Os dois avançavam penosamente pela espaçada vegetação, tentando correr o mais rápido que conseguiam; velocidade que no momento não quebraria nenhum record. Era difícil. É claro que era difícil! Afinal, ambos não tinham praticamente nada em seu estômago, estavam à beira da desidratação após todo aquele esforço, além de psicologicamente e fisicamente quase alcançando o limite.

Mihael movia sua perna esquerda com crescente dificuldade, esforçando-se ao máximo para manter o ritmo, apesar da dor que parecia crescer a cada minuto. Ele mal podia conter a vontade de gritar de dor, mas aliviava-se parcamente com gemidos abafados nas poucas vezes que pausava por um momento para respirar.

Eles avanaçavam pelas caducifólias francesas seguindo sempre o mesmo sentido: para frente. Conforme as horas lentamente passavam, conforme a noite avançava,, a noção de espaço esvaía de ambos, deixando-os numa espécie de estado de dormência cerebral. Nem sabiam mais por que andavam, acabou tornando-se uma ação automática; só sabiam que tinham que ir para longe.

Uma faixa vermelha começou a se erguer no Oriente, para onde o subconsciente deles obrigava as pernas cansadas a correr. Porém, uma leve silhueta de casas – não que Matt ou Mello tenham reconhecido – rurais e espaçadas entre si começou a se fazer visível mais à frente também.

Estavam próximos a uma delas quando todas as controvérsias, tanto físicas quanto mentais, finalmente tiveram sua vitória. Eles caíram.


~x~


Quando Mail recobrou a consciência, demorou um pouco para se dar conta de que suas pernas permaneciam em repouso. E mais: que estava deitado em algo quente e macio.

Tentou abrir os olhos, mas estes recusaram-se a obedecer o comando, sensíveis à luz. Excluindo o fato de que suas pálpebras, assim como todo o resto de seu corpo, pareciam pesar muito. Depois de algumas tentativas conseguiu, e ao olhar ao redor, sua confusão chegava a ser quase palpável. O “algo” quente e macio era uma estreita cama de solteiro, e apesar de ainda estar usando as mesmas roupas sujas e maltrapilhas das quais se lembrava, seu corpo definitivamente estava em condições piores antes do que no momento. Ainda se sentia horrível, claro, mas estava mais... Suportável, por assim dizer.

Onde estava? Como acabou parando ali? E o mais importante: onde estava Mello?!

Mais do que nunca sua garganta estava seca e sentia o seu corpo sem forças, mas ainda assim tentou usar seus antebraços para se erguer da cama e levantar.

Não conseguiu.

Então tentou de novo.

Mas um barulho o fez paralisar no ato.

Pareciam ser... Vozes? Sim, com certeza eram vozes. O primeiro pensamento que atravessou sua mente foi o de que tinham sido encontrados e novamente presos pelos Aliados, tanto porque as circunstâncias que proporcionaram a fuga já eram suspeitas o suficiente para fazê-lo pensar ser tudo uma cruel brincadeira. E era mesmo, mas não tinha como ele saber com certeza disso no momento.

As vozes foram ficando mais próximas.

Mas se esse realmente fosse o caso, ele estaria amarrado e sendo chutado pelos brutamontes Geller e Green, e não deitado em uma cama confortável. E tinha mais: as vozes que se faziam ouvir pela porta de madeira entreaberta do quarto, eram definitivamente femininas. Por um momento insano Matt imaginou aquelas vozes saindo da boca dos dois armários americanos... Tratou de sumir logo com aquele pensamento. Era perturbador demais.

Enfim, as vozes eram de mulheres, e elas soavam rápido e em francês.

Francês?

– Não podemos abandoná-los! – o francês de Matt não era lá essas coisas, mas ele conseguia entender mais ou menos o que as mulheres diziam. A que acabara de falar tinha uma voz... “Meiga”, beirando ao infantil.

– Eles são alemães, Misa! – a outra falou, dando a parecer que tentava conter o tom. Tom este que era bem mais forte e firma do que a anterior – O que papai e nosso irmão dirão se voltarem pra casa e econtrarem alemães conosco? Aliás, é por culpa da nação deles que essa guerra maldita começou.

– Isso mesmo! – a voz infantil voltou a falar – Culpa da nação, não deles!

– Misa, pare com isso! Nós mal temos comida para nós mesmas, quem dirá para dois inimigos! Temos que mandá-los embroa assim que acordarem.

– Halle, não podemos! Eles estão fracos! E não diga que você não se interessou pelo loirinho porque eu vi o brilho nos seus olhos...

Não, não era possível que Matt tenha entendido “interesse pelo lorinho”. Ou seu francês estava muito enferrujado ou bateu forte com a cabeça. É, um dos dois.

Um bom período de silêncio passou-se.

– Vá cuidar do ruivo – disse a voz mais madura e então a porta do quarto se abriu.

Uma garota loira de estatura mediana se revelou na porta, segurando a maçaneta. Ela deu de cara com o Sargento Mail Jeevas com seus lindos olhos verdes à amostra, o que a encantou ainda mais. Devido a isso, o leve sorriso que ela sustentava alargou-se e seu contentamento espalhou-se por toda sua face.

Ela não perdeu nem um minuto a mais e, saltitando discretamente, aproximou-se da cama e do misterioso inimigo alemão.


***


Alguns chamariam de ligação intracorpórea, outros de coincidência, mas o fato era que Mello acordara no mesmo momento que Matt. Suas pálpebras custaram a se levantarem, porém Mello se arrependeu quando conseguiu tirá-las do caminho entre a luz e suas sensíveis íris azuis.

Descartando o incômodo ocular, o que realmente surpreendeu Mello de imediato foi o fato de acordar. Ele podia jurar, logo antes de desmaiar, que era a própria Morte levando-o para o inconsciente antes de levá-lo para o limbo.

“Se o Inferno é assim, não sei do que as pessoas têm tanto medo” pensou brevemente.

Mihael concentrou-se no tato de sua pele em geral e notou que não mais havia ardor e que sua perna estava sendo comprimida bem em cima daquela ferida miserável. Não podia dizer, contudo, que não sentia dor alguma.

“E eu achando que já tinha cicatrizes o suficiente...”

Seus devaneios duraram até a maçaneta girar.

– Vejo que já acordou.

Ela era alta e parecia tímida, ainda que seus olhos azuis abaixo de sua franja loira não fossem nem um pouco discretos. Halle colocou apenas metade do corpo para dentro do quarto, tentando ao máximo não assustar o loiro com a cicatriz no rosto e a suástica no peito.

Mas onde ele tinha ido parar afinal?!


***


–Eh... Que lugar é esse? – Matt perguntou hesitante à estranhamentefeliz loira que não parava de olhá-lo, sem perder o brilho infantil nem por um instante.

Mas a garota pareceu não ouví-lo. Ou simplesmente quis ignorá-lo mesmo.

– Foi Misa quem cuidou das suas feridas – ela falava orgulhosa – Eram muitas... Acho que nem o irmão de Misa já apareceu com tantas marcas assim.

– Quem é Misa? – a cada palavra Matt ficava mais confuso e mais ansioso por explicações. Quanto tempo ele havia dormido? Quem era aquela garota estranha?

– Eu sou Misa.

“Conlcusões até agora: francesa loira fala na terceira pessoa; não sei onde está Mello; não sei onde eu mesmo estou; acabo de me lembrar da vontade de fumar; e acredito cada vez mais que devo ter batido forte a cabeça em algum lugar... Algo me diz que a situação não está muito boa”.

– Um loiro... – Matt começou a perguntar, mas sua voz foi quebrada por um gemido contido de dor quando fez a besteira de novamente tentar levantar.

– Não se esforce! Misa ainda não cuidou de todos os seus machucados! Não está tão ruim quanto o loiro, mas...

– Como? – Matt a interrompeu – Ele está muito mal?! Onde ele está?! Por que... Ai, caralho! – exclamou ao sentir uma pontada aguda no lado esquerdo do tronco.

– Misa falou para não se esforçar!


***


– Quem é você? – Mello perguntou em francês, a contragosto. Odiava aquele país, mas tivera que aprender a língua por pura necessidade. Não gostava disso, mas se estava na França, teria que falar francês para ser entendido. Um francês que saía pesado de sua garganta, mas que mesmo assim pareceu ser entendido pela garota.

– Meu nome é Halle – sua voz era baixa o suficiente para ser audível, com ajuda do silêncio típico que o “nada” tinha – Halle Faerie.

– Por que eu estou aqui? – foi a primeira pergunta que lhe veio à mente, mas ao pronunciá-la, pareceu-lhe meio desprovida de sentido, vaga demais.

– Minha irmã e eu o encontramos caído quase em frente à nossa casa – ela respondia apenas o que ele perguntava e era breve na resposta.

Caído?... É verdade, eles caíram... Espera...

– Eu estava sozinho? – sentiu-se um pouco temeroso ao perguntar. Não era possível que só ele tivesse sido encontrado... Certo?

Os pouquíssimos milésimos de segundo que se sucederam antes que Halle respondesse foi de puro sufoco e aflição.

– Não, você estava ao lado de um ruivo e... – quando a francesa pareceu sentir-se segura o suficiente para se sentar ao pé da cama em que repousava Mello, este interrompeu sua fala.

– Ele está vivo? – esta, sim, era a pergunta que impedia Mello de respirar. A pergunta que fazia seu corpo doer insistentemente, que o deixava com um gosto amargo na boca e seu coração contraído.

– Está. Minha irmã está cuidando dele – Mello soltou o ar que inconscientemente mantia preso em seus pulmões, aliviado – Ahn... Posso perguntar seu nome?

Ele hesitou por um momento, mas falou – Mihael – considerando a reação de Beyond, achou melhor manter seu sobrenome oculto de qualquer um naquele país.


***


– Misa já se apresentou, agora é a sua vez – a garota falou sorrindo e esperando ansiosa.

– ... Mail – respondeu sem muita certeza se deveria. Ela havia lhe dito que o, nas palavras dela, “loiro com a cicatriz estranha” estava vivo e dormindo no quarto ao lado. Mas apesar de aliviado, Matt não conseguia sentir-se sossegado. Provavelmente a afobação da francesa com excesso de animação para um período de guerra estivesse deixando-o impaciente.

– Bonito nome, Mail – enfatizou o nome do rapaz com um sorriso – Está se sentindo melhor? Quer que Misa faça algo por você? – apesar do teor promíscuo da frase, Misa Faerie era um belo exemplo de mulher ingênua demais para a idade.

– Eu quero um cigarro... – a resposta foi automática e sôfrega, saindo antes que ele percebesse. O normal a se pedir após tais dias torturantes sob o sol quente seria um copo d’água. Mas não Mail. Não, ele pedia por um cigarro. E dane-se a sede.


***


– Não vai perguntar? – Mello indagou desconfiado. Não era possível que aquela mulher não estivesse no mínimo curiosa sobre o motivo de dois alemães vestidos em farrapos e corpos cobertos de machucados aparecerem caídos próximos à uma vila no interior da França. Cherbourg, segundo ela.

– Você responderia?

– Claro. Só não garanto que diria a verdade.

– Então do que adiantaria perguntar?

Mello conteve um sorriso. Pelo visto irritar aquela mulher não era assim tão fácil.

– Meu amigo e eu – começou, fingindo seriedade – somos civis alemães, e para não sermos envolvidos na guerra, tentamos fugir para um país neutro. Mas a fronteira da Suíça tinha sido barrada pelas tropas nazistas – Mello contava tudo de forma tão convincente, que Halle sequer duvidou de suas palavras – Então pensamos em chegar lá através da França, mas... – fez uma pausa para dar um efeito extra — ... Os soldados americanos nos confundiram com militares e nos prenderam – até parece que diria que eles realmente eram militares. Era realmente muita sorte estar usando aquelas roupas sujas e não sua farda de sempre...

– Como vocês conseguiram fugir? – Halle perguntou impressionada.

– Eu não sei. Eu sinceramente não faço ideia – ao menos isso era verdade.

Se ela descobrisse que os dois eram soldados nazistas, com certeza chamaria os soldados americanos. Pela menos com essa história, mesmo se americanos e ingleses batessem na porta procurando dois alemães fugitivos, Mail e Mihael continuariam sendo as “vítimas”.

E Mello tinha certeza de que Matt contaria a mesma história que ele, caso a outra irmã perguntasse. O conhecia bem demais para saber que sim.


***


Tinha fumado (a sensação que aquele único cigarro causava, após tanto tempo, era simplesmente indescritível), bebido água (sua garganta agradecia) e agora ouvia Misa falar incessantemente, no mesmo modo alegre de antes. Matt não sabia bem ao certo do que ela falava, e não se esforçou para tentar descobrir. Ao invés disso, a interrompeu.

– Misa – chamou, fazendo-a parar de falar na hora. Mail suspirou e falou um – Obrigado – com um sorriso meio sem-graça. Ela era um pouco irritante? Com certeza. Ela era estranha? Também. Mas tinha salvo a sua vida. E a de Mello.


Notas finais
Guardian: Há! Quem ficou com surpreso com a aparição das duas? Quem está feliz por eles estarem à salvo(ainda)? Quem acha que o Mello sabe mentir bem?
...
Alguém?
Enfim, espero que tenham gostado ~
~x~
Vim aqui rever o capítulo e... Ah, o Nyah tá de brincadeira, né?? ò.o Além de ficar trollando na hora de postar, ainda engole o link que coloquei aqui!
Vou tentar de novo...
http://kallhens.deviantart.com/art/Tempos-de-Guerra-282428720
A Kalhens desenhou os dois *¬*(espero que desta vez vá ù.u)