Tempo Ao Tempo
3 Capítulo 2 – Será o tempo agindo ou o destino?
Notas iniciais
– Ah, Hargeon! A cidade das gatinhas.
Natsu revirou os olhos, enquanto Laxus tagarelava sobre quantas mulheres bonitas habitavam naquela cidade e que seria uma ótima oportunidade para ele desencalhar. Idiota.
– Você não se cansa de raparigar não? – perguntou o rosado, num tom cansado.
O loiro pegou suas bagagens do chão e colocou um dos braços envolvendo o pescoço do amigo, sorrindo malicioso.
– Mas é claro que não. Pelo menos até eu achar a mulher certa. Mas e você... – o apertou mais, porém ele não se desfazia da face entediada – Há quanto tempo não fica com uma mulher?
Natsu se desvencilhou, irritado. Colocou sua mochila nas costas e foi andando sem respondê-lo. Laxus riu, Natsu era chato de um jeito engraçado. Resolveu zoá-lo.
– Olha cara, foi mal. Não sabia que ainda era virgem.
No instante em que Natsu se virou para olhá-lo, ele mordeu os lábios prendendo o riso. Mas ele só lhe mostrou o dedo do meio e continuou a andar.
Estavam saindo da estação de metrô, depois de algumas horas de viagem. Natsu se arrependia de todas as formas por ter aceitado essa porcaria, e se não fosse pelo dinheiro, daria meia volta e ficaria jogando vídeo-game o final de semana inteiro. Enquanto saiam da estação, várias pessoas, a maioria mulheres, os olhavam. E ele tinha que admitir que Laxus estava certo. As moças dali eram bonitas, com curvas acentuadas e rostos delicados, com aparência elegante. Poxa, realmente fazia tempo que não ficava com ninguém, o que não queria dizer que ele era virgem. A verdade é que Natsu preferiu afastar as pessoas de si, mesmo que fosse para satisfazer sua libido.
– Vejo que vou me dar bem nessa cidade! – exclamou Laxus, enquanto flertava com as garotas que os olhavam.
– Vamos logo! – irritado, puxou o loiro pela gola da camisa por trás, arrastando-o para longe de um grupo de garotas ao qual ele mostrava seus músculos.
– Até depois, amores. – soltou um beijo no ar para elas, que deram gritinhos histéricos enquanto abraçavam umas a outras, com olhares apaixonados. Natsu o arrastou e saíram da estação.
Eles só teriam que ir para a boate mais tarde, às onze horas. Pelo o que Laxus havia dito, era um lugar bem elegante onde mulheres solteiras – e casadas também – iam em grupo para se divertir e fazer coisas que normalmente não fariam na frente dos outros. Sexo explícito não era permitido, mas carícias mais sensuais aconteciam... Se bem que ele sabia que sempre se dava um jeito para o negócio acontecer, se realmente quisessem. Receberia uma boa grana e isso era o que importava. Mas também, quem sabe não tirava o atraso?
– É aqui. – Natsu despertou de seus devaneios quando chegaram ao hotel onde ficariam hospedados o final de semana. O lugar não era longe da estação, por isso vieram andando.
Entraram no hall onde uma senhora de meia idade estava lendo uma revista atrás do balcão. Quando os viu chegar ela sorriu, com suas feições maduras, porém singelas. Natsu pensou que ela era bem bonita quando nova.
– Já tem reserva, senhores? – perguntou gentilmente.
– Ah, sim. Está no nome de Laxus Dreyar. – ele respondeu.
– Só um momento.
Ela se dirigiu ao computador, pedindo os documentos de ambos para o check-in. Lhes entregou a chave, explicando algumas regras bobas de hotel, como não haver mais ninguém no quarto que excedesse o número de camas, que no caso deles eram duas. Natsu torceu o nariz, queria subir logo. Afinal quem diabos ele iria trazer para ali?
– Quarto 302, terceiro andar. – entregou a chave – Lhes desejo uma ótima estada. – sorriu.
Eles agradeceram e subiram pelo elevador. Natsu analisou o lugar, percebendo o quanto ele era simples, porém aconchegante e limpo. O que o dinheiro que tinha poderia pagar com um mínimo de conforto. Quando chegaram ao quarto, ele logo tratou de jogar sua mochila no chão e deitar-se na cama. O quarto continha o básico, com duas camas forradas com lençóis brancos, um guarda-roupa e uma mesinha de cabeceira. Tinha até uma boa vista da varanda, que mostrava boa parte da cidade iluminada.
– Olha, tem até chuveiro elétrico. – Laxus gritou de dentro do banheiro, animado. Natsu bufou e colocou o braço em cima dos olhos.
– Grande coisa. – murmurou. Mas era uma pequena regalia que nem mesmo ele tinha em seu banheiro, afinal a conta de luz tinha que ser economizada. Aproveitaria para tomar um banho quente, então. Levantou-se da cama, pegando de sua mochila outra muda de roupas e uma toalha. Expulsou o loiro do banheiro para se banhar.
Colocou a temperatura no máximo e entrou debaixo d’água, ensaboando-se. Natsu gostava de usar a hora do banho para pensar e também não se importou com a água do chuveiro caindo enquanto viajava na maionese. Estava pagando, oras. Pensando em si mesmo, começou a se perguntar se era realmente assim que queria continuar a viver. Ele nem sempre havia sido assim, fechado. Houve uma época de sua vida que ele era alegre, brincalhão e sorridente. Mas ele era um idiota, que achava que era feliz. Depois, ele descobriu como o mundo pode ser cruel, e que a maioria das pessoas são hipócritas. E apesar de se sentir culpado por seus amigos cobrarem sua antiga personalidade, ele não poderia voltar a ser o que era antes. Simplesmente não tinha motivos para sorrir.
Interrompendo bruscamente seus pensamentos filosóficos – só que não – um som estridente de música Dance anos 80 foi ouvido. Estava muito alto, será que Laxus não tinha noção? Bufou, terminando o banho rapidamente e se vestindo. Quando abriu a porta do banheiro o som tremeu em seus ouvidos. Era... Village People?
Natsu ficou ainda mais incrédulo quando viu o loiro em cima da cama, sem camisa e dançando feito uma boneca, cantando o refrão de YMCA enquanto rebolava de modo escroto. Ele desligou o som.
– Ei! Estava ensaiando para mais tarde.
– Sua bicha, se quer soltar a franga faça isso de um modo mais discreto.
Laxus ficou vermelho de raiva.
– Eu não sou gay, sua Barbie – ele pulou da cama, encarando Natsu que o fuzilava com o olhar.
– Do que você me chamou? – perguntou ameaçadoramente. Odiava quando o chamavam de Barbie e Laxus sabia disso. Parecia também que ele não tinha medo da morte, já que viu o que aconteceu com as pessoas que o zoaram com aquele apelido. Natsu era cruel quando queria.
– De Barbie. – repetiu ele aproximando-se do rosado. O loiro era alguns centímetros mais alto, o que o fazia olhar Natsu de cima. Se fosse outra pessoa, se cagaria de medo com a face assustadora do loiro. Mas Natsu também não prestava. Ambos tinham passados sombrios. E agora o rosado queria era matá-lo. Mas antes que fizesse qualquer coisa, Laxus se desfez da expressão séria se envergando para rir, chorando de tanto que gargalhava. Isso só fez a vontade de matá-lo aumentar.
– Seu filho da puta – o empurrou, fazendo-o cair na cama. Ele contorcia de tanto rir – Sabe que não gosto dessas brincadeiras.
– Você... Você d-devia ter visto a sua cara! – ele continuou a rir.
– Vai para o inferno.
Irritado, Natsu pegou sua carteira e celular, preparando-se para sair. Não aguentaria ficar mais um minuto com o idiota de seu amigo.
– Hey, aonde você vai? – perguntou Laxus ainda ofegando pelas risadas.
Ele lhe mostrou o dedo do meio.
– Não te interessa.
– Temos que estar lá às onze horas! – o loiro gritou enquanto Natsu abria a porta. Sem olhar para trás ele respondeu, saindo do quarto.
– Vou estar lá.
Enquanto esperava o elevador chegar, pode ouvir o som ligado novamente, enquanto Laxus cantava agora Macho Men. Ele riu sozinho.
– Idiota – balançou a cabeça em reprovação, pelo menos ele tinha diminuído o volume. Tirando as partes irritantes, Laxus era até divertido. Agradecia pelos poucos amigos que tinha, mas que eram verdadeiros.
Saiu do prédio, cumprimentando a senhora da recepção que acenou sorrindo. Ele precisava andar para espairecer, sempre funcionava. Só não esperava ter um encontro inusitado e que faria sua vida mudar para sempre.
***
Os olhos de Lucy brilhavam para qualquer coisa que visse. Sempre quando vinha à cidade só saia do carro para entrar nos lugares e nunca andava por ela, principalmente à noite. As luzes de sábado decorava as ruas agitadas e cheias de gente, e não parecia que ia fechar tão cedo. Andava pela calçada, observando as diversas lojas enfileiradas. Ficou admirando as vitrines com roupas adolescentes. Saias, blusas e vestidos despojados, diferentes da roupa que usava. Mas que merda! Se não tivesse esquecido sua bolsa poderia comprar o que quisesse. Queria pelo menos trocar de sapatos, pois os que usava estava esfolando seu delicados pés.
Continuou andando, se impressionando com cada coisa que via. Seu pai não a deixava fazer muitas coisas, por isso tudo era muito novo na rua. Enquanto olhava ao redor, viu na calçada uma espécie de barraquinha onde um senhor vendia um tipo de lanche. Várias pessoas faziam fila para comer. Lucy se aproximou e viu que eram cachorros-quentes. Já havia comido o pão e a salsicha separados em outros pratos, mas o conjunto apenas havia provado quando criança. Achava até que havia esquecido o gosto. Aproximou-se mais, observando o homem servindo com maestria os sanduíches, colocando a salsicha no pão com alguns condimentos. Sua barriga roncou e percebeu o quanto estava com fome. Lambeu os lábios sem perceber. Infelizmente não tinha dinheiro.
– Hey, se quer comprar, entre na fila! – gritou rudemente um homem que esperava, apontando para o final da fila.
Lucy assustou-se com a grosseria do homem, murmurando um “desculpe” enquanto saia de cabeça baixa e envergonhada. Por que tanta hostilidade? As pessoas da cidade eram um pouco estressadas.
Seu estômago roncou mais alto e se sentiu corar, com medo que alguém tivesse ouvido. Era só o que faltava, com fome e sem dinheiro! Mas não iria voltar com o rabo entre as pernas para casa, jamais! Mesmo não sabendo para onde iria depois dessa noite. Suspirou.
Depois de um tempo, sua bexiga também começou a protestar. Mas que droga, estava apertada agora! Será que dava para piorar?
O pior é que Lucy não sabia que podia.
Com uma ingenuidade sem tamanho, ela começou a perguntar às pessoas que passavam onde havia um toalete. Mas apenas a ignoravam ou a xingavam, dizendo para sair de seu caminho. Onde foi parar a educação das pessoas?
Decidindo tentar mais uma vez, atravessou a rua e se aproximou de dois adolescentes que cochichavam entre si na entrada de um beco. Estavam vestidos com roupas escuras e capuzes cobriam grande parte de seus rostos. Lucy achou que era algum tipo de moda, por isso decidiu se pronunciar.
– Er... Com licença.
Os dois pararam para olhá-la. De perto agora, ela viu o quanto a expressão deles era estranha, com as feições pálidas e um pouco agitadas. O da esquerda deu uma cotovelada discreta no outro, ato passado despercebido por Lucy.
– Vocês poderiam me informar onde tem um banheiro? – continuou, envergonhada por admitir pra precisava fazer xixi. Suas bochechas coraram levemente.
Os dois se entreolharam por alguns segundos, como se conversassem através do gesto. Lucy estava quase saindo de fininho, achando que eles não a ajudariam quando o da esquerda sorriu para ela.
– Mas é claro, dona. Podemos te levar lá.
Os olhos de Lucy brilharam e ela quase teve vontade de chorar de alegria.
– Sério?
– Claro. – o outro respondeu.
A loira agradeceu, deixando ser guiada por eles. Dava graças aos céus por ainda existirem pessoas gentis nesse mundo, caso o contrário ela estaria frita. Os dois andavam mais à frente, ainda com capuzes e mãos dentro nos bolsos frontais das calças. Eles conversavam entre si, mas falavam baixo demais para Lucy escutar qualquer palavra. Foram se afastando, entrando em ruas menos iluminadas e mais esquisitas. Ela estava começando a ficar com medo, afinal onde diabos era esse banheiro que não chegava?
À medida que andavam, menos gente havia nas ruas, até que ficaram apenas os três sozinhos. Quase não havia iluminação ali e as lojas estavam todas fechadas, como se tivessem sido abandonadas. As paredes estavam pichadas e havia muito lixo espalhado pelo chão. De repente não queria estar ali, sozinha com dois desconhecidos.
– É aqui. – o mais alto deles falou, apontando para um beco mal iluminado onde havia a placa “Banheiro Público”. Suspirou aliviada.
– Muito obrigada. – disse e foi quase correndo até lá, empurrando a porta de madeira podre para entrar no sanitário.
Havia infiltração no piso e o lugar fedia a urina. Instintivamente colocou a mão no nariz. As pias estavam quebradas e todas as paredes estavam pichadas. As portas das cabines estavam arrancadas, mas ela ignorou tudo e levantou o vestido, finalmente esvaziando sua bexiga.
Ah, que alívio!
Não havia papel higiênico, e mesmo que tivesse, ela não teria coragem de usar. O lugar era imundo. Também não tinha como lavar as mãos, por isso saiu rapidamente dali, ou morreria sufocada. Quando voltou ao beco para agradecer novamente, viu que estava vazio. Mas o que...?
Um grito ficou abafado em sua garganta quando sentiu uma mão cobrir sua boca e outra segurando suas mãos nas costas. Tentou se debater, mas ficou paralisada ao ver um dos garotos que a trouxeram ali apontar a faca na direção de seu rosto.
– Se gritar, ganha um cicatriz – ele disse friamente, encostando o metal gelado em sua bochecha.
As lágrimas começaram a sair, Lucy estava apavorada. Havia sido uma idiota por confiar nas pessoas e agora entendia o que seu pai queria dizer. Mas ele estava errado. O mundo não é perigoso, as pessoas que são.
– Passa a grana! – o que a segurava deixou sua boca livre e falou, envergando mais seus braços atrás das costas. Lucy gemeu de dor.
Ela apenas balançava a cabeça negativamente, incapaz de falar. O outro cara lhe deu uma tapa. Sua cabeça girou por alguns segundos com a dor, até que ele segurou seu queixo, fazendo-a olhar para ele.
– Grana, dona. Bufunfa, dinheiro!
– Por favor, não me machuque! – foi só o que ela conseguiu dizer, chorando ainda mais.
O que apontava a faca começou a passar as mãos no rosto, enquanto andava para lá e para cá. Parecia bastante perturbado.
– Por favor, não corra – o que a segurava pediu. Mas não era necessário. Ela estava tão aterrorizada que nem conseguia se mexer. Ele a soltou e ficou de frente para ela.
– Olha dona, não vamos te fazer mal. Apenas passa a grana e a deixaremos ir.
Lucy levantou o olhar para ele, soluçando antes de falar:
– Mas eu não tenho dinheiro.
– Vamos, vamos! – o outro gritava, ainda andando agoniado. Parecia bem nervoso e não parava de olhar para ver se alguém os via. – Eu preciso dessa grana para ontem, se não nunca mais vou sentir o cheiro do leite em pó.
Leite? Mesmo estando com medo, a mente de Lucy se abriu. Mas é claro! Já os perdoando pelo assalto, Lucy assumiu uma feição compreensível, lembrando-se da gargantilha de ouro branco que usava.
– Eu tenho isso. – parou de chorar, retirando o pescoço o objeto que nenhum dos dois havia visto. O que segurava a faca arrancou o colar de suas mãos. – Eu sinto muito. É a única coisa de valor que tenho no momento. Não sabia que era para os seus filhos.
– Filhos? – o que a segurava antes perguntou, franzindo o cenho. O outro analisava o objeto, até que viu que era verdadeiro e sorriu.
– É – ela afirmou – Vocês não precisam comprar leite?
O que estava ao seu lado apenas sorriu triste, enquanto o outro iniciou uma gargalhada escrota. Ele quase embolava no chão de tanto rir.
– A dondoca é uma burra mesmo – disse – Pó, dona. Cocaína.
Lucy ficou sem chão, havia sido enganada outra vez. Pensou que eles apenas estavam a roubando para dar o que comer a seus filhos, mas era uma teses bem equivocada. Era para comprar drogas. Teve vontade de chorar de novo de tão burra que era.
– Mas agora pode ir. Vai, vai, vai. – ele disse gesticulando com as mãos para sair dali. O outro a empurrou para fora do beco e ela começou a correr.
As lágrimas caiam novamente, deixando sua face gelada ao ser secada pelo vento que batia em seu rosto. Por que tinha que ser tão ingênua com as pessoas? Ou melhor, por que as pessoas agiam daquele modo, sendo egoístas, mesquinhos e arrogantes? Lucy não sabia responder, mas isso certamente era algo que a deixava incrivelmente triste. Sentia vontade de voltar correndo para os braços de seu pai, pedindo desculpas e dizendo o quanto fora tola. Mas... Não! Afinal, se ela era daquele jeito, era por culpa de seu pai, que a criou numa redoma, isolada do mundo real, e vivendo em seu próprio mundinho perfeito. Lucy não sabia como era vida, não sabia vivê-la conforme suas regras.
Estava correndo tão rápido que nem via por onde passava, até que esbarrou em alguém. Ela se segurou antes de cair no chão, olhando em quem havia batido. Um homem a olhava com raiva e ele tinha as mesmas características dos seus assaltantes de alguns minutos atrás. Não, não mais uma vez. Começou a correr de novo sem olhar para trás, voltando à área agitada e iluminada da cidade. Entrou em uma viela escura, constatando se não havia sido seguida ou se tinha alguém ali. Escorou-se na parede, chorando de raiva.
Ela não queria ser rica. Não queria roupas caras, nem nada disso. Queria apenas ser feliz, mas estava difícil de alcançar esse objetivo. Irritada com isso, tirou os sapatos de salto dos pés, os jogando com força na parede. Arrancou as mangas do vestido e a parte de cima do decote, como também a barra rendada que quase cobria seus joelhos. Amassou tudo e jogou no chão. O que restara do vestido agora era nada mais que um tomara que caia curto, na metade das coxas, com um decote avantajado. Pelo menos agora podia se mover melhor...
Mas e agora? Para onde iria?
Ela podia pelo menos ter planejado algo melhor, mas não! Foi tola e seguiu os impulsos, fugindo sem nem mesmo saber o que fazer. Agora estava ali, num beco sujo, com fome, com o rosto ardido pela tapa. Sentou-se no chão, se escondendo atrás da lata de lixo. E chorou como se o mundo fosse acabar.
***
Tinha que admitir que Hargeon era uma cidade agitada. Era por volta das 21:00h, mas as pessoas andavam para lá e para cá, aproveitando o comércio que não fecharia tão cedo naquele sábado. Aquela era uma cidade de classe alta, mas como qualquer outra havia ladrões à espreita esperando por um vacilo, e prostitutas fazendo pontos nas calçadas em frente às boates. Mas Natsu era esperto, e coitado de quem viesse tentar algo com ele.
Diversas mulheres passavam e soltavam cantadas. Nossa, as mulheres estavam bem diretas e atiradas hoje em dia, e isso era um coisa que Natsu não gostava. Nada se comparava ao prazer de conquistar, por que conseguir tudo de bandeja era muito chato. Se bem que ela não estava ligando para isso agora. Não queria gostar de ninguém e nem queria que gostassem dele. Se fosse ficar com alguém, seria apenas para satisfazer seus desejos masculinos.
Andando sem rumo, ele passou em frente a um beco, mas um brilho dourado ofuscou em seus olhos e ele retrocedeu os passos. Olhou para dentro da viela escura, estreitando os olhos, até que viu novamente aquele vulto dourado. Mas o que diabos era aquilo?
Natsu sentiu a curiosidade lhe tomar e cautelosamente foi andando até lá. Só percebeu que era uma cabeleira quando o vento levantou alguns fios. Ele ouviu um choro abafado. Alguém estava ali, mas não sabia dizer se era homem ou mulher até chegar à lixeira. Uma garota se encolhia abraçando as próprias pernas, com a cabeça entre os joelhos, enquanto soluçava. Ela ainda não havia o visto, mas Natsu estava surpreso demais para falar. Estava encantado pelos fios louros da garota, num tom de ouro mais brilhante que o próprio metal polido. Achou que era uma criança, por isso se agachou para conversar.
– Ei. – chamou do modo mais gentil que conseguiu. Se tinha uma coisa que ele não gostava, era de ver crianças chorando ao relento.
Ela levantou a cabeça assustada, soltando um grito de susto que fez Natsu cair sentado. Ela se encolheu mais, como se quisesse entrar na parede.
– Por favor, não me machuque. – suplicou fungando.
Que criança que nada! Em sua frente havia uma bela mulher, mas com feições tão angelicais que parecia mentira. Sua pele era leitosa e seus olhos de um castanho chocolate que se encontravam inundado em lágrimas. O nariz arrebitado estava vermelho pelo choro. Ela parecia bem assustada.
– Eu não vou te machucar. – ele disse, mas ela começou a chorar ainda mais com seu tom de voz. Aquilo soou mais hostil do que gentil. Natsu e sua forma de falar, mas que beleza! Ele com certeza tinha que ser menos rude.
Tentou tocá-la, mas ela apenas se afastou. Ele só havia piorado as coisas. Suspirou, se levantando.
– É sério – disse mais calmo dessa vez. – Eu não vou te machucar.
Ela levantou a cabeça, amenizando um pouco o choro. Natsu estendeu a mão. Ela o olhou nos olhos, depois para sua mão, depois para os olhos novamente. Parecia ponderar em confiar nele, mas ela não estava de todo errada. E sabe-se lá o que havia acontecido para ela estar assim, certamente não deveria confiar em estranhos. Mas ela pareceu gostar dele, pois sorriu e pegou sua mão. Natsu a levantou, mas não deixou de prestar atenção em como sua mão era macia e delicada.
– Obrigada – sua voz era melodiosa e doce, agora que não mais chorava. Natsu quase se arrependeu quando parou para analisá-la melhor.
Era um pouco mais baixa que ele. O vestido curto que usava acentuava suas curvas perfeitas, com sua cintura fina e coxas grossas. Os seios pareciam querer pular para fora, de tão grandes que era. O rosto tinha feições infantis, mas era ingênuo de um modo sexy. Uma mulher com rosto de menina.
– De nada – balbuciou, ainda hipnotizado. Se sentiu enrubescer, mas que droga! Desde que quando uma mulher o fazia corar? – Mas então – continuou tentando dispersar o constrangimento –, o que aconteceu para estar assim?
Ela abaixou a cabeça, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha e fazendo círculos no chão com os pés. Natsu percebeu que ela estava descalça.
– Eu fui assaltada.
– Ah! – Natsu falou apenas. Era a vida, pelo menos não estava machucada. Mas quando ela o olhou de novo percebeu que estava errado. Sua bochecha estava com uma clara marca vermelha de dedos. Ela começou a chorar de novo.
– Eu fui uma tola – Lucy começou a desabafar, desesperadamente – Eu pedi uma informação e deixei que eles me levassem para um lugar escuro. Aí... – soluçou – eles pediram dinheiro, só que eu não tinha! Então um deles me bateu e depois eu entreguei meu colar para eles. Eles me deixaram ir, mas... Estou com medo, sozinha e com fome! Eu nunca deveria ter fugido de casa!
A essa altura a garota já chorava de novo, com as mãos no rosto. Natsu estava começando a ficar desesperado, não sabia como agir. E ele não era muito bom em consolar pessoas, principalmente garotas.
– Olha só, fica calma, tá legal? Ninguém mais vai te machucar.
– Como tem tanta certeza? – ela perguntou, o olhando novamente.
– Por que eu estou aqui com você agora.
O quê? Ele tinha dito aquilo mesmo? Sentia vontade de bater sua cabeça contra a parede, mas já estava feito. Sei lá... Ele só disse o que veio à cabeça! Mas ele faria isso por qualquer pessoa não é? Afinal, Natsu não era tão ruim assim. Ou será que não?
Interrompendo seu conflito interno, a garota se aproximou dele, sorrindo. Ela ficava linda sorrindo.
– Obrigada.
Natsu engoliu em seco. Como uma pessoa que havia acabado de conhecer mexia tanto com ele?
– Tá, tá. – responde apenas, voltando a costumeira face entediada e fala desdenhosa.
Mas a garota não pareceu perceber, só ficou o olhando por longos instantes. Ela não desviava o olhar do seu, o que o fez ficar com vergonha. Mas que garota inconveniente! Quando ele ia perguntar o que ela tanto olhava, um ronco alto foi ouvido.
– Me desculpe! – ela quase gritou, envergonhada. Suas bochechas estavam vermelhas de vergonha.
– Você está com fome? – Natsu perguntou, quase rindo da cara que ela fazia. Mas logo se recompôs.
– Uhum – murmurou abaixando a cabeça pelo constrangimento.
– Se quiser, posso te levar a um lugar...
– Sério? – ela mal o deixou terminar de falar, já se animando com a ideia. Parecia uma criança querendo bolo de chocolate.
– É.
Natsu começou a sair do beco e a garota quase correu para ficar ao seu lado. Se ela queria não demonstrar o quanto estava feliz por aquilo, não estava conseguindo. Seus grandes olhos brilhavam e ela andava quase trotando de tanta animação. Em outros momentos, ela o olhava. Mas quando ele olhava de volta ela desviava rapidamente. Garota estranha.
Logo Natsu achou uma lanchonete bem parecida com a sorveteria de Laxus. Entrou, seguido da garota, que olhava tudo como se estivesse num parque de diversões pela primeira vez. As pessoas o olhavam com curiosidade, principalmente para a garota, afinal não é todo dia que você vê uma garota descalça acompanhada de um garoto de cabelos rosa. Natsu ignorou todo mundo e escolheu uma mesa mais ao fundo, sentando um de frente para o outro.
A garota balançava os pés freneticamente, observando o lugar com admiração. Ele estava prestes a perguntar se ela era do interior quando ela o olhou e soltou um grito.
– Você tem cabelo rosa?!
Natsu revirou os olhos, encolhendo-se no banco quando todos olharam para eles de novo.
– É o que parece. – respondeu azedo.
– É lindo.
Aquela garota definitivamente não era normal. Já tinha ouvido falarem muitas coisas de seus exóticos cabelos, mas nunca um elogio tão singelo. Quase sorriu, mas logo se recompôs novamente. O que aquele garota estava fazendo com ele?
– São naturais?
– Sim.
– Posso tocar? – perguntou, já erguendo a mão.
– Não.
O sorriso que Lucy mantinha no rosto sumiu e ela se acomodou no banco, balançando a cabeça. Mas ela estava com vontade de chorar, Natsu viu isso pelos seus olhos marejados. Mas que droga, por que a garota tinha que ser tão sensível? E por que ele se preocupava com isso?
Suspirou pesadamente, ele não era ele mesmo.
– Tudo bem.
Lucy quase pulou em cima dele com a permissão concedida. O afago de suas mãos em sua cabeça era maravilhoso e Natsu quase se sentiu nas nuvens, fechando os olhos.
– São macios. – balbulciou também se deleitando ao toque. – Eu nem tinha reparado neles, só estava olhando para seus olhos.
Os dois travaram. Ela percebendo o que disse corou, sentando-se novamente com o rosto totalmente vermelho.
– Q-quero dizer, seus olhos são bonitos.
– Os seus também.
Era só o que faltava. O que ele estava dizendo afinal? Demonstrando o que sentia? Lucy ficou ainda mais vermelha e até ele se permitiu corar um pouco. Aquela garota o deixava confuso, com seus sentimentos embaralhados. Deu graças aos deuses pelo garçom ter chegado perguntando o que queriam.
– Pode escolher por mim. – ela falou, envergonhada. Natsu deu de ombros e fez o pedido, mas o garçom não pareceu escutar, estava ocupado demais olhando para o decote da loira.
– Você ouviu o que eu disse? – ele perguntou, irritado. O cara desviou o olhar para ele, pedindo desculpas. Natsu odiava quem não lhe dava a devida atenção, mas gostou menos ainda quando viu o cara quase comendo a garota com os olhos.
Sendo expulso pelo olhar raivoso do rosado, o garçom anotou rapidamente os pedidos e saiu. Sozinhos na mesa, não tinham nada o que conversar, por isso ela ficou observando a loira enquanto a mesma brincava com o saleiro da mesa. Logo os pedidos chegaram. Natsu havia pedido o mesmo para ambos: Hambúrguer, batatas fritas e duas latas de coca-cola. Rapidamente ele pegou os saches de katchup para colocar em seu sanduíche, quando percebeu que a loira apenas olhava para seu prato.
– O que foi? – ele perguntou.
– É que eu nunca comi isso. – revelou envergonhada.
Natsu estava pasmo. Em que planeta ela vivia?
– Isso é sério? – ela fez que sim – Bom, apresento-lhes o hambúrguer de carne, batatas fritas e a boa e velha coca-cola. – apontou para cada coisa.
Ela riu com isso. Natsu colocou sal em suas batatas, até que viu que ela ainda não comia.
– Não vai comer? – perguntou entediado.
– Estou esperando os talheres – disse como se fosse óbvio.
Ele quase caiu para trás.
– Como assim, talheres?
– Ué, garfo e faca. Como espera que eu coma?
Bateu em sua própria testa. Começou a cogitar a ideia de que a garota era doida. Ela o olhava confusa.
– Olha só, hambúrguer não se come de garfo e faca. Se come com as mãos. – falou pausadamente a última frase. Vai que ela tinha retardo mental?
A loira pareceu bem surpresa com isso.
– Isso é sério?
– É. Preste atenção.
Natsu retirou o saquinho que cobria o pão, pegando um guardanapo e o envolvendo, para depois levá-lo a boca. A garota parecia impressionada.
– Tenta você. – disse ainda mastigando.
Com um pouco de dificuldade, Lucy fez o mesmo, mas a mordida dela foi tão pequena que Natsu ficou estressado.
– Olha, você faz assim – explicou. – Morde bem – abocanhou levando boa parte do sanduíche – ,depois pega uma batata e dá um gole no refri. – fez o que disse.
Lucy arregalou os olhos, como se tivesse entendido e tentou fazer o mesmo que ele. Mas sua boca ficou tão cheia ao final que ela quase não conseguiu engolir. Sorriu depois.
– Nossa, isso é muito bom.
Natsu quase sorriu para ela, até ver que sua boca e nariz estavam sujos de molho. Ela estava tão fofa daquele jeito, que ele quase não quis dizer. Quando ela olhou para ele, Natsu fez um gesto como se estivesse limpando a boca, mas ela ignorou e continuou comendo como se não houve um amanhã. Natsu repetiu o gesto de um jeito mais frenético e ela o olhou confusa. Revirou os olhos.
– Está sujo aqui.
– Não, não está. – ela respondeu e voltou a comer. Mas o que?
– Isso não foi uma pergunta sua idiota! Estou dizendo que está sujo em você.
Ela quase se engasgou com a comida e corou, murmurando um “desculpe” e se limpando rapidamente. Natsu quase quis se matar por tê-la chamado de idiota, mas agora já estava feito. Se bem que ela não pareceu ligar, era demente demais para perceber. Acabou rindo com isso. Depois que terminaram de comer, Natsu foi pagar a conta.
– Me desculpe, mas eu não tenho como te pagar. – disse ela tristemente.
– Eu te chamei, lembra?
Ela sorriu e agradeceu. Saíram de lá, voltando a caminhar pela rua. Foi aí que ele percebeu uma coisa. Não sabia o nome da loira.
– Qual o seu nome?
Ela pareceu animada com isso, pois parou, sorriu e estendeu a mão para ele.
– Sou Lucy. Lucy Hertphilia.
O mundo parou para ele. Arregalou os olhos, não acreditando.
– Heartphilia? – quase gritou.
– É. – disse Lucy, receosa pela reação do rosado.
– Mas como? – ele não a deixou responder – Você é a segunda herdeira mais rica do país, por que está assim, vestida desse jeito e quase morrendo de fome?
Foi aí que a mente dele seu um estalo.
– Você fugiu... – balbuciou incrédulo, lembrando-se do que ela havia dito antes.
Lucy começou a chorar.
– Por favor, não conte a ninguém!
Ele balançou a cabeça. A garota era menor de idade e tinha fugido de casa! Certamente seu pai deveria estar louco.
– Sinto muito, mas vou ligar para a polícia. – foi pegando o celular.
Lucy pulou em cima dele, agarrando sua jaqueta e escondendo o rosto em seu peito.
– Por favor, não faça isso. – ele sentiu suas lágrimas molhares sua camisa. De tão perto agora sentiu o perfume doce que ela exalava, que provavelmente era mais caro que seu apartamento. Sua pele se arrepiou com sua respiração tão perto de seu rosto quando ela o olhou – Eu não quero voltar para lá. Eu não sou feliz, só vivo trancada e tenho que fazer tudo que meu pai manda! Não adianta ter dinheiro quando se é solitária.
O coração de Natsu se amoleceu com aquelas palavras. Lucy chorava e o olhava com súplica. Ele não conseguiu resistir àqueles grandes olhos brilhantes. Suspirou derrotado.
– Você por acaso tem onde ficar?
– Não, mas para lá eu não volto! – disse determinada, se afastando dele. – Sei lá, eu dou um jeito.
Ele balançou a cabeça.
– Você é muito ingênua – ele disse e ela corou. Num lampejo, Natsu olhou seu relógio e viu que eram quase onze horas. Puta que pariu, a boate! – Vem comigo! – puxou-a e se puseram a correr.
– Aonde estamos indo? – ela perguntou.
– Vamos primeiro a um lugar, depois vemos sua situação, ok?
– Tudo bem.
Natsu continuou segurando sua mão enquanto corriam, mais por gostar de seu toque do que para se apressarem. Pensou nas possibilidades e vantagens de ficar com ela, pelo menos por enquanto. Natsu tinha o coração mole, afinal. Mas lá no fundo ele sabia que o que ele estava começando a sentir por ela era bem mais que compaixão.
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