Tempo perdido
3 Capitulo Dois
No dia seguinte Francisco mal tinha acordado quando seu tio apareceu. Estava parado do lado de fora do quarto parecendo estar apenas esperando que saísse para conversar com ele.
Era um homem de meia idade de alta estatura com os cabelos grisalhos cobrindo quase todo o topo de sua cabeça, assim como era a de seu pai. A semelhança entre eles era assustadora e por um momento Francisco não foi capaz de falar. Após sanar a curiosidade de Getúlio a respeito de seus pais, recebeu um longo abraço e a promessa de que não ficaria mais sozinho.
Realmente não esperava. Um senhor de coração mole e afetuoso não estava no que tinha idealizado ao longo dos anos. Mas não importava, o estrago que tinha causado em sua vida era maior do que qualquer gentileza que ele pudesse demonstrar agora.
— Venha comigo, vou te mostrar os estábulos. A menina Luísa foi educada ontem? Fiquei sabendo que ela o trouxe — perguntou enquanto caminhava de forma descompassada pela casa — Ela não está num bom momento, por isso desculpe por qualquer coisa.
— Não. — ele franziu a testa — Ela não poderia ter sido melhor.
— Fico feliz então!
Já do lado de fora da casa, havia uma pequena trilha de terra na lateral a qual levava diretamente a um celeiro acinzentado no qual um dia já tinha sido branco. Onze cavalos estavam separados por baias com um pouco de precariedade . Se seu pai visse uma coisa daquelas, ficaria completamente fora de si. A fazenda de sua família tinha os cavalos mais bonitos da região, seu pai amava tanto os equinos que fazia tudo o que podia para deixá-los da melhor forma possível.
— Eu sei — Começou o tio com um olhar de desculpas — Não está muito bem cuidado. Jonas, o rapaz que cuidava daqui se casou e desde então não conseguimos outra pessoa para cuidar dos cavalos.
— Isso faz quanto tempo? — perguntou examinando o lugar de cima a baixo tentando não deixar transparecer seu julgamento.
— Uns dois anos.
— Ah.
— Mas não se preocupe, já falei com o seu Otaviano e para ele tudo bem que fique conosco. Pode pedir o material que precisar. Irei mudar seus pertences para a ala dos empregados ainda hoje.
Francisco fez um aceno com a cabeça e se virou para ver se a outra entrada que dava para um lado desconhecido que para ele estava no mesmo estado que a primeira. Foi nesse instante que a viu outra vez.
Ela usava um vestido cor de abóbora e um avental branco coberto de manchas. Com uma mão levava um balde de metal enferrujado e na outra algumas hortênsias. A luz do sol reluzia em seus cachos e no leve hematoma no lado direito de seu queixo. Assim que entrou em seu campo de visão, ela lhe deu um largo sorriso assim como aconteceu quando se conheceram e diminuiu assim que viu seu tio parado ao lado.
— Menina Luísa! O que pensa que está fazendo? Seu pai a deixou de castigo!
— Minhas flores estavam morrendo.
— Se seu pai te ver aqui fora…
— Ele não vai me ver… O que fazem aqui nesse calor? Estão conhecendo a propriedade?
— Sim, estou mostrando onde Francisco vai trabalhar. — Ele tirou o balde da mão dela e analisou de forma crítica o avental manchado de terra — A partir de agora ele vai ficar responsável pelos cuidados do estábulo.
— Boa sorte! Esse lugar está mesmo precisando…Gosta de cuidar de cavalos senhor Tavares?
Francisco queria perguntar de onde ela estava vindo e também queria contar o quanto os cavalos tinham se tornado sua paixão após a perda de seus pais, mas infelizmente o tio estava ali e não conseguia encontrar voz para nada.
— Se gosta? Meu irmão tinha a mais bela criação da região. Vendemos cavalos para muitos proprietários no passado. Francisco me contou que ele ficou responsável e manteve o negócio com louvor até ir embora.
— Espero que consiga o mesmo feito aqui. — Havia algo no modo que ela o olhava que o fazia se sentir estranho. Mas um estranho bom que o fazia desejar que o tio não estivesse ali do lado para que conseguisse falar com mais liberdade.
— Eu também espero.
— Agora vá se trocar antes que seu pai a veja nesse estado!
— Está bem, até mais tarde então! — Maria Luísa se virou e voltou caminhando como se não houvesse nada para fazer.
— Essa menina ainda vai acabar me deixando maluco… — murmurou para si mesmo — Então como eu ia dizendo…
Apesar do tio continuar falando, Francisco já não prestava mais atenção e nem fazia questão.
— Francisco! Está prestando atenção?
— Estou sim!
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