Notas iniciais
Gente, esse cap é especial. Ele é lindo, emocionante e deu um trabalhão mas nos encheu de orgulho. A capa do cap é um show a parte, PUTA QUE PAROVISKI... quando eu vi eu babei. Obra da Ju/Rosenrot é claro. Preparem vossos corações.

Eram onze horas da noite. Shaka recolhia-se para o quarto após o término do capítulo na novela indiana que seguia, como, aliás, sempre fazia, mas naquela noite Mu pedira ao marido que deixasse a televisão ligada, pois queria ver o noticiário antes de ir para a cama.

O repentino e inusitado interesse do lemuriano no telejornal do canal local deixou o indiano intrigado, para não dizer incomodado, já que depois do desentendimento que tiveram na entrada da Casa de Virgem, e do silêncio que se seguira até ali, Mu não querer acompanha-lo ao quarto era até compreensível.

Quase nenhuma palavra foi trocada pelo casal durante o jantar, nem enquanto tomavam o Chai pouco antes de começar a novela. Quando esta começou nada também fora dito, nem diante da conclusão do sequestro insólito de Madala, a protagonista do atual folhetim das dez e nova heroína aclamada pelo virginiano.

Madala fora salva pelo grande amor de sua vida, Pavani, um nobre e apaixonado comerciante, e enquanto se beijavam aos pés dos corpos surrados dos malfeitores, Madala revelara a Pavani que esperava um filho dele. Feliz com a notícia de que seria pai, o indiano dançava com a esposa nos braços enquanto os créditos finais do capítulo subiam na tela.

Aquilo fora o suficiente para tornar o silêncio entre Mu e Shaka, que antes sempre fora confortável e acolhedor, ainda mais pesado e incômodo.

Era nítido que ambos estavam magoados demais um com o outro, tensos demais, e o Universo parecia conspirar para tornar cada vez mais difícil para ambos sair daquela situação conflituosa.

Talvez por isso Mu tenha desenvolvido um súbito interesse pelo telejornal.

Talvez por isso Shaka não insistira para que fossem juntos para o quarto.

Tão tenazes ambos estavam em evitar conflitos que nada os poderia vencer naquela hora, nem eles mesmos.

Algumas horas correram. Na sala mergulhada em penumbra Mu ignorava completamente o que passava na tela da televisão. Seu rosto melancólico era iluminado pela luz fria do aparelho enquanto o olhar perdido divisava um ponto qualquer na parede.

Na mente perturbada do ariano as palavras carregadas em ironia e acidez de Virgem ainda fervilhavam o fazendo sentir além de culpa indignação e mágoa, já que tinha acreditado que poderia partilhar com o seu amado todas as dores que lhe afligiam, e que em Shaka encontraria algum conforto e apoio.

Ledo engano.

Fora demasiadamente decepcionante perceber o modo como Virgem encarou sua confissão, e só de lembrar-se da proposta descabida de que fizesse um filho com a moça do bordel, Mu sentia ganas em estapear o rosto de Shaka, tamanha a estupidez daquela ideia.

O Santo de Áries ficou ali a refletir e devanear ainda por bastante tempo, até que cansado dos próprios pensamentos suspirou pesadamente e levantou-se do sofá, enfim desligando a televisão para ir para o quarto.

Ao entrar no aposento sentiu algo que jamais pensou experimentar. A presença de Shaka lhe era pesada!

Mu sentiu-se triste como nunca frente àquela constatação.

Fechou a porta atrás de si e logo correu os olhos pela silhueta esguia sobre a cama coberta com o lençol. Em silêncio, mesmo sabendo que Shaka não estava dormindo, uma vez que podia sentir em sua aura um agito desregrado, Mu caminhou até seu lado da cama e deitou-se, se ajeitando no cantinho do colchão sem procurar o conforto do corpo do amado como sempre fazia.

Enquanto esperava pela sorte de ser agraciado pelo sono que vem trazer alívio aos corações perturbados, Mu remexia-se entre os lençóis tentando entender os sentimentos que moviam Shaka quando este lhe disse que lhe daria um filho se caso pudesse.

Shaka teria mudado de ideia sobre ser pai? Pensava.

Todavia, não era isso que atormentava o lemuriano, mas o fato de Virgem se culpar por sua dor. Somado a isso, Mu também sentia-se mal em ter de aceitar que foram seus instintos que os colocaram em tal situação problemática. Por que, por todos os deuses, não conseguia afastar o desejo latente de ser pai de dentro de seu coração?

Quando os primeiros vestígios do amanhecer invadiram o quarto clareando a penumbra, o Santo de Áries se deu por vencido.

Não havia conseguido dormir, tampouco solucionar seu problema, por isso que, frustrado e abatido, afastou os lençóis e se sentou na borda da cama minutos antes do despertador tocar.

Como também não havia conseguido dormir, Shaka abriu os olhos se pondo a observar o lemuriano assentado na beirada do leito com os cotovelos fincados nas pernas e a cabeça sustentada pelas mãos. Suspirou lastimosamente, por ele, por si próprio... Virou-se para o lado e esticando o braço apanhou o despertador para desativar o alarme.

Ao recolocar o relógio sobre o criado-mudo um pensamento nefasto se desenhou na mente do virginiano, e em segundos ele reviveu a dor que sentira quando Mu foi embora para o exílio em Jamiel e ele de repente se viu sozinho no Santuário.

Agora, porém, a dor parecia ainda maior, pois Mu estava a seu lado, e ao mesmo tempo tão distante quanto no passado...

Passados alguns minutos de angustiante silêncio, Shaka se levantou, vestiu um robe de seda indiana e caminhou lentamente em torno da cama. Pensou em tocar o ombro do ariano para lhe dar um abraço ou o que fosse, mas Mu se levantou antes que chegasse até ele, indo calado para o banheiro sem nem olhar para trás.

Shaka o acompanhou com os olhos até ver a porta se fechar.

Nunca em sua vida imaginou viver tal situação incômoda ao lado de Mu. Assim como jamais pensou não ter a resposta para sua própria aflição.

Virgem ficou alguns instantes ali, pensativo, até que armou-se do ânimo frouxo que lhe restava e foi até a cozinha preparar o dejejum. Quem sabe à mesa conseguiria ao menos olhar nos olhos verdes de Mu e enxergar ali um fio de esperança para eles.

No banheiro, com a testa encostada no azulejo do chuveiro e a cascata de água a lhe cair sobre os ombros, Mu procurava ânimo para enfrentar aquele dia, mas mais ainda para enfrentar a presença de Shaka.

Uma sensação horrível de perda afligia seu coração de forma descabida, como se Shaka e seu casamento fossem grãos de areia que quanto mais tentasse agarrar com firmeza, mais lhe escapava dentre os dedos.

Como permanecer naquele banho não resolveria seus problemas, Áries apressou-se a termina-lo e ao fim retornou ao quarto para se vestir. Escolheu uma calça simples de tecido escuro, camisa confortável branca e o inseparável lenço vermelho sobre os ombros.

O presente que Shion lhe dera nessas horas de agonia era seu melhor remédio, lhe trazendo algum conforto.

Quando cruzou a sala e entrou no corredor que levava à cozinha, Mu pode ver Shaka ao longe de costas em frente à pia preparando o café.

Inconscientemente diminuiu os passos e se pôs e admirar a luz de sua vida.

Shaka tinha os longos cabelos presos num coque e os pés descalços. Um aroma doce e agradável de canela perfumava o ambiente e ficava mais pronunciado à medida que Áries se aproximava, contudo foi outra sensação que chamou a atenção de Mu, e de um modo nada aprazível.

A aura de Shaka, que antes fora seu diferencial, já que tinha sido seu brilho único e extraordinário que cativaram os olhos muvianos de Mu desde a primeira vez que vira Virgem quando ainda criança, estava completamente apagada, opaca.

A passos surdos, e sentindo o peito comprimido por uma angustia devastadora, Mu seguiu correndo os olhos pela figura apagada de Shaka, e ali sentiu, pela primeira vez, o peso da culpa que tomara completamente para si.

Tormento esse que também já fazia com que Shaka perdesse definitivamente todo o autocontrole e equilíbrio emocional que passara anos cultivando.

Tamanha era a agonia do Santo de Virgem que sem saber que era observado continuou a ralar o gengibre para preparar o Chai. Nem se dera conta de quando tinha deixado a raiz de lado para segurar com força o ralador com ambas as mãos, buscando na sensação da dor física provocada pelas pequenas lâminas contra sua pele o alívio para a dor emocional que lhe assolava o espírito.

Na verdade, Shaka não queria lidar com aquilo.

Não queria ter de levantar toda manhã com aquele peso na alma.

Não queria ter de viver aquela crise conjugal, aparentemente sem solução, e ter de ver seu castelo sólido construído junto com o homem que amava ruir até o último alicerce.

Não queria enfrentar a vida, já que aprendera apenas a lidar com a morte.

Foi quando sentiu o perfume sútil do lemuriano que em sobressalto soltou o ralador, o jogando dentro da pia, depois virou-se para a entrada da cozinha e viu Mu parado junto ao batente da porta.

Olharam-se por alguns segundos, os mais longos segundos de suas vidas, então Shaka quebrou o silêncio.

— Não é o que você está pensando... — murmurou em tom de súplica enquanto escondia as mãos atrás do corpo, ele mesmo sem botar fé em suas próprias palavras — Eu... — impôs firmeza na voz ao encarar os olhos do amado — Mu me desculpe. Me desculpe!... Eu não sei como pude deixar que um problema relativamente simples tomasse essa proporção nas nossas vidas!

Mu não respondeu.

Parado ali o ariano sentiu o coração ser destruído por dentro.

Não estava preparado para ver o poderoso cavaleiro Shaka de Virgem, o amor de sua vida, ferir a si mesmo em busca de algum alívio para um sofrimento interno do qual não sabia lidar.

Ao ouvir aquela súplica Mu sentiu a culpa pesar ainda mais sobre si, então correu até o virginiano e o abraçou com força.

Shaka retribuiu o abraço no mesmo instante, apertando o corpo do ariano contra o seu como se suas vidas dependessem da firmeza daquele gesto.

— Me perdoe também, Shaka. — exclamou o Santo de Áries, com dolorosa aflição — Tudo isso é minha culpa. Desse meu desejo tolo e egoísta... Mas, escute... — afastou-se minimamente apenas para poder segurar no rosto do indiano com ambas as mãos trêmulas para encara-lo firme nos olhos —... Nosso amor é muito maior que isso, que qualquer desejo que eu possa ter.

— Não! — o virginiano devolvia o mesmo olhar firme, sentindo o coração dentro de seu peito palpitar com força. A situação que viviam era em demasia aflitiva e ambos estavam exaustos em prolonga-la — Não, Mu! O seu desejo não é tolo, tampouco egoísta. — abandonou o pudor e o constrangimento e pousou as mãos sobre as de Mu que seguravam seu rosto, entrelaçando seus dedos — Seu desejo é humano... e agora eu posso compreendê-lo.

— Mas é o meu desejo que tem feito você sofrer, e quando você sofre eu sofro. — o lemuriano respondeu pegando as mãos levemente feridas do marido para leva-las até os lábios e nelas depositar um beijo demorado, pleno de tristeza, em cada uma das marcas feitas na pele — Confie em mim... Isso vai passar. Nós vamos superar isso, Shaka.

Virgem beijou suavemente os lábios do marido e novamente o tomou em seus braços, apertando ao ponto de quase sufoca-lo.

— Eu vou dar um jeito nisso, Mu.

— Nós vamos dar um jeito nisso, Shaka. — disse o ariano afastando-se do abraço lentamente, depois deu um sorriso acabrunhado e alguns passos para trás — Eu vou comer fora. Nos vemos a noite.

Virgem olhou ainda meio duvidoso para Áries e cruzando os braços balançou a cabeça à moda indiana em sinal de concordância.

Mu lhe respondeu repetindo o gesto, e sem dizer mais nada deu as costas ao cavaleiro deixando a cozinha pela porta dos fundos.

Sozinho, Shaka levou ambas as mãos ao rosto e esfregou os olhos levemente avermelhados pela falta de sono.

Olhando pela janela divisou no horizonte o brando Sol do outono grego despontar entre as montanhas, então inalou o ar profundamente, o sentindo entrar frio em seus pulmões, e soltou na forma de um suspiro ruidoso. Estava exausto, de todas as formas possíveis.

Caminhou até o fogão e desligou a boca onde havia colocado a chaleira com água para ferver. Nem que quisesse conseguiria comer ou beber o que quer que fosse, ocupado como estava naquela batalha fastidiosa que travava consigo mesmo.

Cabisbaixo e pensativo retornou ao quarto onde tomou um banho rápido e vestiu uma de suas tradicionais túnicas budista. Já que passaria o dia sozinho aproveitaria o tempo para praticar uma meditação mais profunda e procurar, no âmago de sua mente evoluída, as respostas para os males que seu coração ainda jovem e inexperiente não estava sendo capaz de sanar.

Assim, o Santo de Virgem caminhou resoluto até o altar no fundo do Sexto Templo onde ficava a suntuosa escultura em formato de uma flor de lótus esculpida em ouro.

De frente para ela Shaka fechou os olhos e levitou até o centro, cruzando as pernas na posição da lótus e descansando as mãos sobre os joelhos com os polegares em contado com a base do dedo anelar.

Entoando um mantra poderoso procurava desligar-se do corpo, das aflições físicas, para procurar no espírito as respostas que não tinha.

Por que as escolhas que ele e Mu fizeram agora cobravam um preço tão alto de ambos?

Teriam que carregar esse fardo até o fim de suas vidas? Não existiria um refrigério?

A sombra do filho que não teriam viveria para sempre ao pé deles e dentro de seus corações os culpando?

De qualquer forma, o filho que jamais existiria estaria entre eles. Sua ausência seria sentida em um filme de romance que assistiriam juntos e cujo final feliz mostraria uma família grande e promissora, nos almoços de domingo quando à mesa apenas eles dois se sentariam, nos sonhos que Mu não partilharia consigo, nas estrelas a julga-los...

“Buda!... O que devo fazer? Me oriente uma vez mais! Mostre-me o caminho!... Não me sinto preparado para ser pai... Mas, também não me sentia preparado para abandonar o Seu caminho, a iluminação, para seguir o meu caminho... amando e me casando com Mu... Será que esse foi meu erro e devo pagar por ele? Mu desperta em mim emoções e desejos dos quais não sei como lidar, já que nunca os senti antes, como o desejo de ser... pai, mas... somente um filho lemuriano aliviaria o nosso fardo... o que é impossível!”

Com essa última súplica Shaka entrou em transe profundo, imerso em todas as suas dores e esperanças, no estágio em que a mente se concentra em um único ponto, exatamente no ponto que lhe afligia, descansando em si mesma e completa em si mesma. Permanecia tão conectado ao Cosmos, às energias que permeiam o Universo, que nem se Mu chegasse ali naquela hora e o agarrasse como o de costume sairia do transe.

As horas correram ligeiras, quando de súbito algo tirou Virgem de sua concentração absoluta.

Um chamado.

Na verdade um pedido de socorro, tão fraco quanto o sopro silencioso que apaga a chama da vela, tão distante quanto um sentimento suspenso no tempo.

O Santo de Virgem franziu ligeiramente a fronte e apertou as pálpebras, fazendo tremelicar suavemente os cílios loiros, e na forma de uma luz muito intensa, ou uma descarga abrupta de energia que vem tão rápido quanto desaparece, visualizou a silhueta de uma mulher.

O chamado parecia vir dela, porém era tão fraco e distante que temeu perder a conexão a qualquer momento, já que tudo que conseguia sentir era a respiração ofegante e a agitação em torno de seu espírito, assim sendo Shaka elevou seu Cosmo, e agora era ele quem se conectava à pessoa que pedia socorro.

Virgem então pode ver a silhueta da mulher deslocar-se languidamente no que lhe parecia ser a orla da praia de Lomvarda, uma das poucas praias de areia que existiam na costa ateniense, e também uma das mais próximas às ruinas onde se localizava o Santuário.

Estranhamente sentiu algo familiar vindo do campo energético dela, porém esse emanava dor e aflição em demasia, o impossibilitando conseguir qualquer contato telepático mais intenso.

Sendo assim, apreensivo e aflito, Shaka não pensou duas vezes, descruzou as pernas saindo da posição de meditação e levitou imediatamente para fora da flor de lótus já invocando a sagrada armadura de Virgem que de pronto veio cobrir seu corpo, então concentrou-se um pouco mais e guiado pelo chamado da mulher que sofria se teleportou para a praia de Lomvarda.

Foi nessa hora que o extraordinário aconteceu.

Durante o teleporte, que não durou mais que meros milésimos de segundos, o Santo guardião da Casa de Virgem sentiu-se tocado por um Cosmo grandioso, magnifico, divino... e há muito conhecido!

A influência deste Cosmo fora de modo tão arrebatadora que assim que Shaka tocou a areia fina da praia com seus pés calçados pela armadura, sentiu o corpo pesar de forma incomum e curvou-se para frente quase indo ao chão.

Em sobressalto o virginiano abriu os olhos, e erguendo a cabeça olhou para o firmamento, contemplando atônito o azul esplendoroso e único que somente o céu de primavera grego possuía.

— Não pode... ser! — balbuciou entre confuso e maravilhado enquanto analisava as nuvens tingidas de cor-de-rosa — Isso é...

Semicerrou os olhos devido à luz intensa e os raios quentes do Sol que lhe chegavam a causar uma sensação de ardência na pele do rosto, então inalou o ar profundamente e o sentiu entrar quente dentro dos pulmões.

Como se tivesse levado um choque de realidade levou as mãos à cabeça e retirou o elmo da armadura num gesto afoito, depois correu os olhos pela orla da praia notando a vegetação rasteira aos pés dos rochedos florida e renovada.

— É... primavera! — sussurrou com o coração aos pulos e o espírito inquieto — Como isso pode ser? Não apenas me movi no espaço, mas também no... tempo? Isso é impossível!

Desorientado e até um pouco temeroso, galgou alguns passos na areia sem saber para onde deveria ir ou o que deveria fazer, já que não sentia mais o chamado da mulher que pedia socorro.

— Buda!... Trouxestes-me aqui através do Tempo! Quanto tempo? Por quê?

Devolvendo o elmo à cabeça passou a correr em direção aos rochedos que tinha avistado em sua visão, e onde, talvez, poderia estar a mulher.

Tinha o coração aflito, uma vez que ainda estava tocado pelo pedido agonizante de socorro que interceptara, até que viu ao longe, entre um grupo de rochas que ficava em uma área mais erma da costa, uma figura agachada no chão com as costas apoiadas no paredão rochoso. Uma capa púrpura cobria todo seu corpo, inclusive a cabeça.

Shaka correu até ela, diminuindo os passos quando já estava bem próximo.

Não queria assustá-la, então, quando tocou-lhe delicadamente o ombro, foi como se seu coração desse um salto dentro do peito.

A boca do indiano secou na mesma hora, e na surpresa estupefata que o acometera abriu os olhos em espanto, encarando a face da mulher que agora olhava para si alarmada.

— Mu? — ela disse ofegante e assustada, em grego, correndo os olhos lilases atormentados pela imponente armadura dourada que cobria o corpo do cavaleiro — Por todos... os deuses, você é Mu? Mu de Jamiel? O cavaleiro de Áries?

Shaka espantou-se ao olhar para ela.

Era uma lemuriana, reconheceu pelas pintas na testa e os olhos de tom incomum, mas tinha o rosto tão ferido, com sangue a escorrer pela boca e nariz, e a expressão tão assustada que foi isso que mais lhe chamou a atenção.

— Não, eu não sou o cavaleiro de Áries, mas eu posso... Quer dizer... eu acho que posso leva-la até ele, ou chama-lo para... — disse aflito, já que devido à distorção temporal não podia dar certeza de nada.

— POR FAVOR! — a lemuriana o interrompeu com um grito rouco, de terror e de dor, e na mesma hora agarrou no pulso de Virgem com extrema força — Eu preciso... Argh... eu... eu preciso... o cavaleiro de... Áries... eu... eu tentei contatá-lo telepaticamente... mas... — ofegava, exausta.

— Acalme-se, senhora, eu posso levá-la até ele... Não sei o que houve com você, mas precisa de socorro imediato. Venha, eu vou levá-la ao Hospital e depois que for medicada a levo até o Mu e... — disse Shaka se curvando na intenção de ajudá-la a se levantar, mas quando se colocou de frente para ela e finalmente a olhou de cima abaixo novamente seu coração falhou uma batida.

Houve silêncio durante alguns segundos, e então, de repente, ambos trocaram um olhar aflito.

— Não há tempo... — a mulher disse ofegante, num fio de voz. O rosto ferido, suado, corado, contorcido pelo medo, denunciava toda a dor que sentia — Por favor... cavaleiro... nos ajude, salve... salve meu bebê.

Ela estava grávida, e a barra do manto encharcada de fluídos e de sangue indicava que tinha entrado em trabalho de parto há algum tempo.

Shaka tinha os olhos azuis celeste cravados na barriga imensa da lemuriana.

Estava sem reação. O que significava tudo aquilo, afinal?

Sentia o corpo e as mãos tremerem como nunca antes, até que um forte agarrão da mulher em seus braços, acompanhado de um grito de desespero que saiu do âmago da parturiente o trouxeram de volta à realidade.

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaahh... Me... ajude!

— A-Acalme-se... eu... eu vou ajudá-la. — disse um desesperado virginiano — Eu vou levá-la para o Santuário e...

— NÃO! NÃO HÁ TEMPO!... E não é seguro! — ela disse entre grunhidos — Por favor... cavaleiro!

— Mas...

— Eu... eu vejo a sua aura... Ela é... vívida e plena de bondade e amor... — dos olhos da lemuriana lágrimas escorriam misturando-se ao sangue ressequido que maculava a pele muito clara — Sinto que posso confiar em ti, cavaleiro... Não posso mais fugir...

— Fugir?

— O meu tempo... ARHG! — outro grito agonizante de dor.

— Senhora! Nós temos que...

— O meu tempo está se esgotando... — ela sussurrou em desespero — O meu bebê, ele sofre... Precisa salvar o meu bebê!

Não suportando, a dor a lemuriana dobrou os joelhos, mas não chegou a tocar o chão, pois Shaka a amparou sustentando o peso de seu corpo ao passar os braços por debaixo dos dela a abraçando com força.

Quando Virgem lhe tocou as costas, porém, sentiu seus dedos afundarem em uma espécie de talho, ficando encharcados. Temeroso, ergueu a mão e sentiu-se congelar ao vê-los ensopados em sangue.

A lemuriana tinha uma grave ferida nas costas, aparentemente provocada por um objeto pontiagudo, o qual provavelmente atingira um órgão vital que a fazia perder muito sangue rapidamente.

— Por Buda! Eu não posso fazer nada por você aqui! Precisa ir para um Hospital!

— Não!... O meu bebê precisa nascer agora, mas... Estão atrás dele... do meu bebê! — mesmo fraca chorava copiosamente, de dor, de desespero, de medo.

— O que? Estão atrás do seu bebê? — exclamou Virgem atordoado.

— O cavaleiro de Jamiel... Mu!... — ela murmurou deixando escapar um gemido longo em seguida — Meu esposo se sacrificou para que eu pudesse fugir com nosso filho e tentar salvá-lo... Antes de morrer ele me disse para procurar o muviano que se tornou cavaleiro de Atena, Mu de Jamiel... Aaaaaaaaaaaaaaahhh... mas... não há tempo... Por favor... me ajude... cavaleiro, me ajude! — o choro agora era convulso e desesperado.

— Acalme-se, eu... — Shaka disse em desassossego, confuso e aturdido, mas diante do rosto aflito da mulher respirou fundo e adotou uma nova postura — Está bem... Eu vou ajuda-la... Não diga mais nada, respire e tente concentrar-se apenas no seu bebê. Vocês estão seguros comigo, então procure esvaziar sua mente dos temores e pense apenas no seu filho. Eu vou te ajudar. — disse Virgem olhando nos olhos dela.

Sem pensar em mais nada, apenas no apelo daquela mãe aflita e na vida do bebê dentro dela, Shaka a apoiou na rocha e num movimento ligeiro retirou a capa branca de suas costas a estendendo no chão de areia. Depois foi até ela e segurou em seu rosto com ambas as mãos.

— Eu vou tirar o seu manto, tudo bem? — disse com voz serena, apesar do nervosismo desmedido que lhe tomava corpo e alma, mas o qual não podia deixar transparecer para a mulher para não agravar seu estado de nervos.

Rapidamente Shaka retirou o manto que a cobria por inteiro e pedindo licença lhe livrou também da calcinha, a deixando apenas com a fina camisola que usava por baixo.

Surpreendeu-se ao olhar para o corpo da mulher e vê-lo tão ferido.

“Quem faria tal atrocidade à uma mulher? A uma mulher grávida ainda!” — pensou, num misto de revolta e agonia.

Pensou no que pudesse ter acontecido a ela para que chegasse ali carregando uma criança no ventre, machucada, aterrorizada daquela forma, e à procura de Mu, mas não havia tempo para questionamentos.

Com pressa a pegou no colo e a deitou sobre a capa branca.

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh... — uma forte contração fez a lemuriana gritar enlouquecida e se contorcer toda, enquanto apertava com força a mão do cavaleiro — Pelos... pelos deuses... Eu não vou... conseguir... eu não... consigo... respirar... o meu bebê... o meu bebê vai morrer...

— Ninguém vai morrer.

— Abra minha barriga cavaleiro, tire ele dentro de mim... Aaaaaaaaaaaahhhh...

— Não!... — Virgem gritou atribulado — Você vai conseguir sim! Você vai!... Eu vou te ajudar.

Dito isso, Shaka livrou-se da armadura, que ao deixar o seu corpo se montou logo ali ao lado como se observasse e abençoasse a cena a sua frente.

Virgem então abraçou a lemuriana pelos ombros, suspendendo as costas dela o suficiente para se sentar sobre a capa posta na areia de pernas abertas e encostar o corpo da mulher no seu, assim poderia sustentá-la e lhe dar o apoio que precisava para fazer força quando as contrações viessem mais violentas.

Sem armadura, Shaka também podia estancar o ferimento nas costas da lemuriana usando seu próprio corpo, e com as pernas abertas permitia que ela apoiasse os braços em seus joelhos.

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaah... deuses... — ela deu um grito rouco jogando a cabeça para trás, sobre o ombro de Virgem, quando veio outra contração ainda mais violenta que as anteriores, e novamente começou a chorar aflita.

Shaka a sentiu cravar as unhas em suas pernas, e em seu peito o calor do sangue que irrompia em alto fluxo pela ferida nas costas dela o perturbou deveras, mas manteve-se focado no que deveria ser feito, sem deixar-se abalar.

— Você está indo bem... Sobreviveu e conseguiu ajuda, não está mais sozinha. Não vou te deixar sozinha. Respire... Vai dar tudo certo, você vai conseguir. — disse com serenidade na voz, com seu rosto encostado ao dela, e de olhos fechados elevou seu Cosmo envolvendo a ambos em uma aura dourada que além de transmitir conforto e segurança à lemuriana também reduzia as dores das contrações.

— Cavaleiro... eu não vou... conseguir... — ela gemeu, agora assumindo um semblante mais plácido, porém sentindo suas forças se esvaírem rapidamente — Salve... meu bebê... Não o deixe morrer...

— Fique tranquila. Ele não irá morrer. Logo terá seu filho nos braços. — pousou as mãos nas laterais da barriga da mulher de forma firme, porém delicada — Confie em seu corpo... Ele sabe o que fazer. Relaxe, descanse e empurre apenas quando a contração vier.

Ouvindo as palavras do virginiano, imersa naquela aura protetora dele, abraçada por aquela voz firme e acolhedora, a mulher fechou os olhos e respirou profundamente, então quando sentiu a próxima contração chegar apertou com força as pernas do cavaleiro que enlaçavam seu corpo lhe dando sustentação e fez força, toda a que conseguia.

— Uhhaaaaaaaaaaaahhh...

— Isso! Você consegue, você é capaz!

— Hmmm... aaaaaaaaaahhh

— Force mais um pouco. O seu filho está vindo! Está vindo!... Empurre!... — Shaka sorria sem nem se dar conta, tamanho era o abalo e a comoção que tomava todo seu ser diante da cena que presenciava — Buda, isso é... incrível!

A mulher usou o resto de suas forças para empurrar, contraindo o rosto já rubro e tremendo de forma sutil todo o corpo, e quando menos esperavam um pequenino lemuriano nascia remexendo-se todo entre as membranas fetais e os fluidos da mãe.

Shaka foi tomado por uma paralisia repentina quando olhou para aquele pequeno ser sobre sua capa branca que mexia os bracinhos languidamente.

A lemuriana soergueu-se como pode, inclinando o corpo para frente, desesperada por segurar nos braços o filho que acabara de dar à luz, pois o seu tempo era curto.

Apanhou o bebezinho com os braços trêmulos, o rosto banhado em lágrimas e sangue, e o trouxe a seu colo ainda unidos pelo cordão umbilical.

— Eu... consegui... meu pequeno... eu consegui... Olá! — sorriu macilenta, correndo os olhos por cada detalhe da pequena criança que agora choramingava dando seus primeiros cumprimentos ao mundo.

— Sim! Você conseguiu!... É um menino! — disse Shaka quando foi capaz de articular alguma palavra.

O cavaleiro sorria emocionado e tinha os olhos azuis marejados também fixos ao pequenino lemuriano no colo da mãe que apressada puxou a lateral da camisola para o lado e ofereceu o seio ao filho. Temendo que ele não conseguisse sugar o leite, já que tinha nascido algumas semanas antes da hora, ela apertava o próprio seio com a mão pra facilitar o ato da amamentação. Ao menos isso ela poderia fazer por ele, alimentá-lo pela primeira vez.

— Parabéns! Você é uma mulher forte e mãe de um filho lindo, mas ambos precisam de cuidados urgentes. Eu vou chamar Mu aqui e ele poderá teleportá-los até o Hospital de Atenas e...

— NÃO! — a mulher o interrompeu em nítido desespero, arfando e hiperventilando em agonia — Hospital não!

— Moça, vocês não podem...

— Por favor... cavaleiro... estão atrás do meu bebê... Ninguém pode... saber onde ele... está... — com a voz falha, ela ergueu o rosto buscando os olhos de Shaka, e nesse momento o indiano percebeu que ela vivia seus últimos minutos na Terra.

Seus lábios estavam arroxeados e sua pele havia perdido totalmente a cor, então Shaka decidiu usar o tempo que lhe restava para tentar entender o que havia se passado com ela.

— Quem? Quem está atrás do seu bebê? — Virgem perguntou de forma firme, mas sentindo o coração balançar dentro do peito.

— Eu... não sei... — súbito a mulher foi acometida por uma crise de tosse que drenou o resto de força que possuía. Shaka a amparou passando os braços por debaixo dos dela.

Agora ambos seguravam juntos a criança recém-nascida.

— Diga ao menos um nome, senhora, por favor!

— Entregue... ao Mestre ferreiro... de Jamiel... — dizia já a beira da inconsciência, a mente nublada pela confusão e esforço — Entregue... o meu bebê... a Mu... o cavaleiro de Áries... só ele... poderá protegê-lo...

— Protegê-lo de quem? Por Buda!

— Nós... estamos sendo... perseguidos... Meu companheiro e eu... nossa criança... ele quer... nosso...

— Quem quer?

— Um... cav... — outra crise de tosse interrompeu a fala.

— Um cavaleiro? Como ele é? O nome dele?

— Forte... cruel... uma espada... ele quer um... lemuriano... — falava, e sua voz soava cada vez mais baixa.

Shaka sentiu os braços dela pesarem sobre os seus.

Ela não mais sustentava o peso do filho nos próprios braços.

— Moça...

— Cavaleiro... proteja meu... filho... proteja ele... — gemia entre o choro sofrido, olhando dentro dos olhos azuis de Shaka enquanto fazia sua última suplica — Proteja meu... meu... Ki... Kiki... Kirian...

Dito isso, a lemuriana retirou seus braços deixando que Shaka agora segurasse sozinho o bebê que ainda mamava no seio da mãe.

Aquele foi seu último gesto.

Ao se dar conta de que a mãe tinha acabado de falecer, o Santo de Virgem fechou os olhos e chorou, porém logo em seguida inalou o ar profundamente e voltando a abri-los tocou o cordão umbilical com seus dedos.

Com uma leve descarga de energia o cortou rompendo o elo definitivamente entre mãe e filho.

O elo agora existiria apenas entre ele e o pequeno ser em seus braços.

— Buda! O que significa isso? É essa a sua resposta? O ciclo... vida e morte... em minhas mãos!

Estava quase entrando em choque quando se concentrou e olhou para a criança.

— Kiki... — disse em voz baixa, e após alguns instantes pensando em tudo que acabara de acontecer ali, contemplando o rosto sujo daquele ser indefeso em seus braços, decidiu o que fazer.

Teria que voltar.

“Seja paciente. Tudo chegará a você no momento certo.” — ouviu sua própria voz em pensamento, depois sorriu para Kiki um sorriso afetuoso.

— Nem antes, nem depois... Mas no Tempo certo. E se esse é o seu Tempo certo eu estou feliz pela dádiva de ser o escolhido a estar aqui com você. — disse o indiano, finalmente ao entender o que havia acontecido — A mesma energia que me mandou aqui para fazer com que você vivesse irá nos mandar de volta para a casa... meu filho.

***

Templo de Baco.

O horário do almoço já havia passado a algum tempo e Mu sequer tinha pensado em comer.

Por mais estranho que pudesse ser para um lemuriano que precisava de mais calorias do que um ser humano comum, não tinha apetite algum naquele dia.

Enfiado no escritório que ocupava no térreo do bordel desde as primeiras horas da manhã quando chegara, estava assentado à escrivaninha e tinha os olhos presos num ponto qualquer no teto entregue à suas reflexões.

O trabalho nunca lhe pareceu tão maçante quanto naquele dia. Sentia-se esgotado, tanto fisicamente quanto emocionalmente, ao ponto de não conseguir se concentrar em nada.

Volta e meia se pegava rodando a larga aliança de ouro em seu dedo anelar da mão esquerda. O Cosmo de Shaka dentro dela o atraía de uma maneira incomum, o que fazia o lemuriano concluir que o marido pudesse estar passando por um dia tão ruim quanto o seu, devido a tudo que tinham vivido naquela semana catastrófica.

Depois da cena presenciada na cozinha pela manhã, Mu só conseguia pensar em encontrar uma maneira de voltar a fazer a luz da sua vida brilhar.

Foi enquanto, distraído, procurava em sua mente já tão cansada a solução miraculosa para o dilema que vivia que sentiu algo bater em seu peito, ricochetear e cair ao chão.

Piscou os olhos algumas vezes voltando a si, saindo daquele transe sufocante, então levantou o olhar e encontrou o belo rosto de Afrodite a lhe encarar com um semblante curioso.

— Alôca! Onde fica o seu botão de ligar e desligar, Mu? Ele está dando tilt hoje, sabia? — disse Peixes, que tinha em uma das mãos uma pasta com várias listas de fornecedores enquanto a outra estava pousada na cintura.

— O que? — Mu murmurou confuso.

— Já é a terceira vez que estou falando com você e você desliga. Tá com a cabeça aonde? Está acontecendo alguma coisa?

— Eu... Desculpa... — o ariano se abaixou para pegar no chão o lápis que o amigo havia lhe atirado o recolocando sobre a escrivaninha, depois deu um longo suspiro — Só estou cansado. Pode repetir o que falou, Afrodite?

Peixes olhou algum tempo para o rosto inexpressivo e abatido do lemuriano.

Já fazia alguns dias, aliás, que notara o amigo distante, calado, bem diferente do habitual.

Colocou a pasta sobre a escrivaninha, puxou uma das cadeiras e se sentou.

— Posso. Posso repetir sim o que disse. — falou curvando ligeiramente o corpo para frente, e esticando o braço pousou a mão sobre a de Mu apertando delicadamente — Eu te conheço o suficiente para saber que esse vudu todo ai pairando sobre você não é apenas cansaço. Você me chamou de Afrodite! Você nunca me chama de Afrodite!... Anda, me diz. O que está acontecendo com você? As listas dos fornecedores podem esperar.

Mu olhou para o rosto do sueco, calado.

Seria bom desabafar, mas não queria expor Shaka, muito menos confessar ao colega que seu problema havia começado quando seu secreto namorado havia lhe apresentado o filho. Por isso o lemuriano se esforçou o quanto pode e deu um sorriso fraco.

— Não é nada, Dido. Sério. — recolheu a mão indo abrir uma das gavetas a seu lado de onde pegou três pastas demarcadas com etiquetas na cor verde — Não se preocupe, todo mundo tem altos e baixos... logo passa. Eu te dei as listas erradas não foi?

— Hum... foi. — Afrodite murmurou fazendo um muxoxo — Mas, quem liga para lista quando um amigo está com um equê*?

— Já disse que está tudo bem. Não se preocupe. — falou recolhendo a pasta que Peixes havia trazido e lhe entregando as outras — Tome. Essas são as listas que me pediu, as dos catálogos de figurinos. Essa aqui é dos fornecedores da cozinha. — devolveu a pasta com etiqueta amarela que estava com Afrodite à gaveta — Me desculpe mais uma vez. Pode marcar os pedidos das meninas e me entregar amanhã, não precisa ter pressa.

Afrodite observou cada gesto do ariano sem dizer nada. O desconforto de Mu era tão nítido quanto sua resignação em guardá-lo para si.

— Bom... Se não quer falar não vou insistir. Mas, não pense que não percebi que tem equê* dos brabos nesse teu vudu aí. — apontou o dedo para o amigo assumindo um semblante sério — Assim como me catou do chão várias vezes, quero que conte comigo para o que precisar, Mu. Somos amigos... Aliás, você é o único amigo que eu tenho. E quando um amigo tá no chão o outro vai lá e levanta ele, gata.

Levantou-se da cadeira, apanhou as pastas com as listas corretas e novamente olhou para o lemuriano.

— Se quiser conversar é só me chamar. — deu uma piscadinha marota para Áries antes de sair da sala.

Mesmo após Afrodite sair, Mu continuou com os olhos fixos na porta, enquanto alheio a tudo em sua volta tornava a girar no dedo a aliança de ouro repetidas vezes pensando em uma maneira de amenizar o clima ruim entre ele e o marido.

Pensou então que antes de voltar para casa naquele dia iria até Atenas e compraria algum agrado para Shaka. Quem sabe alguns bombons de cereja, os preferidos do virginiano, junto de um arranjo bonito com girassóis os ajudariam a retomar o clima romântico que sempre permeara sua relação.

Decidido pegou o telefone para ligar para a floricultura e reservar as flores, contudo nem chegou a discar os números, pois de repente sentiu o Cosmo de Shaka desaparecer por completo do Santuário.

Seu corpo todo gelou, mas nem bem teve tempo de reagir que nos instantes seguintes a voz de Virgem invadiu seus pensamentos num chamado urgente e aflito por telepatia, lhe pedindo para que fosse imediatamente para a casa.

Assustado Mu sentiu seu corpo todo amolecer e seu peito ser golpeado de uma só vez por uma sensação pungente de apreensão, medo talvez, tamanha a aflição que sentira naquele chamado.

Com a respiração suspensa devolveu rapidamente o telefone ao gancho e levantou-se da cadeira num salto.

Sem titubear devolveu as pastas que consultava às gavetas, desligou o computador que mal usara e escreveu um bilhete apressado.

“Precisei ir para casa mais cedo. Assuntos pessoais. Reponho as horas amanhã. Assinado: Mu.”

Deixou o bilhete em cima da escrivaninha e teleportou-se para a entrada do Sexto Templo. Sabia que não deveria usar o teleporte nas casas zodiacais, norma instaurada desde os tempos mitológicos, mas o Cosmo de Shaka estava tão angustiado que sequer pensou duas vezes em infringir as leis do Santuário.

Adentrou às pressas o corredor que levava até ao altar de meditação de Shaka, pois percebeu o Cosmo do marido ativo sendo emanado de forma branda de lá, além de um agito incomum na aura do local.

Correu, desbravando a penumbra que engolia o corredor, mas nada em sua vida o havia preparado para o que veria assim que entrou no espaço onde ficava a escultura em forma de lótus dourada.

O Santo de Áries ficou pregado ao chão assim que avistou o cavaleiro de Virgem de pé sobre a lótus, chorando de forma copiosa como jamais vira, e com as vestes completamente encharcadas em sangue.

Sujos do líquido vital o indiano também tinha as mãos, os braços, peito e um dos lados do rosto.

— SHAKA!

Áries gritou em desespero, pois acreditava que o marido estivesse ferido, mas logo correu os olhos rapidamente pelo local e enfim pôde ver o cenário como um todo.

Com os olhos arregalados e o coração aos pulos, viu ao pé da lótus dourada o que parecia ser um corpo envolto pela capa branca da armadura de Virgem.

Duvidando ele mesmo de sua própria sanidade, deu alguns passos à frente divisando de forma fixa o rosto parcialmente coberto, ferido e inerte do cadáver.

Levou ambas as mãos ao rosto apertando forte as bochechas quando viu as pintas na testa, ainda mais chocado por se tratar de uma lemuriana.

Ainda tentava entender o que significava tudo aquilo quando erguendo os olhos voltou a olhar para Virgem, então enfim, e em completo horror, notou que ele tinha nos braços, enrolado em sua túnica imunda, um bebê.

— SHAKA! O... O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ? — gritou aterrorizado, assustado, sem acreditar no que seus olhos viam — PELOS DEUSES O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?

— Shiii... — fez Shaka ao olhar para Mu, então apertando mais o bebê contra seu colo levitou para fora da lótus até parar em frente ao ariano — Acalme-se. Não é o que está pensando.

Mu sentia o corpo todo tremer descontroladamente.

— Não? — questionou assustadíssimo, pois nunca iria imaginar que o pranto do Santo de Virgem era um misto de diversas emoções represadas, as quais ele deixou livres assim que chegara em seu Templo. Era um choro de desabafo, emoção, alívio, alegria, mas também de tristeza — Então o que é, Shaka? Por todos os deuses, o que é? Primeiro sinto toda aflição que permeia seu Cosmo quando fez o chamado e então o encontro ensanguentado com... com um bebê Muviano nos braços e um corpo a seus pés! Me diga então, o que é!

— Eu não o condeno... — disse o indiano com voz lamurienta, entre uma fungada e outra, sempre ninando o pequenino ser em seu colo que remexia-se emitindo fracos grunhidos —... No seu lugar Shaka pensaria o mesmo... Mas, ele precisa que Mu esvazie sua mente de todo e qualquer julgamento e escute Shaka com o coração... Você confia em mim? O que vou lhe contar, Mu, exigirá de toda sua fé e confiança, pois de tão magnifico parece fantasia, mas não é. É real!

Antes de responder Mu olhou fundo nos olhos do amado e acatou ao pedido.

Iria ouvi-lo sem julgá-lo.

Acalmando sua mente do choque inicial tocou com as mãos frias e trêmulas o rosto úmido do loiro, percebendo então o quanto ele também estava assustado e aturdido.

O que quer que tivesse acontecido afetara Shaka de forma tão intensa e arrebatadora que o deixara completamente desestabilizado.

— Sim. Eu confio em você. E fé jamais me faltou nessa vida, você sabe. — Mu respondeu enxugando as lágrimas de Virgem com o polegar, num gesto terno de carinho e conforto — Eu estou aqui e vou ouvi-lo.

— Mu... esse é Kiki. — disse o virginiano embalando o bebê no colo, e sentiu novamente os olhos enxerem-se de lágrimas — O seu filho!... O nosso filho.

Áries entreabriu os lábios e arregalou os olhos, sentindo a garganta seca a lhe castigar e o coração a bater-lhe dentro do peito como só batera uma vez na vida, na ocasião em que vira Shaka caminhar por sobre um tapete vermelho coberto por pétalas de flores diversas, vestido em um sári e oculto para todos, menos para si.

Sim, no dia de seu casamento com Shaka o coração de Mu batia como agora.

— Filho? — foi tudo que o ariano conseguiu dizer em meio aquela confusão.

— Sim! — Shaka sorriu timidamente. Queria contar todos os pormenores daquele milagre tudo de uma vez, mas as palavras saiam de sua boca sem nexo, envoltas em soluços —... Ele veio até mim, Mu... de uma forma ainda obscura, porém divina e... e... e carregada de questionamentos e mistérios dos quais talvez nunca consigamos entender, mas... ele veio até mim... — baixou a cabeça e olhou para pequenino ser em seu colo — Eu desejei com tanta força que tivéssemos um filho que... Kiki veio até nós... ou melhor, eu fui até ele. É um milagre, o nosso milagre!

— Você... desejou? — disse o lemuriano mais uma vez surpreendido. — milagre? Shaka... eu não estou...

— Sim... eu desejei... Desejei com todo meu coração. Não dessa maneira, não de tal forma trágica, mas... Quem é que sabe de que forma a Roda do Samsara vai girar? Nem mesmo eu sei, Mu.

O cavaleiro de Áries tentava articular uma palavra que fosse, uma frase, uma pergunta, qualquer coisa, mas não era capaz. Aquela criança nos braços de Shaka e as palavras dita pelo virginiano o acertaram em cheio, feito um golpe certeiro e indefensível. Sentia as pernas amolecerem com um grave estremecimento. Tanta era sua surpresa e emoção que sentia-se débil, zonzo.

— Shaka... — balbuciou sentido a visão embaçada pelas lágrimas que agora também lhe brotavam dos olhos esmeraldas quando ainda muito confuso olhou fixamente para a criança nos braços do indiano — Esse bebê...

— Ele é nosso, Mu... É o filho que você tanto desejava... e que eu também desejei.

— Nosso? — levou a mão à testa apertando com força as pintinhas sobre os olhos —... Eu não entendo, eu... Eu acho que preciso me sentar... deuses!

— Mu! — súbito Shaka esticou o braço e agarrou o lenço vermelho que Áries trazia nos ombros, puxando Mu para mais perto de si para encarar seus olhos verdes com aflição — Ouça, Mu... Quando você saiu hoje pela manhã eu vim para cá, exatamente aqui, nesta sala onde estamos agora, no tempo presente, para meditar como sempre faço... Eu estava tão perdido em minhas dores, em suas dores, que me desliguei dessa dimensão por horas apenas para não senti-las mais, então não sei dizer ao certo como, mas... Estive com Buda e ele me ouviu de certo modo, pois enquanto estava em transe interceptei um pedido de socorro feito em outro Tempo... ele vinha do futuro. — a mão que apertava o tecido vermelho contra os dedos tremia de forma desmedida, enquanto Shaka agora virava o rosto para o lado indicando o corpo que jazia envolto em sua capa no chão —... O pedido vinha dela... E era tão fraco que só pude perceber por estar em transe justamente naquela hora e conectado a Buda... Caso não estivesse ambos, mãe e bebê, estariam mortos.

— O... que? — gaguejou o ariano. Que Shaka podia se comunicar com Buda quando quisesse não lhe era novo, já que desde criança o virginiano tinha esse dom, ou privilégio, mas isso não diminuía toda a estranheza daquela situação ainda extremamente confusa para si — Do... Futuro?

Mu olhou para o lado divisando o corpo da lemuriana ao pé da escultura, assimilando aos poucos toda aquela história que mais parecia uma fantasia, mas que se mostrava a cada instante mais real.

— Não era para eu estar ali, nem você, nem ninguém. Ela iria morrer e o bebê também. Ou talvez fosse capturado pelo perseguidor que a ferio de morte. Mas, Buda não permitiu que fosse assim, pois essa criança tem outro Karma a cumprir nessa existência... — continuou Virgem, uma lágrima dolorida escapou-lhe do coração e saltou de um de seus olhos, deslizando pela face corada e úmida — Eu fui até essa mulher, ou Buda me levou até ela... Tentei convencê-la a me deixar trazê-la para um hospital, mas ela sabia que ainda estava viva apenas para trazer essa criança ao mundo... Caso eu não estivesse lá ela levaria ele consigo para o reino dos mortos... Mas o Tempo era outro, não sei precisar exatamente, mas era Primavera... Pude ver pela posição do Sol, a vegetação e o mormaço comum da Estação...

Mu agora voltava a olhar para o marido com pequeno lemuriano nos braços, e a emoção a essa altura já lhe era incapaz de ser contida.

— Ela estava fugindo de um inimigo que queria esse pequenino... — o indiano soltou o lenço de Mu para acariciar com a mão suja de sangue os finíssimos e ralos fiozinhos ruivos do cabelo do garotinho — Ela estava muito ferida e estava procurando por você, para confiar ele a você...

— A... a mim? — murmurou Áries, quase rouco.

— Eu não sei quem é ela. Não sei o que houve com ela... Não houve tempo... Eu só pude aliviar suas dores e agonia para que pudesse dar a luz em paz e cumprir seu Karma sem qualquer peso em seu espírito, sabendo que seu filho estará protegido... — abraçou o bebê em seu colo agora com ambos os braços, sempre mantendo seu Cosmo ativo, pois temia que sendo prematuro de algumas semanas e mal tendo se alimentado pudesse morrer de forma súbita — Shaka prometeu a ela, Mu... à mãe do Kiki. Prometeu que o entregaria a você e que cuidaria e o protegeria enquanto Shaka vivesse nessa Terra.

Mu percebeu que existiam detalhes demais naquela história que exigiam muito de sua atenção. Tudo lhe parecia um completo absurdo, mas além de sentir que Shaka não mentia, estava ciente da influencia divina que vira e mexe atuava na vida das pessoas, tinha fé nela, ou não serviria a uma deusa reencarnada na Terra.

Contudo, naquele exato momento seria impossível para o ariano lidar com tantos detalhes, uma vez que um apenas tornara-se soberano: Shaka segurava um bebê no colo, um bebê lemuriano, o seu filho.

Súbito fora acometido por toda aquela emoção de modo tão avassalador que não mais conseguindo se sustentar de pé deixou-se ir ao chão de joelhos diante de Shaka, cobrindo o rosto com as mãos na tentativa de conter o pranto emocionado.

O ariano sentia-se ser preenchido por um sentimento estranho, até então inominável para ele, indecifrável, uma sensação de felicidade em meio ao choque caótico daquela realidade trágica.

Tinha desejado tanto uma criança que os deuses haviam ouvido o seu pedido. O seu e o de Shaka, pelo jeito, mas a que preço? Às custas da vida de uma mulher de seu povo, de sua espécie?

Seria um milagre ou um golpe irônico do destino?

Não, Shaka fora enviado para salvar aquela criança. Para dar a ela uma segunda chance, e Mu jamais rejeitaria tal presente divino ou sentir-se-ia culpado em aceita-lo.

— Eu... Eu não sei... o que... Você se moveu no Tempo! Como isso é... — o ariano engasgava-se em meio a soluços ofegantes — Agora é outono... você disse que era primavera quando... Essa mulher...

Às pressas Shaka se ajoelhou à frente do amado e tomou sua mão em uma das suas, apertando com força.

— Mu... Ouça. Eu sei que deve ter a mente tomada por questionamentos que devem ser os mesmos que os meus... — disse o virginiano com voz serena apesar da emoção — Talvez um dia descubramos quem foi essa mulher, de quem ela fugia e por que fugia. Talvez um dia poderemos contar a história dela para o nosso filho, mas... por hora, vamos viver o presente, nos amplos sentidos da palavra. — soltou a mão de Mu e com todo cuidado que lhe cabia abriu a túnica pegando Kiki no colo — Pegue-o, Mu. Pegue o seu filho no colo.

Áries olhava hipnotizado para o bebê ainda sujo de sangue e verniz caseoso. Mal podia crer no momento que estava vivendo ali, mas mesmo ainda com tantas perguntas sem respostas uma coisa só regia seu espírito: O amor por aquele pequeno ser que parecia já brotar com força em seu coração.

— Meu... filho! — sorriu acanhado esticando os braços para receber a criança em seu colo.

— Sim. — Shaka lhe sorriu de volta.

— Kiki... Kiki é o nome dele? — perguntou olhando para o rostinho sonolento, então quando sentiu o corpo pequeno entre seus dedos, o peso leve, a textura macia da pele voltou a chorar emocionado.

— Sim. — respondeu Virgem num tom melancólico — A mãe dele tentou dizer seu nome, mas estava já muito fraca... Primeiro disse Kiki, depois eu acho que ouvi Kirian. Mas eu gosto de Kiki.

— Kiki... Eu também gosto. — Mu sorriu enquanto tocava com firmeza o rosto do bebê com a ponta dos dedos e acendia seu Cosmo para mantê-lo aquecido e fortalecido.

— Ela foi uma mulher destemida e muito valente... Merece todo nosso respeito. Eu pedi a Buda que me permitisse trazê-la para o Presente comigo para que pudéssemos dar-lhe um funeral digno dentro das tradições lemurianas, e ele tornou isso possível. — disse Shaka.

— Sim... Você fez bem. Ela é a mãe do nosso filho, Sha. — deixou escapar outra lágrima, agora de pura alegria — Nosso filho!... Ele é tão pequeno!... Deve ter vindo antes da hora.

Ainda ficariam ali por horas ajoelhados no chão do altar a contemplar aquele pequeno ser completamente absortos, mas Kiki logo os chamou para a realidade iniciando um choro alto, pondo os dois pais de primeira viagem em alerta.

— Venha, Sha. Temos que dar um banho nele. Você também precisa se livrar desse sangue todo, depois temos que aquecê-lo, alimentá-lo... Pelos deuses! Temos um recém-nascido, e pelo visto prematuro, em casa! — disse Mu se levantando com certa pressa do chão.

— E o que daremos para ele comer? — Virgem se levantava visivelmente preocupado — Ele precisa de leite materno, mas não acho prudente levá-lo ao Hospital para tentar achar uma doadora... A mãe dele foi enfática quando disse que devemos protegê-lo, pois há alguém atrás dele.

— Não levaremos. Eu dou um jeito, mas uma coisa de cada vez. Venha. Primeiro o banho. — disse Mu já rumando para o corredor.

Já na parte residencial da Sexta Casa, no banheiro, enquanto Shaka se livrava da túnica ensopada em sangue Mu enxia a banheira usando telecinese, pois não consegui desgrudar um só segundo de Kiki.

Quando a banheira estava já cheia, Shaka entrou primeiro e então Mu passou o filho para o colo do virginiano, depois despiu-se e juntou-se aos dois na água morna e aconchegante.

Ali ficaram os três por um tempo, partilhando de uma felicidade nova, uma emoção nova, arrebatadora e revigorante.

Com seus Cosmos sempre ativos Áries e Virgem mantinham o pequeno lemuriano aquecido e fortalecido, tal qual uma incubadora viva, orgânica.

Enquanto Mu segurava o pequeno, Shaka o banhava passando as mãos delicadamente por todo o corpinho frágil ao mesmo tempo em que entoava um mantra que em sua língua mãe falava de vida, esperança, amor e doação ao próximo.

O Santo de Áries vivia nesse momento uma felicidade indescritível, pois tinha um filho nos braços e seu amado marido de volta.

Ouvindo o mantra entoado por Shaka, Mu corria os olhos verdes por seu rosto belo e sereno, pelo peito esguio e os ombros largos, percebendo neles ainda marcas de arranhões, porém a aura que envolvia Virgem tinha voltado a brilhar, um brilho único, divino e extraordinário, alimento vital para seus olhos Muvianos e para seu coração apaixonado.

— Obrigado, luz da minha vida. — sussurrou o lemuriano ainda olhando para o marido — Eu amo você, Shaka.

Shaka ergueu os olhos e quando seus olhares se encontraram ambos sorriram um para o outro, cúmplices, arrebatados de um amor que não imaginavam poder ser ainda maior do que já era.

— Eu também amo você, Mu. — Virgem sussurrou de volta inclinando-se para beijar os lábios do ariano com um beijo suave, certo de que tudo havia voltado a ser como antes, ou ainda melhor!

Terminado o banho os cavaleiros envolveram Kiki em um manto vermelho com bordados em laranja e dourado e seguiram para o quarto para se vestirem, sempre mantendo seus Cosmos ativos e o bebezinho colado em um deles como verdadeiros papais cangurus.

Do lado de fora a noite outonal já cobria as Casas Zodiacais com seu véu escuro bordado em estrelas. No quarto, sobre a cama imensa do casal, Mu acolhia Kiki junto de seu corpo enquanto Shaka trazia uma bandeja com Chai e algumas torradas com geleia. Era tudo que conseguiriam comer rapidamente ali para dar seguimento ao que deveriam fazer antes de descansarem.

— Eu ainda não posso acreditar que seja real. — disse Mu acariciando a fronte do filho sobre as duas pintinhas lemurianas que tinham uma pálida coloração lilás — Não tem ideia do que essa criança representa para mim.

— Eu acho que tenho sim. — disse Virgem estendendo uma xícara de Chai para o ariano.

Logo o aroma forte do Chai despertou Kiki, que entreabriu levemente os olhos dando pequenos grunhidos.

— Olha, Sha, ele abriu os olhos! — disse um sorridente ariano, encantando ao olhar para as íris de cor tão peculiar do pequenino, que eram de um lilás vivo e cristalino.

Shaka sorriu maravilhado, depois sentou-se na beirada da cama e tocou de leve a bochecha de Kiki fazendo um carinho com o dedo indicador.

— Beba o Chai, Mu. Temos muito a fazer ainda essa noite. — disse Virgem sem desviar os olhos do filho — Eu já preparei a água perfumada e o sândalo para limparmos o corpo da mãe do Kiki. Separei uma túnica limpa para vesti-la e um manto.

Áries acenou afirmativamente com a cabeça levando a xícara aos lábios, mas sem desgrudar por um segundo os olhos do rosto de seu amado filho. Sim, amado, porque no momento em que Shaka colocou Kiki em seus braços Mu entregara totalmente seu coração àquela criança.

— O funeral muviano é simples. — disse Mu após beber todo o Chai — Fazemos preces depois queimamos o corpo em uma pira funerária.

— Gostaria que o fizéssemos no meu jardim. — disse Shaka.

— Tudo bem. Podemos fazê-lo no seu jardim. Vou providenciar a pira e uma urna.

— Obrigado. Depois plantarei algumas flores no local. Quero que Kiki quando crescer e nos perguntar da mãe possa ter um local agradável e bonito para visitar... E quero a memória dela aqui conosco.

— Sim... Mas, sabe que não consigo deixar de pensar na história que contou? Quem será esse tal cavaleiro que estava perseguindo essa mulher? E por que ele queria uma criança muviana? Isso me angustia! — disse Mu — O destino sorriu a nosso favor, porque todo o meu povo sabe que a cada geração um menino, ou menina, de nossa raça é dedicado aos serviços à deusa Atena, então esse cavaleiro que estava atrás do Kiki sabe desse rito, conhece nossas tradições. As do meu povo e as do Santuário.

— A mim também me angustia, Mu, mas o que me alivia saber é que conosco nosso filho está seguro, porque se esse cavaleiro misterioso, ou quem quer que seja, sequer ousar se aproximar dele morrerá em segundos. — disse Shaka impondo firmeza na voz, como se fizesse uma promessa.

— Eu não tenho a menor dúvida, Sha! — Mu sorriu, pois para quem até dias atrás não desejava ser pai Shaka estava se mostrando um pai zeloso e superprotetor. — Devemos ficar atentos a partir de hoje, pois algum vestígio dessa mulher irá aparecer naquela praia onde você disse que a encontrou, em um Futuro próximo... Se pudermos sentir o seu Cosmo naquela praia saberemos que dia Kiki nasceu e até, talvez, descobrir algo sobre ela... quem ela era, de quem ela fugia...

— Sim. Pelo que pude sentir o Tempo se dobrou em poucos meses, mas jamais poderei precisar. Vamos ficar atentos... Ela vestia um manto vermelho, e ele ficou nos rochedos... Talvez o encontremos lá na Primavera... Bom, chega de conversa. Há muito a se fazer. — disse Shaka se levantando da cama — Ele mamou quando nasceu, mas logo nosso Cosmo não será o suficiente e ele vai sentir fome, muita fome, e não temos nada aqui para alimentá-lo. Buda, Shaka não sabe como cuidar de um bebê! Bebês precisam de leite de mãe! Não há nada mais seguro nessa Terra que leite de mãe! E... e precisamos de fraldas, muitas... e também de berço, cueiros, mamadeiras, protetores auriculares...

— Não se preocupe que o Mu sabe, luz da minha vida! — disse o ariano ao se levantar em seguida também — Eu vou providenciar tudo amanhã mesmo. O primordial agora é arrumarmos leite, mamadeiras e fraldas, muitas fraldas... Não surta... Nossa eu tenho um filho, nem acredito! Quem não pode surtar sou eu!

Mu ria do modo atrapalhado do virginiano que andando em círculos listava contando nos dedos tudo que precisariam providenciar com a chegada do novo membro da família.

Lá pelas tantas o desespero e euforia de Shaka eram tamanhos que nem falava mais em grego, mas um atrapalhado hindi, e Mu pouco entendia o que ele dizia naquela enxurrada de palavras proferidas à velocidade da luz com acentuado sotaque indiano.

Horas mais tarde, já feito o funeral da lemuriana com todos os ritos, preces e carinhos que a mãe de Kiki merecia, alimentaram o bebê com leite em pó para recém-nascidos que Mu comprara em uma farmácia 24 horas, lhe colocaram fraldas e então, finalmente, deitaram os três na cama para descansar.

Enroladinho no manto indiano, Kiki dormia alimentado e tranquilo sobre o peito de Mu, que revezava com Shaka o papel de o manter estabilizado através do Cosmo.

Apesar do cansaço de tantas emoções e milagres vividos em um único dia, os papais babões mal conseguiram pregar os olhos.

Ficavam ali, olhando o bebê dormir e se olhando, felizes, plenos de amor.

— Teremos que mantê-lo estável através do Cosmo pelos próximos dias, Sha. Ele nasceu antes da hora. Precisa de nós.

— Sim, e nós estamos aqui para ele. — disse Shaka, que abraçado a Mu tinha a ambos os lemurianos sob sua proteção e guarda.

— Amanhã irei conversar com Saga. Vou pedir férias e comunicar a chegada do novo membro da família. Você também precisa de mim aqui. — Áries sorriu enquanto buscava os lábios do virginiano para lhe dar um beijo carinhoso e apaixonado.

Tudo havia voltado ao normal, mas nada seria de novo como era antes.

Dicionário Afroditesco

Equê – problema, chateação.

Notas finais
E finalmente acabou o mistério *-*... Kiki apareceu de um jeito COMPLETAMENTE diferente ein? NINGUEM esperava por isso kkkk Vamos a algumas explicações para os mais perdidos. — Shaka viajou no tempo, ao se teleportar ele foi transportado alguns meses para o futuro, onde salvou Kiki e voltou. — Kiki é prematuro de apenas algumas semanas, isso quer dizer que ele precisaria estar em uma encubadora apenas para manter temperatura , monitoração e maturação correta dos pulmões, e é exatamente isso que o cosmo de Shaka e Mu está fazendo, viraram incubadoras vivas. — os mistérios dessa lemuriana e desse acontecimento será desvendado aos poucos durante toda a historia do templo. — Kirian é uma variante do nome Killian, e significa " pequeno guerreiro", a tbm uma fonte que diz que em sânscrito traduzido, signifique raio de luz. Grupo do face com varias imagens extras *-* https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/ Tumblr da Ju com muitas outras artes: https://rosenrotstuff.tumblr.com/