Ten Years Later

11 Dangerously in love


Notas iniciais
Músicas do capítulo: You're so damn hot, do OK Go! Dangerously in Love, das Destiny's Child

CAPÍTULO XI

Dangerously in love

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Kyle acordou com barulho de chuveiro, mas não acordou muito tranquilo, era como se tivesse esquecido por um momento onde estava. Remexeu-se de leve na cama e então ao perceber totalmente sem roupas, sorriu para si mesmo quando lembrou. Pensou em juntar-se a Eric, mas o moreno tinha acabado de desligar o chuveiro assim que o ruivo revirou o corpo — sentindo de leve um desconforto ao sentar — e levantou a fim de procurar suas roupas. Ambos não tinham cochilado mais do que meia hora.

— Ei... — Cartman disse assim que saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura.

— Por que não me acordou? — Kyle perguntou jogando suas roupas em cima da cama. Sentiu Eric abraçá-lo e percebeu que ele estava quente pela água do chuveiro e tinha aquele cheiro característico já conhecido de sabonete.

— Eu ia te acordar agora. — Eric respondeu olhando o corpo nu do outro a sua frente. Sorriu com o canto dos lábios fazendo Kyle ruborizar de leve.

— Pára com isso, Eric. — O ruivo disse rindo sem graça tentando livrar-se dos braços de Cartman para ir tomar banho também.

Cartman riu do jeito do outro e lhe deu um belo tapa na bunda quando ele virou de costas. Kyle gritou alguma coisa que ele não entendeu porque já tinha fechado a porta, mas provavelmente era algo como “seu idiota”. Ele secou o corpo com a toalha superficialmente, vestiu slippers limpas, uma calça mais confortável mas não pôs nenhuma camiseta. Foi pra cozinha checar o que tinha pra comer e resolveu esperar por Kyle, quem sabe pudessem preparar algo juntos ou pedir alguma coisa. Pegou-se sorrindo para si mesmo várias vezes enquanto assistia qualquer coisa na TV que não prestava atenção realmente. Era um dos raros momentos em que estava completamente e genuinamente feliz.

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Stan e Wendy já estavam juntos há tantos anos que já tinham passado daquela fase de paixão arrasadora, embora continuassem apaixonados. Muitos sentiam uma ponta de inveja daquela sintonia, daquele amor de infância, daquela chama que, mesmo não alcançando os céus como naquela idade as pessoas sentiam, tinham uma parceria ímpar, muita cumplicidade e maturidade. Especialmente ela, que sempre foi mais a frente das meninas da sua idade. Tinham se separado por cerca de um ano apenas, quando tinham quinze anos e Wendy chegou a ter um romance rápido com Cartman. Atualmente Stan entendia melhor o que tinha acontecido: era claro o ciúmes dele em relação a Kyle e certamente fez para provocar Marsh, que andava ainda mais grudado com Kyle para cima e para baixo na escola. Naquela época, Stan podia jurar que Cartman o odiava verdadeiramente.

— Vai participar da seleção de calouros para a Fraternidade Zeta Beta Psi? — Wendy perguntou fechando o livro das Crônicas do Gelo e Fogo, colocando-o pesadamente em cima da escrivaninha perto da mesa do computador de Stan. O dormitório era pequeno, mas não parecia ser um problema pra ninguém.

— A Fraternidade do Butters? — Stan perguntou distraído, dando pausa no vídeo-game que jogava.

— É. — Ela respondeu prendendo os cabelos negros longos num rabo de cavalo. Stan percebeu então que ela tinha trocado de roupa. — Achei que vocês quatro entrariam sem problemas com o Butters lá.

— Sei lá. — Stan disse um pouco indiferente, não se interessava muito por aquilo, ainda mais se tratando de um bando de garotos das faculdades de Humanas que ele nem conhecia. — Ninguém comentou nada, nem mesmo o Cartman, que adora ser o mais popular do mundo e estar no meio de todas as farras. — Ele arqueou as sobrancelhas surpreso ao lembrar-se que um cara como Butters fazia parte daquilo.

— Nossa, o Cartman... — Wendy revirou os olhos ao dizer o nome do jogador de basquete. — A Fraternidade é tão legal, tenho certeza que ele estragaria tudo se entrasse.

— E como você sabe que lá é legal? Te convidaram? — Stan perguntou ao ver melhor a namorada agora que ela sentou ao seu lado no sofá. — A propósito, onde você vai?

— Vou pra academia. — Ela respondeu distraída. — Mas só uma hora, depois eu volto pra cá e faço jantar pra nós. — Ela respondeu checando o relógio. — E acho que vocês deveriam entrar. Eu sei que é legal porque tenho participado de alguns projetos de peças de teatro que organizaremos durante o semestre. E as meninas de lá são realmente prestativas.

— Bom, pode ser que as meninas sejam. — Stan riu recostando-se no sofá de um jeito mais confortável. — Porque o que sei é que os caras só fazem festa.

— Em teoria sim... — Wendy admitiu. — Mas eles têm também uma função social aqui em South Park e algumas cidades ao redor.

— Função social? — Stan perguntou desconfiado.

— É, a maioria dos eventos que dão lucro são doados para o orfanato da cidade, sabe? Aquele perto do bairro do Kenny. — Ela disse enquanto ouvia o namorado murmurar algo como “sim, sei”. — Então o recrutamento é mais como um voluntariado. Eu e as meninas vamos nos oferecer pra ajudar.

— Mas não rola esse negócio de trote? Essas palhaçadas... — Stan levantou-se para pegar seu celular em cima da cama.

— Não. A universidade baniu qualquer coisa do tipo ano passado. — Ela explicou também levantando-se e pegando o agasalho púrpura. — Agora só se for “trote solidário”.

— E você se pergunta porque Cartman não está na fraternidade. — Ele riu fazendo a namorada rir também.

— Tem razão. — Ela disse com a mão na fechadura da porta. — Volto logo, certo? Eu te amo. — A morena concluiu recebendo um selinho do namorado.

— Também. — Ele a segurou pelo queixo. — Cuide-se.

Ela sinalizou com que sim com a cabeça e deixou o quarto. Stan, que passou a concentrar-se no celular, viu que havia recebido algumas mensagens de Kenny, dizendo que precisava conversar. Achou melhor ligar de volta e não apenas mandar mensagem. Achou estranho, geralmente eram eles quem precisavam conversar e Kenny definitivamente era o melhor ouvinte. Pensou que talvez aquela era uma boa hora para retribuir.

— E aí. — Kenny atendeu de um jeito distraído.

— E aí, Kenny. — Stan dizia enquanto jogava-se no sofá ajeitando-se de forma confortável. — Tudo bem? Não respondi antes porque não vi, estava com a Wendy.

— Não tem problema. Topa uma caminhada pelo campus? — Kenny sugeriu meio que mostrando que não queria falar sobre aquilo por telefone.

— Claro. — Stan na verdade pareceu animado. Percebeu que talvez seria uma boa ideia sair daquele dormitório pelo menos por algum tempo. — Te encontro na fonte. — Que era exatamente a metade do caminho para os dois.

— Estarei lá em dez minutos. — Foi a resposta de Kenny e após um “ok” de Stan, ambos desligaram o telefone.

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Craig tinha mania de andar rápido sem absolutamente nenhum motivo. Ele dava o último trago de cigarro fechando os olhos como se quisesse que aquele prazer durasse mais tempo. Parou por um segundo para jogar o toco de cigarro no chão, pisar em cima e voltar à passada normal cortando a ala norte do campus, dando um quase adeus ao inverno que estava indo embora.

Sempre fora calado, quieto, honesto e inteligente. Mas uma inteligência direcionada, não para as coisas que precisava saber, mas sim para as coisas que o interessavam. Devia ser por isso que era tão bom em química mas tão ruim em história. Ótimo com esportes, mas péssimo com interpretação de texto. E tudo isso era o completo oposto de Tweek Tweak, que era um excelente escritor com pouquíssimo apreço por números, bolas, trabalho braçal e raciocínio lógico. Tweek era péssimo em qualquer coisa que lhe exigisse muita concentração, se distraía mais facilmente que a maioria das pessoas.

E, como todos sabiam: não lidava bem com pressão e tinha um leve transtorno obsessivo compulsivo relativo a formas e eficiência.

E se tinha coisa que Craig adorava era aquela excentricidade única que sabia que não encontraria me ninguém mais.

Quando chegou ao dormitório de Tweek naquele final de tarde, não bateu, apenas entrou como sempre fazia. Tentou não fazer barulho pois não queria assustá-lo ao perceber que ele estava dormindo. O observou na cama, provavelmente pegou no sono inesperadamente, pois ainda estava com os fones de ouvido, os cabelos ligeiramente longos e ondulados espalhados pela cama feita. Ele tinha o computador no colo e não tinha nem tirado o All Star preto que usava. Tinha uma das mãos ainda sobre o teclado do laptop e Craig sorriu para si mesmo ao ver aquilo.

Como se percebesse alguém o observando dormir, Tweek abriu os olhos devagar, tinha o rosto virado para a janela do dormitório. Estava calmo, mas quando percebeu Craig a sua frente, parecendo uma estátua, se assustou imediatamente — o que não era raro para um garoto com a sensibilidade aflorada. Sentiu o ar escapar de seus pulmões por um segundo e quase derrubou o computador no chão. Foi uma sensação terrível.

— Mas que porra, Craig! — Ele disse se acalmando quando viu o sorriso no moreno alto com as mãos enterradas no jeans.

— Foi mal. — Foi a resposta de Tucker, quase num sussurro.

Tweek voltou a respirar colocando o computador sobre seu criado-mudo, empurrando o despertador, o celular e as chaves do carro. Espreguiçou-se devagar e então levantou-se ajeitando os cabelos.

— O que está fazendo aqui? — O loiro perguntou com mais voz de sono do que esperava.

— Sei que está bravo. — Craig disse sem responder exatamente a pergunta. Ele nunca dava respostas diretas. — E não existe motivos.

— Ah é? — Tweek disse sem muita emoção. — Clyde está de volta e você não disse uma palavra sequer sobre isso até agora. O que quer que eu pense?

— Tweek...

— Não. — O loiro interrompeu um pouco exaltado. — Eu não vou passar por aquilo de novo, Craig. Eu não quero saber, eu não estou interessado nos seus problemas mal resolvidos, nos seus mistérios relativos ao que houve entre vocês. — Ele fez uma pausa para respirar mas Craig não tinha a intenção de interrompê-lo. — Eu mal tinha consciência emocional para lidar com isso na escola, sem chance disso acontecer duas vezes. — Ele respirou fundo mas suas mãos já estavam tremendo.

Craig respirou fundo e se aproximou mesmo sabendo que o outro se afastaria. Insistiu mesmo assim forçando o contato. Ele segurou as mãos de Tweek e o encarou nos olhos por alguns segundos, não disse nada, mas era uma espécie de magia o que acontecia quando Craig, firme, pedia silenciosamente que o outro se acalmasse.

— Nada está acontecendo. — Craig disse com um tom de voz raramente ouvido, talvez apenas Tweek percebesse que ele mudava a voz quando falava com ele. O loiro respirou fundo acalmando-se. — Clyde era meu melhor amigo na escola e só. O que aconteceu entre nós você já sabe.

— Estou cansado, Craig, estou cansado. — Ele repetiu mostrando na voz que era realmente como se sentia. — Você sabe que tenho dificuldades para dormir, sabe que tenho problemas que precisarei lidar a vida inteira. Por favor, não acrescente mais estresse. — Ele disse sério e Craig sentiu uma certa culpa que não deixou transparecer.

— Não há motivos pra você agir dessa forma. — Craig reforçou. — Não se afaste de mim. — Ele realmente sentia aquilo e Tweek sabia, mas Craig era uma pessoa ambígua, nunca ninguém sabia exatamente o que ele estava pensando.

— Preciso que me deixe em paz. — Tweek respondeu afastando-se do outro. — Eu realmente estou cansado dessa “brincadeira” sem graça entre nós, estou cansado de esconder... Cansado de ter que lidar com tanta gente ao seu redor. — Ele dizia confuso. — E não suporto seu cheiro de cigarro. — Foi uma conclusão totalmente randômica.

— Por que está agindo assim? O que eu fiz de tão grave? — Craig perguntou com a mesma falta de emoção com que geralmente dizia as coisas, a diferença é que dessa vez ele realmente estava preocupado. Não era da natureza de Tweek ser tão calculista. E lá estava ele tremendo novamente. — Tweek. — Craig disse quase advertindo.

— Você só me procura quando está entediado. — O loiro continuou já sentindo seu corpo começar a suar. — Quando não tem nada pra fazer. Não fala comigo há dias, Craig!

— Acalme-se. — Craig voltou a se aproximar novamente forçando o contato. Dessa vez o segurou mais firme, não deixando ele se afastar. O colocou contra a parede fria. — Respira, acalme-se – Ele repetiu de maneira mais veemente, mais séria e Tweek sentia como se devesse obedecê-lo. — Preciso que olhe pra mim e concentre-se apenas em mim. — O moreno alto, praticamente da altura de Clyde, segurava um Tweek nervoso e respirando com pressa. Há tempos não o via daquele jeito. Craig costumava dizer que Tweek não tinha sangue nas veias, tinha apenas ansiedade.

Tweek olhava fundo naqueles olhos que mais pareciam dois lagos negros brilhantes. Aos poucos, o jovem escritor ia se acalmando, voltando com sua pulsação normal e seu ritmo respiratório. Seus olhos cinza pareciam mais calmos agora. Não costumava dizer aquilo a Tucker, mas seu toque, sua firmeza o passavam a segurança que ele precisava e quem nem mesmo encontrava nos remédios que eventualmente tinha que tomar. Sua síndrome do pânico não era tão grave quanto era na escola, mas ele tinha picos de ansiedade desde criança. Evitava café, bebidas alcoólicas e desde os quatorze anos havia se tornado vegetariano. Açúcar igualmente o deixava agitado, por isso preferia frutose para lhe dar energia. Não tinha uma dieta muito restrita, mas passou a cuidar da saúde quando percebeu que precisava de mais qualidade de vida.

— Me desculpe. — E lá tinha Craig com aquela voz ainda anasalada, mas num timbre mais grave depois da adolescência. — Eu não percebi que fazia tanto tempo. Te procuro porque gosto de estar com você, não porque preciso. — Ele dizia e Tweek prestava atenção embora não desse muita credibilidade àquilo. — Por favor, não brigue mais comigo.

— Não estou brigando. — Tweek respondeu passando as mãos pelos cabelos percebendo a testa começando a suar. — Só estou esclarecendo que não estou feliz. E jurei que não guardaria mais nada. Não me faz bem ficar remoendo coisas.

— E eu não quero que você me esconda nada. — Tucker procurava os olhos do outro que pareciam olhar para qualquer lugar menos para os dele quando começou a falar.

— E nem você. — O loiro respondeu ainda um pouco perturbado, mas sentindo-se mais confiante agora. — Pare de ser assim, Craig. Eu sempre tenho que adivinhar e te pressionar para que diga as coisas, especialmente o que sente.

— Você sabe como eu sou, Tweek. Me conheceu assim, desde sempre... — Não que ele estivesse se justificando, mas era mesmo uma verdade.

— E você sabe como eu sou, Craig. — Tweek disse e em seguida respirou fundo. — Eu não sou um cara muito normal, sei que deve ser difícil conviver comigo nesse nível que temos compartilhado há anos, porém a diferença é que eu sempre tento melhorar, você parece conformado com esse seu jeito... distante, sei lá. — Tweek fechou os olhos por um minuto e parecia que Craig sempre acertava quando devia abraçá-lo e finalmente dizer algo que viesse do coração.

— Eu me importo com você. — Craig disse abraçado ao outro. — E você bem sabe que eu não me importo com ninguém. — Ele disse no tom mais sincero que conseguia. — Desculpe por ser distante, desculpe não falar com você nesse tempo... E não comentar sobre Clyde, mas você é amigo dele também.

— Eu gosto do Clyde. — Tweek respondeu sincero. — Não gosto do que ele fez, mas ele não sabia de nós.

Craig não disse nada, apenas beijou o outro de um jeito demorado e calmo. O que ele não diria é que na verdade não estava incomodado por Clyde tê-lo beijado no dia do baile de formatura do Ensino Médio deles, mas estava sim profundamente magoado pela falta de contato desde que Clyde tinha mudado para Denver. Eram realmente melhores amigos e, para Craig, o que parecia era que agora que Clyde era famoso, Craig não era mais bom o suficiente para andar com ele.

Craig sentia tudo aquilo, não era um robô ou tinha um coração feito de pedra, como a maioria pensava. Craig era o tipo de cara difícil de se atingir, fosse por coisas boas fosse por coisas ruins. O grande lance realmente estava em fazer com que ele demonstrasse, exteriorizasse o sentimento de raiva ou ainda de alegria. Só quem o conhecia bem sabia interpretar suas atitudes e, por isso, Tweek sabia que o namoro com Bebe tinha sido para provocar, tinha sido carência e tinha sido quem sabe uma maneira de chamar atenção de Clyde. Mas o jogador, que chegou a ficar sabendo, não demonstrou qualquer tipo de interesse naquilo e no fundo Bebe sabia que aquilo não duraria.

Tucker tinha aquele temperamento, mas quando estava com Tweek Tweak, tudo funcionava num ritmo diferente. Era como se os mundos deles se encaixassem perfeitamente. A inocência de Tweek com a ironia exagerada de Craig. Ou aquele loiro bem comportado com o maior causador de problemas da escola. Eles encontraram aquele raro equilíbrio. Era até bonito de se ver.

— Preciso escrever. — Tweek disse quando Craig parou de beijá-lo. — Não quero esquecer o que me veio à mente. — Ele riu mostrando as covinhas.

— Tudo bem. — O moreno alto respondeu dando um passo para trás. — Mas antes que eu esqueça, Butters nos convidou para a seleção de calouros da fraternidade. Está a fim?

— Não estou na faculdade para festas de fraternidade. — Tweek arqueou as sobrancelhas voltando a ficar mais próximo de Craig.

— É porque o “trote” é uma parada a ver com voluntariado, nem precisamos entrar pra fraternidade, mas acho que ele quer nossa ajuda. — Craig continuou distraído em seus argumentos. Não se importava muito com aquilo, mas achou que Tweek talvez fosse gostar de participar.

— Trabalho voluntário? — Tweek franziu o cenho e voltou a prestar atenção.

— Crianças. — Craig tentava lembrar exatamente o que Butters havia dito, mas ele não tinha prestado muita atenção. — Parece que precisam de voluntários para levar as crianças para a estação de esqui das montanhas antes que o inverno acabe. Ainda há neve por lá.

— Parece legal. — Tweek comentou interessado. — Podemos ir só pra ajudar.

— Vou falar com Butters depois. — Craig respondeu dando um selinho no outro. — Te vejo mais tarde?

— Pode ser, diga ao Butters que pra mim a ideia parece legal. Talvez eu não queira entrar pra fraternidade, mas posso ajudar. — Tweek disse e Craig concordou com a cabeça. — E você também.

— Tá, tudo bem. — Craig disse mesmo que no fundo não quisesse ir, mas naquele momento definitivamente faria qualquer coisa por aquele loiro de covinhas, que sorriu novamente antes de Craig deixar o quarto dele completamente.

Se era difícil saber o que Tweek estava pensando, era ainda mais desafiador para as pessoas entender o que Craig pensava. Era como se sarcasmo e ironia fossem sua segunda língua. Tudo sempre lhe parecia banal e desinteressante. Era um dos motivos pelo qual ele imaginava ter se apaixonado tanto por Tweek a ponto de deixar algumas de suas próprias características de lado, era fato que Tweek o tinha tornado um homem melhor. Era difícil ele passar uma semana que fosse longe de problemas na escola, estava sempre se metendo em encrencas com os amigos, especialmente quando Cartman o desprezava deliberadamente muitas vezes.

O fazia pensar em quem dava tanto poder ao Cartman na infância e na adolescência. Era como se todo mundo odiasse o que ele fazia, mas ainda assim o queria por perto. Mas não era como se Craig passasse muito tempo pensando naquilo.

Ele pôs outro cigarro na boca enquanto andava de volta para seu próprio dormitório. Quando tirou o zipo dos Beatles do bolso para acender o cigarro, lembrou das palavras de Tweek sobre o que achava de Craig fumar. Ele sempre havia detestado. Tirou o cigarro da boca murmurando algum palavrão qualquer e o colocou de volta na carteira. Não que fosse fácil largar um vício que tinha desde os 14 anos, mas ele nunca tinha de verdade tentado.

Passou pela pequena quadra de basquete ao ar livre que ficava no meio do território do campus onde ficavam os dormitórios, e viu o cabelo esvoaçante conhecido, castanho escuro, que tinha mãos tão grandes que fazia parecer que poderia segurar uma bola de basquete como se fosse de tênis.

Ele não sabia exatamente se deveria fazer aquilo, mas achou que seria bom começar a colocar alguns pingos nos i's. Craig pôs as mãos nos bolsos do jeans e ficou parado no canto da quadra, respirou fundo e esperou ser percebido, o que não demorou muito, pois quando Clyde virou para buscar a bola que havia encestado, viu Craig parado no fundo da quadra olhando pra ele como se soubesse que ele precisava conversar.

Clyde segurou a bola apoiada no quadril enquanto seguia na direção de Craig e, pela primeira vez desde que tinha chegado a South Park e encontrado com o amigo, olhou nos olhos e teve seu olhar retribuído.

Craig sorriu de um jeito quase imperceptível e seguiu em direção às pequenas arquibancadas ao lado da quadra, subiu cerca de dois degraus e, acompanhado de Clyde, sentou-se lado a lado com o jogador do Broncos. Clyde, por sua vez, tinha um sorriso mais aberto, sentindo aquele particular e familiar momento que o fez lembrar como se sentia em relação a Craig.

— E aí, Tucker. — Clyde quebrou o silêncio como geralmente fazia.

— E aí, Donovan. — Craig respondeu no mesmo tom.

— Deixe-me adivinhar. — Clyde percebeu que seria ele quem tinha que puxar o assunto. — Esse é aquele momento em que a gente fala sobre o que houve.

Craig suspirou fazendo uma careta qualquer indicando que sim.

Flashback

So who's this other guy you've got?
(Então, quem é esse outro cara que você arrumou?)
Which other rubes are riding hot-shot, sugar?
(Quem são os outros que estão se dando bem, amor?)
I could have swore you said before, 'no more, for sure'
(Poderia jurar que você disse antes, “mais ninguém, é sério”)
What'd I believe you for?
(Por que eu acreditaria em você?)

Seu rosto doía de tanto rir e apostava que o de Clyde também. Eles não eram bons em muitas coisas, mas certamente dançar era algo que eles não entendiam nada mesmo, ainda assim tentaram. As meninas riram também, Clyde veio com Bebe e Craig com Annie Faulk, eles tinham bebido muito mais do que eram permitidos, mas estavam se esforçando para não demonstrarem. Deixaram as meninas dançando na pista de dança e Craig decidiu que precisava tomar um ar.

Ele abriu a porta dos fundos do ginásio da escola onde a festa de formatura estava acontecendo, dando de cara com as piscinas. Craig endireitou os ombros como se quisesse ter certeza que não tinha quebrado nada depois de tentar dançar break no chão com Token. Atrás de si, alguns segundos depois, percebeu um Clyde gargalhando passando pela porta em seguida e fechando atrás de si.

— Aquilo foi louco! — Ele dizia em meio a risos, gesticulando com as mãos e vendo Craig igualmente rir.

— Foi! — O moreno disse tirando a carteira de cigarros do bolso da calça.

— Ficou maluco, Craig? — Clyde disse olhando para os lados e tirando os cigarros das mãos de Tucker.

— Fala sério, Clyde! — Craig esbravejou. — É o dia do baile de formatura, foda-se se estou fumando na escola! — Ele tomou os cigarros de volta.

— Não é isso, mas essa merda vai foder com a sua saúde. — Clyde insistiu.

— Tá bom, mãe. — O outro ironizou já preparando-se para acender o cigarro, mas novamente Clyde tirou o Malrboro da boca dele e a carteira de cigarro das mãos. — Mas que porra, Clyde, me dá isso!

No momento em que Clyde percebeu que seria possível Craig alcançar, ele jogou tudo dentro da enorme piscina do ginásio da escola. Craig arregalou os olhos furioso assistindo seus cigarros molharem, incharem e boiarem na água, ficando totalmente inutilizáveis. Ele virou para encarar Clyde, que tinha a expressão mais satisfeita que alguém poderia ter. Ouviu Craig murmurar um “vou te matar” o empurrando de leve, como se quisesse partir pra briga.

— Por que fez isso, seu idiota? — Craig perguntou aproximando-se ainda mais do mais alto.

— Porque isso é ruim pra você, precisa parar, porra. Não entende? — Clyde respondeu no mesmo tom retribuindo o empurrão.

— E o que você tem a ver com isso? — Craig respondeu, cheio de raiva. — Sequer vai estar aqui amanhã!

Clyde respirou fundo ao ouvir aquilo e percebeu, pela primeira vez em anos, uma clara mágoa nas palavras de Craig que, por um segundo, realmente sentiu-se exposto. Clyde havia recebido a notícia que iria para o primeiro draft do Denver Broncos e tinha grandes chances de ser contratado pelo time. Ele jogava pelo time de futebol americano de South Park e era um dos melhores quarterbacks que a cidade havia visto em anos. Os Broncos de interessaram por ele e, agora, ele deixaria South Park por um bom tempo. Craig era seu melhor amigo e, por mais que achasse que Clyde jamais deveria desperdiçar aquela oportunidade, não queria ficar longe dele.

— Você sabe que isso não significa que vou parar de me importar com você. — Clyde disse agora mais calmo ao ver Craig se afastar, desviando o olhar, colocando as mãos nos bolsos das calças pretas.

E lá estava Craig, completamente inacessível de novo, dando as costas ao amigo como se não quisesse que ele percebesse que ele se importava tanto.

— Você significa pra caralho pra mim, Tucker. — Clyde disse aproximando-se de volta do outro, segurando-o pelo ombro e fazendo com que eles se encarassem de novo. — Mais do que imagina. — Ele sussurrou chegando tão perto que Craig podia sentir o cheiro fraco de perfume que Clyde usava.

Não entendeu muito bem quando sentiu as mãos de Clyde segurarem seu rosto e o puxar contra si para beijá-lo como se tivesse pensado em fazer aquilo há muito tempo. Craig retribuiu o beijo e, conforme iam encaixando melhor seus corpos e bocas, o beijo ia ficando mais obsceno, mais quente e envolvendo mãos por seus corpos e cabelos. Clyde empurrou Craig contra a parede e mordia de leve seus lábios descendo uma das mãos de suas costas, para sua cintura, pressionando seus quadris juntos. Craig corria os dedos pelos cabelos de Clyde, puxando sua nuca vez ou outra para dar ritmo ao beijo.

Clyde não queria saber de parar, aquilo não lhe passava pela cabeça quando ele percebeu que Craig parecia pensar do mesmo jeito. Não importava mesmo que estivessem ali vulneráveis a qualquer pessoa aparecer, não estavam ligando muito que alguém os visse no maior amasso que qualquer um poderia assistir.

Mas justamente a pessoa que não deveria realmente ver aquilo, foi a única a aparecer.

— Craig? — A voz de Tweek Tweak interrompeu como uma banho de água fria em qualquer dia de sol escaldante. Foi assustador quando ambos sentiram o sangue correr gelado dentro do corpo por alguns breves milésimos de segundo.

Os dois se desgrudaram abruptamente e Clyde ajeitou o terno, estava ligeiramente aliviado por ser Tweek e não uma das garotas. Mesmo assim ficou sem graça, respirou fundo e meio que esperou uma reação de Craig, mas tudo que viu o outro fazer foi enterrar o rosto nas mãos.

— Me desculpe, Tweek, eu... — Mas já era tarde, o loiro, completamente estarrecido, deixou o local se perdendo no meio da multidão de alunos. Craig sentiu-se tão culpado que mal conseguia se mexer.

Clyde, que não entendeu exatamente o que tinha acabado de acontecer, estava ainda mais confuso. Voltou-se para Craig como se estivesse pronto para pedir alguma explicação, mas o que viu foi um Craig voltando a seu estado de espírito impenetrável, limpando os cantos da boca. Ele pigarreou, respirou fundo e fechou as calças quando percebeu que Clyde tinha aberto sem ele notar.

— Não é justo. — Craig apontou um dos dedos para Clyde. — Como é que você joga uma coisa dessas pra cima de mim agora? Eu vou te matar, Donovan.

— Engraçado você dizer isso. — Clyde franziu o cenho diante da atitude do outro. — Porque não sou o único de pau duro aqui!

— Vai se foder, Clyde! — Craig quase gritou. — Pra que você faz isso agora? Teve essa merda desse ensino médio inteiro pra falar ou fazer alguma coisa sobre esses sentimentos óbvios que você tem por mim, e escolheu agora? Hoje?

— Óbvios? — Clyde era quem arregalava os olhos agora.

— Ah desculpe! — Craig se fez de rendido, levantando ambas as mãos. — Era pra ser segredo? Acha que não conheço cada centímetro de movimento seu, Donovan? — Eles sempre se chamavam pelo sobrenome quando estavam discutindo. — Acha que, em certo momento, eu também não te queria pra caralho? A diferença é que você é lerdo pra porra e nunca percebe nada. — Ele fez uma pausa e Clyde estava chocado. — Donovan, seu timing não poderia ser pior.

— Espera aí, você está com Tweek? — O moreno de cabelos castanhos agora bagunçados pelas mãos de Craig, estava ainda mais pasmo ao dar-se conta do raciocínio. — Mas que porra, Tucker, por que não me contou?

— E pra quê? Você vai pra Denver amanhã! — Craig dessa vez gritou como se fosse óbvio.

— Craig... — Clyde começou calmo, percebeu que aquilo realmente se tornara um problema maior do que ele poderia pensar. Mas Craig não queria ouvir, ele não simplesmente interrompeu ou lhe deu as costas, ele saiu pela mesma porta que Tweek havia saído há pouco, claramente estava indo atrás do loiro.

Clyde respirou fundo e realmente entendeu o porque das pessoas dizerem que ele realmente não era nenhum exemplo de esperteza: estava sentindo-se realmente um completo idiota.

Every time I see your face, my heart smiles
(Toda vez que vejo seu rosto, meu coração sorri)
Every time it feels so good, it hurts sometimes
(Toda vez me sinto tão bem, mas machuca às vezes)
Created in this world to love, to hold, to feel, to breathe
(Criado nesse mundo para amar, abraçar, sentir, respirar)
To live you
(Viver você)
Dangerously in love
(Perigosamente apaixonado)

Fim do Flashback