Tempos de Guerra
13 Saudades...
Notas iniciais
Recapitulando...
"Matt e Mello, dois sargentos alemães, após terem perdido a batalha na Normandia, França, foram capturados pelas tropas Aliadas. Isolados na prisão de guerra, foram interrogados pelo Tenente-Coronel Light, norte-americano, e pelo Coronel Beyond, britânico. Machucados, física e mentalmente, acabaram se tornando as peças do joguinho e diversão pessoal de Beyond, sendo soltos misteriosamente, para depois serem perseguidos em uma 'caça aos ratos' do britânico. Mello levou um tiro de raspão na perna, mas isso não o impediu de continuar correndo, e os dois continuaram no mesmo ritmo até que nenhum deles aguentava mais, e desmaiaram. Acordaram em uma casa desconhecida, após terem sido encontrados por duas irmãs francesas, Misa e Halle, que apesar de hesitantes, acolheram e cuidaram dos alemães. Isso, claro, sem saberem que eles eram soldados fugitivos. E agora..."
Mello conseguia dar alguns passos pelo quarto, mas nos dois dias que residira ali, não pôde conhecer o resto da casa ou mesmo a irmã de Halle. Aqueles móveis, aquela janela, aqueles tecidos, eram extremamente monótonos para um soldado que há pouco estava alvejando inimigos e mais recente ainda, estava sob a chance de ser alvejado a qualquer segundo. O que de fato, foi.
Keehl já não aguentava mais aquele quarto.
— Mihael...? – Halle abriu a porta, depois de bater suavemente, e o chamou. De imediato os olhos de Mello se voltaram para ela – Misa e eu vamos buscar nossas rações, voltamos em algumas horas – ele apenas assentiu e com isso, Halle se retirou, fechando a porta novamente.
A companhia dela estava longe de ser desagradável, sem contar que as únicas notícias que tinha de Matt era trazidas por ela, então Mello tinha certeza de que ficaria ainda mais entediado por umas boas horas...
Matt sentiu-se do mesmo jeito quando Misa o avisou que sairia. Na maioria das vezes, a felicidade excessiva da jovem era completamente fora de contexto, mas quando ela falava alegremente sobre a rápida recuperação de Mello, Matt se esquecia de qualquer outra coisa e desejava uma única coisa: sair daquela cama e ir vê-lo.
E foi isso o que finalmente fez.
Seu corpo ainda doía, mas não o impedia de andar. E mesmo se não desse, ele iria nem que fosse se arrastando.
O verão na Europa era uma estação seca, raras eram as chuvas durante esse período. Mas naquela tarde em específico estava chovendo. Não forte, mas não deixava de ser chuva. E por que as mulheres saíram assim mesmo e não esperaram pelo dia seguinte? Porque se fizessem isso não ganhariam suas rações e passariam fome. Elas e os pobres e belos fugitivos alemães.
A cama que Mello usava ficava encostada na parede que possuía a única janela do quarto, e ele estava justamente sentado e olhando através do vidro. Sua cabeça permanecia inclinada para o lado, e observava entediado as pequenas gotas líquidas escorrerem lentamente pela superfície transparente. Mail abriu a porta com um mínimo rangido, mas o suficiente para fazer o loiro virar o rosto.
Os dois se encararam. Dois dias de ansiedade, dois dias ansiando um pelo outro, e agora nenhuma deles sabia o que dizer. Mas quem disse que eles precisavam dizer algo? Não, tudo o que eles precisavam, tudo o que eles queriam, era ficar próximo um ao outro. Era mais do que o suficiente.
Mello levantou lentamente da cama e deu alguns poucos passos em direção ao ruivo, que também de forma lenta acabou com a pouca distância entre eles, e se abraçaram. Os braços envolveram os corpos que há muito não envolviam, sentindo o calor emanado, os cheiros tão conhecidos, a sensação de conforto e bem-estar de que tanto sentiam falta. Um abraço nunca foi tão bem aproveitado.
Ainda juntos, os dois foram até a cama e ali ficaram. Mello voltou à posição que estava antes, indo o máximo que conseguia para o lado, comprimindo-se contra a parede, e Matt deitou-se ao seu lado, apoiando sua cabeça na lateral do corpo do outro. Logo a mão do loiro começou a acariciar suavemente as mechas ruivas.
Estavam quase que... Em paz. Inconscientemente ou não, todo o sofrimento, todos os problemas foram afastados de suas mentes, deixados em um canto escondido para serem trazidos de volta apenas mais tarde. No momento, tudo o que era relevante para eles era a presença e a proximidade um do outro.
O rosto de Mail permanecia parcialmente oculto pelo tecido da roupa de Mihael, por isso sua voz saiu um tanto quanto abafada ao chamar:
— Mello...
— Hum?
— Eu te amo.
~x~
— Cavalaria! – as irmãs francesas deixaram a comida na mesa com o máximo de cuidado que a pressa extrema as permitiu. A droga do vestido não ajudava nem um pouco na corrida delas pelo corredor, mas não havia tempo para pensar naquilo. Ou elas escondiam os alemães, ou... – Cavalaria! – elas surpreenderam os dois, porém nenhuma delas reparou na proximidade deles. Com o susto, Matt e Mello pularam da cama de imediato e ficaram surpresos ao ver Misa empurrar a cômoda do quarto e tirar um pedaço do piso de madeira que estava rachado, embaixo do móvel.
— Entrem! – Halle os empurrou sem pensar por um segundo e, ao ver a hesitação de Mello, agiu como... Mello – Entre nesse buraco agora! – e ele entrou. O tom de voz dela o fez lembrar de que ele (e Matt) ainda era um soldado.
O buraco nem de longe era espaçoso e confortável, mas não foi com essa finalidade que ele foi feito, afinal. O importante era que os dois couberam ali. Agachados, comprimidos um contra o outro, na mais completa escuridão e com o cheiro forte de terra e poeira invadindo-lhes as narinas. Mas couberam. Não era o tipo de proximidade que estavam querendo, mas enfim.
E logo eles entenderam o porquê de terem sido jogados ali.
Era difícil não entender ao ouvir o barulho estrondoso de uma porta sendo fortemente chutada. Deja-vú? Não era tão bom quando era você que estava dentro da casa, e não aquele que chutava e gritava.
As armas de alto calibre entraram na casa antes mesmo dos soldados, e graças ao barulho que aqueles seis homens fizeram, não fora possível ouvir a cômoda sendo arrastadas de volta para cima do buraco. Sorte, com certeza. Mas era melhor que eles fossem embora logo, já que não se sabia por quanto tempo eles aguentariam com tão pouco ar.
Halle e Misa foram rendidas por uma 12 apontada para cada franja loira. Por baixo destas, uma gota de suor traçou caminho lentamente até seus pescoços.
— Com sua licença, senhoritas – um dos homens, aparentemente o mais importante dentre eles, falou em francês, mas sem disfarçar o sotaque obviamente britânico. Sorria, mas algo nele provocava uma fria corrente de medo na espinha delas, fazendo aquele sorriso ter o efeito oposto do que deveria. Beyond, em sua caça aos “ratos” – Vamos apenas revistar a casa um pouco. Quem sabe não encontramos alguns alemães por aí?
Halle usou toda a coragem que conseguiu reunir para colocar um olhar confuso em seu rosto e perguntar, satisfeita por sua voz não sair tremida como temia – Alemães? Por que haveria alemães aqui?
Só rezava para Misa não fazer nada que estragasse tudo. Confiava na irmã, claro, mas... A confiança na escolha de palavras dela já era outra história.
Três soldados se encarregaram de arrombar a frágil porta do quarto onde antes estava Matt, e enquanto reviraram o local, Beyond e mais dois fizeram as honras no quarto em que os alemães estavam escondidos.
Mello e Matt mantinham suas respirações presas o máximo que conseguiam para economizar o oxigênio escasso do esconderijo, mas a tensão e a aflição em ouvir os móveis e a pequena janela sendo quebrados e os passos duros e firmes dos caçadores das cabeças loira e ruiva acima destas não ajudava nem um pouco. A terra caía neles conforme os Aliados devastavam aqueles quarto pobre, podia-se ouvir o coração maratonista dos dois e a cada segundo em que os americanos e ingleses dominavam aquele lugar, a presença do fim se intensificava.
A busca pode ter durado poucos ou muitos minutos, não importava. Qualquer que tenha sido o tempo de sua duração, foi infinitamente mais na mente dos dois alemães. Ainda ouviam barulho de objetos se quebrando e gritos na superfície, alguns distantes e outros assustadoramente próximos.
E como se o dono da voz abafada, que soou depois de determinado tempo, estivesse encostado na cômoda, a única “proteção” dos dois no momento, fez com que o já necessitado oxigênio simplesmente sumisse de seus pulmões.
Porque independente do que foi dito, ao reconhecerem aquela voz, todo o conteúdo da frase perdeu sua importância.
— Vamos para a próxima casa, rapazes.
Deveriam se sentir aliviados, mas a voz de Beyond, após tudo o que passaram naquela prisão, drenava deles essa capacidade.
Um longo período de silêncio seguiu-se até a luz queimar-lhes os olhos concomitantemente com a terra.
— Os soldados se foram – Misa sussurrou, e com a tosse seca de Mello e Matt, vinha o alívio imediato e inebriante. Finalmente podiam respirar outra vez.
Matt, ainda tentando acalmar seus pulmões e parar de tossir, saiu primeiro do apertado buraco e segurou firme o braço de Mello, ajudando-o a sair também.
~x~
— Vocês vão mesmo? – Halle perguntou em um tom contido, tomando o cuidado de não encarar Mello nos olhos.
— Vocês podem ficar mais tempo – Misa choramingou, mais para Matt do que para o loiro ao lado.
— Depois do que aconteceu ontem, não dá mais para ficar aqui – respondeu Matt, guardando dois maços de cigarros no bolso. Aquilo deveria ser o suficiente até chegarem em... Algum lugar – Mas obrigado.
— Sim. Obrigado por... Tudo – completou Mello. Era um momento tenso, principalmente para as garotas, e Matt e Mello perceberam isso.
Antes que qualquer outra palavra pudesse ser dita, os alemães puseram-se a andar no mesmo cenário em que chegaram; a aurora avançava lentamente, assim como os passos dos dois fugitivos, que botaram na mala com algumas poucas roupas do pai e do irmão das francesas, o coração delas.
Missa deixou uma lágrima escorrer. Aquela cena era tenebrosamente familiar e a machucava de um jeito inimaginável. Ver os fios ruivos que tanto cuidou longe de si era pura maldade do destino.
Halle e sua postura de durona, de irmã mais velha e protetora, caiu no instante que os olhos azuis do alemão, tão similares aos seus próprios, se viraram para o lado oposto ao dela, dizendo-a metaforicamente que nunca mais os veria, que nunca mais o veria.
Nenhum dos dois olhou para trás, nenhum deles queria sentir a culpa por deixar aquele lugar daquela forma. Nem todos os franceses mereciam morrer, afinal.
Notas finais
E se alguém chegou a ler isso, não tenho nem palavras para agradecer *////////////*
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