Tempo perdido
2 Capitulo Um
Notas iniciais
Francisco demorou mais do que imaginava para chegar até o Vale do Café. Teve que atravessar rios, trilhas, pegar carona com desconhecidos e por fim o trem. Estava tão cansado que apenas desejava tomar um banho e dormir, mas ao chegar no suposto endereço do tio, encontrou uma casa vazia com toalhas brancas cobrindo a maioria dos móveis pelo que conseguiu observar da janela. Teve que caminhar mais ainda até chegar à cidade, que estava completamente alvoroçada.
Apesar de ser pequena e rural, quase toda ela era pavimentada de ladrilhos e casas unidas umas às outras seguindo uma cor padrão de creme até determinado ponto. Parecia estar em reforma. Chegando no centro, a área do comércio possuía fachadas com cores vibrantes e decorações detalhadas na madeira, mas naquele momento, a única loja aberta, era a de ervas tradicionais daquela região. Francisco ficou impressionado com a organização e ao questionar a razão daquilo, José, dono da loja apenas afirmou que a política estava a favor do povo naquela região. Após sair dali, enfim achou a fonte de tanto alvoroço.
Duas quadras depois da área do comércio, havia uma estrutura elegante e grandiosa que de longe era um dos lugares mais bonitos que já tinha visto. Diversas pessoas estavam reunidas do lado de fora e suspeitava que dentro do local tinha muito mais. A primeira pessoa que enxergou, foi um rapaz encostado na cerca ao lado do evento segurando na mão o terno e a gravata que quase estava encostando no chão..
— O que está acontecendo?
— É aniversário da filha do prefeito. Todo mundo foi convidado. — Ele deu uma olhada discreta na bagagem de Francisco antes de acrescentar — Todo mundo que mora aqui há algum tempo.
— Todo mundo? — Devia ser alguém muito popular para ter o prestígio de tanta gente — Desculpe, sou novo aqui e estou um pouco perdido.
— Para onde quer ir?
— Para a casa de meu tio. O nome dele é Getúlio, mas não sei onde mora agora, apenas que está aqui há alguns anos.
— Pelo que sei, seu Getúlio está lá dentro ajudando na organização. Só tem ele com esse nome. A última vez que o vi, estava ao lado da esposa do prefeito.
— E eu posso entrar?
— Claro! Ninguém irá te impedir. — Disse parecendo não se importar muito com a situação.
Conforme Francisco avançava, o sentimento de não pertencer àquele ambiente o dominou de tal forma que quase deu meia volta e foi embora. Tinham tantas pessoas lá dentro, vestidas como se estivessem num casamento que se alguém parasse para o observar melhor, com certeza veria que estava de penetra. Buscou naquele mar de vestidos engomados, ternos e trajes típicos algum sinal do tio, mas nada. Não que a única foto que tinha visto dele na vida servisse para alguma coisa, mas ao menos ele devia ser um dos poucos velhos no local.
Avançou conforme as pessoas ao redor permitiam e mal podia esperar para respirar. Parecia não ter ar o suficiente apesar das janelas estarem todas abertas.
Tentando encontrar a saída dos fundos, os olhos de Francisco se fixaram numa figura desconhecida no meio da multidão. Um sorriso surgiu em seus lábios quando analisou melhor a cena. A garota tinha cabelos escuros encaracolados que iam até abaixo do ombro, a pele negra e um nariz arrebitado. Era a única no recinto com flores bordadas por quase toda a saia. Seu acompanhante falava algo que não fazia questão de prestar atenção. Mantinha os braços cruzados sob o peito e o olhar vagava pelo salão. Era mais do que óbvio para Francisco que ela queria ser deixada em paz.
Um casal que conversava de forma distraída acabou por esbarrar nele fazendo com que quebrasse o contato visual. Estava ali parado encarando os dois a tempo demais para ser normal. Decidiu sair dali o mais rápido possível para evitar constrangimentos, mas algo inusitado aconteceu. Quando estava mais próximo da saída, ousou dar mais uma olhada na cena outra vez e só viu o rapaz no mesmo lugar,mas sozinho com um semblante confuso. Francisco olhou em volta procurando a garota assim como seu acompanhante e pensou que teria um ataque do coração ao se deparar com ela caminhando decidida em sua direção. O coração batia cada vez mais forte e a mente dava voltas e mais voltas conforme se aproximava.
“O que diria? Estava tão mal vestido em comparação” E mesmo nervoso do jeito que estava permaneceu parado esperando e assim que ela estava perto o suficiente, ouviu seu cumprimento.
— Oi! — Ela falou mais alguma coisa, mas com tantas pessoas não conseguia se fazer ouvir. Indicou com a mão para a saída e Francisco logo a seguiu. Pararam no batente da porta onde era muito mais silencioso.
— Desculpe, não escutei nada do que falou.
— Perguntei seu nome — Disse abrindo um largo sorriso — Nunca o vi por aqui.
— Me chamo Francisco Baltazar. Cheguei hoje mesmo à cidade. E você?
— Maria Luísa Cabral.
— Então você é… — Francisco lembrou das faixas na entrada com o nome dela e sentiu instantaneamente vontade de sumir.
— A aniversariante? Sim, sou eu!
Francisco sentiu o rosto esquentar. Ela apenas tinha ido até ele porque sabia que ele não era um convidado oficial da festa.
— Me desculpe aparecer sem ser convidado. — Se apressou em dizer — Estou procurando meu tio e me disseram que ele poderia estar aqui.
— E quem seria?
— O Senhor Getúlio Tavares.
— Você é sobrinho de Getúlio? Isso é incrível! — Maria Luisa pegou em seu braço para conduzi-lo até a saída.
— Mas…— Ele começou a protestar.
— É uma pena que o senhor Getúlio não tenha recebido o aviso de sua chegada. Teria preparado um quarto… — ele se viu de repente já do lado de fora num jardim. — Mas sorte a sua que em casa temos muitos quartos. Pode ficar em um deles.
— Não sei se seria apropriado — Respondeu apertando mais a alça da mala de couro numa mão. Por que Getúlio morava com a família do prefeito da cidade?
— Claro que seria — Maria exibiu um sorriso de orelha a orelha — Getulio está conosco desde que nasci, porque não seria apropriado que seu sobrinho fique conosco?
— Talvez ele não pense dessa forma…
— Amanhã veremos isso. Por hoje, será nosso hóspede! Venha…
Francisco ficou parado encarando o arco que levava a festa.
— Você vai me levar até lá? — Não parecia estar certo.
— Claro!
— Por acaso não é a anfitriã do evento que está acontecendo ali dentro?
— Sou sim, mas também serei a sua anfitriã. Posso ser duas coisas ao mesmo tempo.
— Tem certeza?
— Tenho! Por favor, me ajude a escapar…
— Tão ruim assim? — Francisco acabou soltando sem pensar.
— Você nem imagina… — Disse enquanto caminhava fazendo com que ele a acompanhasse.
— E seu acompanhante? — perguntou como se não tivesse nenhum interesse em saber a identidade do rapaz — Não vai ficar incomodado?
— Acompanhante? Aquele patife não parava de falar sobre o dinheiro de sua família! Como se fosse grande coisa!
— E não é?
— Seria se minha família não tivesse.
— Então ficou aborrecida apenas por causa dele?
— Não. Essa festa. Tudo isso parece um verdadeiro circo. Meus pais querem que eu me case logo. — Ela encarava o céu pensativa. Nem parecia se importar de desabafar com ele — Mas, vamos falar de você! O que trouxe até aqui?
“Ah não” ele pensou “tinha esquecido do que tinha planejado dizer caso alguém perguntasse”
— Meus pais. — Francisco tentava pensar em alguma coisa menos trágica, mas não conseguiu. — Eu os perdi há um tempo e não queria continuar sozinho. Foi aí que encontrei uma carta de meu tio e decidi encontrá-lo. Mas acho que ele não deve saber quem sou. Por isso o receio de ir até a sua casa.
— Sinto muito por seus pais. Fez muito bem em vir, o seu Getúlio não tem filhos e irá te receber de braços abertos.
Francisco reprimiu a vontade de revirar os olhos.O tio não devia ser tão bom assim.
— Isso só vamos descobrir quando encontrá-lo.
— Não se preocupe tanto sobre isso. Vai dar tudo certo e se não der, será meu convidado.
— Não acho que seja uma boa ideia.
— Ora, por que não seria? Você não conhece mais ninguém na cidade.
— Não é isso. Estou falando disso. — afirmou apontando para o portão de ferro da mansão onde Maria morava — Nós estamos sozinhos. E sua reputação? Você nem me conhece!
— A maioria das pessoas estão na festa — Ela revirou os olhos — E se estivesse planejando fazer algo, já teria. Sei que é uma boa pessoa.
Se ela soubesse o que Francisco tinha ido fazer ali, talvez não tivesse a mesma opinião.
— Venha, deve estar exausto!
Assim que passou pela porta, se sentiu mais inadequado ainda. Mas Maria Luísa fazia parecer que não era nada demais então resolveu imitá-la. Diferente de todos que cruzaram seu caminho, ela não tinha reparado em suas roupas ou em como sua mala estava gasta. Francisco já sentia empatia pela garota apenas por essa atitude e enquanto dava ordens para os empregados prepararem um quarto para ele, mal tinha piscado e um banquete tinha sido servido. Um banquete de seu ponto de vista: frango, arroz, saladas variadas e algumas torradas.
— Desculpe, foi apenas o que consegui de última hora.
— Não precisava…— Tentou dizer quando seu estômago emitiu um grunhido como protesto.
— Veio de muito longe, claro que deve estar faminto. irei comer com você então não fique achando que está dando trabalho. Não comi nada antes de sair…
Francisco sabia que ela estava mentindo porque encheu seu prato de comida para encorajá-lo e dava uma garfada aqui e outra ali tentando puxar algum assunto para desviar do prato a sua frente. Em geral o jantar tinha sido silencioso, mas quando estava quase no fim, um dos empregados veio correndo da sala.
— Senhorita Luísa, seus pais estão vindo!
Maria se levantou de forma abrupta e Francisco a acompanhou.
— Leve o senhor Tavares para o quarto de hóspedes. Senhor, foi um prazer conhecê-lo. Talvez não seja uma boa ideia te apresentar para a família hoje, poderia acompanhar Sabrina?
— Claro! — Tamanha foi a urgência na voz dela que de repente se viu no alto da escada. Assim que chegou ouviu o som da porta sendo aberta de forma brusca.
— ONDE VOCÊ ESTAVA? — Disse a voz enfurecida que só podia pertencer ao prefeito.
— Eu fiquei cansada…
— Do quê? Cansada de ser uma garota mimada? Não sabe o quanto essa festa era importante? O quanto gastei nisso? Todos os melhores partidos estavam lá!
— Melhores partidos para quem? Nenhum deles…
Um som cortou o ar. Francisco tinha certeza que Maria Luísa tinha apanhado, até mesmo fez menção de descer as escadas, mas Sabrina, que também ouvia a cena com curiosidade o deteve.
— Quando vai aprender a manter a língua dentro da boca? É por isso que não consegue um marido!
— Não pode ficar irritado apenas por causa da festa! — A voz da mãe se intrometeu — nunca encostou um dedo nela!
— Pois devia ter feito isso antes! Isso é culpa sua! Devia ter educado sua filha melhor. Veja a arrogância nos olhos dela! É visível que não tem respeito por ninguém.
— Só dou respeito a quem merece. — Maria Luisa disse com a voz trêmula, mas decidida.
— Ainda está respondendo? — O pai dela gritou ainda mais alto. Francisco e Sabrina esticaram o pescoço a tempo de ver Maria jogada no sofá e o pai fazendo menção de ir até ela quando uma figura masculina se interpôs entre eles.
— Acho que já foi o suficiente patrão. — A voz autoritária dele seria capaz de comandar qualquer um — O senhor bebeu muito essa noite, venha, vou te ajudar a subir as escadas.
Ao ouvir isso, Francisco e Sabrina correram para entrar no quarto de hóspedes para não serem vistos por ninguém.
— O que foi isso? — Francisco perguntou.
— Estou tão surpresa quanto você. O patrão sempre foi assim com a esposa, mas a filha…É a primeira vez. Deve estar muito embriagado, mas a senhorita Luísa não devia ter provocado.
— E aquele homem, quem é?
— É Getúlio, o mordomo da casa. Ele está aqui bem antes do prefeito ter se casado. Todos tem um grande respeito por ele, até mesmo o prefeito.
— Ah…
Então aquele homem era seu tio, o responsável por anos de sofrimento na vida de Francisco. Ele havia feito uma dívida e fugido dela, deixando seu pai para enfrentar as consequências. Enquanto isso, vivia no luxo e conforto, enquanto o pai de Francisco descansava em um terreno que nunca tinha visto ser reformado. A hora de acertar as contas estava chegando, e Francisco mal podia esperar por isso.
Após Sabrina se retirar do quarto, a raiva era tanta que mal cabia em seu peito. Sentiu o corpo suar e as mãos começarem a tremer. Há anos vinha tendo esses ataques e o único modo que conseguia fazer com que tivesse fim, era ficar sozinho sem que ninguém estivesse por perto. Enquanto esperava o caos dentro dele passar, pensou no quanto teria que se esforçar para não pensar no passado com tanta frequência.
Após conseguir se acalmar o suficiente para se deitar naquela cama extremamente confortável, Francisco adormeceu pronto para enfrentar o que quer que o destino reservasse para ele no Vale do Café.
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