Tempos de Guerra
10 Quiz
Notas iniciais
- Seja bem-vindo ao tratamento especial para nazistas de patente mediana – naquele quarto frio e precariamente iluminado, a voz do tenente-coronel ecoava com grande intensidade. Era como se ele nunca se cansasse de minimizar o título de Jeevas e Keehl – Hoje teremos um típico jogo americano – Light enchia a boca para falar a pátria – Eu pergunto e você responde – finalizou a fala com um breve risinho, empurrando Matt contra a parede da casa afastada do pobre vilarejo ribeirinho que fora evacuado pelos Aliados.
Matt, algemado, fora escoltado por cinco dos doze responsáveis pela vigilância dos prisioneiros da Normandia até o local mencionado. Andou uns bons metros ao lado de pistolas calibre 12 para ser “interrogado”, como descobriu então.
O ruivo nada disse além de um gemido surdo devido ao impacto com a parede. Ainda assim ergueu seus olhos verdes para um de seus piores pesadelos e desafiou-o ao fazer suas íris coloridas brilharem com o fogo do seu ódio por ele.
— Para garantir sua participação integral na nossa... – pausou teatralmente, dando a entender que procurava a palavra adequada, e agachou para ver o rosto do alemão – Brincadeira – sorriu de lado -, eu convidei dois amigos. Espero que não se importe – e dois dos soldados com melhor preparo físico que Light tinha (lê-se: os dois maiores brutamontes que conseguiu encontrar) entraram pela mesma porta que eles há alguns instantes.
— Primeira pergunta: ouvitos certos rumores a respeito dos judeus que vivem na Alemanha e nos territórios conquistados por ela. O que vocês fazem com eles? – para ele, aquela pergunta não era tão urgente, mas apenas o fruto de sua curiosidade. E gostava da sensação de poder exigir que aquele alemão respondesse algo.
Mas Matt não respondeu. Light esperou, e não recebeu nada além da indiferença do sargento. Não gostou disso.
— Acho que você não entendeu muito bem as regras do “quiz” – levantou-se, segurando as mãos atrás do corpo e se afastou do prisioneiro – Geller, Green, expliquem para ele.
Matt mal teve tempo de ver os dois se aproximarem a largos e poucos passos; logo seu rosto foi atingido em cheio pelo punho potente do primeiro, fazendo-o cair para o lado.
— Light pergunta... – disse este, com a voz grossa e mecânica.
— Você responde – e antes que Mail pudesse sentir direito o gosto do sangue que jorrava de seu lábio, recebeu um chute no estômago, cuspindo o líquido vermelho involuntariamente.
— Chega, vou tentar de novo – os dois se afastaram de Matt ao ouvir o comando de Light – O que é que Hitler tem contra os judeus? Quero dizer, se fosse com os “africanos”, eu até entenderia, mas... – Light fora criado em um dos Estado “do Sul” dos Estados Unidos, e desde que nascera fora ensinado a viver na ignorância do preconceito pós-escravista – Judeus?
Matt tentou inflar seus pulmões com o tão necessitado ar, mas apenas conseguiu cuspir mais uma vez o sangue acumulado em sua boca. Light esperou até que o ruivo conseguisse respirar, aguardando uma resposta.
E sem querer outra “explicação” dos “gentis” armários Geller e Green, Matt respondeu.
— Aqueles ratos tiram o emprego do povo almão – falou com a voz saindo arranhada – Tiram o dinheiro do povo alemão e nos tratam como cachorros em nossa própria casa.
Apenas repetia o que ouvira durante tanto tempo, o que seus superiores e compatriotas afirmavam veementemente sempre que a oportunidade surgia. Pessoalmente, não tinha tanto ódio assim pelos judeus. Se lhe fosse ordenado extreminar algum grupo deles, os matava sem problema, mas não sentia exatamente prazer nem como se estivesse realizando a tão falada “limpeza” ao fazer isso. Odiava muito mais os fraceses, para falar a verdade. E os americanos também, agora.
Light riu.
— Tudo bem, vocês vivem com essa teoria sem fundamento e realmente acreditam nela. Mas será que não conseguem ver que os culpados pelo quer que seja, não é do judeus, e sim da imcompetência e inutilidade alemã?
Não... Aquilo era demais!
Matt teria mordido seu lábio para impedir-se de falar, mas a expressão de Light ao ouvir as palavras do ruivo fazia vale a pena o chute que as seguiria – Pelo visto hipocrisisa e arrogância sem base são os quesitos básicos para ser um medíocre americano, não?
Matt falou.
Uma expressão de incredualidade, fúria e orgulho ferido tomou conta da antes debochada face de Light.
E Green acertou com o pé o braço direito de Mail.
A troca de ofensas era acirrada, mas ao contrário do entrave verbal, o físico era praticado por um único lado.
Parecia que nenhum ponto do corpo de Matt fora poupado; mal era atingido no estômago e esmurravam-no a face. Não havia tempo nem para reclamar minimamente da surra.
Até que ela cessou.
E quando cessou, alguns poucos raios lunares incidiam pelas frestas das tábuas de madeira que lacravam as janelas do quarto, iluminando algumas opucas partes do corpo maltratado do ruivo. Mail repousava sofrivelmente no chão; os braços, com o início dos hematomas adquiridos, ainda presos atrás do corpo, e as mechas ruivas cobrindo parte do rosto agora preenchido por sangue quase seco.
Doía. Muito.
Mas...
Matt não mais enxergava os homens à sua frente; planava incertamente entre a realidade e a alucinação, seu corpo ignorava a fome, sede, náusea e aos poucos, até mesmo a dor. Conseguia ouvir claramente um pedido em seu cérebro, um pedido por aquilo que aliviaria toda a dor por mais tempo. Ótimo, mais um efeito de tanto tempo sem a porcaria da nicotina.
Não alucinava totalmente, mas via imagens disformes e cores que tinha certeza que não estavam lá de verdade. Sabia quem era e onde estava, entretanto a área pedinte de sua mente o impedia de se localizar completamente no tempo e no espaço.
— Wake up! – Matt foi brutalmente “despertado” com a ponta do coturno do tenente-coronel novamente em seu braço direito – Qual o seu problema?! – perguntou segurando o ruivo e o elevando do chão pela camiseta.
E mais uma vez Matt permaneceu calado. Mais por não poder mexer nem ao menos a língua do que por qualquer outra coisa.
Tentava não se mostrar intimidado diante daquele homem, e mesmo que não estivesse obtendo um grande sucesso nisso até o momento, tonrnou-se completamente inviável ao sentir o tão conhecido cheiro de tabaco invadir o quarto. Um gemido saudoso escapou de seus lábios secos e rachados antes que ele pudesse refrear o som.
Matt olhou em volta ansioso, procurando com os olhos já acostumados com a escuridão, a fonte daquele odor, e identificou-o em um dos cantos do recinto, entre os grossos dedos de Geller. Bater em alguém exigia energia, e após tanto trabalho duro, um cigarro era mais do que merecedor.
Light identificou-o praticamente ao mesmto tempo que o ruivo, e começou logo a repreender o soldado.
— Geller! Eu já mandei você não acender essa coisa perto de... – parou com um lampejo de esclarecimento atravessando sua expressão, ao olhar uma vez mais para Sargento Jeevas – Venha cá, Geller.
— Senhor? – Geller aproximou-se obediente, ainda que incerto pela súbita mudança, matendo o cigarro entre seus dedos.
Light estendeu a mão pedindo pelo objeto e o soldado – cada vez mais confuso – entregou-o.
— Você quer isso, não quer? – o tenente-coronel perguntou cinicamente, abaixando-se para ficar na mesma altura do ruivo – Eu fiz uma pergunta, nazista! – exclamou, pressionando a ponta quente com força no colo do sargento.
— AHH!! – Matt não conseguiu conter o grito de dor ao sentir sua pele arder intensamente.
~x~
De volta ao lar – Lught falou ao jogar Matt no chão, de volta ao espaço que dividia com Mello. Este que encarou o oficial americano com o mais profundo ódio ao vislumbrar a expressão e o estado do ruivo – E você será o próximo – o homem disse com um sorriso falso dirigido ao loiro, antes de se afastar.
— O que ele fez?! – Mello perguntou baixo e apressado, agachando na frente do outro – FILHO DA PUTA!! – não conseguiu não gritar com toda sua voz ao visualizar a queimadura que Matt fracamente tentava esconder.
— Mello... – Matt chamou, sem forças suficientes para nada mais do que isso – Eu estou considerando seriamente parar de fumar... – ora, se uma desintoxicação forçada não faz uam pessoa considerar isso, nada mais eficiente do que uma queimadura com o objeto de vício para fazer.
Mello não falou nada, ele não sabia o que falar. Matt simplesmente se deixou cair de lado no chão e assim permaneceu por um bom tempo, exausto.
— Mail... – Mihael sussurrou, mais para si mesmo do que chamando o outro. Não aguentava vê-lo daquele jeito, mas não conseguia desviar o olhar.
O manto da noite esteve presente desde antes de Light trazer Matt de volta, e na quietude escura, com tudo o que estava acontecendo, o sentimento de opressão apenas intensificava-se.
Mail permanecia deitado de lado no chão de terra, ainda parcialmente aquecido pelo sol do dia, sem ânimo algum para tentar qualquer movimento.
A angústia e impotência de Mello dançavam e zombavam dele em sua frente, em cima do corpo derrotado de Matt. Vê-lo daquele jeito era inédito e assombrosamente doloroso.
Mas aquilo não ficaria assim. Não mesmo.
A vontade que tinha era a de chegar perto de Matt, ficar próximo à ele, mas ele podia fazer isso? Claro que não! Como poderia demonstrar a preocupação que o corroía por dentro na frente dos soldados americanos que não deixavam de observá-los?! Odiava aquilo! Odiava aquela situação, odiava ter perdido, pdiava estar preso, odiava que Matt estivesse ali também, odiava aquele americano nojento! Era muito ódio para pouca paicência. Mas teria que esperar...
Matt, por sua vez, ficava boiando no campo da semiconsciência, com os olhos semicerrados encarando o nada. Ele não estava bem, óbvio que não estava.
Mas estava vivo.
E apesar das circunstâncias, apesar do estado em que se encontrava, apesar de tudo, ele ainda agradecia por estar vivo. Porque, por mais difícil que fosse viver daquela maneira, ele tinha um motivo para querer continuar vivendo. Um “motivo” barulhente, irritadiço e imprevisível.
As horas passaram-se lentamente, e quando o sol novamente surgiu, veio acompanhado por outra figura que os dois sargentos instintivamente associaram à mais dor e humilhação. Era inevitável, ao visualizar a farda de um verde mais claro do que a de Light, com as honrarias e a pequena placa prateada revelando sua patente e codinome: Coronel Beyond.
Pior do que estarem presos sob as mãos de um tenente-coronel americano, era quando um coronel britâncio se juntava à merda toda.
Um pouco antes um soldado havia trazido dois copos d’àgua para os dois prisioneiros, um para cada um, os quais foram tomados quase de uma vez só. Três copos de água por dia e nem um gole a mais. Se o sol não oferecesse o risco de matá-los por desidratação, seriam apenas dois. E após beber a água, Matt e Mello voltaram a deitar no chão, com a mente e a vista longe.
Até que o coronel britânico apareceu.
As incidências de raios do sol nascente erguiam-se devagar, despreocupados, refletindo nos olhos do coronel. Acharam que era uma impressão causada pelo calor e pela fome, mas as íris daquele britânico tingiram-se, por um breve momento, de um tom de vermelho raro, porém muito amigo da guerra. Vermelho sangue.
Estes mesmos globos não conseguiam focar em apenas um dos sargentos; eram psicoticamente frenéticos, movimentavam-se e alimentavam o desespero e o alerta de perigo nos alemães.
Suas respirações pausaram com as primeiras palavras carregadas do sotaque original da língua inglesa.
— Vocês parecem mais ofrtes quando estão fardados – seu sorriso não era igual ao de Light; era pior. A expressão de Light ao debochar deles incitava o ódio, a raiva; a de Beyond lhes causava uma sensação de frio no estômago. Talvez o surativo no pescoço dele, que deveria ter sido fatal, tenha ajudado nisso. Se um golpe no pescoço não o matara, o que mataria? – Palhaços nunca são palhaços sem suas fantasias.
Novamente eles tiveram que engolir o orgulho cada vez mais em frangalhos, quase atolado em suas gargantas. Depois condenavam os alemães por matarem seus prisioneiros de guerra! Pelo menos eles poupavam seus prisioneiros desse tipo de humilhação!... Na maioria das vezes.
— Hum... Você – Beyond apontou para Mihael – Vamos dar uma volta, meu caro alemão.
“Merda”.
Notas finais
Gente, um FELIZ ANO NOVO para todos vocês!!! Espero que esse ano seja ótimo para vocês *-----* E, bom, continuaremos juntos com os dois nazistas, certo? :3
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