Tempos de Guerra
14 No caminho para casa...
Notas iniciais
2) Se não me engano, nos anos 40 era considerado uma vulgaridade uma mulher deixar determinadas partes do corpo expostas. No caso, já havia passado da época dos tornozelos, mas um pouco mais acima ainda era escandaloso (só não tenho certeza se era nessa época também que os braços eram considerados sensuais ô.o)
3) Faerie é o sobrenome das irmãs francesas.
Saíram de Cherbourg de trem, em direção a Lissieux. Claro que nenhum deles possuía dinheiro e tampouco podiam se mostrar, então qual foi a solução encontrada? Subir no transporte sem ninguém perceber. Oras, como se passageiros clandestinos fossem uma novidade na época.
O trem estava para partir e acelerava-se uniformemente, e não demorou para que o loiro e o ruivo se vissem correndo o máximo que podiam atrás do último vagão do expresso. Matt foi o primeiro a subir e, com os gestos dificultados pelo sacolejar violento do trem, puxou Mello para cima. Claro que alguns hematomas surgiram com isso, principalmente na perna manca do loiro, mas nada para o qual eles dessem um pingo da mínima importância.
Encostaram-se à porta e deixaram as malas no chão, passando a observar o ralo centro de Cherbourg ficar ainda menor com a distância. Seus cabelos compridos chicoteavam os respectivos rostos, dançando ao ritmo do vento incentivado pela velocidade da locomotiva.
— Matt?
— Hm? – respondeu o ruivo, alheio.
— Este é o último vagão? – um típico sorriso maroto brincou nos dois cantos da boca de Mello, exibindo minimamente o que se passou por sua mente com aquela simples constatação.
— Claro que sim... – ainda observando o horizonte distante, Mail respondeu com toda a inocência antes de perceber enfim o teor implícito na pergunta. Matt corou involuntariamente ao assimilar as segundas intenções contidas na indagação aparentemente inocente, e ao virar abruptamente para Mello, confirmou seus pensamentos apenas em encarar o olhar e o sorriso que o loiro ostentava – Não!
— Ninguém vai ouvir – Mello alargou o sorriso, aproximando-se um passo.
Matt nem respondeu. Balançou a cabeça novamente em negativa, incrédulo do que ouvia, e sentou no chão duvidosamente sujo. Bom, depois do campo de retenção, qualquer lugar era bem vindo.
A viagem de trem foi longa e a passagem pela cidadezinha de Caen, curta. Apenas o suficiente para comerem uma gororoba num restaurante imundo qualquer e tomarem banho em um lago na área mais rural da cidade durante a noite, sob o risco do proprietário daquelas terras encontrá-los e expulsá-los a tiros e gritos.
Banho...
Os dois infiltraram-se silenciosamente nas entranhas do pequeno bosque, até encontrarem o lago parcialmente escondido pelas folhagens. A lua minguante era refletida na superfície líquida cristalina, e já se aproximando da margem, Matt iniciou o processo de retirar suas roupas para poder se lavar.
Já tinha se livrado dos sapatos e da camisa quando surpreendeu-se ao sentir dois braços o envolvendo por trás e um peito nu e gélido tocar-lhe as costas.
— Não estamos mais no trem – Mello disse num sussurro antes de passar de leve os lábios pela pele alva e sensível do pescoço do ruivo, fazendo este se arrepiar ante o toque.
Matt apenas compartilhou o sorriso malicioso que tomava conta dos lábios de Mello, antes de virar de frente para ele e sentir aqueles mesmos lábios tomando os seus de forma intensa, como há muito não faziam.
Dormiram naquela grama fofa e úmida, embaixo do calor noturno e aos primeiros raios de sol voltaram para o centro e, mais uma vez, pularam no rabo do trem. Só desceriam dele novamente na estação de Lisieux.
Lisieux era uma grande e peculiar cidade. Era um ótimo centro comercial, extensa em território e em demografia, e o que a realmente tornava um polo de popularidade: estava longe o suficiente de Paris, da costa, e de qualquer fronteira, para não ter nenhuma importância militar ou política. A periferia podia ser caótica, mas as condições sociais e humanas melhoravam conforme avançava-se para o centro. Pena que Matt e Mello não tiveram a chance de alcançarem esse centro e descobrirem por si mesmos tal verdade.
Tinham conseguido se virar de algum jeito até ali, mas se quisessem alcançar a Suíça em condições minimamente humanas, teriam que arranjar algum dinheiro antes de continuar viagem. E era óbvio que não podiam se arriscar no centro da cidade.
— Mello – Matt chamou a atenção do loiro, parando antes de terminarem de andar pela rua pouco movimentada. Tinha tido sua atenção capturada por um conjunto de letras grandes em vermelho, e agora olhava melhor para o panfleto aparentemente recente de “Procura-se ajudantes” pregado na parede semidescascada de um restaurante/bar/lanchonete. Não sabiam definir o que era de fato.
Aquilo devia servir.
Mello arrancou o panfleto da parede e com ele em mãos entrou pela porta de madeira que havia ao lado.
O estabelecimento estava vazio, e aquele não era exatamente o lugar... Bem, o lugar que alguém em sã consciência escolheria para fazer suas refeições. Não se tivesse uma escolha melhor, pelo menos, porque piores com certeza tinham...
Mas enfim. Eles entraram e, olhando ao redor com certo receio, dirigiram-se até o balcão de cor marrom localizado próximo à parede exatamente à esquerda da porta. Não tinha ninguém ali também.
Havia algumas garrafas de bebida dispostas em apoios de madeira na parede. O restante das bebidas (se houvesse algum “restante”) devia estar guardado embaixo do balcão. Talvez o lugar fosse realmente um bar.
De restante, tinha várias medianas mesas quadradas e escurecidas pelo tempo e pelo uso, com quatro cadeiras em igual estado cada, e alguns quadros grotescos pendurados aleatoriamente nas paredes, um ou outro ameaçando se desprender e sujar ainda mais aquele chão.
Espere... Aquilo era mesmo um bar? Ou seria uma espécie de restaurante? Uma passagem semiaberta em um ponto atrás do balcão podia ser visto, assim como uma placa acinzentada logo acima onde podia-se ler “Cuisine” (cozinha), e uma aparente lista dos pratos do dia pregada ao lado. Bem, quem sabe os dois...
— Se vieram aqui roubar, desculpem, mas vieram no horário errado. Voltem na hora do almoço se quiserem encontrar algo – uma voz feminina, com uma melodia ligeiramente forçada embutida, falou em francês, fazendo os dois se sobressaltarem e virarem abruptamente para a figura desconhecida. Mulher esta que saíra, sem dar qualquer sinal prévio de sua presença, da passagem com o nome “cozinha” que olhavam até um instante atrás.
O que chamou a atenção de imediato foi a expressiva maquiagem que tentava fracassadamente esconder a idade daquela que a usava. Provavelmente era apenas uma quarentona, com cabelos castanho-claros longos e mal-cuidados, mas o cigarro que ela mantinha na boca vermelha adicionava mais dez anos à sua aparência, no mínimo.
Suas bochechas magras exibiam o contorno do crânio e logo acima no canto externo dos olhos, as rugas se arrastavam em direção às têmporas. Mais dessas se desenhavam ao longo dos braços descobertos até alcançar as unhas vermelhas dos dedos calejados.
Roxanne Bergerac não se importava em mostrar os joelhos ou o colo, até porque, ela era a mulher mais comportada daquele bar. Sim, era um bar. Em parte.
Mello apenas ergueu o papel que segurava e esperou uma reação.
A mulher olhou-os de cima a baixo, analisando-os minuciosamente, até que tirou o cigarro semi-consumido da boca, segurando-o entre o médio e o indicador, e dizer com um tom temperado do que eles podiam jurar que era... Deboche.
— Ajudantes? Hm, vejamos... Nomes? — se eles não precisassem tanto ganhar dinheiro o mais rápido possível (e se não fossem tão absurdamente teimosos em admitir a desistência que fosse), certamente já teriam se virado e ido para bem longe dali. Não gostavam nem um pouco daquele olhar analítico da mulher, nem um pouco...
-... — Mail tentou pensar rápido em algum sobrenome para usar, mas o único que lhe veio à mente foi... — Matt... Faerie.
E engolindo o desgosto de juntar um nome francês ao seu próprio, Mihael fez o mesmo — Mello Faerie.
— Parentes? — Roxanne ergueu uma sobrancelha.
— Primos — tinham cometido um pequeno deslize, certo. Se sentiram imediatamente idiotas quando perceberam, certo de novo. Mas não seriam estúpidos a ponto de inventar que eram irmãos.
— Hm... Idade?
— Vinte e um — os dois responderam ao mesm tempo. Era óbvio que principalmente em um período de guerra como esse no qual eles se encontravam, ainda mais no país onde eles estavam, um interrogatório mínimo desses era a única atitude sensata a se tomar, mas Mello simplesmente não conseguia evitar de se irritar com a enrolação. Para ele era tudo uma questão da mulher perguntar "Começa quando?" e dele dar como resposta "Paga quanto?" e pronto.
— E esse sotaque? — a mulher fez a pergunta esperada, mas em um tom como se o fato de dois homens com suposto sobrenome francês e forte sotaque alemão não tivesse nenhuma relevância.
Os dois gelaram.
— Nós morávamos na Alemanha até o início da guerra, mas... — Mihael teve o cuidado de baixar o nível de voz e desviar o olhar do da mulher, simulando a hesitação em finalizar a frase e esperando que sua pouco habilidade de atuação não ficasse muito evidente.
Usando as compridas mechas ruivas que caíam sobre seu rosto, para encobrí-lo parcialmente ao abaixar a cabeça, Mail buscou dar um ar de dor contida convincente às suas palavras — Nós fomos... Perseguidos. Conseguimos fugir de alguma forma, mas agora...
— Precisamos de dinheiro.
Claro que se eles soubessem que qualquer história, por mais convincente ou ridícula que fosse, pouco interessava à mulher, eles não teriam se sentido a pontada de satisfação que sentiram quando ela enfim voltou a falar, dando a volta no balcão e lhes estendendo uma das mãos.
— Não sei quanto vocês pretendiam ganhar aqui, mas não ofereço mais que 100 francos.
Os alemães trocaram rápidos olhares de dúvida, mas apertaram a mão oferecida. Não tinham escolha mesmo.
— Estejam aqui às seis da tarde em ponto.
Notas finais
Confesso que desta vez a culpa foi toda minha, desculpem ó_ò Eu fiquei doente, e digitar acabou se tornando uma tarefa que exigia muita energia Kkkk
E... Nhaaaaaw, não sei nem como dizer o quanto eu fiquei feliz por vocês ainda lerem essa fic *///////////////////* Sério, vocês são muito lindos! (por não nos xingarem também Kkk)
E Kalhens, mais uma vez, muito obrigada pela recomendação diva *¬*
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