Desde que tinha nascido, Maria Luísa tinha feito o possível para cumprir as expectativas dos pais. Suas escolhas, decisões e ações tinham apenas um propósito: fortalecer a família e o prestígio que o nome dela carregava. Já estava acostumada a ser obediente, era mais fácil e confortável. Pra quê criar conflitos desnecessários se o resultado sempre seria o mesmo? Era isso o que pensava até a ridícula festa de aniversário que tinha sido organizada com o único motivo de conseguir um pretendente. Não havia sido divertido. Todos no salão de festa só enxergavam sua família e riqueza enquanto tentavam conquistar sua atenção. Ninguém queria conhecê-la. Ninguém queria saber o que lhe dava alegria ou o que a deixava aborrecida. Ninguém se importava, nem mesmo seus pais. A única coisa que tornava tudo aquilo tolerável, era a presença de sua melhor amiga, mas ela já tinha problemas grandes demais para conseguir ajudá-la de alguma forma. Tudo o que desejava era ir embora, mas não seria possível com o filho mais velho da família Caspari se gabando do quanto a família tinha ganhado na última safra. Enquanto o escutava, fazia questão de demonstrar o quanto aquela conversa estava sendo desagradavel, mas parecia não adiantar.

Foi nesse instante que o viu. Um completo desconhecido que parecia um tanto deslocado no meio de todos os convidados. Usava roupas simples, mas por baixo de tudo aquilo, tinha uma pessoa muito bonita. Claro que tinha que falar com ele! E foi até lá sem saber o que dizer. Quando se deu por conta, já estavam no jardim de inverno indo para sua casa. E pela primeira vez, falou o que realmente pensava. Organizou um jantar rápido para fazer com que se alimentasse e agradeceu no pensamento por Sabrina ter sido rápida o suficiente para tirá-lo dali. Ainda bem que não tinha presenciado a cena humilhante no andar inferior.

Levar aquele tapa foi como abrir os olhos pela primeira vez. Antes daquilo, nunca desobedeceu nenhuma ordem, nunca reclamou quando a tiraram da escola, nunca questionou o fato de ser exibida como um troféu nos jantares importantes e de nunca ter voz para dar sua verdadeira opinião. Era uma vida cansativa ter que atuar na maior parte do tempo até mesmo com o próprio pai. Se Ana Júlia não fosse sua amiga ou se não tivesse seu jardim secreto, Maria luísa sentia que já teria enlouquecido anos antes.

— Ainda não começou a se arrumar? — A mãe de Maria Luisa perguntou no batente da porta do quarto alguns dias depois do incidente da festa.

— Pra quê?

— Getúlio não disse que vamos receber visitas hoje?

— Quem está vindo?

— Seu pai queria que fosse uma surpresa, mas conhecendo o seu gênio recente, é melhor te prevenir…

— Por quê? — Maria Luísa franziu a testa no mesmo instante. Depois da festa de aniversário fracassada e do tapa, não esperava mais nada de bom dele.

— Porque é a sua futura família que vem aí.

Levou quase um minuto para que Maria Luísa processasse o que ela tinha dito.

— Como é?

— Ele conseguiu um acordo com a família Monteiro.

— Mas eles não são rivais? Pensei que meu pai odiasse os republicanos.

— Eram. Agora com essa união, farão parte do mesmo lado. — Era estranho que a mãe estivesse entusiasmada de verdade. — A família Monteiro irá tentar convencer os outros a ficar do nosso lado.

— E quem é o filho dele? Se Agnes é insuportável, nem consigo imaginar em como deve ser o irmão. E também não vejo como isso ajudaria. O governo nunca irá permitir…

— Fale baixo, se seu pai te escuta…

— Só estou dizendo o óbvio.

O pai de Maria Luísa era Federalista. O que significava que ele acreditava que cada estado devia governar a si mesmo e se opunha de maneira muito forte ao governo central, com poucos apoiadores, ele agora buscava convencer aqueles a favor do governo federal. Essa rixa entre Federalistas e Republicanos seguia dividindo muitas opiniões e famílias na região. O pai de Ana Júlia e muitos outros fazendeiros apoiavam financeiramente e lutavam para que Otaviano continuasse no poder daquela pequena cidade para conseguir um dia convencer mais pessoas que o Sul deveria se tornar independente.

— Maurício é um rapaz adorável! — Sua mãe mudou de assunto no mesmo instante. Não gostava muito de falar sobre política — Parece ter puxado toda a doçura de sua mãe. Por isso sugeri a seu pai. Precisa de alguém que não seja tão explosivo ou petulante quanto você.

— Petulante? Eu? — Só agora tinha começado a não aceitar algumas coisas.

— Você rejeitou um salão inteiro!

— Nenhum deles era bom o suficiente, porque esse aí vai ser?

— Minha filha, fiz o que pude para que tivesse uma escolha. E na primeira oportunidade, você jogou pela janela. Agora essa é a última opção que te restou e com esse acordo, você não pode recusar de forma alguma.

— E se eu já tiver escolhido alguém?

Sua mãe ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— Então será um péssimo momento para você, assim como o meu foi.

E com isso, sem acrescentar mais nada, saiu do quarto. Maria detestava quando a mãe fazia isso. Parecia sempre disposta a não tentar entendê-la. Existia uma barreira invisível que as separava, onde qualquer coisa que não fosse o que desejava ouvir, a fazia se ausentar. Era quase como se não a amasse.

Passou anos de sua vida dizendo palavras de ódio contra os homens e agora a mesma queria que ela se casasse de boa vontade. Era bastante contraditório.

Estava quase indo trocar de roupa quando recebeu um bilhete das mãos de Sabrina. Era o destino chamando e ele não queria que ela ficasse para aquele jantar patético.

Amarrou o cabelo e vasculhou no fundo da gaveta suas economias guardadas há tempos numa bolsa para emergências e considerou sair pelo corredor principal e seguir pela ala dos empregados, mas a movimentação lá dentro estava muito grande. O risco de ser vista, não valia a pena.

Olhou pela janela que dava para os fundos e chegou a conclusão de que não se machucaria tanto se conseguisse se arrastar até o canto do telhado onde uma sebe cobria e servia perfeitamente como um ponto de segurança. Tirou os sapatos e os jogou para fora. Seria mais fácil não escorregar com os pés livres, pelo menos era o que pensava. Assim que passou a primeira perna, ouviu batidas na porta. Felizmente tinha trancado.

— Quem é?

— Sou eu. — Ouviu a voz de Sabrina do outro lado — Vim te ajudar a se arrumar para o jantar. Sua mãe estava com os nervos à flor da pele e me pediu para subir.

— Não precisa!

— Não?

— Não! Ainda estou muito chateada, quero ficar sozinha.

— Tem certeza?

— Tenho — Maria disse quase se desequilibrando da janela — Depois você me ajuda com o penteado, está bem?

— Está bem… Senhorita Luisa!

— Sim.

— Seja o que for, não deixe de comparecer ao jantar. Será pior que da outra vez.

— Pode ficar tranquila quanto a isso.

Após dizer essas palavras, se lançou para o lado de fora, tentando ao máximo se segurar com as mãos e pés descalços, mas ao contrário do que imaginava o limo sobre as telhas a fez escorregar e quando se deu por conta já estava na borda do telhado pendurada se segurando o máximo que conseguia nas calhas. Sem outra opção, soltou da calha e caiu sobre os arbustos logo abaixo.

Sentiu o braço direito doer de imediato, mas era suportável.. Se ergueu do chão, procurou os sapatos no meio do escuro e saiu com o coração acelerado com medo que alguém do andar inferior tivesse visto.

Assim que chegou ao lado de fora, fez o possível para ignorar a dor em seu braço. Agora que o calor do momento tinha passado, se mostrou mais intensa. Por sorte a estação demorava apenas uma hora de caminhada ou menos se apertasse mais o passo.

Não podia perder o último trem.

— O que está fazendo? — Maria Luísa se virou bruscamente e ficou aliviada ao ver Francisco ali atrás dela.

— Estou passeando.

— A essa hora?

— Sim, por que seria um problema?

— Porque está desacompanhada.

— Não estou desacompanhada.

— Como não?

— Você está aqui comigo! — Tentou gracejar, mas não conseguiu esconder a careta de dor.

— Está tudo bem? — perguntou tentando encostar no braço dela — Foi uma queda e tanto.

— Você viu?

— Seu quarto fica na frente do estábulo, como eu não ia enxergar?

Maria deu um passo para trás sentindo o rosto esquentar..

— Mais alguém viu?

— Não.

Maria soltou um suspiro de alívio e continuou seguindo seu caminho ignorando completamente Francisco que teve que dar uma pequena corrida para acompanhá-la.

— Espere, me deixe ir com você. Deve estar doendo muito.

— Vai contar a alguém?

— Minha boca é um túmulo. E também, não conheço muitas pessoas ainda.

— Está bem, pode pegar meu braço esquerdo? o direito está doendo demais.

— Claro! — disse prestativo oferecendo o braço que Maria aceitou de bom grado. — Para onde vamos?

— Para a estação de trem. Temos que ir antes que o último trem parta.

Francisco parou no lugar novamente e franziu o cenho.

— Está indo embora?

— Tenho cara de que faria isso?

— Tem. Ninguém se joga da janela apenas por um passeio. — observou cético.

— Eu não me joguei da janela. Pensei que ia conseguir alcançar a sebe para conseguir descer em segurança. Não pensei que iria escorregar e…Não tenho tempo para explicações, vamos logo!

— Se estiver tentando fugir…

— Se fosse o caso, ninguém desconfiaria que foi o responsável por me ajudar.

— Hum…

— Por favor! — Maria já estava agoniada. Precisava chegar lá o mais rápido possível e estava quase chorando de frustração, mas Francisco acabou cedendo e apenas seguiu ao seu lado, servindo de apoio em silêncio.

Quando enfim chegaram na entrada da estação, Maria chorou de alívio ao avistar sua melhor amiga segurando uma mala apenas à sua espera. Ela se soltou de Francisco que continuou observando a cena em silêncio e correu para abraçá-la. No bilhete dizia que Ana Júlia estava partindo para a capital no último trem do dia.

— Fiquei com tanto medo de não conseguir chegar a tempo.

De braços dados, deixando a dor de lado, acompanhou a amiga até a cabine para comprar o bilhete para a capital.

— Estou tão feliz por estar aqui comigo! — Disse Ana Julia visivelmente emocionada — Não sabe o quanto significa…

— Ana…

— Obrigada por ter vindo, não devia nem ser uma surpresa te ver aqui.

— Confesso que estou muito preocupada. Tem certeza de que vai embora por causa daquele sujeito?

— Não é por causa dele. Não completamente. Já devia ter feito isso há muito tempo. E você sabe disso, a única coisa que me prendia aqui era o compromisso que eu tinha com Felipe.

— Então quer dizer que não sente mais nada por ele?

— Não. Apenas quer dizer que está na hora de ir embora.

As duas seguiram até o local de embarque agarradas uma à outra.

— Mas você tem certeza mesmo disso, Ana? — perguntou Maria Luísa outra vez. Parte dela queria segurar a amiga e nunca deixá-la ir.

— Tenho.

— E se eu me casar? Quem vai ser minha madrinha?

— É claro que não vou perder seu casamento!

— Como pode dizer com tanta certeza? E se não conseguir se estabilizar lá? — questionou, colocando uma mão sobre o peito de forma dramática tentando aliviar a tensão. tirou do vestido a bolsa com as moedas de sua gaveta e estendeu na direção da amiga — Por isso, eu insisto que leve isso para ajudar!

— Não, ele é seu!

Era típico da amiga ser orgulhosa em relação a dinheiro.

— De onde veio, tem muito mais. Aceite, por favor, vai me deixar muito mais tranquila!

— Maria…

— Por favor. — Maria simplesmente colocou a bolsinha à força nas coisas da amiga, pondo fim à discussão.

Homens passavam pela plataforma fazendo soar o apito para anunciar que estava na hora de partir. Maria Luísa a abraçou tentando segurar o choro. Nunca tinham se separado desde que se conheceram.

— Prometa — pediu, ainda prendendo a amiga no abraço. — Prometa que vai manter contato!

— Eu prometo.

— Se as coisas ficarem difíceis, não hesite em me pedir ajuda. Deixe qualquer tipo de orgulho de lado, está bem?

— Sim.

Maria Luísa a soltou devagar, com os olhos cheios d’água, e a encarou de forma séria.

— Vá até lá e realize seu sonho. Eu sei mais do que ninguém que você é capaz.

Ana abriu um sorriso de orelha a orelha.

— E você, vai encontrar o amor mais cedo do que imagina.

— Espero que sim!

A última chamada para embarcar no trem foi feita, e, após dar mais um abraço, ficou ali na plataforma observando a amiga partir. Era como se parte dela estivesse dentro daquele trem. E o pior de tudo era que estava completamente só. Num mundo daqueles, nenhuma mulher poderia estar segura sem alguém. Se ao menos tivesse a coragem de partir ao seu lado…Mas havia algo que a prendia no Vale do Café e iria esperar o tempo que fosse para descobrir o que era.

— Maria! — Maria se virou e deu de cara com Felipe.

— Você não estava preso?

— Não tenho tempo para explicar agora, Ana Julia partiu quando?

— Agora mesmo!

Ele já estava quase prestes a sair correndo dali, mas Maria o segurou.

— Está indo impedi-la?

— Não. Irei acompanhá-la.

Para sua própria surpresa, Maria começou a rir e a chorar ao mesmo tempo tentando sair o mais rápido do caminho de Felipe.

— Vá logo! Vá e cuide bem dela por favor!

Maria não sabia porque estava chorando tanto. Só o fato da amiga não estar sozinha, já tirava um grande peso de seu coração. Caminhou devagar até a saída com o barulho do trem diminuindo atrás dela enquanto se afastava cada vez mais.

Agora que sabia que sua amiga estava bem, precisava começar a focar nos problemas de sua vida. Um deles era o maldito jantar que a esperava.

— Vai ficar parada por quanto tempo?

Francisco a olhava no fim da escadaria da estação com certa apreensão.

— Por que está com tanta pressa?

— Não tem um jantar a comparecer?

— Não — ela começou a descer as escadas e parou diante dele tão perto que quase ficou escandalizada pela própria ousadia. — Mas se concordar em continuar me acompanhando, podemos fazer um.

— Não acho uma boa ideia.

— Por quê não?

Francisco parecia meio hesitante mas tocou de leve com a ponta dos dedos a marca no rosto de Maria.

— Da última vez a reação do seu pai não foi muito boa.

— Você ficou sabendo? — ela ofegou surpresa.

— Eu vi.

Maria baixou a cabeça envergonhada. Ele tinha visto tudo.

— Mais um motivo para não comparecer. — Maria ergueu a cabeça outra vez tentando disfarçar sua reação. — E também, tem um lugar que eu queria te mostrar.

— Agora?

— Sim, é o melhor momento.

— E seu braço?

— Acho que ele aguenta um pequeno passeio.

Maria continuou caminhando na frente sabendo que Francisco iria acompanhá-la em algum momento. A princípio não sabia para onde iria, apenas que tinha que ser algo demorado. Conforme caminhava, foi chegando até o centro da cidade onde os letreiros do novo cinema reluziam no vazio daquele fim de tarde.

— Você já foi ao cinema?

— Não.

— E gostaria?

— Ainda não recebi.

— Eu também não tenho dinheiro!

— Então como…

— Apenas me siga!

Chegando até a cabine onde Sara, antiga empregada da casa de Maria trabalhava como atendente, ela não precisou de muito para que a convencesse a deixá-la entrar sem precisar pagar de imediato. Os únicos dois filmes que estavam em exibição eram um sobre o Egito e outro um romance de Romeu e Julieta. Maria optou por ver o segundo e logo já tinham se posicionado no fundo, longe de qualquer olhar curioso.

— O que está achando? — Maria perguntou tentando analisar a reação enigmática dele no meio do escuro.

— Incrível. Chega até a assustar…

— Não é? — Ela lembrava bem de sua surpresa e assombro na primeira vez que assistiu a um filme — Se fosse em outra época, seria considerado bruxaria.

— Acho que hoje em dia para os mais velhos, deve parecer. Só imaginava os personagens mais velhos no livro.

— Já leu Romeu Julieta? — Maria mal conseguiu conter sua surpresa.

— Minha mãe — Explicou — Adorava ler depois do jantar. E sempre eram romances parecidos com esse…

— Ela deve ter sido uma mulher incrível — Quem dera a própria mãe tivesse gosto pela leitura.

— E foi — por um momento, Francisco parecia estar com a mente longe dali antes de continuar a falar — Amava o fato dos dois terem morrido por amor.

— Geralmente são as tragédias que tornam as histórias interessantes. Se os dois ficassem juntos no final, ninguém iria querer ler.

— Ela teria amado isso. Menos os atores. Parecem crianças.

— Mas Romeu e Julieta eram novos na história. Por quê você acha que os dois fizeram aquela burrice no final?

— Não lembro de dizer a idade…

— Ei, façam silêncio!

Os dois deram uma breve olhada de canto de olho tentando a todo o custo segurar o riso e logo voltaram a prestar atenção no filme.

Quando chegou ao seu fatídico final, os dois se dirigiram para o lado de fora e foram pegos de surpresa pela chuva que havia criado diversas poças pela rua. Quando Maria fez menção de ir para fora, Francisco segurou seu braço bom para impedi-la.

— O que está fazendo?

— Indo pra casa. Está ficando muito tarde.

— E só agora isso a preocupa? Está chovendo muito.

— Isso não é nada. Não vai molhar quase nada.

— Não é uma boa ideia.

— É só água. Por quê? — perguntou erguendo uma sobrancelha — Está com medo é?

— Não. — bradou saindo da proteção do cinema diretamente para a chuva. Maria deu uma boa gargalhada antes de segui-lo.

Maria pegou no braço de Francisco e o seguiu pela chuva murmurando uma canção infantil sobre a chuva e erguendo o rosto para sentir cada gota. Estava tão feliz pela amiga ter conseguido ir para a capital e com o fato de não ter participado do jantar de noivado que nem prestou atenção no buraco mais a frente em seu caminho. A queda só não foi pior porque Francisco a segurou. E foi nesse instante que aconteceu. Não sabia o que era, mas algo mudou e também não sabia se era sua imaginação pregando peças, mas podia jurar que ele tinha ficado dez vezes mais bonito com todo aquele cenário ao redor. Queria ter mais tempo para conhecê-lo, para andar pela cidade e ouvir sobre a infância com os pais já falecidos. Não conseguia deixar de pensar no quão solitário ele parecia ser e do quanto ter uma amiga poderia ajudar.

Quando enfim os dois chegaram à sua casa, optaram por entrar pelos fundos já que as roupas estavam completamente encharcadas.

— Não vai molhar quase nada é?

— Talvez eu tenha me enganado…

— Vá logo tirar essa roupa molhada — ele já ia se afastando quando Maria o chamou.

— O que foi?

— Obrigada por hoje. De verdade.

— Não há de quê.

Com o coração transbordando de contentamento, Maria Luísa entrou em casa pensando que não iria ter mais ninguém à sua espera, mas se deteve ao escutar a voz alterada dos pais conversando na sala de estar.

— O comportamento insolente dela tem passado dos limites nos últimos tempos. Maria nunca foi desse jeito.

— Ela só começou a agir assim depois que bateu nela.

— Está dizendo que a culpa é minha? — Vociferou.

— Não, apenas… sempre a tratou como uma princesa e agora como uma adversária. Quanto mais fizer isso, mais ela irá se opor.

— E o que devo fazer depois de hoje? Lhe dar um prêmio por ter sumido?

— Não, só precisa ter mais calma.

— Ela precisa se casar logo. Eu dei minha palavra que ela se casaria com o filho deles.

— Acha que a família de Maurício irá continuar com o compromisso?

— Eles têm muito a ganhar com o casamento, apesar de tudo. Ei! — O pai de Maria a flagrou espiando da sala de jantar e logo a chamou para estar com eles, mas ela não saiu do lugar. — O que está fazendo escondida aí? Decidiu aparecer só agora? Venha logo até aqui!

— Vamos filha — a mãe chamou do sofá mais perto da escadaria — Se não vir até aqui será pior.

Sem restar outra opção, Maria marchou até a sala com gotas de água inundando o tapete a cada passo.

— O que significa isso? — A voz do pai aumentava a cada palavra.

— Estava na chuva até agora? — A mãe perguntou incrédula.

Maria não conseguiu responder, sua atenção estava focada no rosto avermelhado do pai. Ela sabia que estava tentando conter a fúria e também sabia que não duraria por muito tempo.

— Não vai dizer nada? — ele ralhou — Por acaso bateu a cabeça em algum lugar? Ficou maluca?

Maria Luisa ainda permanecia em silêncio.

— Responda! Cadê sua petulância?

— Filha. Diga onde você estava, por favor.

— Eu…Eu fiquei no meu jardim.

— Até agora? Por que ficou lá se sabia do jantar?

—Porque eu não quero fazer parte da família Monteiro.

— E quem disse que você tem escolha? Já marcamos o jantar para outro dia para que conheça seu noivo.

— Eu não vou! — disse sem pensar.

— Você vai sim! — O pai se ergueu da poltrona e pegou justo no braço machucado. Usava tanta força que um grito acabou escapando de sua boca — não adianta fazer uma cena!

— Me solte!

— Só depois que você entender o seu papel nessa família.

— Querido…

— Deixe ela dizer! — Ele a sacudiu pelo braço mais uma vez — Vamos, diga logo!

— Está machucando! — choramingou tentando se soltar.

— Você não ouviu? Solte-a! — Francisco surgiu do nada, já vestindo roupas secas, se colocando entre Maria Luísa e o pai. Ela se posicionou atrás dele chocada demais para falar alguma coisa. Sua mãe não tinha feito nada, mas ele sim.

— O que pensa que está fazendo?

— O braço dela — explicou tentando mascarar a ira em sua voz — Eu a vi cair em cima dele lá fora. Quando ouvi o grito pensei que tinha machucado outra vez.

Os segundos de silêncio se passaram até que o prefeito encontrasse voz para dizer alguma coisa.

— E porque não disse nada à menina? Rápido rapaz,chame o senhor Getúlio para buscar um médico na cidade!

— Sim senhor. — Ele deu uma breve olhada no rosto de Maria antes de sair do recinto a deixando completamente sem reação.