Tempo Ao Tempo
2 Capítulo 1 – Um reencontro inusitado e a fuga!
Notas iniciais
Definitivamente a ressaca era a pior inimiga de Natsu. Acordando com a cabeça pesado uns vinte quilos, ele se levantou lentamente do chão, sentando em seguida. Pôs as mãos na cabeça e gemeu, a dor estava quase insuportável. Olhou o relógio que marcava 14:35 e praguejou baixinho, havia perdido aula. A única coisa que ele lembrava era de ter comprado duas garrafas de vodka na mercearia da esquina depois de sair da escola. Afogar suas angústias nas bebidas tinha virado costume para ele, principalmente quando chegava certo dia.
Mas Natsu não gostava de falar sobre isso, ou ao menos pensar. Seu passado era doloroso, e enquanto o tempo passava e os dias se repetiam a cada ano, ele apenas se isolava e se alcoolizava até perder a consciência. As duas garrafas vazias ao seu lado comprovavam como ele tinha conseguido aquela maravilhosa ressaca. Com certeza seus amigos deveriam estar preocupados por não ter aparecido na escola, mas ele não queria falar com ninguém agora.
Levantou-se do chão com dificuldade, se apoiando no sofá. A luz acesa de seu celular que estava em cima do centro lhe chamou atenção. Passou o dedo na tela e quando o celular destravou a luz digital lhe deixou com mais dor de cabeça ainda. Sua casa estava inteiramente na penumbra, pois havia fechado tudo noite passava. E agora já passava da hora do almoço.
Ignorou as vinte uma chamadas perdidas e mais algumas mensagens, e seguiu para o banheiro. Despiu-se e entrou no box, tomando um banho gelado para tirar o álcool do corpo. Mesmo sendo desinteressado por qualquer coisa e emburrado com tudo, Natsu não gostava de faltar aulas. Afinal, tinha uma bolsa de estudos e tinha que ser um aluno exemplar. Alguns anos antes, não precisava se preocupar com isso, já que era rico. Mas com alguns acontecimentos do passado sua família desceu milhares de degraus na alta sociedade, e agora tinha que viver com o básico, morando sozinho em um apartamento no subúrbio.
De banho tomado, e com a cabeça mais leve, colocou uma roupa qualquer, pegou sua carteira, celular e chaves, saindo de casa em seguida. Ele não tinha um destino definido, apenas queria sair e tomar um pouco de ar. Mas para as pessoas de fora, ele chamava bastante atenção. Além de andar de cabeça baixa e mãos nos bolsos da calça pelas ruas, sua feição não era das mais amigáveis. O fato de andar rápido também não contribuía. Passando pelas ruas aglomeradas, Natsu andava de cara fechada, com uma expressão de “se me olhar, eu te mato” e qualquer um que o visse pensaria duas vezes antes de mexer com o garoto.
Depois de algum tempo, ele percebeu os diversos olhares sobre si. Afinal, o que aquele povo tanto olhava? Até algumas pessoas paravam o que estavam fazendo ou abriam passagem para ele passar! Mas que droga! Ele estava apenas com uma simples camiseta vermelha, sapatênis e calça jeans, o que há de tão anormal nisso?, pensou.
Mas a questão crucial era: havia se esquecido de seus exóticos cabelos rosados. Fios dessa cor não eram muito comuns, ainda mais naturais. Mas Natsu não se importava, mesmo sendo ridicularizado quando era mais novo, quando seus colegas o chamavam de Barbie. E ele havia aprendido muito cedo quando um punho podia falar mais que palavras. Ele não era muito de conversar, sabe.
Ainda andando rápido e ignorando todos os olhares, passou por um lugar que lhe chamou atenção. Retrocedeu alguns passos e inclinou a cabeça para trás para observar o estabelecimento à sua frente. Com um letreiro colorido, mesas de granito e sofás na cor vermelha de dois lugares ao redor delas, a Soverteria Dreyar estava lotada naquela tarde. Natsu sabia que conhecia tanto o nome quanto o lugar, mas não se recordava exatamente de onde. Mas quando viu um loiro alto atrás do balcão de atendimento, sua mente se clareou. Sorrindo minimamente, coisa que era rara no seu dia-a-dia, ele empurrou a porta de vidro, e balançando, consequentemente, o sino que estava pendurado no alto, para avisar que mais um cliente havia chegado. Nesse momento todos que estavam ali, desde jovens à senhoras de idade, olharam para ele. Já estava acostumado a ser o centro das atenções, mas às vezes as pessoas exageravam! Fazendo cara de pouco caso, ele se dirigiu ao balcão e sentou numa banqueta, olhando para um loiro musculoso que estava de costas.
Rindo internamente, ele se ergueu do assento, colocando o tronco por cima do balcão e dando uma tapa “amigável” nas costas do amigo. O loiro foi com tudo para frente, os pulmões espremidos em sua caixa torácica. Com o rosto vermelho e com a voz meio enguiçada, virou-se de súbito para trás.
– QUEM FOI O FILHO DA PU... – Percebendo onde estava, sua voz foi morrendo e ele deu um sorriso sem graça para algumas senhoras que lhe enviavam olhares repreendedores. A risadinha irônica ao seu lado o fez voltar para Natsu.
– NATSU?! – foi impossível não gritar devido à surpresa. O rosado revirou os olhos.
– Fala baixo, porra. – já bastava de chamar atenção por um dia.
Mas Laxus estava estático. Fazia anos que não via o amigo de infância, pois o mesmo havia se isolado do mundo depois do acidente com sua família. Mas agora o cara estava ali, na sua frente.
– O que está fazendo aqui? – perguntou, reformulando em seguida: – Digo, como me achou?
Natsu voltou a sua costumeira face entediada.
– Estava andando por aí quando te vi aqui, e resolvi entrar. Não estava bem te procurando.
– Putz, cara. É bom te ver! – exclamou o loiro eufórico, que logo contornou o balcão para dar um abraço no rosado. Ele não gostava muito de contatos físicos, principalmente com homens, mas devido às circunstâncias, retribuiu com as típicas “tapinhas amigáveis nas costas” de todo abraço masculino. E mesmo que não admitisse, estava feliz por ver o amigo de infância.
– Mas então, não vai perguntar o que eu quero? – indagou, pegando o cardápio.
Laxus sorriu de repente de um jeito estranho, e Natsu sabia que aí vinha merda. O loiro pegou em seu ombro e estreitou os olhos para ele, balançando a cabeça de forma maliciosa.
– Pede aí, cara. É por conta da casa.
Desconfiado como era, o rosado não deixou passar.
– Sai, puto – falou, desvencilhando o braço dele de seu ombro. Logo Laxus levantou as mãos em sinal de rendição. – O que você quer? Isso tem cara de treta.
Laxus gargalhou, o cara era esperto. Na verdade, Natsu não poderia ter aparecido em hora melhor.
– Bom, por que não saímos, como nos velhos tempos? – perguntou inocentemente.
O rosado revirou os olhos.
– Fala logo que você quer!
– Tudo bem, tudo bem – suspirou – Tenho uma entrevista de emprego na cidade vizinha, queria que você fosse comigo.
Natsu pediu à garota atrás do balcão um sorvete de baunilha, que corou assentindo. As mulheres gostavam dele, talvez fosse o mistério. Voltou para o amigo.
– Não estou entendendo a tua, cara. Mesmo meu gancho de direita sendo bom, você desse tamanho não precisa de guarda-costas.
– Vai rolar grana. – foi direto ao ponto.
Natsu olhou para ele, se animando de súbito, mesmo não expressando nenhuma reação. Não trabalhava e vivia do pouco dinheiro que havia sobrado de toda a fortuna da sua família. Mas um dia o estoque acabaria, e qualquer dinheiro extra é bem vindo. Mas algo estava errado.
– Mas você já não trabalha aqui?
Ele fez que não com a cabeça.
– Isso aqui é da minha mãe, venho ajudar quando posso. Mas a questão é que estou para me formar no final do ano, e temos que juntar dinheiro para a festa de despedida.
– Fez engenharia elétrica como queria? – perguntou o rosado, recordando-se de quando eram pequenos e o loiro dizia que seguiria a profissão. Tinham cinco anos de diferença na idade.
– Claro – respondeu sorrindo – Mas então, topa?
A desconfiança ainda não deixava Natsu.
– O que é para fazer?
Ele viu Laxus sorrir sem graça e desviar o olhar para o lado, murmurando algo inaudível:
–... oy.
– O quê? – perguntou, não tinha entendido absolutamente nada.
–... oy. – Natsu tinha se inclinado para frente, mas continuou sem entender. Estava perdendo a paciência.
– Fala alto, porra!
– GOGOBOY! – gritou Laxus a plenos pulmões, fazendo todos olharem para os dois. Com vergonha o loiro corou e se encolheu no banco.
– Gogoboy, porra? – sussurrou Natsu, surpreso.
– É – sorriu malicioso –, dá uma boa grana.
– Vai te fuder, veado! – exclamou o rosado raivoso, levantando-se de súbito do assento – Se tu queres dar o teu cú, vai sozinho porra!
As pessoas agora estavam incrédulas, mas ninguém teve coragem de dar um pio. Só se olhar para cara do garoto de cabelos róseos sabiam que não deveriam mexer com ele. Fingiram que não ouviram.
– Não, espera! – pediu Laxus, pegando no braço do amigo e impedindo que fosse embora. – É sério, se eu for com outra pessoa, a grana triplica! Nós dividimos.
Mesmo a oferta sendo tentadora, Natsu estava dando mais ouvido ao seu orgulho masculino. Já estava se imaginando com aquelas roupas sádicas de couro negro, com suas bolas espremidas numa cueca/calcinha. Ele definitivamente não faria aquilo.
– E por que logo eu? – se sentou novamente.
Laxus assumiu uma face divertida.
– Sei lá, acho que combina com você, com esse cabelo rosa aí, vai fazer sucesso com as mulheres.
– Vai se fuder!
– Calma! – riu o loiro. Nessa hora uma garçonete trouxe o pedido do rosado, rindo sedutoramente. Antes de sair ela piscou para ele, balbuciando um “me liga”. Os dois notaram que embaixo da taça da sobremesa havia um guardanapo com um número de telefone e o nome “Bia”. – Não disse que você faz sucesso? – completou ao ver a cena.
Desinteressadamente, Natsu pegou o guardanapo o amassando e jogando no lixo. Começou a tomar o sorvete.
– Não tenho cabeça para isso agora.
– Cara... – Laxus começou, não perdendo oportunidade de zoar um pouco – Acho que esse teu cabelo rosa está afetando mesmo. A Bia é mô gata.
Natsu fez cara feia e mostrou o dedo do meio a ele, colocando mais uma colher do sorvete na boca.
– Onde é?
Laxus ficou animado, ele era muito elétrico. Natsu também costumava ser, mas agora se irritava com tanta alegria.
– Na cidade vizinha, em Hargeon.
– Quando é?
– Nesse sábado agora.
O rosado terminou seu sorvete e empurrou o recipiente vazio no balcão. Levantou-se e retirou da carteira algumas notas e colocou ao lado. Laxus com o cenho franzido viu o amigo ir em direção a saída e antes que abrisse a boca para falar, ele se pronunciou:
– Depois venho para combinarmos melhor.
O loiro sorriu, vendo-o ir embora.
Do lado de fora, Natsu voltou a andar pelas ruas, mais calmo dessa vez. Foi bom reencontrar o amigo, mesmo vendo que ele continuava o mesmo filho da puta. Só esperava não se arrepender dessa merda.
Dois dias depois, Hargeon, 19:35 PM.
Na mansão mais majestosa da cidade, uma festa típica de alta sociedade acontecia. Com uma música calma ao fundo, as pessoas vestidas elegantemente conversavam entre si. Os canapés variados e taças de Champagne eram servidos freneticamente por garçons de roupas alinhadas. Quem olhasse de fora, diria com toda certeza que era uma festa de uma pessoa de meia-idade. Mas na verdade, era apenas a festa de dezesseis anos de Lucy Heartphilia, a segunda maior herdeira do país. Com um vestido de gala negro e longo, a mesma sorria e conversava com cada velho gagá que seu pai lhe apresentava. Suas bochechas já estavam doendo de tanto sorrir, e não agüentava mais rir das piadas tocas dos homens.
Aquela não era uma festa dos sonhos para uma adolescente. Nem ao menos conhecia um décimo das pessoas que estavam ali, sendo que a maioria delas ou eram velhos demais, ou eram os filhos deles. Mas Lucy não gostava de conversar com aqueles jovens, pois eles eram mesquinhos e arrogantes. Todos os seus esforços de impedir seu pai de realizar aquela festa foram em vão, e lá estava ela, mais uma vez fingindo que estava feliz. Já não aguentava mais os flashs das câmeras dos Paparazzi sobre si, os minutos pareciam anos.
E finalmente depois de algumas horas, Lucy se viu sozinha em seu quarto. A festa havia sido perfeita, na concepção do seu pai, lógico. Aproveitou que Virgo estava organizando as coisas e se jogou na cama com roupa e tudo, sem nem ao menos tomar banho. Às vezes era bom quebrar a rotina. Dormiu no mesmo instante de tão cansada.
No dia seguinte, de banho tomado e devidamente vestida, Lucy desceu para o café da manhã. E por incrível que pareça seu pai estava à mesa, bebericando um café enquanto lia um jornal. Saiu do estado de choque e sentou-se do lado oposto, escolhendo da mesa farta apenas um pedaço de bolo e suco de laranja. Ficou esperando seu pai notar sua presença, mas isso não aconteceu. Decidiu se pronunciar.
– Bom dia, papai.
Escutando a voz da filha, Jude tirou os olhos do jornal e se dirigiu à sua ela, sorrindo.
– Bom dia filha. É raro nos encontrarmos assim.
Por sua culpa, Lucy pensou, mas ficou calada. Seu pai era um homem bom, mesmo que com alguns conceitos errados, principalmente em relação ao dinheiro. Mas seu pior defeito era direcionar sua vida apenas para o trabalho, esquecendo de sua família, de Lucy. Ela já estava acostumada, mas às vezes se sentia sozinha.
– Pois é. – disse apenas. Logo ele voltou ao seu jornal, deixando Lucy a ver navios. Será possível que um jornal era mais importante que ela?
Mas ela não tinha tempo para pensar nesse tipo de coisa agora, tinha que agarrar essa chance de encontro. Já estava há dias querendo pedir uma coisa a seu pai, mas sempre perdia a coragem, ou não havia oportunidade. Agora era a hora perfeita!
– Er... Pai. – chamou ela timidamente. Estava nervosa e enrolava freneticamente a barra de seu vestido no dedo.
– Hum? – murmurou, ainda sem deixar de olhar o jornal. Lucy respirou fundo.
– Eu queria te pedir uma coisa.
Ouvindo isso, Jude dobrou o jornal e o pôs em cima da mesa. Tomou mais um gole de café e perguntou:
– E o que é? – ela foi interrompida quando ia responder. – Precisa de dinheiro? Seus cartões de crédito estão todos em dia. Se quiser sair para fazer compras, eu mando o Caprico te levar, mas é claro que o Jean vai junto.
Lucy suspirou e negou com a cabeça.
– Não é isso, é... – hesitou. Não sabia qual reação seu pai teria. Mas antes que criasse coragem para prosseguir...
– OH MEU DEUS! – gritou ele de repente, fazendo a filha dar um pequeno salto pelo susto. Começou a especular, histérico: – Eu já sei! Você quer fazer uma cirurgia plástica não é?! – Lucy se engasgou com a nada – Não ligue por que a herdeira dos Blendy, aquela menina, Sherry, fez uma plástica no nariz. Aquela família tem valores estranhos e até silicone a garota tem! Mas filha, não se preocupe, pois você não precisa de nada disso. Seu rosto foi esculpido pelos anjos!
Ela arregalou os olhos e negou, espalmando as mãos a frente do corpo.
– Pai, não é nada disso! – falou com um tom mais ativo e logo se repreendeu, corando um pouco. Seu pai não gostava quando ela esquecia os bons modos, mesmo ele gritando daquele jeito. Continuou: – Eu quero...
Instintivamente Jude se inclinou para frente sobre a mesa, estreitando os olhos.
– Você quer...? – a instigou a continuar.
Com seu pai a olhando daquele jeito, Lucy sentiu vontade de sair correndo e nunca mais tocar no assunto, mas sabia que deveria ao menos tentar. Decidiu falar de uma vez, num só fôlego.
– EuqueroirestudarcomaMichelle.
Ele franziu o cenho.
– Como? – perguntou, fazendo uma careta – Lucy, fale devagar. Onde estão os modos?
Ela corou e respirou fundo, se corrigindo:
– Eu quero ir estudar com a Michelle, papai.
Mesmo entendido dessa vez, Jude não acreditou no que ouviu. Desenvergou o corpo e sentou corretamente na cadeira, olhando pasmo para a filha que estava de cabeça baixa.
– E por que isso, Lucy?
Esse era o ponto, ela pensou. Mas não poderia hesitar nesse momento, já tinha o feito demais. Estava cansada de ser aquela garotinha presa que sempre faz o tudo o que o pai quer. Queria ver o mundo através de seus próprios olhos.
– Eu quero estudar numa escola normal, papai. – falou ela, o olhando tristemente. Mas logo abriu um sorriso: – Eu quero conhecer novas pessoas, outros lugares. Mas quero andar sozinha dessa vez, não viver apoiada no senhor.
O Jude histérico e dramático voltou.
– EU NÃO ACREDITO NISSO! – gritou como se tivesse descoberto o culpado de um crime perfeito – Algum professor particular lhe destratou não foi? – Lucy, incrédula, ia responder, mas seu pai continuou a tagarelar – Eu sabia que deveria ter escolhido melhor e... NÃO! – mais uma luz acendeu em sua cabeça – Eles assediaram você? Eu vou matar o desgraçado, quem foi?
Lucy nem teve chance de falar, apenas bateu a mão na própria testa.
– Foi aquele tal do Freed, não foi? Sempre o achei esquisito com aquelas roupas e tudo mais. Mas eu pensei que ele era gay, por isso supus que não haveria problema... EU VOU MATAR AQUELE ENERGUMENO! JEAN!
A loira arregalou os olhos e levantou-se de súbito.
– Pelo amor de Deus, pai. Não é isso! – mas ele não escutou. Com o grito, logo um homem de uns três metros de altura, musculoso e com cara de gangster apareceu na entrada da sala de jantar. Ele estava vestido com um fino terno negro, mas seu corpo era tão grande que os botões do paletó quase saltavam para fora.
– Chamou, senhor? – perguntou ele, fazendo uma reverência.
– Sim, chamei...
– Não, não chamou pai! – interrompeu Lucy afobada. Às vezes seu pai gostava de dar uma lição em algumas pessoas e o Jean fazia uns trabalhos extras além de proteger a casa. Era uma coisa que Lucy repudiava piamente. Violência não leva a nada.
– Mas filha...
– Pai – enfatizou –, nada disso aconteceu. O senhor ficou especulando e criando coisas inusitadas na cabeça, mas na verdade eu só quero ser feliz! Não aguento mais viver trancada aqui dentro, me sinto sozinha.
Sem nem desviar o olhar da filha, Jude fez um gesto com as mãos para o segurança sair do recinto, e logo ele o fez sem dizer uma palavra. Ele se levantou e ficou de frente para filha, pegando em seu ombro.
– Minha filha, eu sinto muito... Mas eu não posso concordar com tal coisa.
O coração da loira se apertou e seus olhos marejaram.
– Mas... Por quê? – perguntou num sussurro triste.
Pegou em seu queixo e a fez olhar para ele.
– O mundo é perigoso, filha. Tenho medo de te perder.
Sempre era a mesma ladainha. O sentimento que Lucy sentiu naquele momento foi raiva, coisa ao qual quase nunca sentia. Afastou-se de seu pai de súbito e com agressividade, o fazendo ficar surpreso.
– Não, pai. O senhor já está me perdendo dessa maneira.
– Lucy... – balbuciou vendo a filha chorar.
– Você prometeu! – exclamou fechando os olhos e abaixando a cabeça, os punhos fechados fortemente. Soluçou: – Você prometeu a mamãe antes de ela partir que me faria feliz! Mas você mentiu! Por que eu estou triste papai, muito triste.
O coração de Jude amoleceu diante daquelas palavras. Se ele tinha um ponto fraco, era sua falecida esposa, a única mulher que amou na vida. Diferente do Lucy pensava, ele se recordava muito bem daquela promessa, mas tinha medo. Sua filha era seu bem mais precioso, e ela se parecia tanto com sua Layla, que chegava a doer só de imaginar algo de ruim acontecendo com ela. Mas naquele momento, foi como se sua mulher estivesse ali ao seu lado, observando a cena e dizendo “Jude, você é super-protetor demais, seu velho ranziza”. Com isso ele riu para o nada e abraçou a filha que ainda não parava de chorar.
– Me desculpe, meu amor – falou ele, apertando mais a filha contra si. Estava se desculpando pelas duas.
Lucy ficou surpresa pelo abraço, mas aproveitou o momento raro e se aconchegou mais. Os braços de seu pai eram mornos e lhe davam uma sensação de segurança. Era maravilhoso.
– Tudo bem! – falou ele por fim, suspirando. A loira se afastou para olhar seu rosto.
– Sério? – perguntou animada.
– Sério! – Ela sorriu e o abraçou ainda mais, repetindo milhares de “obrigada”. Jude sorriu. – Mas, tenho duas condições.
Ela já sabia disso, mas não deixou de ficar com medo. Afinal, seu pai era meio pirado às vezes.
– E quais são?
– A Virgo vai junto – ela sorriu, adorava a Virgo e não seria problema nenhum – ... e mais três seguranças.
O sorriso de Lucy morreu.
– Mas pai!
– Ou é isso ou nada, mocinha.
Ela suspirou pesadamente, não tinha jeito mesmo. Mas não iria perder a oportunidade de pelo menos tentar. Estava eufórica por saber que moraria com sua prima, Michelle. Ela era da família de sua mãe e morava em outro estado. Lucy gostava muito dela, afinal ela não ligava para dinheiro, apesar de também ser rica, mesmo bem menos que Lucy. Mas Michelle era a pessoa mais divertida que conhecia. Tinha que admitir que ela era meio doida e escandalosa, mas uma ótima pessoa. Estava animada para fazer novos amigos por lá.
– Tudo bem – disse por fim, o abraçando novamente.
“Espero não me arrepender, Layla”, pensou Jude durante o abraço. Mal ele sabia quanta dor de cabeça estava por vir com essa viagem.
***
O grande dia havia chegado, e lá estava Lucy, com um vestido azul elegante e clássico, sentada na sala de espera do aeroporto, aguardando seu voo ser chamado. Ela dava graças aos céus por não precisar usar aqueles espartilhos esmagadores de rins, mas mesmo assim a roupa que usava agora a incomodava. O vestido azul ia até acima dos joelhos e era um tanto justo. O decote seria bem avantajado se não fosse uma tela de tecido transparente ridículo que cobria seu colo. As mangas cobriam seu ombro e um pouco de seus braços e eram de uma textura que coçava um pouco, além de ser bem flocado.
Mesmo aquela sendo uma das roupas de grife da última coleção de uma Designer famosa que nem sabia o nome, ela estava se sentindo ridícula. Seus cabelos estavam soltos, o que amenizava o look, mas aqueles sapatos de salto alto em conjunto com a bolsa do mesmo material, couro, estragava qualquer possibilidade de parecer uma adolescente de 16 anos. Resmungou mais um pouco, chamando a atenção de Virgo, que estava ao seu lado.
– Hime, você está perfeita.
Ela revirou os olhos.
– Não mesmo, estou me sentindo um robô. Essa roupa coça e é desconfortável.
Virgo suspirou e ficou calada, desde que chegaram ali a loira reclamava. Por outro lado, Lucy estava agoniada com outra coisa além de suas vestes. Estava quase chegando na hora do voo, e nada dos tais seguranças aparecerem. Caprico, o motorista, estava em pé ao lado das duas, coisa que chamava bastante atenção, pois era um homem alto e forte vestido com um terno azul marinho. E como se não bastasse, ele usava óculos escuros. Bom, isso seria normal se não fosse noite, mas ela preferiu ficar calada.
Mais alguns minutos de impaciência e um tique nervoso na perna esquerda, Lucy escutou seu voo ser chamado. Virgo, vestida casualmente sem seu costumeiro uniforme, se levantou junto com ela, que estava afobada.
– Ai meu Deus do céu! Cadê eles? – indagou, murmurando e olhando ao redor do salão cheio de gente.
– Estamos aqui, Lucy-sama.
Lucy com o susto se esgueirou de lado, com as duas mãos unidas junto ao corpo. Mas ao contrário do que podem pensar, ela não se assustou pelo que ouviu, mas sim pelo o que estava vendo. O próprio Jean estava à sua frente, com mais dois homens que eram tão assustadores quanto ele. Ela não fazia ideia do que seu pai tinha na cabeça para mandar aquelas caras a escoltá-la.
Oh, não! A linha de raciocínio da loira não a agradou nem um pouco. Em sua mente, já estava vendo a cena de seu pai dando instruções para os seguranças, para matar qualquer um que se aproximasse dela. Aquilo não ia dar certo, pois ou haveria um massacre, ou Lucy não faria nem um único amigo. E se fosse para escolher, infelizmente, ela ficaria com a segunda opção. Não queria ter culpa por um assassinato, pois já tinha visto Jean em ação e devia admitir que o cara gostava de um sangue. Ou pelo menos, tirá-lo do corpo das pessoas.
– Vamos, Hime. – a voz de Virgo a despertou e roboticamente ela se viu andando para área de embarque.
Caprico ficou para trás, afinal, ele era só o motorista. Os três Guarda-Roupas seguiam Virgo e Lucy, atraindo olhares e murmúrios das pessoas. A loira se encolheu, não gostava de atenção. Mas estava profundamente irritada com seu pai. Mas que droga! Ele já havia ido embora, mas tinha acompanhado Lucy até ao aeroporto dizendo que ela viria visitá-lo duas vezes por mês e que o ligaria todos os dias. Também deu instruções dizendo para não fazer tudo o que a Michelle fazia, pois ela tinha um parafuso a menos. Mas quem tinha o parafuso a menos era ele! Lucy estava indo morar com sua prima para ser livre, não para ser escoltada como uma criminosa. Com a cabeça trabalhando tão rápido quanto um carro de fórmula um, ela teve uma ideia doida e totalmente inesperada. Mas medidas desesperadas requerem atos desesperados.
Depois de passarem pela triagem, entravam no avião. Nem Lucy e nem Virgo haviam levado bagagens pesadas, apenas as bolsas de mão. Elas poderiam comprar o que quisessem por lá, e a loira não perderia a oportunidade de usar roupas descoladas.Todos na primeira classe, dois dos três seguranças sentaram duas poltronas a frente de Virgo e Lucy, que ficaram lado a lado. Já Jean, ficou sentado numa cadeira mais ao fundo, perto da copa.
Olhando ao redor, a loira forçou sua cabeça a bolar um plano, analisando o Layout. Tinha exatamente dez minutos antes de o avião pegar voo. Depois de um tempo, lembrou que havia a classe econômica depois da copa, que ligava as duas áreas. Consequentemente haviam duas saídas para Lucy escapar.
Sim, ela iria fugir.
Não sabia de onde diabos tinha tirado aquela ideia insana, mas qualquer coisa seria melhor do que aquilo. Correndo contra ao tempo, ela começou a agir:
– Virgo, vou ao banheiro – disse, tentando não transparecer na voz que estava mentindo descaradamente. Aquela era a maior loucura que Lucy havia feito na vida.
– Eu lhe acompanho, Hime.
– Não! – gritou ela, rápido demais. A rosada franziu o cenho e ela se estapeou mentalmente. – Quero dizer, não precisa. Sério.
– Tudo bem.
Lucy suspirou aliviada e se levantou, andando normalmente. Por dentro seu coração batia descompassado pela adrenalina, mas mantinha a aparência serena. Depois de se afastar do campo de visão de Virgo, ela se agachou no chão, decidindo ir para a ala econômica, onde só havia Jean pelo caminho. Ela achou que seria mais fácil passar despercebida por apenas um, do que dois. Mas mesmo assim, começou a engatinhar pelo chão, se escondendo para não ser vista, pois sabia que se ele a visse iria querer acompanhá-la e ela não poderia fugir.
As pessoas olhavam pasmas para a loira que se arrastava pelo chão, como se estivesse passando por baixo de um arame farpado. Mas Lucy não ligava, estava mais concentrada em chegar à copa, passar para a ala econômica e consequentemente a saída. E quando estava avistando a luz no fim do túnel, seu rosto bateu contra algo duro.
– Algum problema, Lucy-sama? – ao ouvir a rouca e familiar, ela congelou, olhando as pernas cobertas pela calça de linho em que havia batido. Jean.
Pensando mais rápido do que um raio, ela tentou se safar.
– Oh, Deus – exclamou fingindo estar procurando algo pelo chão. Explicou-se: – Perdi a tarraxa do meu brinco! – Jean apenas arqueou as sobrancelhas para ela. Engolindo em seco, ela fingiu um entusiasmo, pegando no chão um objeto invisível entre os dedos. Levantou-se – Achei! Muito obrigada pela ajuda!
E saiu andando na direção oposta. Jean deu de ombros e voltou a sentar no assento. O coração da loira quase saia pela boca, quase havia sido descoberta! Mas não desistiria tão fácil assim, ainda tinha uma chance. O problema seria passar por Virgo e pelos dois seguranças para sair pela outra porta. Agarrando qualquer oportunidade, Lucy viu uma aeromoça passar com um carrinho de petiscos e se agachou do outro lado, andando junto e se escondendo. Quando percebeu que estava a uma distância onde não podia ser mais vista, se levantou e, quase correndo, chegou à saída. Mas antes que pudesse saltar para fora, percebeu uma aeromoça guardando a porta, provavelmente esperando passageiros atrasados.
Dando um passo para trás, Lucy se viu tendo que pensar em uma saída rapidamente. Olhou ao redor e viu o banheiro. Tendo outra ideia maluca, ela entrou e arrancou um pedaço do papel higiênico do guardador, e usando toda sua imponência e cara de rica, ela se aproximou de outra aeromoça.
– Isso é um absurdo! – Lucy falou, se esforçando para atingir um tom mesquinho. E pelo jeito azedo que a moça a olhou, ela tinha conseguido.
– Como?
– Isso aqui! – exclamou ela, quase esfregando o pedaço do papel higiênico na cara da aeromoça – Como vocês não têm papéis higiênicos aromáticos? Como espera que eu use isso?
Pela careta e sorriso forçado que a mulher deu, Lucy soube que a vontade que ela tinha era de esganá-la, mas não podia fazê-lo por causa de seu trabalho.
– Me desculpe senhorita, vamos resolver esse problema.
– Acho melhor mesmo, por que ela ali me disse – Lucy apontou para a aeromoça que estava na saída, que percebendo respondeu um “eu?” apontando para si mesma –, que você era a responsável por isso.
O que Lucy estava querendo fazer, era arrumar uma distração para a mulher sair de onde estava, dando a ela a possibilidade de escapar sem ser vista. E pelo jeito como as duas aeromoças se olharam, ela tinha acertado em cheio. A que estava guardando a saída se aproximou das duas.
– O que está acontecendo, senhorita? – ela perguntou, ainda fulminando a outra com o olhar.
Mesmo com a consciência pesada, ela colocou mais lenha na fogueira, aquela era sua única chance antes que alguém percebesse que estava demorando para voltar. Lucy fez jogo sujo.
– Ela disse que foi sua irresponsabilidade não colocar o papel higiênico aromático no banheiro! – falou a apontando para a outra.
– Oh, então ela disse isso! – respondeu, fazendo a outra indignar-se.
– Nada disso! Essa moça me disse que você que disse isso de mim, não ao contrário.
Observando uma discussão pessoal se formar, Lucy saiu de fininho do meio das duas, caminhando até a saída. Desceu as escadas rapidamente e passou pela passarela que dava acesso novamente ao aeroporto, quase correndo. Por sorte, não havia ninguém ali para vê-la saindo do avião e facilmente chegou ao grande salão onde várias pessoas passavam. Agora precisava apenas sair dali.
Quando chegou do lado de fora, sorriu e rodopiou, feliz por estar finalmente livre. Certamente aquela tinha sido uma grande aventura, mas estava feliz por ter tomado aquela decisão. Não sabia para onde iria, mas para casa mansão ela não voltaria nem morta! Lembrou-se que havia deixado a bolsa com dinheiro e cartão de crédito no avião, porém não se importou muito. Queria pensar no agora e aproveitaria aquela noite para olhar a cidade agitada e iluminada, afinal era sábado. E a noite apenas havia começado.
Andando em direção a qualquer lugar, Lucy ouviu o som alto do avião decolando e se virou para trás, olhando o enorme transporte da companhia que tinha comprado as passagens começar a sumir no vasto céu estrelado.
O avião havia levantado voo, mas sem ela dentro.
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