Minha querida amiga

Não imagina o estado de felicidade em que me encontro. Estou vivendo um verdadeiro sonho aqui na capital. Nós nos casamos no dia seguinte após nossa chegada e com os contatos de Felipe, conseguimos uma casa bem perto da faculdade. Imagine só a cara do reitor quando fui realizar minha inscrição. Ele mal acreditou. Pensou que Felipe queria apenas me apresentar. As aulas ainda não começaram, mas estou confiante de que tudo vai dar certo. Felipe já está trabalhando no hospital universitário e não estará tão longe e quanto a mim, decidi ceder ao seu pedido de apenas estudar. Ele diz que é cansativo e que nossa família já tem uma boa situação financeira. Alias vi Susana um dia desses. Felipe me levou para conhecer uma sorveteria e enquanto ele estava distraído contando uma história sobre o dono da loja, ela passou e parou por um momento para nos observar. Não parecia estar se corroendo de raiva, mas sim extremamente triste. Não tiro sua razão, Felipe errou com ela assim como fez comigo. Claro que já o perdoei, mas foi ai que me dei conta de que todos os lugares que ele tem me levado, ele já tinha ido com ela. Não quero estragar nosso momento feliz com perguntas inoportunas, mas isso tem passado por minha cabeça toda hora.

Apesar disso, consigo aproveitar. Felipe tem sido um marido maravilhoso por enquanto. Nós sempre temos algo para conversar, as vezes vamos madrugada a dentro trocando histórias ou confidências. Ele ainda sente saudade mesmo magoado com Bernardo. Sempre foram amigos a vida toda. Naturalmente ele ia ficar triste com as atitudes do amigo. A expressão que ele faz quando seus amigos perguntam por Bernardo doi profundamente.

A única coisa negativa é a saudade que sinto de você, das minhas irmãs, das crianças…E você? O que tem feito em minha ausência? Será que já encontrou alguém? E como anda a cidade? Aqui se fala muito de um possível combate armado. Já falei para Felipe ficar de fora disso, sorte a minha ter um marido que não se interessa tanto por política. A maioria das pessoas daqui é republicana. Em meu coração concordo um pouco com a ideia de termos o poder de decidir o que acontece com nossa terra, mas se tiver que ter violência para que aconteça, melhor deixar como está. Espero que esteja bem e mande notícias assim que possível.

Com amor, Ana Júlia Amaral

Pegou vários papeis para tentar responder a amiga e se viu amassando cada um deles. Não sabia bem o que dizer para ela. Sua vida estava um caos e depois do ataque de nervos de Francisco, ainda estava tentando impedir a mão de tremer por conta do nervosismo. Nunca tinha visto uma crise tão violenta. Já tinha presenciado antes com uma das empregadas da família. Tinha perdido a mãe de forma repentina e ficou em estado de choque. Quando o médico apareceu para tratá-la, Luísa assistiu escondida ele a acalmar e por isso já sabia o que fazer.

Estava preocupada que Marcelina pudesse ter dito algo errado, mas não conseguia imaginar a jovem amiga dizendo qualquer coisa para impactar alguém daquela forma.

No dia seguinte teria que encontrar Mauricio de qualquer jeito para convencê-lo a terminar o noivado. Não queria fazer isso na frente de Marcelina, apesar da mesma ter prometido sigilo, Luísa não estava disposta a arriscar.

Enquanto pensava no que dizer e esperava pelo jantar, o som de algo batendo na janela chamou sua atenção. Saiu de sua escrivaninha para se aproximar e quando abriu a janela, quase foi atingida por uma pedra.

— Ei! Cuidado! — sibilou.

— Desculpe!

— O que está fazendo? Quase me acertou!

— Desculpe! Queria falar com você, mas não sabia como te chamar.

— Então você resolveu fazer do jeito mais dramático ao invés de apenas pedir que alguém fizesse isso? — resmungou se debruçando no peitoril para conseguir vê-lo melhor — O que aconteceu? Você está bem?

— Estou! Com tudo aquilo que aconteceu, esqueci de perguntar.

— O que?

— Marcelina me contou a respeito da casa da família Fontes perto da estação ferroviária. Disse que você poderia me mostrar o lugar.

— Por que quer ver um lugar desses? Tem tanta coisa mais interessante.

— Porque foi onde meu tio trabalhou quando se mudou pra cidade. Queria ver como era…

— Sorte a sua que eu tenho a chave dessa casa.

— Como?

— Fontes era o sobrenome de solteira da minha mãe. Minha avó deixou a casa como um presente para mim.

— É mesmo? — Perguntou surpreso até demais.

— É, mas não pense que será de graça. — ela riu — Terá que me ajudar com uma coisa depois.

— O que?

— Amanhã. — Disse fechando a janela deixando Francisco. Seria a oportunidade perfeita para ter alguém para acompanhá-la para falar com mauricio

Apesar de achar muito estranha a curiosidade de Francisco em ver a casa no meio do nada de sua família, Maria Luísa não se importou de ir até lá. Significava que podia protelar mais uma vez de ter que falar com seu noivo.

O dia amanheceu e assim que a mãe saiu para um passeio acompanhada de Getúlio e Sabrina, Maria Luísa saiu pela área dos empregados em busca de Francisco. Era o dia de descanso dele e por isso devia estar dormindo.

Enquanto se dirigia para lá, escutou uma movimentação estranha no quarto de Getúlio. Ele tinha acabado de sair, então não poderia ser ele de jeito nenhum. Abriu uma pequena fresta na porta e viu Francisco lá dentro.

— O que está fazendo? — Maria analisou atentamente as caixas abertas em cima da cama antes de entrar no quarto.

— Eu estava...eu…Apenas queria saber mais sobre meu tio.

— E porque não perguntar diretamente pra ele? — Maria cruzou os braços esperando uma explicação razoável.

— Porque ele é muito reservado e nunca contaria nada sem confiar em mim plenamente.

— Acho que se quer que ele confie em você, não devia mexer nas coisas dele.

Segundos de silêncio se passaram.

— Você vai contar?

— Não. Você já me ajudou mais de uma vez, vou deixar essa passar.

— E o que faz por aqui tão cedo? — perguntou guardando as caixas novamente embaixo da cama.

— Não era você quem queria conhecer a casa em que seu tio trabalhou?

— Sim. Mas não pensei que acordaria tão cedo.

— São quase dez horas da manhã! E também temos que aproveitar. Minha mãe e o senhor Getúlio não estão.

— E seu pai?

— Ele não voltou pra casa ontem. Deve ter passado a noite na prefeitura. É o momento perfeito para ir e voltar sem complicações.

— Está bem, então vamos.

Rapidamente os dois deixaram o quarto de Getúlio e se dirigiram para a saída dos fundos.

— Vamos de cavalo? Sua amiga disse que é um pouco longe.

— Só se eu for na sela com você.

— Tem medo?

— Nunca aprendi a montar.

— Com todos esses cavalos à disposição?

— Sou uma dama, esqueceu? Aliás só para deixar registrado, essa sua curiosidade com o seu tio é muito estranha…

— Você também é estranha e eu não digo nada.

— Eu não sou estranha.

— Ah não? Você levou um desconhecido para sua casa sem saber absolutamente nada sobre ele.

— Eu tive um bom pressentimento a seu respeito.

— Pulou da janela apenas para não participar de um jantar e quase quebrou o pescoço.

— Tive bons motivos para isso.

— Saiu no meio de uma chuva horrorosa…

— Você estava junto, esqueceu?

— Contra minha vontade.

— Sabe, às vezes eu penso que teria sido legal ter um irmão assim para implicar comigo.

Francisco parou no lugar de repente muito sério.

— O que foi?

— Eu também estava pensando nisso ontem quando cheguei.

— Você diz antes de… — ela não queria dizer a palavra pânico.

— É.

— Sempre teve isso?

— Não. Foi depois que meu pai morreu.

— Se ele morreu em casa, imagino que teve que enterrar o corpo sozinho.

— Sim.

— Então está explicado. Ninguém conseguiria ficar normal depois disso. No que você pensa quando tem esses ataques?

— Por que tantas perguntas?

— Porque estou curiosa. Agradeça por não estar perguntando o real motivo por trás de toda essa curiosidade com o seu tio.

— Como assim?

— Tem alguma coisa que não está me contando. Não sou boba.

— Claro que tem algo que não estou contando. Nós mal nos conhecemos.

— Está bem, não vou te pressionar a me contar. Ainda.

Após alguns segundos de silêncio com apenas o som dos cascos batendo no chão, foi Francisco quem começou a falar assim como Luisa imaginou que faria.

— O que você disse que queria em troca?

— Não disse.

— E o que é?

— Você vai saber em breve.

— Tem a ver com algum plano maluco para você não se casar?

— Talvez.

— Não vou te ajudar a fugir se for isso.

— Quem foi que falou em fugir?

— Desde que a conheci é só isso que faz e nem entendo o porquê.

— Claro que não entende. Você é um homem, nunca vai ter que passar por isso.

— Isso o que? A única coisa que vejo é uma garota fugindo de um futuro estável e confortável.

— Ouviu bem o que acabou de dizer? “confortável” “estável” mas não feliz.

— E quem a faria feliz?

— Não sei, ainda não descobri.

— E eu pensando que estava lutando contra tudo e todos para viver um grande amor, mas tudo isso é para nada!

— Não é para nada! E se eu me casar e acabar conhecendo o amor logo em seguida? Será mais difícil ainda.

— Até eu que passei a vida toda no campo, sei que o divóricio existe.

— Claro que existe. Mas apenas para os homens. O que acha que as pessoas vão dizer de uma mulher divorciada no tempo em que estamos? Já vi alguém perder a reputação por muito menos.

— Tem razão -- disse após ponderar um pouco sobre o assunto — A má reputação realmente pode abalar a vida de alguém.

— Por quê? Você tinha uma reputação ruim onde você vivia?

— Você não se cansa né?

— Nenhum pouco.

— Bem, digamos que quando fui enterrar meu pai, um vizinho estava de passagem e não me deixou explicar a situação. Todos em nossa vila pensam que fui o responsável. Por isso fui embora. — apesar de falar de forma despreocupada, Maria Luísa sabia que era algo que doía profundamente. Seu primeiro impulso foi segurar as mãos dele que estavam nas rédeas.

— Sinto muito. — Ela lamentou — De verdade.

— Se não fosse por esse boato…Não sei…Se eu estivesse em sua situação, aceitaria esse casamento. Eu vi o jeito do seu pai. Será melhor não ter que passar por mais situações assim.

— Ele nunca foi violento comigo até aquele dia da festa. Talvez tenha se sentido humilhado…

— Mesmo que tenha, não justifica.

— Eu sei.

— Na sua festa… — começou um pouco sem jeito — Não teve ninguém que chamasse sua atenção?

— Só você — Maria queria se virar e ver o choque no rosto dele ao revelar aquilo, mas se conteve — Mas não se preocupe, foi só a primeira vista, depois de te conhecer melhor percebi meu engano.

— Ei!

— O que foi?Só estou dizendo a verdade!

— Não , estamos quase chegando!

— Nossa, faz bastante tempo que não venho até esse lugar. Depois que a vovó faleceu, minha mãe nunca mais me deixou vir.

— Por que não?

— Talvez sejam as lembranças.

— E como se sente ao estar aqui?

— Não sei direito. — Maria desceu do cavalo com a ajuda de Francisco e analisou o terreno sem cuidados da antiga casa de sua avó com o mato quase alcançando as janelas — Ela não gostaria de ver as coisas assim.

— Quando se mudar vai poder colocar suas flores aqui.

— Isso se me casar até o fim do semestre. — Maria tirou a chave do bolso e atravessou aquele matagal para alcançar a porta — Vamos!

Ao entrar na suposta casa abandonada de sua avó, Maria Luísa esperava encontrar tudo coberto com toalhas brancas e poeira, mas ao contrário. Cada pedaço da sala logo na entrada, estava limpo. O piano estava com sua tampa aberta com visíveis sinais de uso. No sofá, uma manta azul celeste nova em folha enfeitava em frente a um vaso de flores em estado totalmente conservado. A expressão no rosto de Francisco foi quase maior que a dela.

— Não disse que estava abandonado?

— Mas estava. A não ser que alguém tenha invadido.

— Muito bem cuidado pra ser isso.

Maria subiu as escadas apreensiva de ter alguém no andar superior.

— Espere. Me deixe ir primeiro!

— Como quiser. — Maria deu um passo para o lado e deixou que ele fosse em frente. Não achava que ainda tinha alguém na casa, mas se ele queria bancar o protetor, não seria ela que o impediria.

— Não tem ninguém mesmo. — Disse após uma inspeção mais minuciosa. — Mas acho melhor não mexer em nada, senão vão descobrir que estivemos aqui.

— Como assim? Sou a dona dessa casa, é claro que eu teria que vir aqui algum dia!

— Mas se quisermos descobrir quem está usando a casa, temos que deixar tudo do mesmo jeito que encontramos.

— Vamos ficar de tocaia esperando?

— Mais ou menos. Vamos pagar alguém para isso, já que não sabemos quando a pessoa vai voltar. E também, você não tem tanto tempo assim disponível.

— Não tenho mesmo.

— Vamos logo então!

Os dois tinham deixado o cavalo um pouco mais afastado da casa e seguiram a estrada a pé em silêncio quando cruzaram com uma figura bastante desagradavel.

— Maria Luisa? O que a filhinha mimada do prefeito faz andando nesse fim de mundo? Seu pai por acaso sabe que está aqui?

— Não é da sua conta. — Maria apertou o passo sendo seguida de perto por Francisco.

— E Ana Júlia?— Ele perguntou a acompanhando de perto. — Fiquei sabendo que ela fugiu para estudar na capital.

— E?

— Queria saber se é verdade.

— E pra quê? Já não basta tudo o que fez? Deixe minha amiga em paz! Ela finalmente conseguiu o que sempre quis e não precisa de um maluco como você na vida dela!

— O que disse? — Bernardo fez menção de se aproximar, mas Francisco se colocou entre eles.

— Acho que já foi o suficiente. — A voz de Francisco mais soava como um aviso silencioso que nem mesmo Bernardo ousou continuar — Vamos embora!

Assim que se afastaram Maria Luisa pergunta se sabia quem era aquele rapaz.

— Só pode ser aquele homem que vivia atrás de sua amiga. Marcelina me contou tudo.

— Viu só? É por isso que recusei a maioria dos pretendentes. Todos são assim.

— Eu não. — disse no mesmo instante.

— Não, você não é e agradeço imensamente por isso. — Disse encarando o céu azul que se estendia sob eles fingindo não perceber a vermelhidão que se espalhou no rosto de Francisco.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.