— Sei que exagerei com você ontem, me perdoe. — Pip disse por fim sabendo que tinha perdido a linha. Muitas coisas estavam acontecendo e ele não tinha o direito de descontar em Clyde. O namorado não era mesmo perfeito, mas aquele não era o jeito de resolver as coisas.
— Não, você estava certo, eu não te dei atenção na festa. — Ele se aproximou tocando a cintura do outro. — Me perdoe, por favor. Eu te amo Pip, não quero que se sinta desvalorizado... Você significa tudo pra mim. Preciso ter certeza que sabe disso...
Pip engoliu a seco, aqueles braços se aproximando dele eram seu maior porto seguro desde que tinham começar a ficar mais íntimos. Ele se deixou abraçar pelo outro retribuindo também. Ele não tinha dúvida do que sentia por Clyde, mas certamente tinha dúvidas de como se sentia em relação a Damien. Aquilo não era bom e ele também sabia. Não fazia sentido que ele estivesse confuso, não havia chances de qualquer pessoa com o mínimo de bom senso achar que havia condições de um cara como Damien competir com um cara como Clyde.
— Poderia só me dar um tempo? — Pip disse expressando a profunda tristeza que sentia. — Não estou dizendo “um tempo” de namoro, mas preciso mesmo ficar um pouco mais sozinho. — Ele concluiu e Clyde mordeu o lábio inferior. — Se eu não ligar tanto ou não nos vermos tanto, não significa que estou te ignorando, mas preciso passar um tempo sozinho, só pra mim. Quero ficar com “minha arte”, meus livros, minhas músicas... Sempre funciona quando preciso colocar a cabeça no lugar. Quando estive na reabilitação, a solidão me ensinou a concentrar no que realmente importa.
— Pip, precisa entender que você não é mais aquele cara, você tem a mim. Você não está mais sozinho. — Clyde insistia não por egoísmo de não querer ficar longe de Phillip, mas porque realmente não entendia como ficar sozinho num momento como aquele iria ajudar.
— Acabamos de voltar a South Park, esse é nosso primeiro semestre na faculdade... — Pip continuava tentando animar o namorado. — Tenho certeza que está querendo também curtir seus amigos e seu curso... Você é louco por esporte, você sabe... — Pip sorriu fraco, mas Clyde permaneceu sério. — Além disso, podemos sair pra almoçar e conversar no celular a noite antes de dormir. Mas agora, Clyde... Eu realmente preciso tirar meu foco disso. Eu preciso fazer outra coisa, preciso me distrair.
— Pip...
— E você também precisa. — O loiro interrompeu. — Além do mais o que menos precisamos agora é um bando de jornalista atrás da gente e todo esse negócio de sexualidade na mídia... Clyde, temos problemas demais pra pensar que isso pode vir à tona. Vamos ter mais calma, por favor. — Ele pediu daquele jeito carinhoso e racional que fazia muitas vezes Clyde sentir uma pontinha de inveja do quanto aquele loiro era inteligente e perspicaz acima de tudo. Mas a maior parte do que sentia quando via-se encarando aqueles olhos tão sábios porém tão jovens, era um imenso orgulho de saber que ele, um homem como Phillip Pirrut pudesse, um dia, se interessar por um atleta troglodita que não era muito fã de estudar.
— Faz alguma ideia do quão incrível você é? — Clyde não disse como um elogio vazio, ele literalmente perguntava. — Ou do quanto é bonito? — Ele complementou porque Phillip sorriu aberto ao ouvir a primeira parte. Seus dentes pareciam porcelana e ele ficava com a boca exageradamente grande quando sorria, era como se fosse um tanto quanto desproporcional, mas era uma cena tão bonita que fez Clyde pensar que deveria fazer Phillip sorrir daquele jeito, de não caber na boca, muitas mais vezes.
— Você é incrível também. — Pip respondeu apaixonado, controlando o impulso de beijá-lo em público. Viu algumas pessoas conversando numa sala ao lado e os dois preferiram não arriscar. — Te ligo a noite? — Ele perguntou e Clyde acenou que sim com a cabeça.
Antes de sair, passou uma das mãos pelo rosto do loiro, segurando seu queixo por alguns segundos. Sorriu de leve quando sentiu o rosto quente do outro, era das raras vezes que sentia a barba crescendo no rosto dele — Phillip sempre estava impecavelmente barbeado. Murmurou um “eu te amo” respondido da mesma forma por Pip e deixou-o na sala, apreciando sua Medusa com o olhar mais poderoso da história. Gostava na analogia de saber que realmente um olhar poderia petrificar uma pessoa, talvez isso se aplicasse a algumas situações relativas ao amor, ao deslumbramento e à admiração.
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Kyle conhecia bem aquela casa, não era estranho pra ele estar lá. Conhecia os móveis, a sala e até mesmo quarto de Cartman, que continuava o mesmo desde que era criança, com algumas coisas novas, tipo um computador muito melhor e uma cama maior. Não que esperasse que tivesse muito diferente, pois havia apenas cerca de um mês que ele tinha se mudado para o dormitório do campus.
Liane Cartman já sabia que o filho estaria em casa no final de semana, portanto tinha deixado algumas coisas prontas e ido ao supermercado caso ele precisasse de algo enquanto ela estivesse fora. Kyle jogou a mochila em um canto da sala e sentou-se ao lado de Eric no sofá. O ruivo riu ao perceber que Cartman passou o braço em seu ombro quando ligou a TV. Era um movimento tão natural pra ele que se perguntou há quanto tempo Eric imaginava fazer aquilo. O moreno beijou os cabelos do outro puxando-o mais pra perto.
Apesar de estar gostando do carinho, Kyle estava achando tudo absurdamente estranho.
— O que está fazendo? — Ele perguntou sem conseguir segurar o riso. Cartman não entendeu.
— Como assim? Falamos no carro que veríamos “Mercenários 2”. — Eric respondeu como se fosse óbvio o que estava fazendo assim como a escolha do filme.
— Não, é... “isso”... — Ele dizia em relação ao braço do Cartman sobre seu ombro.
— Qual é o problema? Você é meu namorado. — Eric disse com a mesma obviedade da frase anterior. Kyle paralisou por um segundo, mas ainda ria. Passou a língua pelos lábios e de repente sentiu seu cérebro dar um nó.
— Namorado? — Ele repetiu pausadamente e Eric meio que se deu conta do que tinha acabado de dizer. — Eu não lembro dessa parte. — Kyle dizia sorrindo endireitando-se no sofá.
— Claro, esqueci que você é meio mulherzinha e quer que eu peça. — Cartman disse fingindo um ar pensativo, mas rindo quando Kyle o empurrou de leve no sofá.
— Não é isso, seu gordo. — Kyle quase defendeu-se. — Mas é uma situação, não um pedido. Você nem sabe se eu quero alguma coisa com você. — O ruivo disse um tanto quanto pretensioso. — Já achou chegando que eu era “todo seu”. — Kyle disse levantando-se e Eric ficou sério.
— Mas... — Eric ficou preocupado por um segundo achando que Kyle estava falando sério. Não que ele não estivesse, mas não iria facilitar a vida de Cartman. — Tá bom, porra. — Eric bufou, olhou para o chão, pôs as duas mãos na cintura e, pela primeira vez, estava realmente com um pouco de vergonha de fazer aquilo, pois era a única vez em que ele realmente queria que a resposta fosse “sim”. — Kyle, você quer ser meu namorado?
Kyle olhou pra ele notando o quanto ele estava se esforçando, mas não conseguiu nada que não fosse uma gargalhada em resposta. Era realmente uma das coisas mais estranhas que Cartman já havia dito a ele.
— Você é um judeu idiota mesmo. — Eric disse revirando os olhos. — Por que está fazendo isso comigo?
— Desculpa. — Kyle ia se acalmando aos poucos, aproximou-se de Eric segurando as mãos dele e então percebeu que ele realmente voltava a ter as mesmas feições de quando tinha oito anos. Enfezado, irritado, frustrado... Só que agora, aos olhos de Kyle, não poderia existir um homem mais sexy do que Eric Cartman franzindo as sobrancelhas, cerrando os olhos e apertando os dentes. — Eu acho que podemos fazer funcionar. — Ele concluiu e percebeu que era a primeira vez que olhava Cartman tão de perto.
— O que o Stan falou? — Cartman disse fingindo não se importar muito, mas estava louco pra saber.
— Sabe que ele gosta muito de você, claro que ele não vê problemas conosco. — Kyle respondeu percebendo pela primeira que Eric realmente se importava muito com o que Stan pensava. Não disse nada, sabia que Eric entraria na defensiva no primeiro momento em que percebesse que alguém havia se aproximado demais.
— Bom, pouca diferença faria se ele não gostasse também. — Cartman respondeu tentando demonstrar aquela indiferença que não tinha. — E o Kenny?
— Não vi Kenny depois da festa. — Kyle respondeu puxando Cartman de volta para o sofá. — Ele deu uma de Mysterion e sumiu.
— Kenny sabe. — Eric disse e Kyle arregalou os olhos.
— Você contou a ele? — O tom de estranheza na voz de Kyle demonstrava também o fato dele estar surpreso de imaginar que Eric escolheria Kenny para falar sobre aquilo.
— E precisa? — Eric ergueu as sobrancelhas. Olhando um Kyle que concordava com o quanto Kenny era observador.
— De fato. — O ruivo sorriu de canto. — Kenny sempre foi muito legal com você, acho que deveria dar mais valor a ele.
— Eu dou valor ao Kenny. — Cartman deu de ombros. — Só que, por mais que não pareça tanto, Kenny é muito dono de si. Desde criança, eu lembro das vezes em que ele não estava nem aí em deixar de fazer alguma coisa nem mesmo quando eu ameaçava alguma coisa. Se ele não achava certo, ele não fazia. — Eric disse e Kyle prestava atenção. Era daquelas raras vezes que o moreno alto, mesmo daquela forma torta, tecia elogios a Kenny. — E isso é raro para uma criança de oito anos. — Ele pegou-se enrolando um dos dedos nos cabelos de Kyle.
Kyle o encarou por um momento e, depois de respirar fundo, Eric olhou de volta e os dois pareceram começar a se entender pelos olhares. Kyle girou o corpo passando uma das pernas por cima de Eric, ficando com os joelhos no sofá, sentado sobre os quadris do moreno alto. Cartman ficou mais sério ao perceber Kyle daquele jeito, respirou fundo, sentindo-se um pouco amador, como se não estivesse mais no controle. Definitivamente aquela situação era um pouco nova pra ele, já que ele era quem sempre calculava antes de tomar qualquer atitude e isso sempre foi visível a quem estivesse com ele: aquele senso de comando, de esperar o que ele iria fazer, simplesmente responder às ações já feitas. Outra pessoa assumindo esse papel era diferente e desconhecido para ele.
Kyle o segurou pelos cabelos de leve, fazendo-o erguer a cabeça e então se aproximou, iniciando um beijo que Cartman não estava esperando, mas dessa vez, o beijo foi diferente, foi completamente seguro. Ele conseguia entender a cada movimento da língua do outro, de cada mordida, de cada puxada leve em seus cabelos, que Kyle estava deixando claro o quanto queria aquilo, o quanto sabia que era certo, o quanto estava pronto para começar aquele relacionamento que não era apenas novo na sua forma, na sua sexualidade ou na sua natureza, mas era novo na forma de ser, na forma de pensar e que complementaria partes diferentes de sua vida.
Nem em seus sonhos mais íntimos e profundos, Eric imaginou-se tão satisfeito com aquela atitude, talvez se tivesse pensando naquilo, ficaria inseguro de saber se gostaria de deixar as coisas fluírem como estava. Sem sombra de dúvidas, ele pensaria que só estaria feliz se controlasse aquilo, se pudesse ditar a passada com que eles caminhavam, mas ele mesmo estava surpreso com a confiança que tinha em Broflovski, na admiração e naquele tesão que estava se aproximando cada vez que Kyle mordia seu lábio inferior ou pelo fato de estar com as mãos já por baixo da camiseta do ruivo, fazendo menção de tirá-la e não encontrando qualquer dificuldade quando assim o fez.
Kyle separou seus lábios dos de Eric e mais uma coisa nova descobriu ao olhar nos olhos dele naquele momento. Era tanta luxúria que teve certeza que Eric estava se controlando para não tirar o resto da roupa dele ali mesmo e fazer com que transassem ali na sala mesmo.
— Não comece nada que não vá me deixar terminar, Kyle. — Eric tentava ser racional e aquilo soou mais como um aviso do que como uma brincadeira, que era seu propósito.
— Pois digo o mesmo. — Kyle disse perto do ouvido do outro e percebeu os cabelos mais curtos perto da nuca dele se arrepiarem. Ele mordeu a orelha dele sorrindo, o fato é que estava igualmente muito excitado.
Sentiu-se ligeiramente instável do colo em que estava, quando Cartman levantou-se carregando ele consigo, entrelaçando as pernas do ruivo em sua cintura. Ele riu dizendo baixinho que Eric era maluco enquanto o carregava — literalmente — para o quarto. Kyle beijava o pescoço do moreno alto enquanto Cartman se esforçava para não se perder no caminho entre corredor, porta e paredes.
Quando chegou a seu próprio quarto, deitou Kyle na cama ficando por cima dele e, voltando a beijá-lo com mais agressividade, tirava a própria camiseta com ajuda do outro. No momento em que tocaram a pele um do outro, Cartman abraçou Kyle descendo as mãos pela cintura dele. Ele parou de beijar o outro quando pôs as mãos no botão do jeans dele, mesmo percebendo que o outro estava com o membro duro, ele ainda olhava naqueles mares verdes, como se pedisse permissão, como se dissesse que ele poderia parar ou interromper quando quisesse. Apesar de ter entendido o que Cartman queria dizer enquanto olhava pra ele e, devagar abria o botão de sua calça, ele sorriu mostrando que estava tudo bem. A verdade é que ele não estava nenhum pouco seguro ou confortável, mas realmente queria fazer aquilo.
Eric abriu as calças do ruivo e tirou os olhos dos dele apenas para matar a curiosidade de ver o que estava escondido dentro dentro da slipper branca claramente apertada. Kyle engoliu a seco, estava inquieto, não sabia se porque queria muito fazer aquilo logo ou se pelo fato de que nunca tinha feito, estava com um misto de medo e vergonha.
Mas no momento em que sentiu Cartman engolir seu membro com certa habilidade — essa que Kyle não sabia que o outro tinha — ele não conseguiu mais desanuviar nenhum pensamento, nada estava claro e nada importava. Fechou os olhos, jogou a cabeça pra trás e apenas se concentrou em sentir Eric chupando-o como se demonstrasse o que realmente queria: fazer aquilo há muito tempo. Sentiu a língua dele passear por toda a extensão de seu pau e sentia algo de tão diferente que achou que quando gozasse, iria desmaiar. Era completamente diferente de tudo que ele já tinha sentido ou experimentado antes com qualquer garota.
Ele segurava os cabelos de Eric mas sem precisar ditar o ritmo — Cartman sabia exatamente o que estava fazendo.
— Quer gozar agora? — O moreno perguntou ao ver sentir que Kyle estava perto.
— Você já fez isso antes? — Kyle perguntou depois de respirar fundo, como se quisesse trazer de volta sua alma ao corpo.
— Tem certeza que agora é o melhor momento pra se falar sobre isso? — Cartman disse com o sorriso mais malicioso que Kyle já tinha visto enquanto tirava o resto das roupas de Kyle e passava a tirar as suas.
— Não exatamente... — Ele olhou para o corpo de Cartman agora com novos olhos. Não que ele visse sempre ou que prestasse atenção quando Eric andava sem camisa nos curtos verões do Colorado, mas agora era completamente diferente. Percebeu que ele literalmente passou de criança obesa para um jovem adulto com o corpo mais saudável do que imaginava. Ele era alto, o que facilitava muito, mas os pêlos abaixo do umbigo que levavam caminho até onde realmente interessava ao ruivo, eram muito mais atraentes agora.
— Pega. — Ele disse chegando mais perto, obviamente referindo-se ao próprio membro, extremamente duro. Kyle não sabia muito bem como fazer aquilo. A verdade é que ele só sabia do que gostava e só entendia do seu próprio. Cartman pegou nos cabelos do outro com certa agressividade e mordeu o lábio inferior como se controlasse a si mesmo. — Não vou te machucar. — Eric concluiu ao ver o olhar ligeiramente preocupado do outro. — Mas eu realmente estou louco pra foder a sua boca.
Kyle obedeceu até porque ficou mais excitado do que admitiria ou ouvir aquilo. Ele abriu a boca e, devagar, começou a chupar Eric olhando pra ele ao mesmo tempo, queria ter certeza de que estava fazendo direito. Apenas imaginou o que gostaria que fizessem com ele e, pelas expressões que estava vendo, parecia estar funcionando muito bem. Cartman passava a língua pelos lábios e não sabia o que estava gostando mais: se era ver Kyle naquela posição com ele ou se era de fato por ele ter uma boca quente e uma língua ágil.
Em certo momento, ele mal conseguia se controlar e literalmente estava fodendo a boca do outro. Puxava o ruivo pelos cabelos, enfiando cada vez mais fundo seu membro na boca dele. Concentrou-se para não gozar porque não queria que terminasse logo, sentia as mãos de Kyle apertando suas coxas e sentindo-se cada vez mais a vontade de fazer aquilo. Quando soltou por completo dos lábios do outro, percebeu que Kyle estava ofegante e aquela visão realmente o deixou aceso para o que queria fazer em seguida.
— Eu quero te comer. — Eric disse ao empurrá-lo deitado na cama de novo entre beijos. Ele colocou-se por cima do ruivo e abriu as pernas dele entrelaçando-as em sua cintura.
— Espera. — Kyle disse, inseguro, e Eric parou o que estava fazendo. Respirou fundo e percebeu que estava sendo um pouco insensível em relação àquilo. — Eu nunca fiz isso, eu não sei como isso funciona.
— Eu sei, desculpe. — Cartman disse mais calmo. — Mas eu estou com muito tesão e quero gozar dentro de você. — Ele disse baixinho beijando o pescoço de Kyle, que ao mesmo tempo que queria contrariá-lo, queria continuar. — Você é tão gostoso, Kyle... — Eric dizia entre um beijo e outro nos ombros e peito do outro. — E eu sou tão louco por você... Seu corpo é perfeito... Adoro como chupa meu pau... — Ele desceu uma das mãos e passou a masturbar o outro. Eric tentava ter o máximo de paciência que ele, sendo quem era, conseguia ter, mas ouvir Kyle gemendo baixinho perto do ouvido dele era um teste gigantesco para ver o quanto ele conseguia aguentar.
Com certo cuidado de quem já tinha inclusive tirado a virgindade de algumas garotas, desceu a mão ainda mais e, sem avisar, enfiou um dos dedos na entrada do ruivo que, apesar do susto, não ofereceu resistência aparente.
— Eric! — Ele controlou o grito.
— Calma. — Eric disse mordiscando a orelha do outro, sorrindo, gostava daquilo. Era quase sádico. — Está tudo bem, você só precisa ficar calmo. Não vou falar que não vai doer, porque vai.
— Como é que você sabe? — Kyle provocou apenas com o intuito de tentar relaxar enquanto Cartman fazia movimentos de vai-e-vem dentro dele.
— Acho que você já sabe a resposta. — Eric respondeu rindo num sussurro. Quando percebeu que tinha amenizado o que estava por vir, ele ajeitou-se novamente entre as pernas de Kyle e, dessa vez, não foi muito paciente. Enfiou seu membro naquele lugar apertado fazendo Kyle gritar.
O ruivo sentiu Cartman cobrir sua boca, como se soubesse mesmo que era um pouco inevitável aquilo. Ele estava respirando tão forte que só conseguiu se acalmar quando Cartman ficou parado dentro dele e, olhando em seus olhos, dizia que tudo iria ficar bem, que ele só precisava se acalmar. Foi então que, aos poucos, Kyle relaxou e permitiu não somente que Eric o invadisse completamente, mas pedia por mais.
Kyle ficou mais excitado do que jamais poderia imaginar só de ver que Eric parecia um animal quando transava. Sabia que ele muitas vezes ele se dava conta do que estava fazendo e tentava se acalmar, quando se deixava levar, tinha uma boca suja na cama, xingava de coisas que Kyle imaginou que as mulheres gostavam quando ele fazia. Enquanto comia ele de quatro, o ruivo ficava extremamente excitado ao ouvir o som de seus corpos baterem. Eric sentia o suor escorrer pelas costas e viu que Kyle também tinha a raiz dos cabelos molhadas. Não sabia o que gostava mais, se era daquele corpo naquela posição, todo aberto pra ele, ou se era ouvir os gemidos de Kyle, pedindo por mais e dizendo o quanto seu pau era enorme.
Kyle tocava seu próprio membro masturbando-se enquanto Eric parecia tentar prolongar aquilo ao máximo que conseguia. Por vezes sentiu sua bunda esquentar com os tapas que Cartman dava. Ele realmente não tinha dó.
Apenas quando Kyle anunciou que iria gozar, foi que Eric finalmente cedeu e resolveu fazer o mesmo. Broflovski até pensou que era uma boa ideia porque não conseguiria sustentar-se de quatro depois que gozasse: mal podia sentir suas próprias pernas, tinha sido algo forte, intenso e completamente diferente de tudo que já havia experimentado.
Eric gozou em parte dentro de Kyle e parte fora, não iria perder a oportunidade de “marcar seu território” nem que fosse até a hora do banho, deixando um pouco de esperma sobre as nádegas do agora namorado. Ele deitou-se ao lado de Kyle na cama e ambos estavam tão cansados e tão relaxados ao mesmo tempo que apenas seguraram as mãos de leve por alguns segundos e, mesmo sem dizerem nada, caíram no sono sem preocuparem-se com o fato de que o sol ainda estava se pondo lá fora.
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