Tempo perdido
5 Capítulo Quatro
Por quê? — Essa era a pergunta que Francisco vinha fazendo a si mesmo desde aquele dia. Quase tinha colocado tudo a perder por causa de Maria Luisa. Se tivesse sido mandado embora, seria muito mais difícil se aproximar do tio.
— Você fez muito bem — seu tio disse assim que ficou sabendo dos fatos.
Maria luísa não tinha aparecido desde o ocorrido. Por um lado até achava bom, assim a garota ficava longe de confusões e dele. Quando estava chovendo e ela quase caiu no chão, ele teve uma sensação esquisita. Como se o tempo tivesse parado naquele instante. Às vezes conseguia enxergar sua silhueta na janela do quarto enquanto trabalhava no estábulo, mas só foi vê-la mesmo, uma semana depois enquanto estava no quarto do tio procurando alguma coisa para colocá-lo contra a parede. Maria estava caminhando até os fundos da casa vestindo uma camisola branca que se arrastava no chão de terra da propriedade. Francisco poderia muito bem deixar aquilo de lado e continuar sua procura. Ela com certeza devia estar se sentindo bem melhor para estar andando naquele breu, mas a curiosidade falou mais alto e de repente já estava do lado de fora segurando uma manta nos braços e seguindo na mesma direção que ela.
Nunca tinha andado por ali. Sabia que devia existir um jardim, já que pelo o que sabia, era a única coisa a qual ela se dedicava enquanto não fugia por aí e conforme entrava ainda mais na escuridão, estranhava que Maria tivesse seguido aquele caminho. Quando a trilha chegou ao fim, Francisco se deparou com um largo muro de pedra coberto de folhas e musgo onde uma porta de madeira envelhecida tinha sido deixada aberta pela metade. Andou devagar e encolheu a barriga para passar pela abertura sem fazer nenhum alarde quando se deparou com ela logo mais a frente.
Maria Luísa estava de pé no meio de inúmeras flores azuis e as nuvens que cobriam a lua logo sumiram e a luz tomou conta do lugar. Estava longe de ser assustador, parecia até uma pintura viva.
Percebendo que ela nem tinha reagido a sua presença, estendeu a manta ao seu redor e decidiu sair para dar mais privacidade, mas antes que cruzasse a porta, ela o chamou de volta.
— O que?
— Pode ficar mais um pouco? — perguntou apertando a manta ainda mais contra si. — Não quero ter que voltar sozinha depois.
— Tudo bem. — Francisco permaneceu e passou a andar em volta observando melhor os detalhes. — Posso perguntar o motivo de ter vindo pra cá?
— Tive um sonho.
— Pesadelo?
— Não. Foi um sonho muito bom.
— Então porque está aqui?
— Não queria esquecer. Parecia tão real…
— E o que aconteceu no sonho? — Francisco não conseguiu deixar a curiosidade de lado.
— Eu estava em casa. Na minha casa. Tinham flores iguais a essas por todo lado e eu estava feliz. Foi tão bom…
— E por que parece triste? — Francisco sabia o motivo. Ela não queria se casar.
— Porque eu sei que se me casar com ele, isso não vai acontecer…
— Pensei que não o conhecesse.
— E não conheço, mas esse casamento não passa de um pretexto. Meu pai quer aliados de qualquer jeito para seu movimento. Ele sabe que não tem chance e mesmo assim está disposto a me sacrificar…
— Do que está falando? — ele franziu a testa — Pelo que ouvi falar dos empregados, seu Otaviano irá ganhar as eleições.
— Não são apenas as eleições. — Luisa fungou — Já ouviu falar do movimento?
Francisco passou tanto tempo trabalhando duro no campo que passava longe de qualquer assunto de política, mas não queria parecer desinformado.
— Acho que já ouvi a respeito, mas não lembro quase nada.
— Faz pouco tempo que começou a ganhar força aqui em nossa cidade. É um grupo político do qual meu pai faz parte, eles querem autonomia para o estado.
— Por quê?
— É uma longa história, mas basicamente eles acham que o governo central não está tomando boas decisões e querem mais poder para governar a nós mesmos, em vez de tudo ser decidido lá no Rio de Janeiro.
— E são só os políticos?
— Não, na verdade, muitos dos federalistas são fazendeiros, comerciantes, até mesmo alguns professores. Muitos acreditam que, ao lutar por mais autonomia, estão defendendo os valores e tradições do nosso povo.
—Mas por que você não concorda com isso? Não parece ser tão ruim assim…
— Logo você verá o motivo.
— E o seu braço? — perguntou tentando mudar de assunto. Não queria continuar um assunto que não dominava. — Está melhor?
— Está novo em folha. — disse tirando o braço da tipoia e o manuseando livremente.
— E por que continua usando isso se não precisa?
— Isso se chama estratégia. Meu pai quer que eu esteja perfeita para o jantar, mas ele vai ver só…
— Não precisa se preocupar tanto…
— Como não preciso?
— Você teve um sonho bom.
— E?
— Você não sabe o que isso significa?
No vilarejo onde Francisco havia crescido todos davam muita atenção aos sonhos e pressentimentos. Qualquer acontecimento estranho, possuía um significado. Sua mãe adorava adivinhar e interpretar sonhos de algumas amigas e geralmente quando era algo muito bom, como o sonho de Luísa, só podia dizer uma coisa.
— Você sabe?
— Claro! Isso é uma previsão do destino, não vê?
— Você acredita nisso? — questionou com a voz carregada de ceticismo.
— Minha mãe acreditava…
Luísa ficou em silêncio e enfim se virou para encará-lo tentando deixar o julgamento de lado.
— Então deve ser verdade. — Luisa se aproximou dele e colocou a mão em seu ombro — Obrigada por ter vindo até aqui e se preocupado…
— Só estava curioso — Francisco baixou o olhar e chutou uma pedra imaginária no chão. Ele não estava preocupado com ela. Por que estaria? — Queria ver as flores.
— Gostou delas?
— Você cuida delas sozinha?
Ela apenas acenou com a cabeça.
— Você tem um dom. São lindas.
— Obrigada.
Os dois não sabiam o que dizer um ao outro e permaneceram alguns segundos tentando ver quem iria desviar o olhar. Francisco não conseguiu lidar com aquilo e logo se pronunciou.
— Você não gostaria de voltar agora? Está ficando muito frio…
— Claro!
Luisa pegou o braço de Francisco e os dois caminharam lado a lado pela escuridão que passou a cercá-los após as nuvens cobrirem a lua novamente.
— Por que está acordado há essa hora? Não consegue dormir?
— Sim. — Disse tentando pensar em algum motivo plausível para explicar sua suposta insônia — Não estou me adaptando muito bem. O povo daqui é um pouco mais reservado…
— Isso porque ainda não foi apresentado oficialmente a ninguém. Seu tio deve estar louco para apresentá-lo a outras pessoas. Tenho algumas amigas solteiras…
— Não estou pensando em me casar.
— Isso nem passou pela minha cabeça. — Ela riu — Seria bom que fizesse mais amizades antes de decidir casar.
— Por favor, não banque a casamenteira comigo.
— Nunca faria uma coisa dessas. Eu mesma estou tentando fugir de um pretendente, jamais empurraria alguém para você. Mas agora me deixou curiosa…Por que não quer se casar?
Francisco ficou em silêncio pensando na melhor resposta.
— Não vejo ninguém aqui com potencial.
A verdade era que não queria se prender àquele lugar. Depois de executar sua vingança, iria sumir sem deixar nenhum vestígio.
— Isso porque só conhece a mim. Você vai gostar de conhecer algumas pessoas para se relacionar. Aliás amanhã mesmo irei dar um jeito nisso!
— O que vai fazer? — Francisco perguntou com a voz carregada de desconfiança.
— Vou visitar minha amiga.
Francisco ficou pensando se era a mesma pessoa que havia embarcado no trem no dia em que Luísa havia perdido o jantar de noivado. Mas não teve coragem de perguntar nada a ela, fazia apenas uma semana.
— Obrigada por tudo — Ela agradeceu quando já estavam na porta dos fundos que dava acesso a casa — Você tem sido um grande amigo Francisco. Nos conhecemos há pouco tempo e já me salvou diversas vezes. Pode ter certeza que irei retribuir…
— Não é necessário…
— Claro que é. — Ela abriu um sorriso que o deixou completamente sem fala —Vou pensar em alguma coisa…Boa noite!
Assim Luísa desapareceu dentro de casa deixando Francisco parado por um longo tempo diante da porta. Definitivamente ele devia se afastar daquela garota.
— Boa noite. — respondeu para ninguém em específico antes de retornar para seu próprio quarto.
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