Ten Years Later
5 I'll kill you both
CAPÍTULO V
I kill you both
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South Park College, faculdade de História da Arte
Phillip Pirrut saía de sala de aula com pressa, já tinha recebido duas mensagens de Clyde perguntando onde ele estava, avisando que estava reunido com os velhos amigos em frente ao seu prédio da Faculdade de Educação Física. Não era o prédio mais perto, mas Pip segurava os livros na mão, não tinha mochila e andava com pressa pelo corredor vazio perto do auditório.
Estava distraído quase alcançando a porta quando foi abruptamente interrompido. Tinha uma mão fria cobrindo sua boca e um braço forte circundando sua cintura. Não que fosse muito difícil atacá-lo daquela forma. Pip, além das feições andróginas, era magro e alto, qualquer um poderia segurá-lo daquela maneira e arrastá-lo pra onde quisesse. Ele derrubou todos os livros no chão.
Queria gritar, seus olhos estavam arregalados de pavor. Não conseguia ver quem era, foi tudo tão rápido que quando percebeu estava dentro do auditório escuro, tão vazio que dava um eco assustador. Tinha apenas um refletor de luz no palco iluminando precariamente o local. Sua respiração acelerou e ele sentiu um corpo bem maior que o seu segurá-lo ainda com mais força, todos os seus sentido estavam aguçados e ele pode jurar que a pessoa que o estava agarrando estava cheirando seu cabelo antes de sussurrar em seu ouvido.
— Fica quieto, pare de se debater. — Aquela voz rouca, macabra, era extremamente conhecida.
Ele ficou estático imediatamente. Na verdade, não foi pela ordem, mas estava paralisado de medo. Olhando a sombra dos dois na parede, o formato e o tamanho dos braços, não teve dúvida que aquele era Damien Thorn. O maníaco, psicótico e completamente desequilibrado Damien Thorn.
— Isso, se acalma. — Ele continuava enquanto Pip apenas podia escutar seu coração bater tão rápido que ele realmente achou que entraria em colapso, mas não se mexeu. Aos poucos Damien o soltava, mas permanecia por perto como se ainda achasse que Phillip poderia sair correndo.
Conforme Damien ficava de frente para o loiro britânico, Pip podia ver o quanto ele tinha envelhecido. Os cabelos enegrecidos continuavam ali, o olhar frio e controlador também. Ele encarava Phillip e, de repente sorriu de uma maneira tão maníaca, que Pip poderia jurar que, com alguma maquiagem, seria possível se imaginar frente a frente com o Coringa.
— Eu pensei que você estivesse... — Phillip começou, mas foi imediatamente interrompido.
— Eu saí. — Damien respondeu abruptamente. Phillip não tinha mais nem coragem de perguntar como, nem quando e nem porque alguém em sã consciência deixaria Damien Thorn sair da cadeia. — Senti sua falta. — Ele chegou ainda mais perto de Pip e acariciou seu rosto. Phillip fechou os olhos, apavorado. — Do seu cheiro, da sua voz... — Ele continuava cada vez mais perto e agora cheirava a pele do loiro alto, como se Phillip fosse algum tipo de propriedade dele. Chegou perto do ouvido do loiro, Pip controlava a própria respiração, não queria nem se mover muito, sentia-se amarrado a uma bomba. E provavelmente ele estava.
— Damien... — Ele começou devagar. Testando se realmente poderia falar ou não. Fez uma pausa após dizer o nome do outro pra ver se Damien o interrompia, mas nada aconteceu. Foi a deixa para ele continuar com todo o cuidado. — Estou feliz que está bem e está aqui. — Mentiu o loiro alto. Damien talvez dentro da sua psicose acreditasse naquilo. — Mas eu preciso ir agora...
— Eu sei que precisa. — Damien agora tinha uma das mãos no frágil pescoço de Pip. Passeava pela nuca dele e, com a outra mão, o puxava para perto, colando seus corpos. — Sei quem está te esperando. — Ele disse agora entre os dentes, com raiva. Puxou os cabelos de Pip com força pela nuca, fazendo a cabeça dele mover-se de leve para trás.
— Damien, por favor...
— Eu gosto muito quando diz o meu nome assim... — Damien agora quase ria, enrolando os cabelos ligeiramente longos de Phillip entre seus dedos e encostando sua boca na orelha dele. — Morrendo de medo.
Phillip tinha quase certeza que Damien o mataria e colocaria fogo em seu corpo. Nunca mais ninguém o encontraria e, só de pensar naquilo com seriedade, ele já estava suando frio e tentando lembrar todas as orações que conseguia pedindo a todos os santos que Damien simplesmente o deixasse ir embora dali.
— Então vou explicar como isso vai ser. — O moreno alto, de pele extremamente branca e olhos assustadores continuou dizendo tranquilamente. Aos poucos se afastou, largando de Phillip, tirando suas mãos de cima dele, mas ficando a poucos centímetros de distância. Era o suficiente para fazer o britânico voltar a respirar e sentir o cheiro de cigarro barato no moreno alto. — Primeiro, você vai terminar com aquele viadinho escroto do Clyde. Segundo, vai me encontrar amanhã a noite na Floresta Perdida, às onze horas.
— Por favor, Damien...
— Cala essa sua boca que eu ainda não terminei de falar, seu filho de uma puta. — Ele rangeu os dentes pra falar e voltou a tocar nele, segurando Pip pelo queixo com tanta força que Phillip teve certeza que, se Damien quisesse, podia facilmente deslocar seu maxilar usando apenas uma das mãos. — Você tem três opções aqui: se não terminar com ele, eu vou matar vocês dois. Se não aparecer amanhã, eu vou matar vocês dois. E, se chamar a polícia... — Ele fez uma pausa e Phillip sentiu um calafrio de pavor correr por sua espinha. — Estupro ele na sua frente e... — Damien sorriu como se estivesse se divertindo. — Depois mato vocês dois. Você me entendeu... Phillip? — Ele disse o nome de Pip num sussurro assustador, e em seguida sorriu.
— Sim. — Phillip respondeu quase que imediatamente, balbuciando com dificuldade pois mal conseguia falar com o outro segurando-o daquele jeito.
— Eu não vou reforçar o quanto falo sério, você sabe melhor que qualquer um nesse lixo de cidade que eu não faço ameaças que não cumpro. — Sua voz era tão calma que Phillip se assustava mais com a naturalidade com a qual ele falava aquilo do que temia pela própria vida. Damien Thorn era, sem nenhuma dúvida, um homem perigoso. Ele soltou o loiro e agora o encarava com uma serenidade que fazia parecer que ele nem tinha acabado de ameaçar tirar a vida dele e de seu namorado.
Damien deu dois passos para trás e deixou Phillip livre. O moreno alto tirou a carteira de cigarros do bolso e Phillip sequer cogitou a possibilidade de dizer a ele que não era permitido fumar ali. Pip não sabia se poderia sair dali ou não, estava ainda com muito medo de se mexer.
— Hoje a noite. — Damien reforçou, mas dessa vez fez soar como se fosse um encontro. Ele deu uma tragada no cigarro, soltou a fumaça e, para a surpresa total de Phillip, Damien juntou seus lábios nos dele num selinho demorado. Pip o beijou de volta, numa pura e instintiva reação automática e movida pelo pavor que estava sentindo naquele momento. Damien então sorriu mostrando todos os dentes, amarelados pelo cigarro e, com pressa, deixou o auditório.
Phillip finalmente relaxou o corpo e sentiu o ar nos pulmões entrarem completamente e saírem num suspiro aliviado. Ele sentou-se em uma das cadeiras do auditório tentando se recuperar do que tinha acabado de acontecer. Ele fechou os olhos mais de uma vez esperando que, quando os abrisse, tudo teria sido apenas um sonho.
Mas não. Todas as vezes em que abriu os olhos, continuava ali, na penumbra do auditório sem saber direito o que fazer e nem por onde começar.
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Clyde andava pelos corredores numa velocidade anormal em busca do auditório. Tinha recebido uma mensagem urgente de Phillip e, como não o tinha visto depois das aulas, estava mesmo preocupado. Era a primeira vez que tinha recebido notícias dele o dia inteiro. Entrou pela porta e avistou um Phillip nervoso, andando de um lado para outro. Agora o loiro parecia ter finalmente entendido o que tinha acontecido há alguns minutos antes, bem antes dele ter coragem de falar com Clyde. Phillip parecia preocupado, mas não estava mais com medo, agora parecia se esforçar para pensar em uma solução pra aquilo.
Clyde veio ao seu encontro e eles deram um beijo rápido e então se abraçaram. Clyde estava de fato preocupado agora, pois a forma como Pip o apertava naquele abraço era algo que certamente indicava que algo estava errado.
— Ei, o que está fazendo aqui? — Clyde perguntou assim que o loiro soltou-se dele. — E por que este lugar está com cheiro de cigarro? — Ele estranhou. — O que houve, Pip?
— Eu preciso falar com você, mas tem que me prometer que vai manter o controle. — Phillip tinha um raro tom extremamente sério, deixando de lado completamente aquela expressão sensível, ingênua e quase infantil que ele naturalmente sustentava em seus dias normais.
— Phillip, o que está acontecendo? — Clyde estava realmente muito preocupado agora e extremamente curioso.
— Damien está aqui. — Ele disse e viu o rosto de Clyde perder a cor. — E ele veio atrás de mim.
— Como assim? — Clyde mal podia acreditar naquilo. — Damien foi condenado por assassinar o Sr. McPherson. Pelo que eu saiba, a sentença dele envolvia o corredor da morte.
— Não. — Phillip respondeu respirando fundo. — Os advogados dele alegaram morte acidental, sem intenção. Li na internet. — O loiro respirou fundo a Clyde ainda mantinha a expressão incrédula.
— Com ou sem intenção, o Sr. McPherson está morto, Damien queimou a casa dele por causa de uma nota baixa! — Clyde estava começando a se exaltar, ignorando os pedidos de Phillip para que se acalmasse. — Isso sem falar que muito antes disso, ele já tinha começado a traficar na época da escola.
— Clyde, eu sei, eu estava lá, ok? — Phillip disse com um ar arrependido antes de continuar. — Você sabe do meu problema com drogas no ensino médio.
— E lembro muito bem também do seu relacionamento nada saudável com aquele psicopata. — Clyde quase gritou e Phillip baixou os olhos, sentido. Ficou triste ao ouvir aquilo, ao lembrar da adolescência difícil ao lado de Damien. — Me desculpe, Pip... — Clyde na mesma hora que viu a cara de cãozinho abandonado de Phillip, sentiu-se o pior ser humano da terra. — Me perdoe, eu não quis dizer isso.
— Está tudo bem, é verdade. — Phillip dizia agora sentindo uma culpa absurda. — Ele nos ameaçou.
— Phillip... — Clyde chegou mais perto segurando gentilmente o rosto de Pip com as mãos. — Precisamos ir à polícia.
— Essa sequer é uma opção, Clyde. — Pip dizia sério, decidido. — Nunca vou arriscar sua vida desse jeito. Nós vamos fazer o que o Damien quer.
— E o que ele quer, Phillip? — Clyde tinha agora uma mistura de raiva, indignação, medo e não sabia nem por onde começar a resolver aquilo.
— Ele quer que eu termine com você ou vai nos matar. — Phillip disse experimentando novamente o horror que foi ouvir as palavras de Damien. — E quer me encontrar amanhã à noite.
— Pois você não vai fazer nem uma coisa e nem outra. — Clyde não estava surpreso quando ao fato de que Damien exigia o fim do namoro. — Nós vamos ficar juntos, Pip, e você não vai encontrar com ele nunca mais. Nós vamos chamar a polícia. — Clyde sequer cogitava as opções de Phillip.
— Você não o conhece, Clyde. — Phillip estava tão sério que nem de longe lembrava aquele garoto meigo e doce que estudava História da Arte, citava Samuel Taylor Coleridge e interpretava um Romeu sem igual nas peças de teatro da escola que homenageavam Shakespeare. Phillip naquele momento, era um homem preocupado mais em proteger do que ser protegido e Clyde certamente percebeu isso. — Eu conheço Damien melhor que qualquer pessoa nessa cidade. Vi ele dizer e fazer coisas que ninguém sabe. Nem você, Clyde.
— Pip, eu só estou preocupado com você e pedindo que seja sensato. Não temos escolha. — Clyde agora tentou ser racional e respeitar o fato de que Pip realmente sabia melhor do que estava falando do que o próprio jogador.
— Se ele falou, ele vai cumprir. — Pip dizia sem titubear, não tinha a menor dúvida que Damien transformaria em realidade cada palavra que saiu de sua boca. — Precisamos de um plano, precisamos fazer alguma coisa, mas vamos sem a polícia.
Apesar de Clyde não concordar nenhum pouco com aquilo, parecia que ele não teria outra escolha porque Phillip agora parecia determinado, decidido. E nada o faria mudar de ideia. Nada o amedrontava mais do que Damien Thorn. Clyde sabia que, no fundo, dessa vez era diferente porque não se tratava mais somente dele, agora o próprio jogador estava envolvido e podia sentir que a maior preocupação de Pip era aquela: ele não estava mais sozinho, não precisava mais simplesmente fazer as vontades de Damien para se proteger: agora ele tinha Clyde e, para aquele loiro britânico, nada gritava mais alto do que culpa e responsabilidade naquele momento.
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Os dois seguiram caminhos diferentes naquele dia. Clyde foi para o ginásio da faculdade de Educação Física e Phillip foi para o prédio da faculdade de Engenharia Química e Nuclear.
Craig não tinha aula mas estava no laboratório estudando e fazendo o que mais gostava: experimentos e explosões de materiais. Se tinha coisa que aquele garoto gostava era daquela frase “e se eu colocasse isso aqui?”. Não era uma boa ideia deixá-lo sozinho com elementos químicos.
— Não se aproxime. — Ele disse ao ver Pip na porta do laboratório pronto para entrar. Craig vestia um jaleco branco, luvas e uma máscara para proteger os olhos. Em sua frente, vários cilindros borbulhando, fumaça branca saindo de um deles e um líquido azul, viscoso. Pip não sabia o que era nada daquilo, mas parecia ser um experimento que havia dado errado.
Antes que ele pudesse prestar mais atenção no que estava acontecendo, um mar de espuma saía de uma tigela de vidro grande arrancando um sorriso de Craig. Era muita espuma, mas durou pouco. Logo tudo aquilo se evaporou.
— Pois não? — Craig perguntou limpando as mãos, desinteressado na presença do outro. Pip não deixou de se maravilhar um pouco com aquilo. Foi interessante.
— O que foi isso? — Agora ele se aproximou curioso.
— A explicação é longa e você não entenderia. — Craig respondeu um pouco sem paciência. Não era grosseria, era provavelmente verdade. — E você certamente não está aqui pra isso.
— Não, não estou. — Era como se a realidade voltasse a atingir Pip. — Preciso da sua ajuda.
— O que foi? Brigou com Clyde? — Craig sorriu malicioso enquanto tirava os óculos e as luvas. Phillip suspirou, não estava nem mais preocupado em esconder. Mas por um segundo pensou que Craig era realmente um cara esperto por ter percebido. — E nem tente negar, não estou com tempo pra isso.
— Não, é outra coisa. — Phillip disse coçando a cabeça de maneira nervosa. Craig não respondeu, já estava até entediado. Sentou-se em sua bancada e apenas olhou Pip com certa atenção. A verdade é que ele o achava o ser humano mais entediante do mundo e não conseguia pensar em nada que ele poderia dizer que, na visão de Craig, poderia classificar como interessante. — Damien está de volta.
E Craig pensou que não poderia estar mais errado. Isso sim é que era algo extremamente interessante. Arqueou as sobrancelhas surpreso.
— Tem certeza que era ele? — O talentoso estudante de química demonstrou uma ligeira preocupação ao lembrar de toda a história de Damien e Pip. — Você está bem? — Não que ele demonstrasse, mas era perceptível que tinha ficado preocupado.
— Estou. — Pip recomeçou depois de respirar fundo. — E as mãos dele em cima de mim há algumas horas me fazem ter sim absoluta certeza que era ele.
— Ele te ameaçou?
— A mim e ao Clyde. — Pip respondeu e Craig não estava surpreso que Damien sabia sobre Clyde. Além de frio, calculista e perigoso, Damien era um dos homens mais inteligentes que Craig conhecia.
— O que posso fazer por você, Pip? — Craig disse com ares de que realmente queria ajudar. Coisa rara, pois o garoto não gostava de se intrometer nos problemas dos outros. Mas, como bem já estava acostumado, todos vinham a ele. Phillip olhou pra ele agradecido antes de começar a contar o que havia acontecido.
Craig nunca teve problemas com Damien, mas sabia que ele não era boa coisa desde que tinha chegado a escola. Era um garoto problemático, tinha certeza hoje em dia da psicopatia do moreno alto, que havia colocado fogo na casa do seu professor quando tinha 17 anos, por causa de uma nota baixa em matemática.
Damien foi preso e julgado como adulto. Disse que não tinha a intenção de matar o professor, queria apenas destruir sua casa. Pensou que ele não estava em casa na hora em que incendiou o local. Parecia completamente normal no tribunal, não sentia culpa, não tinha remorso algum e sequer fez algum esforço para demonstrar uma coisa ou outra. A promotoria chegou a pedir a pena de morte para ele, mas o juiz – por acreditar que o rapaz era muito jovem e por não ter se tratado de um homicídio culposo – decidiu que ele apenas seria preso e faria acompanhamento psicológico. Damien vinha de uma família rica e seu pai custeou um bom advogado que, com muito trabalho, conseguiu que ele tivesse direito a liberdade condicional.
Isso tinha sido há somente três anos atrás.
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Clyde mal conseguiu dormir a noite. Acordou, fez um café forte e decidiu não acordar Pip, que havia pegado no sono quando já era de manhã.
Passava das dez horas e ele resolveu sair do dormitório a fim de seguir com o plano de fazer Damien pensar que de fato eles tinham terminado. O jogador andava pelo campus em busca do refeitório, não comia nada desde o almoço do dia anterior e isso não era saudável especialmente para quem vivia do esporte e precisava de seu corpo para trabalhar.
Entrou no refeitório central e pediu um sanduíche. Não sentou para comer, saiu com pressa enquanto mastigava e pensou que poderia ir para a academia da faculdade — nada melhor do que malhar para colocar os pensamentos em dia e ter alguma ideia.
Quando estava saindo, encontrou um garoto loiro conhecido, que usava óculos e parecia fascinado com um livro sobre psicanálise. Ele vestia um casaco não muito pesado e luvas bem gastas. Com uma mão segurava o livro e com a outra comia uma maçã. Estava andando até o prédio de psicologia.
— Ei, Kenny. — Ele chamou pelo amigo, cumprimentando-o.
— Oi, Clyde. — Kenny respondeu simpático, andaram lado a lado enquanto conversavam.
— Posso fazer uma pergunta estranha? — O jogador disse enquanto Kenny guardava o livro na mochila a fim de dar atenção à conversa do amigo.
— Claro, essas são sempre as melhores perguntas. — Ele brincou tirando os óculos sorrindo. Só os usava quando precisava ler.
— Se precisasse de alguém pra fazer um “serviço sujo”, quem chamaria? — Clyde não quis entregar muito quando perguntou. Fingia um tom de brincadeira, curiosidade. Kenny gargalhou.
— Está brincando, não é? — O loiro mais baixo que ele sequer precisou pensar na resposta. — Cartman, óbvio.
— Óbvio. — Repetiu Clyde, sentindo-se idiota por não ter pensado naquilo antes. — Não inventaram nada ainda que ele não consiga distorcer.
— É, aquele gordo egoísta. — Kenny disse sem ser ofensivo, foi mais num tom desinteressado em falar de Cartman mesmo. — Se envolver grana, adrenalina e, de alguma forma ele ter algum tipo de satisfação pessoal... Pode acreditar, vai convencê-lo de qualquer coisa. — Kenny dizia sorrindo, convicto. — Mas por que a pergunta?
— Nada, só curiosidade. — Mentiu o jogador com um meio sorriso.
— A não ser que talvez envolva Kyle... — Kenny continuou, de repente para ele, aquela conversa ficou interessante. Para um futuro psicólogo, parecia que realmente Cartman era um estudo de caso. — Porque se o Kyle estiver envolvido, acho que Cartman fica meio imprevisível...
— É mesmo? — Clyde estava surpreso com aquela observação.
— É, ele é louco pelo Kyle. — Kenny disse como se fosse a coisa mais óbvia. — Qualquer um vê isso.
Clyde nunca tinha parado pra pensar mas aquilo fazia muito sentido. Ele riu para si mesmo até pensou em mencionar para Kenny seu relacionamento com Pip. Kenny era extremamente confiável, leal e não julgava ninguém. Mas talvez aquele assunto ficasse para outra hora, realmente ele ficou empolgado para falar com Eric Cartman. Se tinha alguém naquela cidade que poderia competir com a psicopatia de Damien, era aquele garoto arrogante que na infância dizia ter “ossos largos”.
— Kenny, obrigado. — Clyde dizia tocando o ombro do outro realmente agradecido. Kenny apenas assentiu com a cabeça e observou Clyde seguir seu caminho, lado oposto pelo qual estavam caminhando. Ele quase corria e, apesar de não entender do que se tratava, Kenny ficou feliz de achar ter ajudado em algo.
Clyde usou aquela corrida — porque era um pouco longe — para aproveitar o tempo de fazer algum tipo de exercício. Correu por cerca de cinco minutos e então alguém o parava no caminho, pedindo uma foto, um autógrafo, ou queria simplesmente se apresentar e conversar com ele, dizer que estava orgulhoso dele, de alguma forma, representar South Park tão bem mundo a fora, jogando num time grande, profissional. Ele ficava feliz com tudo aquilo e tentava dar atenção a todos, mas naquele dia específico estava com pressa.
Demorou mais do que previa, mas acabou agradecendo mentalmente a todas as pessoas que o pararam no caminho, pois deu o tempo exato dele ver Eric Cartman descer do carro e colocar uma jaqueta a mais do que o suéter simples que vestia. Ele observou o garoto arrumando os cabelos castanhos no espelho retrovisor do lado do motorista e achou graça do quão vaidoso ele havia se tornado com o tempo. Imaginou que foi só começar a perder peso que o moreno alto passou a ser um verdadeiro metrossexual.
— Cartman. — Clyde chamou por ele uma vez que o outro não o havia visto se aproximar.
— E aí, Denver Broncos! — Cartman brincou sorrindo de canto. Estava num bom humor absurdo. Clyde notou, mas não disse nada. Ele não sabia, mas o motivo tinha sido uma certa visita de um certo ruivo ao seu quarto na noite anterior, que envolvia um beijo sóbrio e alguns sorrisos de sentimento correspondido. Nada que Cartman fosse falar a respeito, lógico.
— Preciso falar com você. — Clyde foi direto ao assunto. — Mas eu imagino que esteja indo pra aula, então podemos falar depois.
— Não. Pode falar. — Cartman ficou um pouco mais sério ao analisar rapidamente que, se Clyde se deu ao trabalho de ir até lá pessoalmente, era porque se tratava de algo que merecia a atenção do jogador de basquete de cabelos castanhos que agora franzia a testa interessado. — Depois eu pego as anotações do Kyle.
— É uma parada meio séria. — Clyde disse num tom de voz um pouco mais baixo e, discretamente, olhando para os lados para ver se tinha muita gente passando que pudesse ouvir aquilo.
— Pode falar. — Cartman agora estava mais interessado do que nunca.
— Damien saiu da cadeia. — Ele disse quase num sussurro e Cartman estreitou os olhos. Se tinha alguém que ele desprezava naquela cidade, era Damien Thorn.
— Ele é um escroto. Não se preocupe com ele. — Eric dizia com desdém.
— Ele ameaçou Pip. — Clyde disse sério e, apesar de Cartman não gostar muito de Pip, conseguia detestar Damien acima disso.
— Ameaçou de que? — Ele perguntou mas pela cara de Clyde, ele já tinha entendido. — Como?
— Ele estava aqui no campus. — O jogador do Denver Broncos sabia que estava falando com a pessoa certa, mas agora estava preocupado com a segurança de Cartman. Por outro lado, sabia que Damien tinha uma memória boa e, se teve alguém que fez Damien sofrer na escola, esse alguém tinha sido Eric Cartman. O que não era justo usar contra Eric de certa forma, afinal, não tinha ninguém que tivesse passado ileso por ele. Absolutamente todo mundo tinha uma história humilhante pra contar envolvendo o “garoto de ossos largos”.
— Vamos, vamos ao Jolly Rogers. — Cartman puxava Clyde gentilmente pelo braço, indicando o caminho de seu carro. — Vamos conversar lá.
Antes que ele pudesse entrar no carro, Kyle apareceu sem entender porque Eric não estava indo pra aula. Cartman fez um sinal para Clyde que o esperasse no carro e, afastando-se um pouco, conversava com o ruivo de cabelos encaracolados. Por um momento ele queria mesmo ir pra aula, só para poder ficar perto de judeu de olhos verdes.
— Eu preciso resolver umas coisas com Clyde, vamos até o Jolly Rogers. — Eric disse e Kyle, na mesma hora bufou.
— Pára com essa merda, Eric, leva a faculdade a sério! Não é nem meio dia e você já está indo beber? — Broflovski estava literalmente furioso.
— Não! — Eric quase gritou o segurando pelo braço. — Eu vou te contar depois. — Ele disse falando sério e Kyle apenas suspirou. — Chame aquelas outras duas putinhas e me encontrem lá quando saírem da aula. — Logicamente a alusão carinhosa era referente a Stan e Kenny.
— Se chegarmos lá e vocês estiverem de festinha, Eric, eu juro pra você que...
— Ei. — Cartman o interrompeu e deslizou a mão que segurava Kyle pelo braço e passou a segurar as pontas dos dedos dele discretamente. — E depois temos que falar sobre ontem a noite também. — Cartman disse mais tranquilo e Kyle conteve o sorriso.
— É, temos mesmo. — Ele soltou-se da mão do outro e despediu-se apenas com o olhar. Disse algo como “nos vemos mais tarde” e foi pra aula.
Cartman conteve o sorriso mas Clyde, de longe, percebeu o que tinha acontecido e realmente foi obrigado a concordar e admirar a perspicácia de Kenny McCormick.
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