Notas iniciais
A música do capítulo é "Not Enough", do Our Lady Peace.

CAPÍTULO VIII

Not enough

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Durante o caminho de volta à universidade, Kyle já havia ligado para Cartman em torno de umas três vezes. O ruivo estava bravo, mas era mais preocupação. Butters conversava com um Phillip basicamente inconsolável, estava com medo por Clyde. Não achava justo tê-lo colocado naquela posição perigosa, mas Butters tentava convencê-lo de que o fato de Damien ser quem era não tinha nada a ver com Pip. Se não fosse Clyde, seria outro. Não faria diferença.

Cartman, para a surpresa de Pip, praticamente não disse nada. Ele estava realmente irritado e até mesmo chateado com o que Butters havia dito. Achava que era apenas karma vindo atrás dele, afinal, sempre foi hostil com o estudante de literatura e parecia que era agora sua vez de pagar por aquilo. A questão é que gostava de Butters, gostava de tê-lo por perto, era um garoto inteligente e Cartman confiava mais no bom senso dele do que qualquer outro dos que considerava seus melhores amigos. Talvez Kenny tivesse a mesma paciência mas ele nunca realmente gostou de Kenny.

— Eu vou te matar, Cartman. — Kyle dizia ao se aproximar de Cartman antes dos outros. — Por que você fez isso?

— Está tudo bem, fica tranquilo. — Cartman dizia um pouco distraído, mas queria abraçar o ruivo. Ficou lado a lado com ele, percebendo Kenny e Stan se aproximando.

— O que aconteceu? — Stan perguntou ao ver Pip abraçado com Clyde. Aparentemente todo mundo queria saber, mas não queriam interromper os dois.

— Damien conversou com Pip, falou umas paradas lá e pronto. — Cartman dizia desinteressado. Como se estivesse esperado mais. — Damien não vai desistir não.

— Falou com ele? E o que Butters está fazendo aqui? — Kenny perguntou ao ver o loiro de moicano se afastando. Cartman olhou ele de costas andando, provavelmente de volta ao seu próprio dormitório.

— Pedi ajuda dele... — Cartman disse por fim. Resolveu contar só metade da história quando concluiu. — E ele veio.

— Você falou com Damien? — Kyle perguntou mas os outros dois também prestaram atenção.

— Não. Só Pip falou com ele. Não tenho certeza se ele nos viu. — Eric respondeu olhando de Kenny para Stan e então para Kyle. — Estou cansado.

Kyle percebeu que Cartman estava diferente. Sentiu falta até da hostilidade. Ele estava sério e pensativo. Desconfiava que Damien tivesse dito ou feito algo, mas provavelmente Cartman estaria pilhado e nervoso se isso tivesse acontecido.

— Eu também. — Kenny respondeu. — Vou falar com Pip e vou dormir, tenho aula amanhã.

— Digo o mesmo. Vou com você Kenny. — Stan disse meio que olhando para Kyle, esperando que ele fizesse o mesmo ou comentasse algo.

— Eu vou daqui a pouco. — Kyle respondeu olhando o melhor amigo. — Eu e Cartman temos que... ver umas coisas... da aula. — Ele falou pausadamente tentando não parecer que estava usando uma desculpa qualquer. Stan acreditou, Kenny sorriu como se tivesse percebido melhor do que Stan.

Os dois começaram a andar em direção ao dormitório de Cartman e Kyle olhava pra um Eric que parecia afundado em pensamentos. Ele respirou fundo e então foi que percebeu que Kyle olhava pra ele sem entender, mas um pouco receoso de perguntar.

— Acha mesmo que sou uma pessoa horrível? Pode ser sincero. — Eric perguntou quando entraram no quarto. — Porque o Butters disse que...

— Mas é claro que o Butters é um cara puto com você, Eric. — Kyle o interrompeu entendendo do que aquilo se tratava. — Você o trancou dizendo que o mundo estava acabando só pra ele não ir no meu aniversário quando éramos crianças. — O ruivo achava aquilo perturbador, mas riu mesmo assim.

— Qual é, seu aniversário era no Casa Bonita. — Eric respondeu como se a atitude dele tivesse sido totalmente justificável. Ele riu sentando-se na cama de casal. — Mas você sabe que eu realmente queria ir por sua causa.

— Claro, lógico. — Kyle foi irônico e riu alto sentando ao lado do amigo.

— Falo sério. — Eric voltou-se para Kyle ao lado dele na cama, colocou uma de suas mãos na coxa do ruivo. — Você sempre foi diferente.

Kyle sorriu de canto, era realmente um pouco estranho ver Cartman daquele jeito, olhando pra ele como se estivesse aliviado, como se de fato a relação que ele queria com Kyle estivesse acontecendo finalmente. Kyle era a única coisa que importava pra ele naquele momento da sua vida, mas Butters finalmente o tinha feito repensar se realmente era bom o suficiente para estar com alguém como Kyle.

— Em que está pensando? — Kyle perguntou diante do silêncio do outro.

— Em mim. — Cartman respondeu sincero e Kyle riu, deitando-se na cama. — É sério, mas não é bem assim, eu estava pensando em você também. — Ele se atrapalhou um pouco na explicação imitando o movimento do outro.

Ele olhou pro lado e viu Kyle brincando com os cabelos. Ele enrolava uma mecha nos dedos e, por vezes, segurava uma parte dos cabelos perto da testa, a fim de tentar olhar, revirando os olhos pra cima. Era engraçado ver a cena, parecia que ele realmente estava tentando olhar para a própria testa. Eric achou aquela cena uma das mais bonitas que poderia ver.

— O que exatamente você está sentindo, Eric? — Kyle perguntou como se finalmente tivesse se dado conta que ele e Cartman não tinha conversado direito sobre o que estava de fato acontecendo entre eles.

— Como assim?

— Em relação a mim. — Kyle baixou os braços e encarou o outro ao seu lado. — Quer dizer, a gente está... junto? — Ele não tinha certeza de qual palavra usar e Cartman riu alto.

— Sei lá... — Eric riu um pouco sem graça. — Eu amo você, Kyle. Acho que desde que te conheci. Mas claro que penso em como vai ser, o que vamos fazer...

Mas tudo que Kyle ouviu foi o “eu amo você, Kyle”. Ele não sabia, até aquele momento, que Eric Cartman era capaz de sentir algo parecido com aquilo. Muito menos capaz de admitir, dizer isso a alguém, com tanta naturalidade, como se aquilo fosse óbvio. Ele não havia ensaiado, não tinha pensando antes de dizer, a forma como se expressou era como se fosse um sentimento inerente a ele, como se sempre estivesse estado ali, como se Broflovski já soubesse há tempos.

Mas não, ele não sabia. Kyle repassou num filme de dois segundos quase todos os momentos em que Cartman havia sido rude, feito uma piada sobre judeus, gritado algo ofensivo ou perguntado coisas como “está com inveja, Kyle?” e tudo realmente ficou claro. Inclusive pra ele mesmo, depois de tudo aquilo, ele se deu conta que não conseguia se livrar de Eric, ele sempre preenchia por onde passava, desde que ele tinha oito anos, era impossível não notar a presença dele quando ele chegava em algum lugar.

Kyle não sabia exatamente como continuar aquele assunto, estava tão surpreso pela verdade que Eric estava passando nos últimos dias que até tinha esquecido que aquilo implicava em coisas como dramas, amizades e sexualidade. Afinal de contas, ele nunca tinha se imaginado com um homem.

— Vamos pra minha casa amanhã? — Eric perguntou devido ao silêncio do outro, que apenas o encarava sem dizer nada por mais de dois minutos.

— Eu amo você também, Eric. — Kyle respondeu como se tivesse ponderado sobre tudo e aquela era a única conclusão que ele conseguiria encontrar.

Cartman quase riu, não porque era engraçado, mas porque não imaginou que, o dia que ouvisse aquilo de Kyle, seria tão incrível. Ele virou-se na direção do outro e segurou uma de suas mãos.

— E o que vamos fazer então? — O moreno perguntou após um suspiro.

— Eric, eu quero contar pro Stan o que está acontecendo. — Kyle disse já imaginando que Cartman não ia gostar daquilo.

— Por que você tem essa necessidade insana de conta tudo que acontece na sua vida para a porra do Stan? — Eric estava quase indignado, bufou mais com ciúmes do que com medo do que Stanley pensaria daquilo.

— Ele é o meu melhor amigo, você já está cansado de saber e ouvir isso. — Kyle respondeu no mesmo tom impaciente. — É algo importante. “Isso”... — Ele referia-se ao fato de estarem de mãos dadas. — É importante, Eric.

— Tá, tá bom. — Cartman passou uma das mãos pelo rosto. Só de pensar na situação, no drama, em como resolveria aquilo, nas conversas que teria que ter, em absolutamente tudo que viria após aquilo, já estava até cansado mentalmente. — Mas uma coisa de cada vez, ok?

— Certo. — Kyle já estava satisfeito o suficiente de ter conseguido aquilo sem pelo menos começar uma briga. — E sobre o jantar... Acho que não vai rolar. — Kyle riu ao ver a expressão de choque do outro.

— Por que? Você tinha dito que sim! — Cartman levantou-se num sobressalto já pensando o que tinha feito de errado.

— Não lembra da condição? — Kyle continuou, imitando o movimento do outro, ficando em pé de frente pra ele. — Você não veria Damien...

— Tecnicamente eu não o vi. — Eric defendeu-se como um legítimo advogado. — Eu fui até lá com Pip, mas eu sequer vi o Damien, eles estavam dentro da floresta, eu e o Butters esperamos no parquinho. — Ele concluiu confiante em seu argumento.

— Vou te livrar dessa, ok? — Kyle riu fingindo que realmente estava fazendo um grande esforço para reconsiderar aquilo. Cartman o abraçou e, pela primeira vez, Kyle percebeu que não se tratava só de beijo e palavras carinhosas, mas era a primeira vez que se abraçavam.

Cartman não queria soltar o ruivo e Kyle sabia disso. Recostou a cabeça sobre o ombro de Eric e sentiu aquele cheiro conhecido. Circulou os braços pela cintura dele enquanto sentia os braços dele sobre seu ombro, fechando-se em suas costas, que ele acariciava com as pontas dos dedos.

— Eu preciso ir. — Kyle sussurrou a contragosto.

— Não quer dormir aqui? Está tarde pra você ir pro seu dormitório. — Cartman disse o puxando mais pra perto.

— Você sabe o que isso significaria... — Kyle começou inseguro, sabendo que talvez não significasse exatamente “dormir”. — E eu não sei se deveríamos...

— Não seja idiota, já está se achando o mais irresistível. — Cartman riu tranquilizando-o com a brincadeira. — Tudo bem que um cara como “eu” se interessou por um judeu meia-boca que nem é tão bonito assim, então entendo que seja normal que você... — Mas Kyle não estava nem terminando de ouvir e já saía em busca da porta. — Eu estava brincando, para de besteira. — Mas Cartman o agarrou de volta rindo, fazendo o ruivo sorrir também.

— Tudo bem, eu vou ficar... Mas vamos dormir, certo? — Kyle disse assim que viu o sorriso de Eric. Deu ênfase na palavra “dormir” e Cartman apenas riu voltando a beijá-lo.

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There's nothing you can say
(Não há nada que você possa dizer)
Nothing you can do
(Nada que possa fazer)
Nothing in between
(Nada no meio)
You know the truth
(Você sabe a verdade)

Cartman estava começando a pensar que estava sendo visto demais naquele dormitório da fraternidade da faculdade de Literatura. Não gostava muito daquele ambiente simplesmente porque não fazia parte, ainda se perguntava como Butters tinha ido parar lá. O casarão enorme bem no meio do campus estava silencioso e com poucas pessoas entrando e saindo. Cartman calculava que deveria haver por volta de seis a oito quartos por lá, divididos entre os dois andares. A porta estava sempre destrancada durante o dia, ele entrou sem bater e viu alguns alunos na enorme sala, jogando vídeo-game.

Ele passou sem cumprimentar ninguém, até porque ninguém pareceu notar ou se importar com sua presença ali. Ele segurava em mãos uma máscara preta, com penugens marrom dos lados e uma sobrancelha preta chamativa. Vestia uma camiseta branca com u “C” preto estilizado no centro, por baixo de sua jaqueta de couro preta e, sobre o ombro esquerdo, segurava uma capa vermelha. Quem o conhecia já sabia que aquele se tratava do Coon, seu personagem de super-herói que havia inventado quando era criança: uma guaxinim.

Ele subiu as escadas procurando Butters em um dos quartos. Passou por alguns antes de encontrar quem buscava. A festa a fantasia da faculdade e Artes Cênicas seria aquela noite e, aparentemente, havia se transformado num grande evento; estavam todos falando a respeito e a maioria tentava customizar suas próprias fantasias, nada de clichês como enfermeiras safadas e policiais com saias curtas e algemas. Todos queriam ser o mais original que conseguiam.

Quando encontrou o quarto onde Butters estava, Cartman não entrou, apenas ficou olhando a porta aberta, mostrando um loiro com calças verde-escuro com botas metálico-espelhadas, parecendo papel laminado. Ele também vestia um colete verde num tom mais claro. Se olhava de perfil no espelho enquanto parecia cortar uma espécie de capacete que cobria seu rosto, deixando de fora apenas sua boca e olhos, em formato de “T”. O topo da cabeça ainda sustentava um moicano loiro não muito alto, mas perfeitamente penteado.

Cartman sorriu ao ver a veracidade e perfeição da fantasia de Professor Chaos que Butters conseguiu montar.

— Ficou muito bom. — Eric disse ao encostar-se na soleira da porta do quarto. O loiro virou-se não muito surpreso de ter alguém ali, mas não disse nada. — Dougie também vem?

— Não. — Butters respondeu experimentando as luvas. — Vai sair com a namorada.

— Namorada? Aquele idiota? — Cartman gargalhou surpreso. Em resposta, encarou um Butters olhando pra ele sério sem dizer nada. — Só estava brincando. Não precisa ficar putinho.

— O que você quer, Cartman? — Butters perguntou se aproximando de Eric. — Estou ocupado. — Ele pôs uma das mãos na porta quando Cartman pareceu querer entrar, como se dissesse que não era uma boa hora.

— Eu quero falar com você. — Eric estava sério agora, tirou a capa vermelha do ombro e segurou na mão esquerda. Butters apenas olhou de volta como se não estivesse entendendo que tipo de assunto eles teriam. — Deixa eu entrar. — Cartman tentou ser educado, mas estava um pouco impaciente.

Butters tirou a mão da porta após encará-lo por alguns segundos. Ele deu espaço para que o outro passasse, deu as costas e voltou a encarar o espelho e arrumar seu capacete, feito do mesmo material de suas botas e luvas. Cartman por um segundo observou o reflexo do outro no espelho, não sabia exatamente por onde começar. Butters tinha se tornado um homem extremamente bonito, não que Cartman fosse dizer isso a ele. Ele observou detalhes que antes lhe passaram despercebidos, como uma cicatriz quase imperceptível no queixo e o fato de que ele tinha acabado de barbear-se. O loiro tinha crescido consideravelmente, mas seus olhos azuis, ligeiramente caídos, continuavam ali, dando sincronia com os lábios rosados, em forma de coração. Butters Stotch tinha o queixo quadrado e um nariz que parecia ter o exato tamanho perfeito para seu rosto.

— O que você quer? — Ele começou devido ao silêncio fúnebre de Cartman que apenas o encarava completamente alheio por vários segundos. O loiro tirou o colete azul, mostrando o peito nu, sem pelos, a pele branca parecia extremamente sensível.

— Quero falar sobre o real motivo de você estar sendo um cuzão comigo desde a festa que vim com Token aqui. — Cartman começou passando uma das mãos pela nuca. Sentia seu corpo quente por algum motivo. — Primeiro que você veio nos cumprimentar, mas mal falou comigo. E desconfio que só o fez porque estava bêbado. Então tivemos o episódio do Pip. — Ele dizia correndo, como se enumerasse as vezes em que tudo aconteceu.

Butters encarou Eric como se não estivesse com muita paciência para aquilo, era como explicar física quântica para uma criança de quatro anos. Cartman era mesmo incapaz de ter qualquer sensibilidade quando se tratava dos sentimentos alheios.

— A pergunta é: por que você se importa? — Ele começou colocando as mãos no quadril e, apesar de estar vestindo calças verdes com botas metálicas, ele conseguia passar credibilidade.

— Qual é o seu problema comigo, Butters? Éramos amigos! — Cartman começou jogando a capa vermelha em cima da cama. — Somos amigos! — Ele corrigiu.

— Eric, você tem três amigos: Kyle, Stan e Kenny. — Butters dizia andando pelo quarto em busca de uma camiseta para vestir. — O resto você procura quando precisa.

— Stan é um nerd insuportável. — Cartman começou, contando nos dedos, o ciúmes era mais uma vez visível. — Kyle é um judeu esquisito e Kenny... Fala sério, eu odeio o Kenny. — Ele disse como se fosse óbvio. — Eles é que andam comigo, não sou eu que ando com eles. Tem diferença.

— É, você é bom demais para 'andar com as pessoas', Eric. — Butters respondeu sem se surpreender muito com aquela resposta.

Eric não disse nada, apenas respirou fundo. O pensamento que ele tentou afastar durante todo aquele tempo estava voltando à sua mente, a verdade era que ele veio buscar por outro motivo qualquer que fosse, mas Butters definitivamente não tinha um, então só poderia ser aquilo mesmo. Ele reviveu em dois segundos em silêncio quando o loiro vestia uma camiseta preta qualquer.

— Tenho coisas pra fazer, Eric. — Ele recomeçou ao pensar duas vezes antes de tirar as calças em frente ao outro. — Então se você puder...

— Você sabe que eu não sou o tipo de cara que faz isso. — Eric o interrompeu e o outro apenas bufou. — Eu não vou atrás das pessoas, se estou aqui é porque de alguma forma super esquisita eu me importo. — Ele dizia quase se alterando. — Será que não pode simplesmente falar comigo?

— Não tem nada pra falar, Eric! — Butters abriu os braços sem entender o motivo daquela insistência toda. — Eu preciso estudar, preciso terminar minha fantasia, então por favor... — Ele andou até a porta do quarto abrindo-a completamente e, com um gesto com a mão, apontou a saída deixando claro que gostaria do outro fora dali.

Cartman não se moveu e, com um certo esforço para tocar no assunto, ele chegou mais perto do loiro e olhou nos olhos dele, como se buscasse uma resposta sem precisar perguntar. Mas há muito Butters havia deixado de ser aquele menino que deixava transparecer o que sentia. Há tempos ele havia deixado de se importar e demonstrar tanto, o jeito de olhar e a postura dele atualmente jamais lembravam quem ele foi e, certamente, não mostravam qualquer resquício daquela ingenuidade e bondade gratuita que tinha mesmo com garotos que o tratavam mal.

— Isso tudo ainda é pelo que aconteceu no último ano da nossa Junior High? — Eric disse e, pela primeira vez naquela semana, conseguiu calar Butters, que dessa vez não tinha uma boa resposta para aquilo.

O loiro fechou a porta como se estivesse receoso que alguém estivesse ouvindo aquela conversa. A porta fez mais barulho dos que os dois calcularam quando se fechou e Butters desviou o olhar. Deu as costas ao outro e, de fato, Eric tinha a resposta afirmativa que queria.

Nothing left to face
(Nada para encarar)
Nothing left to lose
(Nada a perder)
Nothing takes your place
(Nada toma seu lugar)

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Flashback

A festa de quinze anos de Eric Cartman, no porão de sua casa, tinha sido realmente incrível. Todos já haviam ido pra casa, a maioria tinha bebido muito. Apesar de ser totalmente ilegal, os rapazes deram um jeito — que envolvia carteiras de identidade falsa — de comprar cervejas, vodcas e até duas ou três garrafas de uísque. Stan tinha conseguido ir pra casa porque Wendy basicamente o carregou e, Kyle não havia bebido o suficiente para ficar mal a ponto de não conseguir andar. Kenny, apesar de alto, costumava precisar de muito mais do que havia bebido para sequer ficar mal. Ainda assim, Kyle se ofereceu para levá-lo pra casa.

Os convidados deixaram a casa de Eric por volta das quatro da manhã. O próprio anfitrião estava tonto e segurava sacos de lixo enquanto andava pelo recinto recolhendo copos, latas e qualquer outro tipo de lixo que teria. Sua mãe sabia da festa, mas não estava em casa e jamais poderia sonhar que bebidas alcoólicas tinham estado presentes ali.

— Quer ajuda? — Butters, que havia bebido pouco, ainda estava lá. Olhou de cima da escada um Cartman com dois sacos e lixo cheios, colocando-os em um canto para depois levar pra fora.

— Claro. — Ele não estava em posição de negar, já que não via a hora de ir pra cama. Um sorriso fraco brotou de seus lábios quando o velho amigo desceu as escadas e começou a ajudá-lo.

— A festa estava ótima, Eric. — Ele dizia ao ver o outro feliz, apesar de sonolento. — O pessoal vai comentar por semanas.

— Eu sei. — O moreno respondeu convencido, mas Butters não ligou. — Você não bebeu?

— Não muito. — O loiro disse enquanto tentava limpar um pouco a mesa de centro onde haviam bebidas derramadas. — Se eu chegar em casa com qualquer resquício de que bebi algo, fico de castigo para o resto da vida.

— Não está muito velho para ficar de castigo? — Eric perguntou sentando-se no sofá vermelho. Não conseguia mais ficar em pé, sua cabeça estava começando a doer.

— Acho que isso não existe na cabeça dos meus pais. — Butters sorriu triste. Gostaria de se impor mais e ser levado mais a sério, mas aquilo ainda parecia uma postura que ele não havia aprendido a ter.

Conversaram pouco sobre as coisas, pois Cartman caiu no sono no sofá mesmo. Butters terminou de limpar o ambiente da festa em cerca de uma hora. Não estava perfeito, mas certamente não estava ruim. Ele olhou com carinho para Eric jogado no sofá, meio deitado, meio sentado. Eram quase seis da manhã.

O loiro, que ainda não sustentava o moicano que usaria na faculdade, tinha os cabelos perfeitamente penteados, platinados num tom de loiro que contrastava incrivelmente com seu tom de pele e cor dos olhos. Ele foi até a cozinha e fez um café forte, sabia que com a ressaca que Eric teria naquele dia, era uma das poucas coisas que ele sabia que ajudava.

Pegou um cobertor não muito grosso no quarto de Eric e estava pronto para levar até o porão, a fim de cobri-lo. Com uma das mãos segurava o cobertor e com a outra, uma caneca grande de café preto.

Desceu as escadas e cobriu o amigo. Colocou a caneca sobre a mesa de centro e, com certa gentileza, tentava acordar Cartman.

— Ei, Eric. Você precisa acordar. — Ele dizia com uma das mãos sacudindo-o de leve no ombro. — Eric, acorde, por favor. — Depois de alguns segundos, ele ouviu Cartman gemer mal humorado. — Sua mãe vai chegar em algumas horas, ela não pode te ver assim.

Ao ouvir isso, Eric abriu os olhos devagar e ajeitou-se no sofá. Butters novamente pegou a caneca de cima da mesa e ofereceu a ele, que fez uma cara feia.

— É só café. Você precisa melhorar, anda logo. — Ele disse insistindo para que Eric tomasse e, apesar de fazer cara feia por estar muito forte, Cartman tomou quase meia caneca de café. Não estava se sentindo bem, mas certamente sentia-se um pouco melhor.

— Obrigado. — Ele murmurou olhando Butters de canto, que apenas sorriu sem mostrar os dentes. Cartman colocou a caneca de volta na mesa e, apesar da dor de cabeça e tontura, observou o amigo ao seu lado por alguns segundos. Butters checou o horário e sabia que estaria com problemas por estar pensando em chegar em casa quando o dia já havia nascido.

— Eu preciso ir. — Ele disse mas Cartman segurou sua mão quando ele ameaçou levantar-se do sofá.

When they say you're not that strong
(Quando dizem que você não é tão forte assim)
You're not that weak
(Você não é tão fraco assim)
It's not your fault
(A culpa não é sua)

Eric só conseguia pensar no fato de que aquele lugar estava limpo e vazio. Ele tinha um cobertor sob suas pernas, na altura da cintura e um gosto de café forte na boca. Sentia-se aquecido e, se deu conta pela primeira vez em anos, que quem estava ali não era Kyle, Stan e nem muito menos Kenny.

Era aquele loiro magrelo, com roupas simples. Com um sorriso engraçado e o cabelo bem penteado. Era o garoto de olhos azuis que já tinha passado por poucas e boas nas mãos de Cartman. Era o garoto que, mesmo sabendo que estaria com problemas quando chegasse em casa por causa de pais maníacos, ficou ali o ajudando após a festa, trouxe café e cobertor. E o acordou antes que sua mãe chegasse em casa e o colocasse em problemas.

Ele o encarava sem entender porque Eric o segurava pela mão e agora tinha um olhar tão fixo, grato e, pela primeira vez, Butters sentiu que era apreciado e valorizado na presença do outro.

Antes que pudesse tirar qualquer outra conclusão, Eric inclinou-se na direção dele e o beijou sem qualquer tipo de medo ou receio. Tinha uma das mãos no rosto quente do outro e conseguia sentir suas respirações perto. Não que tivesse durado muito, mas foi tempo o suficiente para que Butters ficasse corado e sentisse aquele turbilhão de emoções, sem saber por onde começar a dizer algo. Ele esperou muito por aquilo, mas nem sabia direito que queria tanto assim.

— Vejo você na escola? — Cartman sorria sonolento sem dar muita atenção ao fato de que seu colega estava um tanto quanto chocado.

— Sim... — Balbuciou um Butters tocando os lábios com uma das mãos.

Cartman levantou do sofá onde estava e, carregando a coberta por cima do ombro, subiu as escadas do porão de sua casa, onde a maior parte da festa tinha acontecido, e entrou em seu quarto. Sentiu o leve aroma de café quando passou pela cozinha, mas estava com a mente tão confusa que sua única preocupação era a chegada de sua mãe. Esperava que ela não percebesse que haviam bebido muito aquela noite.

When you climb up to your hill
(Quando você sobe sua colina)
Up to your place
(Lá em cima, em seu lugar)
I hope you're well
(Espero que esteja bem)

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Na segunda-feira a escola estava em seu ritmo normal logo cedo. Era o último ano dos garotos na Junior High e também final de semestre. Todos estavam ligeiramente preocupados em recuperar notas e buscar informações sobre quais seriam as matérias optativas que estudariam quando estivessem no Ensino Médio. A maioria das garotas cogitava o Clube de Teatro e o Clube de Debate, os garotos procuravam focar nos esportes e, os mais inteligentes, no Clube de Matemática ou Ciência da Computação. Os cartazes e panfletos com opções estavam por toda parte.

Cartman atravessava o corredor ajeitando a mochila sobre o ombro enquanto olhava ao redor em busca dos outros três amigos. Viu Stan de longe com um dos braços envolvendo Wendy e não estava com muita paciência para aquele casal sem sal. Passou reto, não os cumprimentou — o que não deixou ninguém surpreso. Kenny mexia no celular ao lado de Jimmy, mostrando ao amigo um jogo qualquer, mas Cartman não parecia igualmente interessado. Quando viu Kyle conversando com Rebecca Cotswolds, bufou de raiva, revirou os olhos e apenas decidiu encarar o próprio armário em busca de livros pra aula.

— E aí, Cartman. — Token o cumprimentou abrindo seu armário, há dois armários de distância de Eric.

— Oi. — Foi a resposta pouco interessada de Cartman.

— Sua mãe descobriu alguma coisa? — O garoto riu, olhando Cartman com o canto dos olhos, mas o outro apenas deu de ombro.

— Sei lá, acho que não. — Eric respondeu batendo a porta metálica do armário. — Acho que ela teria falado algo, mas não disse nada.

Antes que Token respondesse algo dando continuidade ao assunto, Damien cruzou o corredor abraçando Pip pelo ombro, que retribuía passando o braço pela cintura do moreno alto. Não que eles se importassem muito, afinal, ninguém tinha muita coragem de dizer o que quer que fosse a Damien. O garoto trocou olhares provocativos com Cartman, mas Eric, apesar de retribuir como se não demonstrasse medo, não disse nada. Quando o casal se afastou, Token começou a rir baixinho, fechando agora seu próprio armário.

— Coitado do Pip, aposto que Damien o convenceu disso. — Token comentou, tentando retomar o assunto com Eric.

— Isso o que? O namoro? — Eric sorriu de canto. — Acho que não.

— Se bem que é verdade, Pip é a maior bichinha dessa escola. — Token dizia despreocupado com seu próprio preconceito. — Acho nojento esse tipo de coisa, ainda mais na frente da escola toda. — Token se calou por um segundo e Cartman parecia pensativo e preocupado ao mesmo tempo. — Dois homens se pegando? Cara, é ridículo demais isso! — O moreno de olhos negros e com sorriso bonito parecia um pouco surpreso por Cartman não dizer nada ofensivo relativo àquilo. — Você não concorda? Está pegando algum cara também, Cartman? — Era obviamente uma piada, mas Eric não riu.

— Cala a boca, Token. — Cartman agora pareceu reagir de forma um pouco exagerada. — Quebro a sua cara. — Ele disse já se afastando do amigo. Token franziu o cenho, mas não deu atenção àquela ameaça. Era Cartman afinal de contas. Nada de anormal.

Por um segundo, ele tinha volta à realidade. A escola tinha ficado menor e mais sufocante. Não que ele fosse admitir qualquer coisa do tipo, mas ver Damien com Pip daquela forma lhe bateu uma certa inveja. Inveja da liberdade, não dos julgamentos, sabia que Pip e Damien não poderia ser algo mais errado e confuso, mas ao menos eles estavam dispostos a pagar preço alto que era viver daquele jeito. Cartman jamais pagaria. Não com 15 anos.

Butters andava em sua direção com certos problemas em disfarçar o sorriso. Ele estava pronto para cumprimentar o amigo, mas Cartman o puxou pelo braço com certa violência, fazendo com que os dois entrassem no banheiro masculino.

— Oi Eric... — Butters estava um pouco atordoado. — Eu fiz um...

— Butters, olha só. — Mas Cartman não quis saber. Mesmo sem querer, o estava encurralando contra a parede. — Se você contar para alguém o que aconteceu depois da festa, eu acabo com você. — Eric disse mas não obteve resposta. Apenas os olhos arregalados de um menino assustado. — Estou falando sério.

— Não vou contar. — Butters respondeu sentindo os azulejos frios em suas costas. — Ninguém precisa saber o que está acontecendo entre nós! — Ele continuou tocando o ombro de Eric.

— Nada... — Cartman disse pausadamente como se quisesse manter a calma. Tirou a mão do outro de cima de si mesmo. — Nada está acontecendo. Eu não sei porque fiz aquilo, mas esqueça! — Se Eric se importasse realmente, perceberia o quão duro estava sendo naquele momento. — Eu não gosto de homens e, mesmo se fosse o caso, não seria de você.

Antes que pudesse ouvir qualquer resposta, Eric deixou o banheiro deixando a porta bater sozinha. As lágrimas presas aos olhos do menino loiro davam um brilho diferente aos seus olhos azuis. Ele olhou de relance para o desenho que havia feito — ele realmente desenhava muito bem — e viu uma de suas lágrimas molharem o papel que mostrava, a lápis, um Eric Cartman sorridente, piscando um dos olhos.

Butters Stotch havia entrado de um jeito naquele banheiro, mas definitivamente sairia outro. Talvez aquilo tivesse sido a gota d'água que precisava ter caído para que seu copo enchesse e transbordasse. Amassou o desenho assim que o sinal para início das aulas tocou. Jogou no lixo e secou as lágrimas com as mangas do moletom cinza que usava. Respirou fundo tomando sérias decisões mentais naquela manhã fria de segunda-feira antes de finalmente sair do banheiro e passar a encarar a realidade e a si mesmo com outros olhos.

There's nothing left to prove
(Não há nada mais para provar)
Nothing I won't do
(Nada que não farei)
Nothing like the pain
(Nada como a dor)
I feel for you
(Que sinto por você)

Fim do flashback

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Butters passou uma das mãos pelo rosto e respirou fundo antes de começar a falar.

— E o que você acha? Que aquilo não foi motivo o suficiente? — Ele perguntava já, aos poucos, se alterando. — Como você acha que me senti depois daquilo? Chega uma hora que cansa, Eric, definitivamente você foi tapa na cara de realidade que eu precisava. E olha que a coisa sequer começou.

— Eu tinha quinze anos! — Defendeu-se Cartman. — Acha que fazemos coisas inteligentes quando temos essa idade? E, digo mais, eu poderia gritar pra todo mundo que mal me importava com o que pensavam de mim na época, mas eu me importava pra caralho!

— E eu tenho o que a ver com isso? — Butters perguntava, cada vez mais indignado. — Você me beijou!

— E você retribuiu! — Cartman respondeu no mesmo tom.

— É sério que você está colocando a culpa em mim? Ou acha que temos que dividi-la? — Butters se aproximou mais de Cartman conforme falava. — Você me fez de idiota mais vezes do que eu consigo contar, fui seu bode expiatório durante o tempo todo da escola, mais da metade das vezes que fiquei de castigo foram por sua causa, cuidei de você todas as vezes que ficou de ressaca, ou quando o resto dos seus amigos te boicotavam pra ir a lugares ou fazer coisas legais... — Butters não se deu conta, mas já estava gritando. — Era a mim que você buscava. — Ele apontava para si mesmo. — Então, Cartman, me desculpe se por um momento eu pensei que eu era alguma coisa pra você. E apesar de tudo que você fez, o que me dói é que jamais ouvi sequer um “me desculpe” vindo de você.

Cartman ouviu calado, não só porque merecia aquilo, mas porque percebeu que o loiro precisava. Ele continuava andando pelo quarto, bufando e fechando os olhos tentando acalmar-se. Cartman não tirou os olhos dele e, pela primeira vez, conseguiu entender o dano que tinha causado.

— Me desculpe, Butters. — Ele começou, falando pausadamente. Procurou os olhos azuis do outro, mas ele estava nervoso demais para conseguir fazer qualquer contato visual. — Eu realmente fui o pior dos seres humanos com você e não sabia disso, certo? Entendo se não quiser me desculpar, agradeço o simples fato de ter me dito qual era o problema.

Mas Cartman não obteve resposta. Butters apenas voltou a encará-lo sem saber muito bem o que dizer. Estava surpreso por aquilo, mas nem tanto. Era a única maneira de fazer Eric Cartman perceber o que tinha feito: indo a extremos e o colocando sob pressão. Finalmente Eric tinha percebido que não teria uma resposta do outro, pelo menos não tão cedo. Deu as costas e saiu do quarto fechando a porta atrás de si.