Francisco Baltazar Tavares caminhava todos os dias cerca de cinquenta minutos até um dos vinhedos da família Amaral para trabalhar, mas naquele dia em especial, quando estava quase chegando, teve a sensação de que devia voltar para casa.

Não era um rapaz que tinha pressentimentos com frequência, mas os tons de cinza e o vento forte que começou a lhe causar arrepios, foi o que decretou seu retorno imediato.

Assim que passou pela porta da inacabada residência de tijolos, aguardando sua camada final de pintura azul-marinho, conseguiu sentir o desespero do ambiente. Aquelas paredes agora estavam manchadas de carmesim.

O pai foi o primeiro que encontrou de bruços no meio da cozinha. Ele tinha o braço estendido na direção da pia onde ficava escondida a arma da casa. Se aproximou tentando juntar coragem para virá-lo e ao fazer isso, teve as mãos manchadas contendo seu sangue.

O choque em seu rosto ficaria gravado na memória de Francisco e iria surgir em seus pesadelos nos próximos anos. Mesmo tremendo de pavor, conseguiu fechar os olhos dele para que ninguém mais o visse daquela forma.

Após sair daquele cômodo, teve um sobressalto ao perceber que não estava sozinho na casa. Alguns homens, três pelo que conseguiu perceber, vasculharam cada centímetro da casa mexendo em gavetas, armários, tirando tudo para fora causando um verdadeiro caos.

Francisco sabia que devia ter saído correndo daquela cena pavorosa e nunca mais voltar, até poderia fazer isso sem ser notado por conta de sua baixa estatura, mas por conta de sua juventude, a imprudência falou mais alto e com indignação partiu para cima do primeiro que viu.

Apesar da surpresa inicial, o homem era muito mais forte que seu corpo de quatorze anos e o subjugou tão rápido que Francisco se viu com o rosto colado ao chão com o joelho do invasor pressionando suas costas.

— Quem são vocês? — Gritou tentando se soltar a todo custo — Porque fizeram isso? Ele nunca machucou ninguém!

Francisco estava pressionado contra o chão, com o peso esmagador do joelho do invasor em suas costas, imobilizando-o. Seu rosto estava colado ao piso frio e áspero, enquanto a mente lutava para compreender o horror que se desenrolava ao seu redor. A cozinha, outrora familiar e acolhedora, agora se tornava um cenário de caos e violência.

Enquanto estava ali, impotente, ouviu os homens conversando entre si. A razão para aquela brutalidade finalmente foi revelada: uma dívida não paga. Francisco soube então que seu pai não era o responsável; seu tio é quem havia se endividado além do que podia pagar. A compreensão dessa verdade veio como um golpe, deixando Francisco chocado e atordoado.

A crueldade da situação ficou ainda mais evidente quando percebeu que, na ausência do pagamento, os cobradores se voltaram contra a família, determinado a não deixar ninguém escapar. Francisco entendeu que agora ele teria que lidar com essa dívida, enfrentando a ameaça de um destino similar ao de seu pai.

O coração de Francisco batia furiosamente contra o peito, cada palavra que ouviu penetrando como uma lâmina afiada. Ele se viu impotente, esmagado pela brutalidade da revelação e pelo peso da responsabilidade que agora recaía sobre ele.

Os invasores largaram Francisco no chão onde permaneceu até escurecer e uma chuva intensa ter assolado a região. Foi obrigado a ficar com o cadáver do pai a noite toda e quando amanheceu não se via mais o olhar de inocência em suas feições , enterrou o pai sozinho e jurou a si mesmo que depois de pagar tudo para aqueles homens, iria atrás do tio para fazê-lo sofrer tanto quanto ele naquela manhã cinzenta.