Tempos de Guerra

9 Humilhação? Apelido


— Tratamento especial para os sargentos — os soldados americanos que guiavam Matt e Mello falaram em um inglês carregado, com um sorriso debochado, ao praticamente jogar os dois no chão de terra do que seria a "moradia" deles pelos próximos dias.

— DROGA!!! — Mello gritou a todo pulmão, dissipando sua voz por uma enorme área, vibrando em todo material rígido que encontrava pelo caminho.

— Shut the fuck up! — um dos soldados gritou de volta, ameaçando-o com uma arma apontada para sua cabeça.

Não era nem um pouco surpreendente para Matt nem para Mello, principalmente, que este odiava como ninguém sentir-se impotente, mas aquilo era o cúmulo da humilhação.

Capturados... Eles, os poderosos alemães... Capturados pelos ALIADOS!

— Por que, Deus, por quê?! — Mello andava e bufava, levantando poeira ao desenhar um quase perfeito círculo com seus passos no chão de terra.

Como era costume, ao estar decidido o lado vencedor, uma "prisão" improvisada era construída próxima ao local onde se havia realizado a batalha, e lá eram jogados aqueles do lado perdedor que aceitassem a derrota e se rendessem. Aquele que oferecesse resistência era morto sem qualquer hesitação.

E esta "prisão" em questão, nada mais era do que uma grande área em céu aberto, cercada e fechada por altas cercas, que mesmo de improviso foram muito bem feitas, envolvidas por arame farpado e também por soldados postados em todo o seu perímetro. Contudo, os demais soldados rendidos foram postos presos em simples barracas de lona verde no mesmo terreno, minimizando crucialmente o espaço de locomoção dos sargentos.

Matt decidiu preservar sua reserva de energia e sentou-se no cão, com as pernas separadas, joelhos dobrados e cotovelos apoiados nestes. Inspirou fundo, porém se arrependeu no mesmo instante que a terra levantada por Mello entrou por suas vias nazais. Ele tossiu como se estivesse cuspindo areia, e isso bizarramente o lembrou a sua primeira tragada, logo, lembrou-o infelizmente também de que estava e estaria sem cigarros por um longo tempo...

"Eu só queria um cigarro agora. Deus, o que eu não daria por um cigarro... Apenas um já seria o suficiente para me sentir melhor nessa droga de situação. Apenas um... Droga, eu deveria ter colocado pelo menos um maço no meu bolso..."

- Porra! Não é possível que a merda do exército americano tenha NOS prendido! Por favor, somos os soldados de Hitler, isso é inadmissível! — Mello resmungava quase sem se fazer entender, inquieto como sempre foi, perambulando pelo espaço que lhe for delimitado.

"Eu não acredito nisso, vamos mesmo acabar desse jeito? Mas nada realmente têm dado certo desde que Otto morreu... Eu ainda não me conformo com a morte dele... E agora é nossa vez? Ahh, como um cigarro ajudaria agora..."

— Ah, se eu tivesse uma arma... Com munição. Esses desgraçados iam ver só! Eu nem prenderia eles, atiraria olhando dentro dos seus olhos. Só uma arma... — Mello continuava.

"Que falta aquele cheiro de nicotina me faz... Se eu pudesse dar uma última tragada antes de morrer... Mal posso acreditar! Droga, por que eu não nasci na Suíça? Eu tinha mesmo que me enfiar nessa merda toda? E agora vou morrer provavelmente com um tiro na cabeça E sem nenhum cigarro na boca..."

— Esses malditos Yankees com essa água suja que eles chamam de Coke! Nome tão idiota quanto eles! Se eu ainda estivesse naquele campo de batalha com munição suficiente, não sobraria um único americado nojento para...

"Eu estou ficando cansado disso tudo. Lutar, lutar, lutar. E mesmo depois de ver tantos companheiros morrerem, nós perdemos. E a falta de nicotina no meu corpo não está ajudando... E bem que o Mello podia parar um pouco de..."

— É só me dar a chance. Uma chance e eu mostro do que um verdadeiro alemão é feito. Eles iam...

— CALA A BOCA!! — Mello foi brutalmente interrompido pela exclamação de Matt. Talvez "exclamação" seja um termo gentil demais, mas enfim.

E Mello realmente se calou.A marca de seus passos ficaram no chão, mas ele não mais andava em círculos. Apenas encarava Matt, chocado.

— Quer parar com isso?! — Matt levantou do chão, gesticulando furiosamente os braços — Você acha que eu queria estar aqui?! Porra! — o ruivo não gritava, mas sua voz estava tão grave e sua expressão tão furiosa no momento, as mechas vermelhas sujas balançando ao ritmo de sua raiva e uma veia destacando-se em sua pele clara, que qualquer elevação do tom de voz era completamente desnecessário — Eu não queria que nós estivéssemos nessa merda toda! Aliás, a princípio não era nem para VOCÊ estar aqui! Merda, eu falei para você não vir, mas vocÊ me escutou? Lógico que não! Mas agora nós estamos presos nessa porcaria de campo cercado por esses idiotas americanos e ingleses arrogantes que nunca teriam conseguido vencer se os números fossem justos, então será que você pode parar de reclamar e CALAR A BOCA?!

Mello sentiu uma dúzia de respostas grosseiras formarem-se em sua garganta, mas por algum milagre conseguiu refreá-las antes que saíssem, lembrando do motivo da última vez que o ruivo tinha dado um ataque desses.

— Há quanto tempo você não fuma? — o loiro perguntou, ainda sentindo dificuldade em engolir o rebate.

— Não mude de assunto!

Não era preciso mais nada para confirmar que estava certo. Crise de abstinência. Sempre irritante, cansativa, e barulhenta.

E os soldados americanos apenas encaravam os sargentos, totalmente perdidos no labirinto de palavras alemãs.

~x~

Diferente de habitantes das zonas tropicais do globo, que estão acostumados com o calor durante todo o ano e com chuvas abundantes no verão, os europeus sofriam nos meses de Junho, Julho e Agosto.

O sol chicoteava com ruindade o norte da França, forçando as folhas caducas a brilharem e expelirem a cor verde. Todo o descampado de terra levantava suas partículas e bom centímetros do chão, sugando, eliminando qualquer resquício de umidade no ar.

Sorte a dos soldados presos naquelas barracas desgraçadas. Sorte a deles que não tinham seus couros cabeludos esquentados pelo maldoso astro até o ponto de ardência; não tinham que deitar no chão escaldante e respirar diretamente aquele ar terroso — rapidamente inspiravam e lentamente expiravam para adiarem o esforço de ter que inspirar novamente -; não tinham seus lábios e olhos secos como a pele de um maldito lagarto. Não importava se eles estavam amarrados, amordaçados, machucados e provavelmente passando fome e sede. Os soldados ainda tinham sorte de ao menos ter uma cobertura sobre suas cabeças. Sorte.

Os sargentos não comiam nada decente há dias. Corrigindo: Mello não comia nada que não fosse um caldo insosso (que seus cárceres ousavam chamar de sopa) há praticamente dois dias, e Matt não comia nada há praticamente dois dias. A abstinência de nicotina começava a fazer seus efeitos no organismo do ruivo. Efeitos nem um pouco agradáveis, como os causados pela falta de qualquer outra droga. Mau humor, ainda presente. Mal-estar, idem.

— Aproveitando a estadia? — uma sombra foi projetada sobre os dois, e mesmo sem ver a quem ela pertencia, podiam "ouvir" o sorriso cínico na fala em inglês pronunciada pela voz carregada de arrogância.

Por causa do entardecer arrastado e manco, uma turva luz laranja revelava os traços do Tenente-coronel americano. Um clássico red-necker de Wyoming.

Seus coturnos negros acabavam de se sujar com a terra do campo de confinamento e se estendiam até um palmo abaixo dos joelhos. Estes, assim como o resto de suas pernas estavam cobertos pelas calças verdes-musgo, mesma cor do casaco que se punha sobre toda a roupa e que era preso por um largo cinto preto. Claro que as patentes no peito reluziam os feixes de luz vermelhos enviados pelo cair do dia e essa imagem esmagava aindamais o orgulho de Matt e Mello — seus uniformes não prestavam mais nem para pano de chão. Do lado direito, a pior piada de mau gosto do ano estava impressa em baixo relevo: Light, dizia a pequena placa prateada.

O rosto do homem não era visível sob a sombra do quepe, que deixava nda mais do que o sorriso cínico, como tinham imaginado, à vista. Sua imagem como um todo passava a eles uma sensação ruim. A situação toda era ruim, oras!

— Vocês não fazem ideia do quanto esta visão me é prazeirosa — o oficial falou, carregando cada palavra com uma note de superioridade e desprezo.

E ele tirou o quepe; tirou o quepe e revelou o resto de seu rosto. Fios castanhos cuidadosamente penteados para trás emolduravam o rosto jovem e alguns poucos eram deixados soltos por sobre os olhos. Olhos de mesma cor de seu cabelo e mesma intensidade de sua voz.

— Vistam isso — Light jogou um amontoado de panos cinzas no chão em frente aos dois — Andem logo — ordenou ao não ver nenhum movimento.

Sem muita escolha, Matt e Mello esticaram os braços devagar e pegaram as roupas acizentadas. Encararam as camisetas e as calças feitas daquele pano que parecia desmanchável sob água e olharam em volta: todos, absolutamente todos os homens dali os observavam.

— Vocês são surdos ou burros?! — se já não bastasse ver as insígnias no peito daquele yankee nojento, agora os dois sentiam na pele como era receber ordens e gritos, assim como na época que eram simples... Soldados — Não seria surpresa se o "Exército" — disse Light, irônico — alemão esteja colocando mentalmente incapacitados nas patentes promovidas... Vistam essa porra agora!!

Totalmente perplexos, Keehl e Jeevas se viram sem saída; teriam que despir-se ali mesmo. O primeiro começou pelo último botão do casaco morrom, sujo e em farrapos, desabotoando-o com tanta força desnecessária que poderia rasgar o tecido a qualquer momento. Já Matt decidiu que se era para fazer aquilo, que fosse rápido. Fez o curso de cima para baixo, mais rápido que Mello, e jogou o casaco no chão. Amobs encaravam Light com ódio nos olhos claros.

Mello nem sabia de onde vinha tanto auto-controle para impedí-lo de (tentar) quebrar dente por dente daquele sorrisinho medíocre daquele maldito americano folgado!

Matt puxou sua regata para cima, pelas bordas, e a jogou com força no chão. O loiro o imitou, livrando-se de sua camiseta com mais ferocidade ainda.

Conforme seus dedos tocavam e abriam a braguilha do cinto, suas gargantas se fechavam e ficava difícil engolir a saliva. O cinto caiu e as calças foram soltas, tudo sob o olhar de deboche do oficial, olhar este que durou só até ele enquadrar em sua cisão a marca no lado esquerdo do tórax deles.

Aquela suástica cicatrizada no peito peito branco de dois alemães era a perfeita imagem nauseante que Light fora obrigado a odiar. Aquele era o símbolo de sua dor, seu ódio. Era a marca da guerra, e os alemães deviam sofrer por portá-la em cima do coração.

As botas foram desamarradas e os pés doeram ao tocar a terra avermelhada e quente. Mihael e Mail flexionaram suas pernas, tão contrastantes com o ambiente ao redor, para pegarem suas "novas" roupas, mas...

— Tudo — sentenciou o homem.

Eles não conseguiram evitar que seus queixos caíssem levemente, tampouco conter a expressão de indignação e revolta, mas afinal, não podiam fazer nada. A não ser que não se importassem de ser alvejados, não podiam fazer nada.

Mello, entretanto, exaltou-se o máximo possível: exibiu-se de uma vez, irritadiço ao ponto de deizar sua pele rosada. Chutou a peça íntima para o lado e abriu os dois braços, chamando ainda mais atenção para "si" e lançando um olhar desafiador à Light, com o nariz erguido apesar dos pesares, como se estivesse "orgulhoso".

Matt — que terminava de tirar sua última peça, sem a mesma rapidez decidida de antes — encarou descrente o loiro, a pergunta "Mas que diabos você está fazendo?!" estampada em seu rosto.

Até que viu a expressão de Light.

O homem ostentava uma expressão avaliativa e... Aprovadora?!

Mail precisou se controlar ao máximo para se manter no lugar. Aparentemente Mello não havia se dado conta do olhar de Light, mas ele sim. Seu humor já não estava muito... "Controlável", e agora com isso então! Tentou esconder sua careta de fúria abaixando-se e pegando enfim as roupas, tomando as palavras de Mello como suas em pensamento. "Se eu apenas tivesse uma arma...".

Já estavam totalmente vestidos quando o tenente-coronel voltou a falar. E eles aguardavem com ídio o que viria a seguir...

— Alemães são bem orgulhosos, não são, seus nazistas nojentos?

O por quê de tanto ódio? Simples.Light havia perdido pessoas muito queridas no processo de expansão nazista, e essas perdas o transformaram totalmente; de bom e próspero filho maia velho de uma família relativamente bem garantida financeira e socialmente para tenente-coronel sério e sem misericórdia do exército americano era uma transformação e tanto. Mas o que fez ficar assim não possui tanta importância. O que importava era que ele odiava os nazistas do fundo de sua essência, e agora que tinha dois deles, dois sargentos nazistas, em suas mãos... Bom, explicações são desnecessárias, certo?

— Vocês fazem todo aquele discurso sobre superioridade — Light continuava — como se vocês realmente fossem "algo" — seu olhar continha ódio, continha desprezo, e um sorriso repuxou seus lábios ao ter uma súbita ideia atravassando sua mente — Pelo que eu me lembre, vocês condenam muitas coisas como se fossem os senhores supremos da razão, não é? Entre elas... A homossexualidade? — ergueu uma sombrancelha — Pois bem. Então se beijem. Agora.

Lgiht cruzou os braços, esperando.

O frio subiu-lhes pela espinha junto com a surpresa. Se... Beijarem? Se não fossem... "Eles", isso com certeza seria o pico da humilhação e vergonha, e essa era descaradamente a intenção do oficial. Mas mesmo assim, mesmo que se beijarem não fosse exatamente um sacrifício para Matt e Mello, se beijarem na frente dos soldados americanos, na frente daquele homem, era, para dizer o mínimo, expositivo demais.

— O que estão esperando? Vão logo — Light alargou o sorriso.

Os dois se encararam com apreensão mútua, e novamente sem escolha alguma, obedeceram. Precisavam ficar vivos e inteiros para ao menos poderem ter esperanças de tempos melhores, e para ficarem vivos e inteiros, a ação mais óbvia era obedecer àquele homem. Por hora.

E também, cada um deles pensava além de em si mesmo, no outro. Mail suportaria o que fosse para manter Mihael vivo, e Mihael não aceitaria deixar Mail morrer.

Matt e Mello, as pernas de repente duras e pesadas, aproximaram-se um do outro devagar, hesitantes. Tentaram montar a mais convincente expressão de repulsa que conseguiam ao estarem bem próximos, mas na verdade seus olhos despejavam de uma maneira que só eles entendiam, inúmeros pedidos de controle e, até mesmo, desculpas.

Selaram os lábios. Secos, e no momento, urgentes. Os dois estavam fracos, doloridos, com o ego intensamente machucado, e desejosos. Posteriormente, poderiam se orgulhar pela grande força de vontade que detiveram ao conseguirem limitar aquele ato que lhes parecia tão necessitadamente ser aprofundado, em um único, simples e rápido colar de lábios. Um selinho, para quem preferir.

Mail fechou os olhos, assim como Mihael fechou seus punhos, com idêntico intuito de manter a mente clara e se controlarem. Tentavam se manter sob controle, mas na visão de Light, realmente parecia que aquela reação era fruto do nojo. Cego, e nem sabia.

— Chamam isso de beijo? — Light debochou quando os sargentos afastaram-se tão rápido quanto o beijo — Mas tudo bem — disse por fim e se aproximou do ruivo, segurando seu braço com força — Agora, você vem comigo.

— O QUÊ?! — Mello exclamou, instintivamente agarrando com o máximo de força que ocnseguia impor, o braço livre de Light, tentando impedí-lode levar Matt.

— Solte-me. Agora — o tenente-coronel lhe lançou um olhar medonho, ameaçador.

E Mello soltou.

Não pelo olhar de Light, claro, mas sim pelo de Matt. Era como se disesse "Fique quieto aí e não faça idiota, por favor". Talvez uma exclamação no lugar do "por favor" fosse o mais correto, mas o que importa é que as entrelinhas do olhar de Mail diziam que, no estado subjugado no qual se encontravam, nenhum deles podia fazer nada para impedir Light. E Mihael sabia disso.

E foi isso o que o fez soltar o outro e deixar o braço pendendo ao lado do corpo.

E Light levou Matt.

Notas finais
Guardian: quando bebês ainda, os alemães, sem exceção, recebiam uma queimadura em forma da suástica no peito, em cima do coração. O ferro quente marcava a pele e a cicatriz da cruz ficava lá bem destacada no peito deles, para ostentar a ideologia de superioridade da pátria
Eh... Se gostaram (ou não) do Mello "orgulhoso" ao se mostrar, os créditos são da Bee xD (o beijo fui eu). E fãs do Raito, essa é a versão Kira, ok?
É isso. E então?:3