Notas iniciais
A música do capítulo é "Aprendiz", do Alejandro Sanz. Muito apropriada para ambas as questões entre Pip e Damien, Butters e Cartman.

CAPÍTULO VI

Learner

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Tus besos salen tan amargos
(Teus beijos saem tão amargos)
Cuando te ensucias los labios
(Quando sujas teus lábios)
Con mentiras otra vez
(Com mentiras outra vez)

Cartman praticamente esqueceu que estava na faculdade pelo menos naquela tarde. Não era nem concentrado em ajudar alguém, mas era aquela adrenalina de planejar algo, liderar e poder ficar frente a frente com o que considerava seu nêmesis: Damien Thorn.

Ao contrário da maioria centrada das pessoas, ele não tinha medo de Damien, era como se seu ego e seu orgulho não permitissem. Enquanto conversava com Clyde no pub Jolly Rogers, ao mesmo tempo ele arquitetava o que faria para resolver o problema de forma que pudesse, de certa forma, se divertir um pouco.

— Então você e o Pip... — Cartman mal conseguia segurar o riso. — Nenhuma uma surpresa quanto a ele, todo mundo na escola sabia dele e do Damien, mas você Clyde... — Ele agora mostrava os dentes bonitos rindo de um jeito confortável.

— Ah é? — Revidou Clyde colocando sua caneca de moccacino em cima da mesa. — E o que é que foi aquilo que eu acabei de ver com você e Kyle? — Clyde mal conseguia evitar a vontade de rir ao ver que Cartman corou de leve.

— Vai se foder , Clyde. — Cartman disse ficando sério, estava quase com raiva. Levantou-se da poltrona. — Vou falar com Butters. — Ele tomou o último gole de café. — E não tem nada acontecendo entre eu e aquele judeu idiota. — Mas Clyde, ainda rindo, percebeu que não havia mais tanta frieza e nem tanta raiva quando Cartman disse a última frase.

x.x.x

Dices que te estoy haciendo daño
(Dizes que estou te machucando)
Que con el paso de los años
(E com o passar dos anos)
Me estoy haciendo mas cruel
(Estou ficando mais cruel)

Flashback

O garoto loiro de cabelos lisos, que apesar de tentar de todas as formas que conseguia não deixava jamais de ser o “perdedor”, tinha agora 13 anos. Ouvia os amigos conversarem sobre uma festa de aniversário que estava para acontecer. Não que ele fosse ser convidado, mas era impossível não ouvir as meninas da sala de aula alvoroçadas e comentando sobre roupas, maquiagem e sapatos que usariam naquela noite.

Phillip Pirrut não poderia ser um exemplo maior de garoto deslocado. Seu único amigo de infância, Damien Thorn, preocupava-se mais agora com outros tipos de festas e garotas, muitas garotas. Não tinha mais tempo para ser amigo de Phillip.

O que Phillip já sabia na época era da amizade de Damien com alguns garotos mais velhos. Um deles, inclusive, uma companhia ainda pior do que a de Damien poderia proporcionar. Ninguém sabia o nome dele, só o chamavam de “Toalha”.

Toalha usava um moicano pintado de azul, tinha olhos negros e estava no último ano do Ensino Médio. Ele não era de South Park, mas desde criança todos se preocupavam muito com ele, por ser alguém que sempre escolheu os caminhos errados para percorrer. Damien começou a seguir os passos de Toalha quando tinha 13 anos, buscava aceitação, popularidade, queria ser algum tipo de líder. Viu essa chance ao começar a andar com o 'cara do moicano azul' — como costumavam chamar alguns quando Toalha começou a ficar famoso.

— Estou sabendo de uma festinha. — Toalha dizia sentado em um canto da arquibancada durante a aula de Educação Física do sétimo ano, turma onde Damien estudava com Pip, Stan, Kyle, Kenny e Cartman.

— Sim. — Damien respondeu ao lado dele. — Aniversário do Alex Glick.

— E você vai? — Toalha agora dizia um pouco mais interessado na conversa. Pareceu ver uma certa oportunidade ali.

— Está brincando? Claro que não. — Damien riu do quão aquilo soou absurdo aos seus ouvidos. — Ele é o maior nerd da face da terra.

Toalha virou-se na direção do outro, sentando-se com um dos joelho dobrados, ficando de perfil para o campo de futebol e de frente para Damien. Ele tinha os olhos fixos de uma maneira um tanto quanto controladora, como se facilmente pudesse ler os pensamentos de alguém — o que ele podia na verdade, mas não se tratava de mágica ou nenhum superpoder. Na verdade, ele só era inteligente o suficiente para ler nas entrelinhas e era realmente muito bom em linguagem corporal.

— Mas você quer ir. — Ele disse por fim, depois de um longo silêncio entre eles. Damien deu um meio sorriso, negando com a cabeça. — Quer sim. — Toalha agora teve certeza. — E se conseguir ir e vender umas coisas pra mim, quem sabe você não tira uma boa vantagem nisso.

— Toalha, você é mais louco do que eu pensava. — Damien disse achando que era algum tipo de brincadeira. Ele tinha mesmo ouvido aquilo? — Quer que eu venda seus bagulhos pra um bando de criança? — Damien riu, não por aquilo ser errado ou imoral, mas porque sabia que aqueles garotos de South Park, nem que tentassem, poderiam ser mais caretas.

— Qual é, 'little demon'... — Toalha sorria aberto agora, sabia que aquilo ali seria muito fácil. — Você aparece na festinha, mostra que tem uma “mercadoria” interessante, o pessoal vai curtir e automaticamente você ficará popular entre eles. Vai poder realmente ser convidado para alguma coisa. — Toalha continuou enquanto levantava-se de onde estava. — Pense nisso. Qualquer coisa sabe onde me encontrar. — Ele concluiu e desceu as escadas das arquibancadas fazendo um barulho impossível de não ser notado. Para ele, a única coisa que importava era conseguir criar cada vez mais vínculos para a sua “rede de vício”, da qual ele mesmo fazia parte.

Apesar de um pouco relutante, pois não queria se dar ao trabalho de aparecer na festa sem ter sido convidado, Damien pensou que era mesmo uma boa maneira de simplesmente controlar a todos. Todos precisassem dele, não era necessário que gostassem dele.

Es que yo nunca creí que te veria
(Mas nunca imaginei que te veria)
Remendando mis heridas
(Remendando minhas feridas)
Con jirones de tu piel
(Com retalhos da sua pele)

Fim do Flashback

x.x.x

Butters estava no dormitório da fraternidade a qual fazia parte. Ele olhava três livros em cima de uma mesa de estudos enormes que os rapazes da fraternidade tinham na sala — não que fosse exatamente para estudar, mas de vez em quando, era bom fazer uso real do móvel. Não sabia se começava por Kerouac, Capote ou Fitzgerald.

— Ei. — Cartman disse enquanto observava de longe o loiro concentrado. Ele não se virou para ver quem era, o reconheceu pela voz.

— E aí, Eric. — Butters parecia calcular em sua mente alguma maneira de escolher o livro que queria, enumerando prós e contras. Nada muito complicado, no fim tudo se resumia a qual dos dois tinha menos páginas.

— Preciso da sua ajuda. — Cartman não gostava muito de rodeios.

— Claro que precisa. — Butter virou-se para encarar o velho amigo, estava ligeiramente mal humorado, deixando os livros de lado por um momento. Cruzou os braços. — Por qual outro motivo você viria aqui?

— Butters, eu estou sem tempo pra isso. — Cartman respondeu indiferente. — Às vezes sinto falta de quando você era uma pessoa melhor.

— Você quer dizer quando eu fazia tudo que você pedia e acreditava em tudo que você falava? — Butters riu de uma maneira triste. — Isso mudou faz tempo e você sabe.

Cartman apenas o encarou de volta, não queria ter aquela discussão não porque achava que não poderia vencer, mas porque realmente seria uma perda de tempo. Butters realmente havia aprendido do jeito difícil que, por mais que quisesse a todo custo que Cartman gostasse dele e fosse alguém que pudesse chamar de amigo, a última coisa que ele poderia ser era aquilo.

— Não é nada por mim. — Cartman disse tentando logo mudar de assunto. — Damien apareceu.

— E daí? — Butters continuava com a mesma expressão. Sua expressão era de quem realmente não entendia porque Cartman estava ali somente para lhe dizer aquilo, especialmente usando um tom de voz misterioso e preocupado.

Eric arregalou os olhos surpreso pela atitude — ou falta dela — de Butters. O garoto loiro respirou fundo e fez um gesto com a mão para que Eric continuasse. Achava que aquele ainda não era o clímax da história, mas era. O problema é que realmente não era só aquilo.

— E daí que ele está atrás de Pip! E Clyde... — Eric não tinha certeza se deveria explicar aquela relação.

— Onde é que isso é meu problema? — Butter continuava indiferente. — Quer dizer, eu gosto do Pip, mas acho que ele é responsável pelas escolhas que fez.

Cartman mal podia acreditar naquela atitude. Em qualquer outra situação, há alguns anos, ele certamente com muito menos poderia comover Butters. Mas aquele Butters tinha deixado de existir desde o primeiro ano do Ensino Médio. O caso era que ele já tinha sofrido muito nas mãos de Cartman e tinha resolvido há tempos dar um basta naquilo. Gostava do moreno alto, gostava dos outros rapazes também, mas era extremamente desconfiado com Eric. Tinha aprendido sua lição a duras penas.

Cartman não sabia se estava mais surpreso ou mais com raiva.

— Você um imbecil. — Cartman disse sem muita emoção. — Foda-se você, e nem pense em nos chamar caso precise de alguma coisa, porque vou contar pra todo mundo o que você acabou de dizer. — Mas a última frase foi praticamente uma ameaça.

— Estou na fraternidade mais popular e mais agitada do campus. — Butters respondeu no mesmo tom, dando alguns passos em direção ao amigo. — Vocês é que precisam de mim para estar nas festas. Não preciso de vocês. — Cartman pode jurar que ouvia o legítimo Professor Chaos falar.

— Vê se cresce, Butters. — Eric preparava-se para sair, mas pode ouvir a última frase do loiro.

— Cresce você, Cartman. — Butters pegou os três livros de cima da mesa. — Espero que Damien te dê uma bela de uma surra.

Mas a resposta do outro foi apenas bater a porta de saída com uma força desnecessária.

De ti aprendió mi corazón
(Com você meu coração aprendeu)
De ti aprendió mi corazón
(Com você meu coração aprendeu)
Y ahora no me reproches niña
(E agora não me repreenda, menina)
Que no sepa darte amor
(Porque não sei te dar amor)

x.x.x

Quem via aquela reunião poderia jurar que era o quartel general do Coon and Friends. Com exceção de Timmy, que estava em Denver, todos estavam reunidos no estacionamento da universidade naquela tarde. Cartman e Clyde haviam explicado aos colegas o que tinha acabado de acontecer. Pip, Stan e Kyle eram de longe os mais preocupados. Clyde, no entanto, estava mais preocupado com Phillip, que deveria estar ali e ainda não havia chegado. Já estava começando a pensar que talvez Damien tivesse chegado a ele antes mais uma vez.

— Cartman, acho que você ainda não percebeu que não somos super-heróis de verdade. — Kenny começou impaciente. — E também não somos mais crianças. Temos que chamar a polícia e pronto.

— Eu concordo. — Stan resolveu opinar. — Até porque todo mundo aqui sabe que Damien não bate bem das ideias, não é nem questão dele ser uma pessoa má. Damien é maluco. — Stan concluiu e todos concordaram.

— Parem de ser medrosos, bando de viadinho! — Cartman estava começando a ficar irritado com aquela situação toda. — Acha que o Damien vai fazer o que hein? Matar todos nós? — O tom era pra ser de absurdo, mas a maioria concordou, não achando aquilo tão fora do normal não. — Vocês são tão idiotas que me irritam.

— Cartman. — Kyle interveio antes que Eric realmente perdesse a linha. — Posso falar com você por um segundo? — Ele disse sério pedindo que o colega o acompanhasse. Apontou uma das mãos para o lado oposto do estacionamento e, um pouco relutante, o jogador de basquete assim o fez.

Kyle enfiou as mãos nos bolsos enquanto andava, estava com frio. Ouviu os outros amigos de longe continuar a conversa e cercar Clyde com algumas perguntas sobre “que história era aquela dele estar namorando Pip”.

— Eric, você precisa se acalmar. — Kyle dizia com calma, não queria piorar o estado de nervos do outro, que apenas suspirou frustrado.

— Eu sei. É que eu realmente odeio Damien. — Eric dizia como se voltasse a ter oito anos. — E me sinto mal por essa merda toda.

— Se sente? — Kyle estava realmente surpreso que aquele nazista insensível pudesse dizer algo como aquilo.

— Sei lá, Kyle. — Cartman começou tentando não se despir daquela carapuça protetora onde ele era nada além de um babaca egocêntrico, mas quando estava com Kyle, sentia-se seguro para demonstrar certas coisas que, para os outros, o fazia sentir-se nada além de vulnerável. — Poderia ser você, entende?

Se não estivessem ainda às vistas dos outros, Kyle não teria baixado a cabeça e mordido o lábio como fez, ele poderia muito bem beijar Cartman de novo. Eric olhou para os lados como se alguém pudesse ouvi-lo. Concentrou-se em olhar Kyle agora que claramente segurava um sorriso que mal podia conter em seu rosto.

— Tá rindo do quê, porra? — Cartman se aproximou e perguntou de um jeito ofensivo.

— De você, Eric. Estou rindo de você. — Kyle agora tinha finalmente o sorriso aberto, dizendo como se tivesse libertado algo. — Você é um idiota, por que não é assim com todo mundo?

— Do que você tá falando? Sou incrível! — Cartman dizia aquilo com uma naturalidade que chegava a ser engraçado, porque ele realmente acreditava naquilo.

— Acho que é a primeira vez que vejo você se colocando no lugar de alguém e vendo que é possível sentir a dor e a preocupação alheia. — Kyle dizia e Eric novamente olhava para os lados com medo de alguém ouvir aquilo. — E pare de se preocupar, os outros vão saber de nós uma hora ou outra... — Kyle disse e depois pensou no quanto era estranho referir-se a ele e Cartman como “nós”.

— Eu não sei o que faria no lugar de Clyde, essa é que é a verdade. — Eric dizia após respirar fundo, era como se somente aquele pensamento fosse suficiente para apavorá-lo por um segundo. — Eu acho que eu iria atrás de Damien eu mesmo...

— Está tudo bem. Stan é quem teve mais problemas com Damien na verdade. — Kyle disse ao lembrar-se do primeiro dia que conheceram Damien e do quanto os quatro foram maldosos com ele.

— Se bem lembro, ele tentou almoçar com a gente e foi você quem o mandou embora. — Cartman dizia quase rindo. — Ficou todo irritado com “o garoto novo”. — Não que Kyle estivesse orgulhoso daquilo, mas Cartman certamente estava.

— Ele é estranho, pô! — Kyle defendeu-se apesar de sentir-se mal, talvez se tivessem acolhido Damien naquela época ele não teria se metido em tanta coisa errada. — Ele era muito estranho e, sinceramente, não conseguia levar ele a sério, ele parecia só um garoto com aquela roupa preta e dizendo ser “filho do Satã” só pra aparecer... — Kyle estava viajando em lembranças e Cartman concordava, rindo. — E fomos maus com Pip também...

— Fomos. — Cartman concordou e daquilo ele não tinha muito orgulho. — Eu lembro do episódio do meu aniversário… E não é como se o Clyde não tivesse sido mau com Pip. — Cartman lembrou-se e olhou de longe para Clyde.

Kyle pensou por um momento e lembrou do “campeonato de cuspe” que Bebe e Clyde tiveram com Pip, onde cuspiam no garoto o tempo todo. Pip nunca revidou.

— Não sei até que ponto deveríamos nos arriscar pra isso, Eric. — Kyle por um segundo sentiu uma certa antipatia tanto por Clyde quanto por Bebe. — Sei que Damien nunca se meteu muito no seu caminho, mas também acho que ele tem muito mais bagagem agora do que tinha há dez anos atrás. Você sabe, ele esteve na cadeia, ele andava com Toalha... — E conforme ia pensando, o ruivo ia aumentando sua preocupação e estava pronto para desistir de se envolver naquilo e arrastar Cartman para longe daquele estacionamento.

— Não importa, eu quero pelo menos tentar. — Cartman dizia como se soubesse o que Kyle estava prestes a fazer. — Só me deixe falar com Pip, acho que posso convencê-lo a não ir, eu posso ir no lugar dele...

— Mas é claro que não! Enlouqueceu? — Kyle agora tinha considerável pânico nos olhos. — Você não vai não!

— Só se você jantar comigo. — Cartman disse como se tivesse pensado naquilo de última hora, mas já estava arquitetando o dia inteiro.

— Tá bom. — Kyle respondeu como se aquilo fosse óbvio. Mas diante do sorriso de Eric, era como se 'tivesse caído a ficha'. — Espera aí, está me chamando para jantar? — Ele quase riu do jeito que Cartman coçava o queixo um pouco sem jeito.

— Eu não sei fazer isso direito, ok? — Ele dizia tentando não parecer tão amador. — Sabe que é uma das poucas vezes que realmente quero fazer isso.

— Percebo... — Kyle ainda estava rindo e estava cada vez mais difícil não tocar no outro.

— Minha mãe não vai estar em casa nesse final de semana, vai visitar minha tia Alexandra. — Cartman explicava com certa pressa. — Elas vão fazer um cruzeiro e então... Pensei em irmos pra minha casa e eu faço o jantar. — Cartman dizia como se estudasse cada expressão de um Kyle quase incrédulo. — E também se ficar ruim, a gente pede alguma coisa do chinês. — Eric concluiu um pouco inseguro mas Kyle confirmava com a cabeça, sorrindo.

— Ok. — Foi a resposta intimista do judeu de cabelos ruivos que agora tentava disfarçar o quão feliz estava. Tinha outra coisa pra se preocupar e não poderia aparecer na roda de amigos com um sorriso na cara. Cartman estava igualmente tentando disfarçar, mas ver a expressão de Kyle derretia seu coração.

Eles andavam de volta para onde seus amigos estavam e Cartman disse rapidamente que iria tentar encontrar Phillip, porque agora realmente todos concordavam que ele fora ver Damien sozinho ou então foi encurralado pelo moreno alto. Clyde estava preocupado e ofereceu-se para ir junto, mas Cartman recusou, explicou que se Damien estivesse por perto, poderia acontecer o pior.

O moreno alto dirigiu-se para fora da universidade na esperança de ver Pip. Se não o encontrasse, não faria o que disse aos amigos, não iria procurá-lo. Eric queria ver Damien e queria fazer aquilo sozinho.

x.x.x

Me has enseñado tu
(Você me ensinou)
Tu has sido mi maestra para hacer sufrir
(Você foi minha professora para fazer sofrer)
Si alguna vez fui malo
(Se alguma vez fui mau)
Lo aprendí de ti
(Aprendi com você)

Cartman não precisou andar muito para ver Pip com um capuz preto cobrindo os cabelos loiros indicando que sairia da Universidade como Eric já havia imaginado que ele faria. Apertou o passo para alcançá-lo e nem precisava ver seu rosto, Cartman o reconheceu pelo jeito de andar.

Ao chegar perto do loiro, gritou seu nome. Não tinha como correr e nem fingir que não o viu. Era mesmo Eric Cartman parado há alguns metros de distância atrás dele e ele sabia que seria infantil demais não forçar aquele encontro.

— Pára com essa merda. — Cartman dizia conforme o garoto ia se aproximando. O loiro já estava pronto para encontrar com o moreno alto, estavam na entrada da universidade, nem tinha como ele negar isso.

— Qual é a sua, Cartman? Você nunca foi meu amigo e agora está tentando ajudar? — Pip estava mais confuso com a presença de Eric do que nervoso para encontrar Damien.

— É, você tem razão. — Cartman dizia, com o cenho franzido, parecendo um muro em frente ao outro, não o deixando passar. — Eu nunca fui seu amigo, não seria amigo de alguém como você. — Ele continuou cruelmente sincero, quando Phillip deu um passo para trás. — Você é fraco, Pip... Não sabe se impôr, se deixa levar... Não consegue pensar com a própria cabeça! Esteve a vida inteira cercado pelo Damien e onde aquilo te levou? — Cartman realmente não parecia muito preocupado em magoar o outro. — Ficou em uma clínica de reabilitação e quase morreu de overdose.

— Como se você soubesse alguma coisa a respeito, Cartman. — Pip respondeu mostrando mesmo que Eric, além de insensível, estava sendo inconveniente de falar de coisas que não lhe diziam respeito.

— Foda-se, Pip. Estou aqui tentando fazer você ver coisas que antes nem eu mesmo me dei ao trabalho de mostrar. — Cartman se aproximou, mas Phillip continuava fugindo. — Imponha-se! Se continuar demonstrando medo desse jeito, as pessoas vão continuar pisando em você, não importa quantos anos tenha.

— É porque você conhece Damien melhor do que eu, claro. — Ironizou o loiro britânico. — Ele sempre foi meu único amigo! O único que falava comigo, o único que se importava... — Ele parou quando se deu conta que praticamente o estava defendendo.

— Ele nunca foi seu amigo! — Cartman disse pausadamente, como se Phillip fosse o tipo de cara com problema de audição. — Ele nunca te amou, Pip. — Ele disse a última frase após uma longa pausa.

Phillip lhe deu as costas. De certa forma, apesar de tudo, Pip também tinha suas feridas, também tinha seus sentimentos por Damien e, da forma mais distorcida e errada possível, lembrava de como Damien o fazia sentir-se aceito, querido, desejado naqueles momentos. Mesmo que Damien fosse aquele tipo de homem, aquela espécie desprezível de ser humano e, mesmo sabendo que talvez tudo aquilo não tivesse passado de possessividade e controle, Phillip teria ainda preferido aquilo a uma adolescência solitária, onde não teria sequer experimentado metade das coisas boas — e más! — se não fosse por Damien.

— O que você sabe sobre amor, Cartman? — Pip voltou a encarar Eric depois de um longo silêncio entre eles. — O que você sabe sobre amar uma pessoa?

— Não que isso seja da sua conta, mas eu sei sim. — Ele obviamente não falaria, mas imediatamente pensou em Kyle. — Mais do que você imagina. E digo mais, não se parece com nada do que você pensa que sente pelo Damien. Ele está te manipulando, Pip!

— Ele só quer me ver! — Phillip disse com um sorriso nervoso. — Só isso, eu sei que ele tem as formas dele de parecer e ser possessivo mas... — Ele sorriu de um jeito débil. — Damien sempre foi ciumento comigo...

Cartman passou uma das mãos pelo queixo mal acreditando no que ouvia. Parecia que Pip estava, de alguma forma, enfeitiçado por Damien novamente, como esteve o tempo todo na época da escola. Eric achou que depois do que Damien tinha feito e depois da desintoxicação de Pip, tudo voltaria às claras, Phillip veria que tudo não tinha passado de um erro e que recomeçaria. Até mesmo em South Park e ficou surpreso ao saber de seu relacionamento com Clyde.

— Ele não te ama, Pip. — Cartman repetiu, mais calmo e até resignado. — Não faça isso com Clyde.

— Eric tem razão, você sabe. — Para a surpresa de ambos, um Butters Stotch aparecia como se tivesse se teletransportado pra lá. Cartman virou-se para ver o loiro atrás de si e escondeu o fato de estar surpreso. — Damien está, novamente te manipulando, Pip. — Agora Cartman teve certeza que Butters ouviu a conversa.

Pip não sabia o que dizer, Butters havia sido seu amigo na escola por pouco tempo. Ele sempre preferiu a companhia dos outros quatro garotos e, naquela época, tudo que importava para ele era ser amigo de Eric Cartman.

— Se eu pudesse voltar no tempo, — Butters continuou. — Eu teria escolhido você, Pip. — Butters dizia se aproximando mais do amigo. — Teria me esforçado mais para ser seu amigo e não deles. — Ele apontou Cartman com um gesto com a cabeça. — Eu sei como se sente, acredite. Acho que melhor do que qualquer um deles, que estão ao lado de Clyde nesse momento e não do seu.

Cartman sentiu um calor subir por seu rosto, Butters estava distorcendo a situação completamente. Não havia lados, eles estavam com Clyde pois o pedido de ajuda partiu do jogador do Denver Broncos. Queria socar Butters naquele momento se não estivesse mais preocupado com Phillip.

— Vamos fazer o seguinte... — Butters disse segurando nos ombros de Phillip. — Não estou aqui para convencê-lo de coisa alguma, afinal, você ouviu Eric dizer que você não sabe pensar com a própria cabeça, então prove que ele está errado e tome sua própria decisão. — Butters sentia de longe os olhos de Cartman cravados nele.

— Então, eu posso ver Damien se eu quiser? — Pip quase pedia permissão. Aparentemente ele ouviu o que Butters tinha a dizer mas não Cartman.

— É claro, mas questione-se. — Foi a resposta calma do loiro com moicano baixo, engraçado até. — Será que é uma boa ideia? Há quanto tempo está com Clyde?

— Seis meses.

— E como tem sido?

— Muito bom. — Pip sorriu, tinha os olhos marejados. — Ele gosta muito de mim.

— Então... — Butters percebeu o quão abalado o outro estava. — Acho que você deveria dar prioridade a ele.

— Damien disse que nos mataria se eu não fosse vê-lo. — Pip esclareceu, essa parte Butters não sabia. O estudante de literatura trocou olhares com Cartman, que agora arqueou as sobrancelhas como quem dizia “está vendo o tamanho do problema?”

— Então vamos nós três. — Butters disse depois de pensar por um momento. — Eu e Eric vamos com você ver Damien, que tal? Assim você pode ver ele e não irá sozinho, terá seus dois amigos com você. — Ele frisou a palavra amigos como se mostrasse que estava apoiando quando na verdade só estava preocupado. — Ficaremos um pouco afastados, assim você pode falar com ele sozinho, só ficaremos esperando você, certo?

— Tudo bem. — Pip respondeu um pouco mais tranquilo e sentindo-se no controle. Ele andou na frente e Eric e Butters mais atrás. Os dois trocaram olhares e apesar de Cartman não ter gostado da ideia, tinha que admitir que havia funcionado. Ele pegou o celular e mandou mensagens para Kyle e Clyde explicando o que havia acontecido. Nem queria saber o que os outros falariam, mas agora era tarde demais, já estavam andando até a Floresta Perdida.

No digas que no entiendes como puedo ser así
(Não diga que não entende como posso ser assim)
Si te estoy haciendo daño
(Se estou te machucando)
Lo aprendí de ti
(Aprendi com você)