Francisco estava tão irritado com Maria Luísa que mal conseguia prestar atenção no que Marcelina estava dizendo. Quando voltasse, a metida a casamenteira ouviria poucas e boas a respeito de tentar se meter na vida alheia. A garota que o acompanhava era muito jovem, quase uma criança. Não conseguia entender no porque Maria queria tanto deixá-los a sós. Francisco não sabia muito bem o que dizer, mas Marcelina falava tanto, que ele nem precisava participar.

— Me fale mais sobre Ana Júlia. Eu a vi apenas uma vez. — Ele disse assim que o silêncio se instalou entre os dois.

— É minha irmã mais velha. Não temos a mesma mãe, mas nunca ligamos pra isso. Ela sempre quis ir embora daqui e viver na capital para estudar, mas nunca conseguiria sozinha.

Conforme ela falava, Francisco percebeu que seu semblante passou a ficar mais triste. O fato do médico ter a enganado para se aproximar da irmã, era algo que o chocou bastante, já que nos livros, histórias assim sempre terminavam de forma trágica. Maria Luísa era unha e carne com a tão falada Ana Júlia e por isso devia estar agindo daquela maneira tão inconsequente. Cada vez Francisco se viu mais envolvido na narrativa de Marcelina e já prestava atenção a cada detalhe.

— E como Bernardo era obcecado por ela e já não tinha mais noivo, decidiu ir embora sozinha. Sem nem ao menos se despedir…

— E já tem notícias dela? — perguntou com uma preocupação genuína.

— Ainda não, mas Felipe foi atrás dela e só posso torcer pelo melhor. Mas acho que isso não deve te interessar muito e também não quero ficar te aborrecendo com isso. O Senhor Getúlio é o seu tio, não é?

— Maria te contou?

— Não, vocês dois são parecidos e como ele nunca teve filhos, imaginei que poderia ser o sobrinho.

— E O que sabe sobre meu tio? O conheci recentemente e não faço ideia de quem ele é ainda. É um homem muito ocupado.

— Sim, trabalha muito. Não sei exatamente quando veio para o Vale, mas sempre foi mordomo de grandes famílias e antes de estar na casa do prefeito, ele trabalhava na casa da família Fontes lá na estrada depois da estação de trem.

— Família Fontes?

— Hoje em dia ninguém mais mora lá. A Dona da casa só tinha uma filha e quando ela casou, foi embora e nunca mais voltou.

— Está abandonada?

— Um pouco. Só mandam limpar de vez em quando. Por quê? Não faço a mínima ideia.

Com certeza devia ter alguma coisa naquela casa — Francisco pensou consigo mesmo — Ele com certeza devia ir até lá.

— É muito longe?

— Um pouco, mas não tem muito o que ver. Está sempre trancada. Peça para Maria Luísa o levar até lá algum dia. É muito bonita de se ver apesar de tudo.

— Vou pedir sim.

— E você? O que te trouxe até nossa cidade.

— Meu tio — Respondeu sem pensar.

— Veio para conhecê-lo?

— Sim. Meus pais já faleceram e pensei que ia ser melhor viver perto da família.

— Com certeza é melhor. Vai gostar daqui, apesar do pessoal ser um pouco desconfiado no início, depois é só alegria.

— Estou torcendo por isso.

Francisco deixou Marcelina em casa feliz por ter mudado um pouco de cenário e ter feito uma nova descoberta. A melhor forma de descobrir mais a respeito do tio, era começar pelo passado dele.

Enquanto fazia o caminho de volta, já no início da tarde, viu diversas famílias reunidas em suas casas comendo no jardim ou fazendo algum trabalho com os animais. Ver toda aquela união o fazia se sentir muito solitário. Se não fosse toda a tragédia em sua vida, teria encontrado uma boa mulher e formado uma família naquele momento.

Pensar naquele fato o deixava triste e com muita raiva de não ter vivido a vida que seus pais haviam sonhado para ele. Não gostava quando esses pensamentos intrusivos vinham, a fúria que os acompanhava…Se não colocasse para fora a qualquer instante, sentia que entraria em colapso. Quando chegou ao estábulo, deu de cara com Maria Luísa o esperando. Era tudo o que menos precisava naquele momento. Ainda estava irritado com a sua armação.

— Como foi?

— Agora não. — disse passando reto por ela planejando se esconder em alguma baia vazia ou até mesmo nos fundos do estábulo. Sabia que não chegaria ao seu quarto a tempo.

— Tão ruim assim? — Maria o seguiu ignorando seu pedido para sua infelicidade.

Sempre que ficava desse jeito, tinha ao menos os cavalos como companhia e Francisco sabia que ao menos eles não iriam se ofender ou julgá-lo por isso, mas Maria Luísa estava ali dessa vez. Precisava fazer com que saísse antes que o visse tremendo e agindo feito um maluco.

— Francisco? — Ela o chamou encostando em seu ombro — Está tudo bem?

— Sim — respondeu de forma brusca se afastando. — Apenas preciso de um tempo sozinho.

— Foi por causa da Marcelina?

— Não quero falar sobre isso. — Respondeu tentando recuar, mas ela seguia se aproximando.

— Eu sei o que deve estar irritado. Apenas não queria que ficasse tão sozinho. Sei que sente falta dos seus pais

— Você não sabe de nada! Não sabe como é perder tudo, ser deixado sozinho no mundo! — Ele tinha a respiração acelerada e a cabeça baixa. Tinha que sair dali, já sentia o suor frio que vinha acompanhado dos tremores, mas ela se colocou em seu caminho.

— Talvez eu não entenda completamente. Mas isso não significa que eu não me importe, Francisco.

— Como pode se importar? — ela não o deixava em paz — Nem me conhece direito!

— Não conhecia. — Corrigiu sem mudar o semblante calmo — Estou vendo o quanto está revoltado por não ter sua família por perto.

O coração de Francisco apertou. Como ela poderia saber disso? Como ela se sentia no direito de se intrometer assim nos seus sentimentos? Quase uma desconhecida.

— Pare de falar.

— Você não precisa continuar sendo sozinho. Quando falei sobre Marcelina…

— Ainda está pensando nisso? Já te disse que não quero…Ah não!

Uma sensação de sufocamento começou a se instalar, como se o ar ao seu redor estivesse se esgotando rapidamente. Seus olhos buscavam freneticamente por uma saída, por uma maneira de escapar daquele sufoco. Não queria que ninguém visse aquilo. Muito menos Maria. Não que gostasse dela romanticamente, mas apesar de tudo, era a única que o tratava sem reservas. Apesar da hospitalidade local, sentia o olhar de julgamento e desconfiança das outras pessoas. Ainda mais dentro de casa com os outros empregados. Mas ela não. O tratava como se já o conhecesse e parecia falar sério sobre bancar a casamenteira. Não tinha medo de se expressar e o olhava com uma preocupação genuína enquanto tentava se levantar do chão, mas suas pernas pareciam feitas de Chimia, incapazes de sustentar seu peso.

As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto enquanto lutava para controlar a crise que o consumia por completo. Tudo ao seu redor parecia distante e distorcido, como se estivesse preso em um pesadelo do qual não conseguia acordar. Como se tivesse voltado para aquele dia pavoroso novamente. O mundo girava ao seu redor, e Francisco se sentia perdido em meio ao caos de sua própria mente.

E no meio de tudo aquilo, Maria fez o impensável. Se sentou no chão ao lado dele e passou a alisar suas costas enquanto tentava acalmá-lo.

— Respire comigo. — pediu tentando guiá-lo em respirações profundas e lentas. Ela permaneceu ali ao lado dele em silêncio até que ele se acalmasse e o simples fato de estar ali contribuiu para que os batimentos cardíacos de Francisco voltassem ao normal.

Quando enfim tomou coragem de dizer algo, Maria o interrompeu.

— Não precisa explicar nada. — ela balançou a cabeça em negativa — Vamos esquecer isso.

— Mas eu quero me descul…

— Não vejo porquê.

— Eu gritei com você! isso é…

— Natural de alguém que está sofrendo de um grande estresse. — interrompeu — Vamos pra casa antes que alguém comece a estranhar.

Francisco notou com espanto que já tinham estrelas enfeitando o céu. Não parecia ter se passado tanto tempo.

Maria seguiu caminhando na frente como se nada de estranho tivesse acontecido.

— Maria — ele chamou.

— Sim? — Maria se virou com um sorriso que afetou de tal maneira que não sabia mais o que queria dizer.

— Obrigada.

— Não há de que! Eu disse que faria alguma coisa por você. E não se preocupe, vou guardar segredo.

Assim ela entrou correndo deixando um Francisco completamente embasbacado para trás. Tinha sido rude com ela. Até mesmo tinha gritado. E mesmo assim, ela continuava ali. Se não fosse por sua vingança… talvez, mas ela sem saber, estava envolvida demais.