Apenas uma previsão do destino não seria o suficiente, Maria Luísa estava determinada a fazer alguma coisa a respeito e ninguém melhor para ajudá-la do que Ana Júlia. Não conseguiu pregar o olho após o encontro com Francisco no jardim. Não conseguia pensar em qualquer solução para seu problema e tinha certeza que não podia contar com a ajuda da mãe naquela questão. Ainda estava muito magoada com a sua falta de atitude diante de mais uma agressão de seu pai e não desejava ver ou conversar com ela tão cedo.

Esperou os primeiros raios da manhã e o pai saírem para conseguir escapar. Colocou a tipoia que havia se tornado uma verdadeira arma contra o jantar de noivado e sentia que em breve iriam descobrir sua farsa, por isso saiu pelos fundos e atravessou a cidade a passos rápidos indo em direção ao cafezal para cortar caminho e chegar mais rápido na casa da amiga. Normalmente teria medo de passar no meio da plantação tão cedo, mas estava tão desesperada por ajuda que qualquer temor a respeito de estar andando desacompanhada, sumiu.

Quando enfim chegou em frente ao casarão da família Albuquerque, uma música suave e tranquila a alcançou. Um bom sinal. Indicava que a casa já estava acordada.

Subiu a escadaria correndo e assim que bateu na porta e viu a expressão confusa no rosto de Laura ao recebê-la, lembrou que Ana Júlia não estava mais na cidade. Tinha acontecido tanta coisa em sua vida, que acabou esquecendo.

Sentou na sala de visitas para conversar com a meia irmã da amiga com os olhos transbordando. Tinha se arriscado tanto para estar ali e no fim tinha sido em vão. Por que não pensava nas coisas antes de fazê-las? Maria Luisa tentava pôr a culpa na falta de sono, mas sabia que havia sido pura falta de atenção.

— Sei que gostaria de falar com a minha irmã, mas, se precisar, estou aqui. — Laura disse gentilmente sentando ao seu lado com uma xícara de chá em mãos. — Você está com cara de que precisa desabafar com alguém.

— Desde quando você é tão boazinha assim? — perguntou com a voz embargada. Sempre ouvia a amiga falar horrores de Laura.

— Desde que eu decidi mudar… — Laura revirou os olhos — Vamos, me diga o que está acontecendo. Desde o seu aniversário, começou a surgir o boato de que já estava noiva. É por isso?

— E disseram de quem? — Se todos soubessem de Maurício seria ainda mais difícil.

— Não. — Ela sorriu bebendo um gole do chá — O povo adora especular. Ninguém chegou a nenhuma conclusão, mas é verdade?

— Infelizmente. Mas estou fazendo de tudo para que não aconteça.

— Esse seu “tudo” significa afrontar seus pais?

— Como você sabe?

— Porque tentei fazer o mesmo com minha mãe e não deu muito certo. Após Ana Julia partir, tomei coragem e fui atrás dele, do meu noivo. Falei tudo o que pensava e fiz com que ele colocasse um fim no compromisso.

— Ele pode fazer isso?

— Ele é um homem. Pode fazer quase tudo o que quiser.

— E sua mãe?

— Ficou tão atordoada que não sai da cama há três dias. Marcelina acha que é por saudades de Ana Júlia, mas eu sei que é porque ela queria me ver fazendo parte daquela família.

— Será que se eu fizer o mesmo, dará certo?

— Que mal fará?

— Mas eu não conheço Mauricio. Acho que ele não foi em minha festa.

— Eu o conheço! — Disse Marcelina surgindo do corredor como se estivesse ouvindo desde o início a conversa — Isso se for o rapaz da família Monteiro.

— Marcelina sabe tudo de todos nessa cidade. Vive fofocando por aí…É por ela que me mantenho informada.

— O termo certo é “trocando informações” — rebateu a irmã se sentando ao lado esquerdo de Maria Luísa vazio.

— Vou deixar que ela te conte tudo, qualquer coisa estarei no piano. — Laura se retirou e voltou a tocar no piano localizado na sala ao lado.

— Vou começar do princípio sobre ele. Não é um partido ruim. A mãe dele, como todos na cidade, mandou ele estudar na capital por alguns anos até descobrir que ele havia mudado o curso de Agronomia para Artes. Ele pinta muito bem. Um verdadeiro artista, mas o pai dele não se importa muito com isso. Ele passa a maior parte do tempo numa casa perto da estação ferroviária. Não gosta de se envolver muito com política, mas concorda com o pai e é Republicano também.

— Como sabe de tudo isso?— perguntou surpresa.

— Saindo de casa e vivendo um pouco. Você e Laura deveriam tentar.

— Mentira! — Laura opinou enquanto tocava na sala ao lado — Ela é a melhor amiga da Camila. E aquela menina sempre sabe de tudo do trabalho do pai.

— Não dê ouvidos a ela. Como eu ia dizendo…Ele não é ruim. Por que não dá uma chance?

— Não! Estou decidida a não me casar com ele!

— Mesmo assim…Se não o conhece, deve ser porque já tem outra pessoa. Por acaso eu conheço?

— Não! Não tem ninguém. De verdade…

— Você respondeu rápido demais, mas tudo bem. Não vou insistir por enquanto.

— Obrigada. Então…Você sabe onde Mauricio costuma ficar, certo?

— Certo.

— Você pode ir até lá comigo?

— Claro! Nunca falei com ele pessoalmente, será ótimo ter uma desculpa.

— Mas não vai sair por aí falando sobre isso. — Maria alertou.

— Claro que não. — bufou fingindo estar ofendida — Tenho um certo código de conduta. Não faço fofoca de pessoas próximas a mim.

— Que bom saber disso.

— E o que acha de ir agora mesmo até lá?

— Agora? — Luisa soltou a xícara com muita força no pires — Não está muito cedo?

— Não. Maurício começa a pintar bem cedo, de acordo com algumas fontes.

— Você me dá medo.

— Vamos lá ou não?

— Vamos! Apenas me deixe me despedir de Laura…

Quando se deu por conta, já estava na metade do caminho para chegar à cidade. Marcelina falava tanto, que quase não conseguiu captar todo o conteúdo da conversa. Ainda pensava no que diria quando encontrasse com Maurício. E no que faria caso ele se mostrasse contra a sua vontade. Ela precisava tentar de alguma forma. Se para Laura havia funcionado, Luisa podia manter um pouco de esperança.

— Você está me escutando? — perguntou Marcelina com o rosto vermelho.

— Claro que estou!

— Então do que estava falando?

Luisa pensou em inventar uma desculpa, mas a verdade era mais fácil.

— Desculpe, estou muito nervosa. Não sei como ele é.

— Não se preocupe, estou do seu lado!

— Você parece tão confiante para a sua idade. Queria ser mais desse jeito.

— Apenas pareço. Por dentro sou um poço de inseguranças.

— A respeito do que? — No instante em que perguntou se arrependeu. Fazia pouco tempo que Bernardo a tinha usado para se aproximar da irmã mais velha dela. — Esqueça, não precisa dizer.

— Ninguém me leva a sério. Já tenho quinze anos e ainda assim, me tratam como uma criança.

— Quem te trata como criança? Certamente não é sua mãe…

— Claro que não. Ela só se importa com a Laura. Nem liga por eu sair o tempo todo, mas se Laura dá um passo pra fora da varanda, ela já tem um surto.

— E Laura tem dezoito…

— Pois é…

— Você chegou a…

— Falar com Bernardo depois de tudo o que aconteceu? Sim.

— Sim? — Luísa ficou chocada com a coragem de Marcelina.

— Mas é claro! Eu queria ouvir da boca dele e ter certeza que não era um engano.

— O que ele disse? — Agora Luísa estava completamente focada na conversa.

— Não vou repetir porque foi muito humilhante, mas me machucou. Por que ele veio atrás de mim se não tinha real interesse? Por que continuar demonstrando que se importava?

— E ainda gosta dele?

— Não sei, só irei descobrir quando…— Marcelina parou de forma abrupta no meio do caminho.

— O que houve? — Luísa olhou para ela e em seguida para onde sua atenção se prendeu.

Bernardo vinha mais a frente caminhando de forma despreocupada. Estava vestindo uma roupa social que provavelmente vinha da capital e um lenço vermelho. O que contrariava todo o traje, já que normalmente era usado junto com a bombacha. Ele ainda não tinha enxergado as duas, por isso Maria Luisa tratou de empurrar a irmã mais nova de Ana Júlia para um beco.

— Marcelina! — Luísa chamou. A garota não dizia palavra nenhuma.

— Por quê? — disse mais para si mesmo do que para Maria Luisa. — Por que ele tinha que continuar sendo tão bonito?

Maria pensou em rebater aquele comentário, mas não o fez. Dava pra ver nos olhos dela que estava sofrendo. Apesar de Luísa não achar que perder Bernardo tinha sido grande coisa.

— Você acha certo ele continuar sendo médico aqui depois de tudo? — perguntou erguendo uma sobrancelha.

— Claro. Fico feliz por ele. Iria ser o fim do mundo não exercer a profissão depois de tanto estudo.

— Como pode estar feliz por ele? Ele partiu seu coração!

— Porque talvez ainda eu goste um pouco dele…

— Mesmo com a humilhação?

— Mesmo assim. — disse cruzando os braços decidida.

— Você é boa demais pra esse mundo mesmo. — Maria a tomou pelo braço para saírem do beco quando se lembrou de Francisco e do quanto ele era solitário — E se você conhecesse outra pessoa?

— Quem? Já conheço todo mundo dessa cidade.

— Todo mundo não…

— Como assim?

— Esqueça Maurício por enquanto! Vou te apresentar a um amigo!

— Você está procrastinando, não é mesmo? Está com medo de encontrar com Maurício.

— Eu? Jamais! Apenas quero te animar um pouco!

— Vou fingir que acredito — revirou os olhos — Quem é esse seu amigo?

— Espere só até conhecê-lo!

Na sua cabeça fazia muito sentido. Francisco estava sozinho. Marcelina também. Seria maravilhoso se naquele ano alguém se casasse e fosse feliz de alguma forma.

— Conheço esse olhar.— Marcelina lançou um olhar enviesado para ela.

— Que olhar?

— Você vai tentar bancar a cupido.

— Eu? Quando foi que eu fiz uma coisa dessas?

— Nunca e ainda bem porque com esse vestido verde limão, ninguém se apaixonaria por mim.

Maria olhou novamente e reparou enfim o vestido da amiga. Estava tão afundada em seus pensamentos que mal tinha visto o caos que estava a irmã mais nova de sua amiga.

— Por que saiu assim?

— Por que os outros eram piores. — Marcelina deu de ombros e seguiu seu caminho.

— Está na cara que precisa da ajuda de uma fada madrinha. Por acaso… — Começou a dizer avaliando a expressão de Marcelina tentando não ofendê-la -eu tenho alguns vestidos guardados de quando tinha a sua idade. Não gostaria de escolher alguns? Garanto que não são tão chamativos assim…

Já fazia anos que Marcelina se vestia como criança. Agora que estavam começando a se aproximar, talvez fosse a chance perfeita para ajudá-la.

— Obrigada! — Sem pensar, Marcelina a pegou de surpresa em um abraço — Não faz ideia do quanto isso me fará feliz.

— Está bem! — Luisa tentava se afastar do abraço gentilmente — Se continuar me abraçando, vou perder a reputação de esnobe que tenho!

— Senhorita Albuquerque, que grande prazer em vê-la aqui. — A voz de Getúlio as alcançou antes mesmo de passarem pelo portão da casa — Entrem, vou pedir que sirvam bolinho de chuva. Foi feito agora para o café da manhã!

— Obrigada Getúlio, mas antes vamos até o jardim. — Queria a todo custo apresentar a jovem amiga para Francisco. Disse que iria retribuir de alguma forma e ali estava a oportunidade — Quero mostrar as flores!

— Ah sim! Sua mãe irá esperar as duas na sala de visitas.

— Está bem!

— Obrigada senhor Getúlio.

As duas se afastaram sem muita pressa da entrada e só voltaram a falar quando tinham a certeza de que não havia ninguém por perto para ouvir.

— Flores? Que amigo é esse ao qual nunca ouvi falar?

— Ele trabalha no estábulo. Vou pedir que te acompanhe até em casa para que possam conversar.

Marcelina ergueu uma sobrancelha de discordância.

— Já pedi para não bancar a cupido.

— Não estou com essas intenções. Ele não conhece nada aqui, achei que seria bom te conhecer para ficar mais informado. E também sei que você adora falar. Tudo o que sabe vai ser novidade para ele!

— Tem razão, pode ser divertido. — Disse baixando o tom de voz porque já estavam se aproximando do estábulo.

— Bom dia Francisco! — Luísa parou na entrada do estábulo e se deparou com Francisco já dando de comer aos cavalos. Ele ainda não estava suando por conta do esforço. Para Luísa era um bom sinal. Marcelina não gostaria de andar de braços dados desse jeito — Tenho uma amiga para te apresentar.

Francisco fechou a cara no mesmo instante e apenas esboçou um sorriso quando estava perto o bastante para que Marcelina pudesse vê-lo.

— É um prazer conhecê-lo senhor…

— Tavares! — Ele completou apertando a mão dela — É um prazer também.

— Vim deixá-la sob seus cuidados…

— Meus cuidados?

— Sim, nós passeamos um pouco e eu não queria que ela voltasse para casa desacompanhada. É muito longe.

— Ah entendo. — Francisco lançou um olhar mortal para Luisa enquanto Marcelina não olhava para seu rosto — Irei com prazer levar a senhorita, apenas me deixe terminar de alimentar os cavalos que podemos ir com um deles.

— NÃO! — Luisa acabou falando alto demais e logo se corrigiu. Se fossem com o cavalo, não iriam conseguir conversar — Quero dizer…Será melhor ir caminhando. Marcelina tem medo de cavalos. Não é?

Marcelina franziu a testa, mas concordou com ela.

— Vamos caminhar então.

Luisa sumiu antes que Francisco pudesse dizer alguma coisa. Estava bem claro que ele tinha detestado a ideia e que mal podia esperar para dizer em voz alta. Passou pela cozinha sentindo o cheiro de café, bolinho de chuva e manteiga e logo encontrou a mãe na sala de visitas conversando com Getúlio.

— Onde está sua amiga? — A mãe perguntou após Getúlio se retirar e Luisa sentar no sofá a sua frente.

— Voltou para casa. Pedi que Francisco a acompanhasse.

— Fez bem. Ele precisa mesmo conhecer pessoas novas, agora posso saber porque saiu sozinha e sem autorização nesta manhã?

— Você reparou é?

— Eu sei de tudo o que se passa nessa casa. Onde você foi?

— Na casa de Ana Júlia.

— Fazer o quê? Pensei que ela tinha se casado com o senhor Amaral.

— E se casou, mas tinha esquecido disso. Marcelina me acompanhou para que eu não ficasse sozinha.

— E as duas se expuseram a um risco desnecessário. Não sabe o quão perigoso é a estrada do cafezal? Ainda mais agora com esse movimento…

— Desculpa mãe.

— já se desculpou outras vezes. Por que está fazendo isso? Você não é assim. E tire essa tipoia, eu sei que não precisa mais dela.

— Parece até que está torcendo contra mim.

— Eu sou sua mãe e quero que seja feliz.

— Pois não parece.

— Quanto mais rápido você aceitar esse casamento, mais fácil vai ser pra você. Sei disso porque perdi muito tempo sofrendo por uma situação que não mudaria…

— Mas…Ela pode mudar, se ao menos você me apoiasse…

— Ainda assim, não seria o suficiente. O mundo pertence aos homens. Eles que tomam as decisões.

— Isso não é verdade! O mundo não…

— O meu mundo sim e consequentemente o seu.

— Mas… — Os olhos de Luísa já começavam a ficar cheios de água.

— Com licença — Getúlio retornou a sala trazendo consigo um envelope — Acabou de chegar uma carta para você da capital!

Num salto Luisa pegou a carta e correu para seu quarto. Tanto pela ansiedade de ter mais notícias da amiga quanto por fugir daquela conversa sem sentido de sua mãe.