Notas iniciais
A música do capítulo é "Space Bound", do Eminem.

CAPÍTULO IX

Marijuana

x.x.x

We touch, I feel a rush
(Nós nos tocamos, eu me arrepio)
We clutch, it isn't much
(Nós seguramos, não é muito)
But it's enough to make me wonder
(Mas é o suficiente para me fazer perguntar)
What's in store for us
(O que está reservado pra nós)

Era verdade que pouca gente naquela festa entendia as fantasias do grupo Coon and Friends, mas em anos eles não se reuniam daquela forma tão despojada, rindo a toa de qualquer coisa que dissessem, lembrando das mais variadas situações e bebendo sem preocuparem-se com aulas. Era sexta-feira e o fim de semana parecia ser mais curto do que realmente era, mas era sempre assim quando estavam se divertindo.

Cartman estava fazendo um sucesso significativo entre várias garotas fora de seu círculo de amigas, todas comentavam que ele parecia adorável com aquela tiara de orelhas de guaxinim. Ele tinha um óculos preto com sobrancelhas grossas falsas e tinha pintado a ponta do nariz de preto. Os cabelos estavam bagunçados sob as falsas orelhas, e apesar do sucesso delas, Kyle não tinha dúvidas que a melhor parte da fantasia era o rabo felpudo imitando o do animal em questão saindo das calças de Eric, que vestia preto, a camiseta branca com o “C” estilizado e um cinto com cartuchos falsos com pequenos bolsos, adaptado de uma velha fantasia do Batman. Isso sem falar, claro, nas pequenas garras que segurava nos dedos, feitas com papel mesmo.

Ele conversava com Kyle no centro da roda de amigos e ria de uma imitação qualquer que Kenny fazia do Michael Jackson. Stan mal podia colocar em palavras o quanto estava se achando ridículo com aquele óculos amarelo, mas depois de um tempo, até esqueceu daquilo, não fosse pelo fato de estar enxergando tudo no tom amarelado. Ele vestia jeans azul e um Adidas preto, sua camiseta branca tinha um pedaço de cartolina vermelha em forma de círculo, do lado esquerdo do peito com a letra “T” em preto no centro. Ele tinha luvas pretas de couro, aquelas usadas geralmente para trabalhos pesados e um cinto com ferramentas de plástico, incluindo uma furadeira amarela. Ele estava abraçado com Wendy, que estava vestida de Mulher Maravilha, conversando e trocando selinhos entre uma frase e outra.

Kyle era o mais falante da roda de amigos. Ele vestia uma regata azul piscina acompanhada de calças no mesmo tom. Tinha ao redor da cabeça, cobrindo-a completamente, uma espécie de touca cinza, dando o seu rosto um formato de losango. Na regata, também feita de cartolina, estava presa uma pipa colorida: emblema tradicional de seu Human Kite. Nas costas, ele tinha uma pipa gigante que lhe deu o maior trabalho pra fazer só pra depois descobrir o quão inconveniente era, ele frequentemente esbarrava nas pessoas. Lá pela metade da festa, ele já não usava mais, apenas segurava aquele pedaço enorme de papelão em uma das mãos.

Outro que na metade da festa tinha tirado o nariz enorme que imitava um mosquito, era Clyde. Apesar dele estar se divertindo, percebeu que as asas que usava eram femininas demais pra ele, porém, o que havia de se fazer? Ele era grande demais para usá-las mas não teve muita escolha. Tirou também a touca e as luvas, porque estava começando a suar com tanta bebida e gente ao redor dele. A coisa mais importante para ele aquela noite era ficar perto de Pip, mas aparentemente as pessoas ficaram sabendo onde ele estaria e, por ser um jogador famoso, todos queriam vê-lo e estava ficando impossível pra ele aproveitar a festa da maneira que queria. Ele gostava da atenção, mas aquele era um momento apenas para ele seus amigos, a questão é que ele não poderia simplesmente mandar as pessoas embora.

Kenny definitivamente tinha caprichado em voltar a ser Mysterion. Quem não o conhecia realmente não poderia fazer ideia de quem ele era. Ele tinha uma roupa colada cinza, quase púrpura, botas e uma cueca branca por cima da roupa acompanhada de um cinto preto. Tinha luvas cinza-escuro e uma capa acompanhada de um capuz preto e, claro, o “M” no centro do peito e o ponto de interrogação pendurado acima da cabeça. Quando as pessoas que o conheciam encontravam com ele, sempre pediam pra que ele “fizesse a voz do Mysterion”, ele estava se divertindo como não fazia há tempos, ou desde que as aulas começaram, em que ele só pensava em estudar para conseguir manter suas notas altas.

Token tinha um “pote” na cabeça, usando-o como se fosse um capacete de astronauta. Ele havia feito com plástico transparente e prendido sobre a cabeça com uma tampa azul real de um pote grande. Tinha o mesmo esquema nos braços, com tampas de dois potes vermelhos. Ele tinha um cinto amarelo com suportes para dois potes e uma camiseta azul. Engraçado mesmo é que ele não tinha encontrado calças apropriadas, então resolveu que uma calça de balé poderia servir para aquela ocasião. Mas o que chamava mesmo a atenção era o desconforto devido a tantos “potes” espalhados pelo corpo. Por mais de uma vez aquela noite, ouviu de Cartman dezenas de piadas sobre o quanto ele estava ridículo. Ele conseguiu até mesmo superar a pegação no pé de Bradley, que era um Mint Berry Crunch com metade da cara pintada de cor-de-rosa (inclusive os cabelos loiros). Ele havia prendido um pedaço de cartolina na cabeça para simular o “cabinho” da fruta e do lado esquerdo do pescoço, tinha folhas de árvore de verdade. Apesar dele parece genial, estragou duas calças quando as cortou no meio para usar uma perna de cada uma (uma cinza e outra ele tingiu de verde). Era muita motivação mesmo para relembrar os velhos tempos. Já estava tão bêbado que havia tirado a camisa no meio da dança.

It's lust, it's torturous
(É luxúria, é torturante)
You must be a sorceress
(Você deve ser uma feiticeira)
'Cause you just did the impossible
(Porque você acabou de fazer o impossível)
Gain my trust, don't play games it'll be dangerous
(Ganhou minha confiança, não brinque, pode ser perigoso)

Todos estavam se divertindo muito mais do que imaginavam. Cartman por vezes — e por culpa do uísque que não largava — mais de uma vez passou o braço em volta de Kyle, puxando-o para perto e sussurrando coisas em seu ouvido, sobre o quanto estava achando ele incrível naquela roupa e como mal podia esperar para tirá-la dele, entre outras obscenidades que faziam Kyle rir um pouco nervoso mas mais porque era realmente engraçado Cartman não dando a mínima. Stan franziu o cenho ao ver a cena mais de uma vez assistindo Kyle apenas fingir que não entendia o que estava acontecendo. Stan sabia que Kyle era um péssimo mentiroso.

Do lado de fora da festa, um pouco afastado do dormitório onde tudo acontecia, um Butters com a fantasia completa e impecável do Professor Chaos, acendia um baseado e tragava profundamente, fechando os olhos e segurando a fumaça pelo maior tempo que conseguia. Quando aquela vertigem, aquela sensação de relaxamento realmente chegava, ele soltava devagar, formando aquela nuvem clássica ao redor dele. Não que ele fizesse aquilo com frequência, mas sempre que queria se afastar um pouco da realidade, ele sempre tinha maconha guardada em um dos bolsos da carteira.

— Onde conseguiu isso? — A figura macabra, branca, vestindo preto dos pés a cabeça, acabava de sair do meio das árvores como se já estivesse ali há algum tempo — e provavelmente estava —, Damien havia aprendido a ser paciente enquanto esteve na prisão.

— Que tipo de pergunta é essa? — Butters respondeu sem se assustar. Estava relaxado demais para que seu sensores conseguissem responder de maneira apropriada em seu cérebro. — Estamos na faculdade, pode arrumar baseado onde quiser.

— É dos ruins. — Damien disse pegando a carteira de cigarros do bolso de trás do jeans preto surrado. — Pena que estou em condicional e não quero me arriscar desnecessariamente por causa de uma merda de baseado, mas se quiser, posso dizer onde conseguir coisa muito melhor. — Ele acendeu um cigarro e sentou-se na grama.

— Que porra você sabe, Damien? Esteve fora por tanto tempo que perdeu a noção da realidade. — Butters acompanhou o movimento sentando-se ao lado do moreno alto. Ele tirou o capacete prateado, revelando os cabelos não mais em forma de moicano, mas totalmente bagunçados.

— Acha mesmo que não reconheço erva boa ou ruim pelo cheiro? — Damien respondeu enquanto assistia Butters dar outra tragada no baseado. O loiro jogou-se para trás enquanto segurava a fumaça e, alguns segundos depois, ria soltando a fumaça. Damien balançou a cabeça negativamente.

— Se está aqui atrás de Pip, vai encontrá-lo muito bem protegido por um dos braços gigantes de Clyde ao redor pescoço dele. Boa sorte com isso. — Ele ria ainda mais sem nem saber porque, mas Damien não achou graça.

— Cedo ou tarde, ele vai voltar pra mim. — Damien tragou o próprio cigarro dizendo totalmente despreocupado. — E pelo que vi pela janela lá atrás, seu Cartman está quase saindo do armário finalmente.

— “Meu Cartman”... — Butters riu com vontade, mais por causa do efeito da maconha do que pela graça inexistente do assunto. — Ele sempre foi completamente apaixonado pelo Kyle. Não me sinto mal por ter sido rejeitado há tantos anos, provavelmente não duraria mesmo... Se Kyle estalasse os dedos, Eric correria pra ele sem nem precisar pensar.

— É por isso que está aqui? — Damien perguntou tirando o baseado das mãos de Butters, apagando-o na grama molhada pelo orvalho. Em seguida, devolveu o que sobrou para o loiro.

— Ei, quem mandou você apagar? Agora está molhado e não vou mais conseguir acender. — Ele reclamou mas não parecia em qualquer condição de fazer alguma coisa a respeito, estava sonolento.

— Cartman sempre foi um filho da puta, mas não pensei que ele tivesse esse poder todo... De mudar quem você sempre foi. — Damien dizia mais para si do que para o estudante de literatura ao seu lado. Para ele, era quase admirável que uma pessoa pudesse exercer tanto impacto em outra como o que Cartman tinha sobre Butters Stotch. — Não deixe ele saber disso.

— Como se você não tivesse esse mesmo poder sob o Pip. — Butters esfregou os olhos como se quisesse acordar daquela maresia. Levantou-se ficando novamente sentado.

— A diferença é que eu realmente amo Phillip. — Damien quase se defendeu. — Essa fase idiota que ele tá passando com esse viado do Clyde não me surpreende. Pip é muito carente, qualquer um que dê uma atenção a mais pra ele, ele já cria laços. Mas agora que estou de volta, tudo vai mudar.

— Se o ama realmente Damien... Coisa que eu duvido muito... — Butters falava devagar. — Vai deixar ele viver a vida dele em paz. Acha mesmo que é a pessoa pra ele? Olhe pra você. — Se tinha uma coisa que Butters não tinha era medo de Damien. Era um dos poucos que sempre o tratou bem e o recebeu devidamente quando Damien havia chegado a South Park. — O que você tem a oferecer?

— Caralho, Butters... — Damien riu do jeito do outro. — Não sei se é culpa da sua chapação ou se Cartman realmente acabou com a sua vida na adolescência. — Ele deu mais uma tragada no cigarro e levantou-se. — Eu se fosse você, ia lá roubar o Cartman daquele judeu escroto. — Damien dizia com um sorriso maldoso enquanto se afastava indo em direção à festa.

Butters sequer tinha uma boa resposta. Mesmo se fosse o caso, “roubar” Eric não estava em seus planos, não somente porque achava Kyle um cara legal, mas porque percebeu que, para ele, Eric era mais tóxico do que qualquer outra coisa. A coisa simplesmente não funcionaria e, de mais a mais, gostava de pensar que já havia superado aquilo. Ele massageou as têmporas quando percebia que seu cérebro dava voltas e ele tentava retomar o controle de seus próprios instintos, mas a única coisa que conseguia era fechar os olhos e sorrir para si mesmo.

— Butters? — Ele olhou distraído para a voz conhecida de um Kenny McCormick olhando estranho para ele. — Está chapado?

— E de que outra maneira eu aguentaria essa festa ridícula? — Ele dizia rindo, não achava graça, mas o efeito alucinógeno era mais forte do que ele. Ele realmente ria com vontade, tanto que fez até Kenny sorrir achando engraçado o jeito trágico do outro de lidar com as coisas.

— O que foi? Quer conversar? — Kenny sentou-se na grama no mesmo lugar antes ocupado por Damien.

O loiro direcionou os olhos para Kenny e sorriu calmo para ele. Como era possível que um cara como Kenny, que passava por tanta merda, ainda era capaz de sentar e perguntar pra outra pessoa qual era o problema e realmente querer saber a resposta. Lembrava-se da viagem ao Havaí que tinha feito com ele, para conhecer as origens de sua família, de como teve mais certeza ao passar dos anos que se tinha alguém que merecia sua confiança, era aquele garoto fantasiado de Mysterion bem à sua frente.

If you fuck me over
(Se você foder comigo)
Cause if I get burnt, I'ma show you what it's like to hurt
(Porque se eu me queimar, te mostrarei como é machucar)
Cause I been treated like dirt before ya
(Fui tratado feito lixo antes de você)
And love is evil
(E o amor é maldoso)
Spell it backwards I'll show ya
(Soletre ao contrário e eu mostro a você)

— Que sair comigo, Kenny? — Ele perguntou depois de um longo silêncio e de perceber um loiro confuso olhando pra ele e, agora, mais confuso ainda.

— Sair com você? Claro... — Kenny respondeu incerto. — Como assim?

— Sair. — Butters respondeu olhando ao redor, como se pudesse ver coisas que o outro não conseguiria. — Nós dois.

— Está dando em cima de mim, Butters? — Kenny disse rindo tirando a máscara preta dos olhos e jogando o capuz para trás.

— Estou. — Butters respondeu rindo com a maior naturalidade que conseguia. Até porque estava chapado demais para perceber qualquer coisa. — Que bom que entendeu!

Kenny riu com vontade, não sabia se era sério ou se Butters só estava na maior viagem de todos os tempos. Achou graça no jeito dele de rir de coisa nenhuma e, se não fosse tão careta, até pediria a ele pra fumar também. Resolveu que não levaria aquilo a sério, o loiro provavelmente se desculparia no dia seguinte.

— Não sei o que dizer. — Kenny disse tímido, mas ainda achando graça. Mal terminou a frase e Butters sentou-se mais próximo do outro.

— Você é um cara legal, Kenny. — Ele começou olhando o outro de perto, como se o analisasse da mesma forma que fazia com os livros de literatura americana que gostava de ler. — E acho seu Mysterion extremamente apropriado.

Ele passou a língua pelos lábios olhando os de Kenny. Ele tinha os olhos quase fechados, mas não estava mais tão sonolento. Sabia que o efeito não duraria muito mas não estava pensando naquilo. Ele direcionou o olhar para os azul profundo dos olhos do estudante de psicologia e não entendia bem porque, mas tinha acabado de perceber que, a noite, seus olhos ficavam mais escuros do que o normal.

— Você sempre se importa com as pessoas e você é inteligente pra caralho. — Butters dizia sem tirar os olhos de um Kenny um pouco confuso e sem saber direito como se comportar. — Te acho bonito quando está de óculos lendo livros sobre como analisar pessoas. Já passou por uma auto-análise?

Nobody knows me, I'm cold
(Ninguém me conhece, sou frio)
Walk down this road all alone
(Ando nessa rua sozinho)
It's no one's fault but my own
(Não é culpa de ninguém, mas minha mesmo)
It's the path I've chosen to go
(É o caminho que escolhi traçar)

— Butters, eu acho que você precisa ir pra casa. — Foram as palavras de Kenny ao perceber que o outro estava realmente drogado.

Butters se afastou inclinando-se para trás na grama. Respirou fundo aquele ar úmido e olhou para o céu, fechando os olhos em seguida. O efeito estava passando e ele detestava aquela parte. Era como se seu cérebro usasse toda serotonina de uma vez e não tivesse sobrado mais nenhuma para lhe deixar feliz.

— Estou com fome. — Ele disse levantando-se de onde estava. Segurou seu capacete prateado com uma das mãos e arrumou as botas.

— Eu vou com você. — Kenny disse, levantando-se também.

— Não. — Butters respondeu sem olhar para o outro. Pôs o resto de sua fantasia de volta, incluindo as luvas. — Seus amigos logo vão vir atrás de você, acho que deve voltar pra festa.

— Você é meu amigo também, Butters. — Kenny disse naquele típico jeito carinhoso, quase infantil. — Estou vendo que não está bem.

— Estou bem. — O outro insistiu, num tom de voz que afastou qualquer possibilidade de Kenny insistir. — Te vejo por aí.

Já passava das três horas da manhã quando Kenny, confuso, apenas assistiu o outro andar devagar até seu dormitório. Era engraçado ver ele daquele jeito, todo vestido de Professor Chaos, com a capa esvoaçando conforme ele andava. Kenny achou que ele definitivamente tinha a fantasia mais legal.

Frozen as snow, I show no emotion whatsoever so
(Gelado como a neve, não mostro emoção nenhuma)
Don't ask me why
(Não me pergunte o porquê)
I have no love for these mufuckin' hoes
(Não sinto amor por essa putas baratas)

x.x.x

Quando a maioria das pessoas tinha ido embora, por volta das cinco da manhã, num canto da sala, sozinho, vestido de príncipe vitoriano, Pip bebia mais um gole de sua bebida enquanto assistia Clyde falar, como fez a noite toda, com seus amigos sobre jogos, lugares que foi e coisas que comprou. Tirou fotos com algumas garotas e, definitivamente, era daquilo que Pip tinha “medo” quando decidiram voltar juntos para South Park. Ele largou o copo num canto da sala e deixou o local. Decidiu que iria pra casa, não se daria nem ao trabalho de avisar Clyde, o jogador provavelmente demoraria para dar falta dele.

Levou cerca de vinte minutos para chegar a seu dormitório, devido a distância e a calma com que escolheu caminhar. Quando chegou, estranhou a porta estar destrancada, pensou que pudesse ter esquecido de fechar, mas parou imediatamente antes de entrar ao ver uma figura sentada na pequena sala que tinha em seu dormitório. O cheiro de cigarro infestava o lugar e, pela marca barata, é claro que só poderia ser Damien.

— Como entrou aqui? — Pip perguntou fechando a porta atrás de si, receoso. — Arrombou a fechadura?

— Essas fechaduras baratas de universidade... — Damien levantou-se de onde estava andando calmamente na direção de Pip. — E você sabe que eu sei fazer isso.

— Damien, por favor... Me deixe em paz. — Pip disse com uma voz cansada. Não estava nem com medo, estava realmente cansado. Justamente quando achou que sua vida havia se assentado e ele poderia ter um pouco de paz em sua juventude, outro pesadelo começava.

— Só estou aqui para me desculpar. — Damien disse apagando o cigarro dentro de um copo de água em cima da pequena mesa do cômodo. Pip franziu o cenho. — O primeiro dia que nos vimos, eu sei que o assustei. Peço desculpas. — Apesar dele manter a feição de alguém que não tinha nenhum tipo de emoção quando se desculpava, ele olhava fixo nos olhos de Pip. — Estava um pouco drogado e sem saber direito por onde começar com você.

— Certo... — Pip disse praticamente perguntando. Estava confuso e desconfiado daquela atitude tão altruísta de Damien, que não se parecia nada com aquele que tinha ameaçado matar todo mundo.

— Sei que tenho problemas. Muitos deles. — Damien tinha quase orgulho de dizer aquilo. — Mas eles não mudam o meus sentimentos por você. Sei que o que houve na noite em que fui preso pode ter sido pesado pra você, mas precisa acreditar em mim. — Ele fez uma pausa e já estava a menos de um palmo de distância de Phillip. — Eu não tive a intenção de matar ninguém aquela noite.

Pip respirou fundo, não queria nem em pensamento voltar àquele momento. Quando os policiais levaram Damien, ele sentiu como se um pedaço dele estivesse sendo arrancado.

— Eu também sei o que as pessoas dizem sobre mim, sei que elas não me acham bom o suficiente pra ficar com você e talvez eu nem seja mesmo. — Damien falava com uma tranquilidade que Pip jamais havia visto antes. — Mas apesar de eu demonstrar desse jeito estranho, psicótico e não-convencional, eu amo você, Phillip. E se estou aqui agora dizendo isso é porque o único motivo de eu ter me comportado bem na prisão foi pra poder voltar e dizer isso a você.

— Damien... — Pip estava tão abalado com tudo, com o descaso de Clyde, com as palavras de Damien à sua frente, com as lembranças mistas de passado e presente, que sentia os olhos pesados e sua visão estava ficando turva pelas lágrimas que começavam a se formar.

— Então não, eu não vou te deixar em paz. — O moreno alto continuou, limpando uma das lágrimas teimosas que escorreram pelo rosto do loiro. Um toque bem diferente de quando Damien o segurou pelo rosto há alguns dias atrás. — Eu sei dessa besteira toda que dizem sobre “amar e deixar livre”, isso não vai acontecer. Eu não vou a lugar nenhum.

Bloodsuckin succubus, what the fuck is up with this
(Interesseiras pra caralho, que porra elas têm de errado?)
I've tried in this department
(Tentei entrar nesse departamento)
But I ain't had no luck with this
(Mas não tenho sorte com isso)
It sucks but it's exactly what I thought it would be
(É uma merda, mas é bem como eu pensava que seria)
Like tryin' to start over
(Como tentar começar de novo)

Um estrondo tirou os dois daquele momento e os fez voltar a realidade. Um Clyde gigantesco acabava de entrar pela porta, fechou a cara ao ver Damien e puxou Phillip para perto, quase o colocando atrás de si, como se quisesse protegê-lo.

— E aí, Clyde. — Damen obviamente tinha um tom debochado. Sorriu a ver o jogador, um sorriso que fez Clyde pensar que teria pesadelos com aquilo. Um sorriso assustador, prepotente, amarelo, ligeiramente torto, mas que ao mesmo tempo fazia com que ele não conseguisse olhar para outra coisa. A forma como Damien sorria era hipnotizante, doentia e estranha. Chamava a atenção porque o moreno alto quase nunca sorria.

Ele fez menção de ir pra cima de Damien, tinha ficado com uma raiva absurda de vê-lo ali, sentia-se intimidado mesmo tendo o dobro do tamanho de Damien — embora ambos tivessem a mesma altura. Ele apenas mudou de ideia em relação a socar o moreno sorridente a sua frente quando Damien parou de sorrir e mostrou o soco-inglês que tinha na mão direita. Não era apenas um pedaço de metal entrelaçado nos dedos de Damien, mas tinha espinhos nas pontas e certamente faria um estrago grande.

— O que foi? Achou que eu não previ que isso aconteceria? — Damien voltou a ficar sério apertando o soco-inglês nas mãos. Estava morrendo de vontade de usá-lo, mas não o faria na frente de Pip.

— Se você não for embora, vou chamar a polícia. — Clyde ameaçou tirando o celular do bolso traseiro. — Acho que eles não vão gostar de saber que você, em liberdade condicional, anda com armas por aí.

— Cala a boca, Clyde, sua bicha fresca. — Damien disse despreocupado. — Não vou quebrar sua cara de perdedor, você nunca foi um cara muito esperto mesmo. — Damien disse já andando em direção à porta. — Além disso, já falei o que eu queria. — Ele agora encarou Pip nos olhos, que estava mais com medo de Clyde do que dele. — Lembra do que eu falei. — Ele disse olhando para Pip. — E Clyde... — Damien deu uma boa olhada pra ele dos pés a cabeça antes de fechar a porta atrás de si. — Você está fantasiado de quê afinal de contas? Fada? — Damien, rindo, fechou a porta enquanto Clyde arrancava com raiva as asas de Mosquito.

Pip estava extremamente desconfortável e ainda estava num canto de seu próprio dormitório acuado, como se fosse um cãozinho maltratado.

— O que deu em você? — Clyde perguntou, ainda bravo. — Por que saiu sem me avisar e porque Damien estava aqui dentro do seu dormitório? Convidou ele pra entrar? — Clyde olhou com nojo para o cigarro apagado boiando na água em cima da mesa. — Esse cara é nojento demais.

— Eu estou cansado. — Pip respondeu passando as mãos pelo rosto, sentia os olhos úmidos ainda. — Será que podemos conversar amanhã?

— Não! — Clyde gritou. — Absolutamente não!

— Não grite comigo. — Pip pediu da maneira mais educada que conseguia. Era daquelas raras vezes que ele conseguia se impor. Era até estranho, fez Clyde ponderar o tom de voz como mágica.

— Desculpe. — O jogador disse respirando fundo. — O que houve?

Pip fechou os olhos e realmente a última coisa que queria era falar sobre aquilo. Damien definitivamente tinha entrado em sua cabeça, ainda sentia o toque frio das mãos dele em seu rosto, seu hálito de cigarro, seu cheiro, seus cabelos bagunçados incrivelmente negros contrastando com seus olhos.

— Você estava ocupado com os rapazes, as fotos e as meninas... — Pip gesticulava com as mãos, sem muito interesse naquela conversa. — Estava cansado, não conseguia falar com você, apenas decidi vir dormir e, quando cheguei, Damien estava aqui.

— Phillip... — Clyde estava inconformado ao ouvir aquilo, mas ele não tinha um bom argumento. — Devia ter me chamado, me desculpe... Foi uma noite agitada. — Ele concluiu e Phillip arqueou as sobrancelhas murmurando algo como “novidade”. — Me perdoe, falo sério.

— Está tudo bem, Clyde. — O loiro disse começando a se despir. Aquela roupa o estava deixando claustrofóbico. — Eu preciso descansar.

— Phillip, Damien estava aqui dentro do seu dormitório quando você chegou? Como ele entrou aqui? — Clyde seguia Pip em todos os cantos do pequeno dormitório. Ele entrava no quarto colocando as roupas cuidadosamente em cima de uma cadeira.

— É de Damien que estamos falando, acha que uma fechadura é problema pra ele? — Pip disse como se aquilo fosse óbvio.

— Como ele sabe onde é seu dormitório? Pip, você está em perigo. — Clyde estava genuinamente preocupado.

— Claro que não. — Phillip quase riu, depois do que tinha ouvido de Damien antes de Clyde chegar, teve certeza que nada aconteceria com ele. — E é claro que ele sabe onde é meu dormitório, se perguntar a ele, é capaz até dele saber meus horários de aula.

— E por que é que você está com esse tom despreocupado? — Clyde estava pasmo. — Sabe que o cara é um perseguidor maluco que sabe tudo a seu respeito! E não está sequer assustado?

I gotta hole in my heart
(Tenho um buraco em meu coração)
I'm some kind of emotional roller-coaster
(Sou uma espécie de montanha-russa de emoções)
Somethin' I won't go on
(Algo que não continuarei)
'Til you toy with my emotion so it's over
(Até que brinque com meus sentimentos, aí acabou)

Phillip agora estava só de boxer preta, bateu a porta de seu próprio guarda-roupas com uma força desnecessária. Franziu o cenho e olhou para Clyde de um jeito que ele jamais havia visto Pip olhar. Ele andou na direção de Clyde e, apesar de ser o sujeito mais calmo, paciente e compreensivo da face da terra, até ele tinha um limite. Ele andou até a sala de volta e Clyde o seguiu, ficou parado de braços cruzados em frente ao namorado.

— Qual era minha fantasia hoje a noite? — Pip perguntou com um tom de voz quase irreconhecível.

Clyde parou de respirar por um segundo. Ele se deu conta de que não fazia a menor ideia do que o namorado tinha vestido e sentia-se extremamente mal por aquilo.

— Sabe qual o motivo de você não saber? Estava mais preocupado com seus amigos, seu grupinho de Coon and Friends e aquela merda toda. — Pip realmente estava deixando seu cansaço e sua frustração falar mais alto que sua postura britânica geralmente impecável. Simplesmente sentia que Clyde merecia aquilo. — Amigos seus que sequer se deram ao trabalho de telefonar durante esse ano todo que você esteve em Denver. Amigos esses que não sabem nem da metade do que você passou durante toda sua primeira temporada de NFL. — Pip dizia em tom acusatório. — Sabe quem é que estava lá em todas as suas lesões? Em todos os jogos que os Broncos perderam? Quem ainda nem era seu namorado e ainda assim estava lá, alguém que ainda que você não tenha dado a mínima quando éramos crianças, estava lá por você? E você tem coragem de falar sobre a “perseguição” de Damien? Que tal olhar mais pra porra do seu rabo e corrigir o seu descaso comigo ao invés de se preocupar com o que Damien faz ou deixa de fazer?

Clyde estava com a boca ligeiramente aberta, seu queixo estava literalmente caído. Ele só fechou quando percebeu que tinha que dizer alguma coisa e não sabia nem por onde começar. Ele não sabia se estava mais surpreso por ouvir tudo aquilo ou se estava certo de que aquele falando era mesmo Phillip.

— Me desculpe, Pip. — Ele disse por fim com uma voz baixa. — Eu não fazia ideia que estava sendo o pior namorado do mundo. — Ele tentou se aproximar, mas Pip deixou claro o quão inacessível estava.

— Preciso descansar, por favor, vá embora. — Ele disse sem ter coragem agora de encarar Clyde. Meio que tinha se dado conta de que cuspiu as palavras na cara dele de uma vez e, como era de sua própria natureza, sentiu-se mal por tê-lo machucado por mais que tivesse razão. Mas agora ele não tinha como voltar atrás.

Clyde titubeou procurando os olhos do outro mas agora sabia que realmente tinha pisado feio na bola e não conseguia se perdoar. Mordeu o interior da bochecha como sempre fazia quando estava nervoso e andou devagar até a porta, na esperança de que Phillip voltasse atrás e pedisse pra que ele ficasse, mas o loiro não o fez, embora parte dele quisesse. Quando Clyde fechou a porta mostrando que realmente tinha ido embora, Pip caiu literalmente no choro, ficando de joelhos na sala onde estava, como se não conseguisse mais sequer suportar o próprio peso.

Let's cut to the chase
(Vamos direto ao ponto)
But a door shuts in your face
(Mas uma porta se fecha na sua cara)
Promise me if I cave in and break
(Prometa que se eu ceder e chorar)
And leave myself open
(E me abrir pra você)
That I won't be makin' a mistake
(Não estarei cometendo um erro)