Templo das Bacantes Vol. 2

13 O filho que eu quero ter. - Parte 1


Notas iniciais
Olá. O título do cap é de uma musica LINDA do Toquinho. A letra tem MUITO significado, e vou deixar o link nas notas, recomendo que ouçam. A capa da fic não é de nossa autoria. Eu (Amanda) tenho essa imagem a muito tempo em meu computador, e usando os meios que conheço não consegui encontrar o autor original.

Casa de Virgem, 06:20am

Shaka olhava para os ponteiros do relógio despertador acompanhando seu movimento silencioso segundo a segundo. Tinha as pálpebras semicerradas, o olhar estático, os braços e pernas levemente doloridos, pesados, mas em seu peito ardia, forte e referto, um sentimento de felicidade, amor e plenitude que jamais imaginara sentir quando ainda em vida.

Estava recostado em alguns travesseiros para ter o tronco levemente levantado, já que em seu peito, colado à pele e sobre o coração, Kiki dormia tranquilo fixado a seu corpo em um a espécie de sling* improvisado feito com um lenço bordado do mais puro algodão indiano.

Quando os ponteiros do relógio marcaram cinco minutos para as seis e trinta, Shaka retirou uma das mãos que mantinha sobre o bebê, as quais monitoravam atentas o movimento de inspirar e expirar, olhou para Mu deitado a seu lado e pousando a mão sobre os cabelos lavanda fez uma carícia delicada.

Tinha revezado a noite toda com o ariano a tarefa de manter o filho aquecido e fortalecido por seus Cosmos, deixando as últimas horas da madrugada para que Áries pudesse tentar dormir um pouco antes de descer ao Templo de Baco.

— Mu. — Shaka chamou com um sussurro, acreditando que o marido dormia.

— Hum... Já deu a hora? — Mu respondeu ainda de olhos fechados.

— Já... Conseguiu ao menos cochilar? — o loiro perguntou em voz baixa.

— Só depois da última mamadeira... mas, bem pouco. Nossa, estou quebrado! — disse o lemuriano com voz manhosa enquanto se espreguiçava. Depois, ergueu o tronco, olhou para Virgem e sorriu — Bom dia, luz da minha vida! — beijou suavemente os lábios do indiano e em seguida olhou para Kiki dormindo no colo de Shaka — Bom dia, minha luzinha! — beijou a fronte do bebê com todo o amor que lhe cabia.

— Bom dia! — Shaka lhe sorriu de volta exalando felicidade.

— Passa ele pra mim para você descansar um pouco. — disse Áries ajeitando-se sentado ao lado do marido — Antes de sair eu preparo a mamadeira.

— Eu estou bem. Pode deixar que eu preparo. Vi você fazer duas vezes e acho que já aprendi. — respondeu o virginiano enquanto afrouxava as tiras do lenço para passar o sling improvisado com o bebê para Mu — Aproveito e já preparo o nosso café da manhã.

— Está bem, é até bom que fique com a mamadeira, porque... acho que ele precisa trocar a fralda de novo! — Mu disse enquanto ativava seu Cosmo para pegar o filho, já rindo da careta que Shaka fazia.

— Ah, Buda! Realmente ainda não me sinto preparado para as fraldas! — disse o indiano ao se levantar da cama.

Aos risos, e com todo amor do mundo, Mu caminhou até o banheiro onde haviam improvisado um fraldário sobre um dos balcões de mármore, enquanto Shaka seguia para a cozinha. Ao passo que o ariano trocava a fralda de Kiki, este acordou e destrambelhou a chorar de fome.

— Epa! Epa, calma filhotinho, calma. O papai já está terminando aqui, e o bába está preparando sua mamadeira. Não chora. — o ariano falava com toda a calma — Eita, que o estrago foi grande, heim?

A voz mansa de Áries aos poucos acalmou o bebê que por ser também Muviano já começava a estabelecer um elo psíquico com ele.

Com Kiki limpinho, trocado e mais uma vez bem preso a seu corpo pelo sling, Mu deixou o quarto e foi até cozinha onde o outro pai babão já tinha pronta a mamadeira morninha nas mãos.

Enquanto o Santo de Áries dava a mamadeira ao pequeno, ambos os pais observavam curiosos e encantados.

— Ele bebe tão rápido... É assim mesmo? Isso é normal? — disse Shaka espantando com a voracidade com que Kiki sorvia o leite.

— Sim, é sim. — Mu respondeu rindo.

— Mas, é perigoso ele se engasgar, não é?

— Não, Sha. Ele sabe o que está fazendo, fica tranquilo, amor.

— Nossa.... Que criança esfomeada. Em uma noite ele tomou quase uma lata inteira de leite em pó, e pelo jeito que está atracado a essa mamadeira parece até que não o alimentamos desde ontem.

— É que nossa fisiologia é diferente. Muvianos gastam mais energia por causa da telecinese e da telepatia. Os bebês não são diferentes. Kiki é um filhote esganado, mas isso é ótimo! Sinal de que ele tem força e energia. Estaria mais preocupado se ele não quisesse mamar. Ele também crescerá diferente das outras crianças humanas, mais lentamente. O período da infância é o mais longo.

— Ainda bem que você tem três empregos e eu tenho o soldo do Santuário, que, aliás, aquele proxeneta ébrio do Gêmeos não me paga há alguns meses. Mas, se antes não fazia questão, agora eu faço! Ele vai ter que me pagar os atrasados. Agora temos um filho... E um filho esganado!

— Não se preocupe, luz da minha vida. Não vai faltar nada para o nosso filhote. Principalmente comida! — disse Mu aos risos, divertido com as preocupações de Shaka.

Após alimentar Kiki, Mu o passou para Shaka que colocou o pequeno para arrotar, então rapidamente tomou o café da manhã preparado pelo indiano e se aprontou para sair.

— Eu não devo demorar, Sha. — disse enquanto enrolava seu lenço vermelho em torno do pescoço — Quanto mais cedo eu falar com Saga, mais cedo eu volto para providenciar tudo que precisamos para Kiki viver aqui conosco. Fique bem vocês dois, e qualquer emergência me chame.

— Fralda suja conta como emergência? — Virgem brincou enquanto balançava o filho sobre o ombro.

— Depende da gravidade do desastre. — Mu riu.

Despediram-se com um beijo. Tudo havia de fato voltado ao normal.

Mal cabendo em si de tanta felicidade, o Santo de Áries desceu as escadarias das Doze Casas apressado. Tinha urgência em resolver tudo, e esperava que Saga fosse compreensivo, pois tudo que mais desejava era estar perto do marido e do filho nesses primeiros dias de vida de Kiki, tanto para ajudar Shaka, que certamente não tinha a mínima noção de como cuidar de um bebê, quanto para encher Kiki de mimos.

Mu estava tão apaixonado pela família, agora completa, que não queria nem mais sair de casa. Desejava passar todas as suas horas ao lado de Shaka e Kiki.

Era nisso que pensava quando adentrou o Templo de Baco, cruzou o salão principal com um sorrisinho bobo no rosto e seguiu para a parte interna onde estavam instalados os escritórios, mas bruscamente tivera seus pensamentos interrompidos ao ver, no fim do corredor, Camus de Aquário deixando a sala de Saga, fechando a porta atrás de si com uma batida.

Mu estranhou de pronto a presença do aquariano ali, logo nas primeiras horas do dia, mas seu raciocínio ligeiro já lhe fazia adivinhar qual era o motivo daquela visita. Por isso, em pensamento já rogava a todos os deuses que a conversa entre Gêmeos e Aquário tivesse tido bons resultados, para o bem de Geisty e os bebês que ela esperava.

Assumindo a postura alegre e amigável de sempre, Mu seguiu pelo corredor já olhando para Camus que vinha de encontro.

Aquário tinha o semblante sério e introspectivo de hábito, e Áries achou melhor agir de modo a Camus não desconfiar de que ele já sabia da gravidez da amazona.

— Bom dia, Camus! — disse Mu num tom cordial e animado.

— Bom dia, Mu. — o francês respondeu com carregado sotaque russo, sem sorrir.

— Não esperava encontra-lo aqui tão cedo! — replicou o ariano — No entanto é bom vê-lo. Não o vejo desde a festa de Halloween.

— Ah... sim. Tenho estado um pouco ocupado... Sabe, negócios. — disse Camus, que fumava um cigarro já pela metade.

— Oh, sim. Imagino... Mas, e como está Hyoga?

— Hyoga está muito bem! — Camus respondeu cordialmente — Antes de voltar à Moscou o levarei até Virgem. Ele tem falado muito do Shaka, do jardim enorme que tem em Virgem... Ele gostou muito de passar um tempo lá.

— Vai leva-lo para Moscou? Achei que...

— O lugar dele é lá. — Camus interrompeu com voz firme — Estamos passando apenas um período breve aqui.

— Entendo. — Áries disse com certo pesar, pois já imaginava que Hyoga era uma criança fadada a seguir o mesmo caminho de Camus e entrar para a máfia ainda muito jovem. Sentiu pena do garotinho, e ficou preocupado com Afrodite, já que sabia da ligação entre os três e agora que tinha Kiki podia imaginar o quão sofrido seria para Peixes viver longe daquela criança.

— Bom, eu preciso ir. — disse Camus, tirando Mu de seus devaneios.

— Ah, sim. Bem, mas leve-o lá em casa antes de voltarem à Rússia. O chinelinho do Hyoga ficou com Shaka... Aliás, a visita do seu filho ao meu marido fez um bem danado a ele... A nós dois, na verdade. Se não fosse por Hyoga talvez...

— Do que está falando? — Camus perguntou curioso.

Mu sorriu animado.

— Assim que puder eu te explico. — o lemuriano deu um tapinha no ombro do irmão de armas já se adiantando para caminhar até a sala de Gêmeos — Por enquanto, só tenho a agradecer a você e a Hyoga. Nos falamos outra hora, Camus. Tenha um ótimo dia!

O Santo de Aquário ficou por um momento acompanhando o lemuriano com os olhos até que o viu dar dois toques na porta do escritório de Saga, então adiou os questionamentos que começavam a ganhar forma em sua mente e seguiu pelo corredor para deixar o Templo. Tinha que pensar no que acabara de conversar com Gêmeos, e também na decisão que tomaria.

Dentro da ampla sala que servia de escritório para a autoridade máxima daquele lugar, Saga abortava um telefonema que estava prestes a fazer para atender a visita inesperada do cavaleiro de Áries.

— Entre. — disse em alto e bom tom, devolvendo o telefone ao gancho.

Quando a porta se abriu, o geminiano, que estava sentado atrás de sua escrivaninha, cruzou as pernas e descansou ambas as mãos sobre a madeira envernizada do móvel, olhando para o cavaleiro que adentrava sua sala todo sorridente.

— Bom dia, Saga. — disse o ariano fechando a porta atrás de si para depois caminhar até a escrivaninha, puxar uma das cadeiras à sua frente e se sentar.

— Bom dia, Mu. A que devo sua visita tão cedo?

— Bem, não fui só eu que cai da cama mais cedo do que o esperado, não é mesmo? — o ariano disse em tom de brincadeira — Espero que a conversa com Camus tenha sido positiva.

— De certo modo... Mas, creio que não seja por isso que está aqui, não? — disse Saga arqueando uma das sobrancelhas — Eu soube que saiu às pressas antes do término do expediente ontem. Aconteceu alguma coisa? — perguntou ao notar que o ariano parecia cansado e circunspecto.

— Sim, Saga. Aconteceu. — Mu respondeu assumindo um semblante sério — E é pelo que aconteceu essa noite que estou aqui, me reportando a você, já que é o Grande Mestre e também meu chefe.

— Assuntos do Santuário?

— Hum... sim e não.

— Prossiga. — Saga disse sem muito entusiasmo.

— Bem, primeiro devo lhe deixar ciente de que o que vou dizer aqui a princípio pode parecer absurdo e fantasioso, mas lhe asseguro que é a mais pura verdade, portanto, preciso que acredite e que confie em mim. — disse o ariano encostando-se no encosto da cadeira e cruzando as pernas.

Curioso, e naquela altura já até preocupado, Gêmeos encarou os olhos verdes do lemuriano e apenas fez um sinal com as mãos para que ele prosseguisse com o relato.

— Saga, ontem Shaka de algum modo interceptou o pedido de socorro de uma lemuriana fugitiva que estava a minha procura. Ela fugia de um inimigo que queria lhe tomar o filho ainda do ventre. Estava ferida de morte, mas Shaka usou seus poderes e espantosamente se moveu no tempo e espaço, indo parar em um futuro breve, então ele a encontrou a tempo de ajuda-la a dar à luz salvando, assim, o bebê... que agora está em Virgem dormindo tranquilo e protegido pelos braços dele.

De boca aberta, olhos arregalados fixos ao rosto do ariano e sobrancelhas arqueadas em um nítido sinal de espanto, Saga ainda apurava cada palavra dita por Mu.

— Trocando em miúdos, eu sou pai! Pai de um lindo e ainda pequenininho lemuriano legítimo chamado Kiki. — agora sim Mu abria um sorrisão de satisfação e orgulho — A paternidade parece que é contagiosa por aqui, né não? Primeiro Camus, depois você, agora eu e o Sha... — brincou.

— C-como... como é que é? — disse Gêmeos quando conseguiu finalmente articular alguma palavra.

O Santo de Áries então puxou o ar profundamente para dentro dos pulmões e relatou, passo a passo, cada detalhe do que Shaka havia lhe contado, desde o parto da lemuriana, até sua triste morte na praia, as palavras vagas que ela conseguiu dizer, o perigo que rondava Kiki, até o funeral que fizeram em honra a ela no Jardim das Salas Gêmeas.

— E agora Kiki está sob minha tutela e a de Shaka. Por enquanto não podemos formalizar a adoção através de documentos e registros em cartório, já que ninguém de fora do Santuário pode saber da existência de Kiki. Não antes de descobrirmos algo sobre o tal cavaleiro que estava perseguindo a mãe dele. E também porque as leis, tanto indianas, quanto gregas e tibetanas não permitem adoção de crianças por casais do mesmo sexo, mas assim que for possível tornarei legal o que já está estabelecido pelo coração. Kiki é meu filho e de Shaka, e nada no mundo vai mudar isso.

— Por todos os deuses... Essa história é tão...

— Incrível! — Mu interrompeu o geminiano abrindo um largo sorriso.

— Sim, mas... também é muito preocupante e... estranha. — disse o grego completamente perturbando por tudo que acabara de ouvir, e também pelas teorias que sua mente já traçava — Então há um cavaleiro que visa crianças lemurianas? E esse homem é tão cruel a ponto de ferir uma mulher grávida de morte? O que ele pretendia? Shaka pode se mover no tempo? O que mais aquele monge irritante comedor de mato esconde de mim que eu não saiba?

— Não começa a implicar com ele. Ser o homem mais próximo de deus deve ter lá suas vantagens. — Áries riu — Pelo que Shaka me contou, ele sentiu um Cosmo divino no exato momento em que se teleportou para a praia. Ele sozinho não pode viajar no tempo... Também estamos cheios de questionamentos, Saga, mas... Vamos logo ao que interessa de pronto. Eu estou aqui para falar de mim, e como eu sou um mero proletariado e não tenho deus nenhum que me cubra de privilégios, só me resta apelar para os direitos trabalhistas criados pelos homens mesmo. Eu preciso de férias, Saga. Ou, se soar melhor, preciso de licença paternidade.

Saga levou uma das mãos ao rosto esfregando os olhos enquanto soltava um longo suspiro.

— Não me fode, Áries. Estamos em alta temporada, a Casa está muito requisitada, Geisty está grávida, e para eu conseguir convencer Afrodite a atender um cliente apenas por noite que seja é um suplício, já que o tal do namorado misterioso dele paga para ele não fazer programas com outros, só que isso fode com outros esquemas meus quando o assunto são negócios, agora você também quer me deixar na mão?

— Eu não vou te deixar na mão. Posso muito bem fazer a contabilidade do Templo das Bacantes em minha casa. — disse Mu tranquilamente — Depois, Saga, minhas férias estão atrasadas, lembra? A última vez que me deu férias foi quando me casei. Mas, não é por isso que quero tirá-las agora. Kiki nasceu prematuro, e Shaka precisa de mim para ajuda-lo a cuidar dele. Meu marido não vai dar conta de um bebê sozinho. Pelo menos não agora no começo... Quando estive em Jamiel com Shion prestávamos assistência a muitas famílias do vilarejo, e entre elas muitas mães com seus recém nascidos. Então, eu sim tenho alguma experiência com bebês, Shaka não. Ele precisa de mim... No mais, estou logo ali, no Santuário. O que precisar é só chamar. Inclusive se precisar de ajuda com Geisty.

— Bom... é uma péssima hora para você tirar férias, mas... diante do acontecido não me resta outra opção, não é mesmo?

— Não. — Mu riu do semblante desanimado do geminiano.

— No entanto, Mu, quero levantar uma investigação acerca do ocorrido com essa lemuriana. Temos que descobrir quem é esse cavaleiro que a estava perseguindo. — disse Saga — Depois farei uma convocação a Shaka para que ele me relate pessoalmente cada detalhe dessa história para que possamos iniciar uma investigação.

— Como quiser. — respondeu o ariano — Tem meu apoio, mas como te disse, Shaka se deslocou no tempo. Ele não soube me dizer exatamente quanto tempo, mas era primavera, ou seja, a mãe do Kiki ainda não foi perseguida pelo tal cavaleiro. Se me der permissão, no início da primavera passarei a monitorar dia a dia a orla da praia de Lomvarda, onde Kiki nasceu. Quando sentir o Cosmo de Shaka nos rochedos saberei que aquele é o dia, talvez assim possamos descobrir algo sobre o cavaleiro que matou aquela mulher.

— E não há como impedi-lo?

— Infelizmente não. O karma dela, e também do cavaleiro, precisava ser cumprido desta maneira. O de Kiki não. Kiki viveu por algum propósito maior, do qual ainda não sabemos. Por isso não há como alterar seu destino.

— Pelos deuses! Tudo isso é tão... absurdo. Se não fosse você a estar aqui na minha frente me contando, Mu, julgaria ser invenção de uma mente bem perturbada e fantasiosa. — Saga suspirou piscando os olhos.

— Sabe que nem eu, tampouco Shaka, precisaríamos inventar uma história para justificarmos a adoção de uma criança lemuriana. Ter filhos já estava nos meus planos, ainda mais depois de saber que você e Geisty também serão pais. Confesso que fiquei ainda mais instigado... Quiseram os deuses que Kiki vivesse, e que viesse para nós. Kiki é real, Saga. — Mu sorria emocionado — Se quiser ver com sues próprios olhos só nos fazer uma visita qualquer hora dessas.

— Com certeza farei! — Saga respondeu enfim dando um primeiro sorriso naquela manhã tão cheia de fortes emoções — Uma criança lemuriana... Quem diria!... Mas, venha cá... Deixe-me cumprimentar o mais recente pai orgulhoso desse Santuário! — disse arrastando a cadeira para trás para se levantar.

Áries fez o mesmo, levantando-se da cadeira num movimento brusco e até meio desajeitado. Estava tomando por uma emoção grande e nova.

Encontraram-se no curto espaço entre a escrivaninha e os demais moveis da saleta, abraçaram-se com força e alegria genuína, dando leves tapinhas nas costas um do outro.

— Meus parabéns, Mu. Fico feliz em saber que sua família cresceu, mesmo ainda lamentando o seu infortúnio de ter escolhido aquele Buda irritante, e feliz em saber que minhas crianças terão um amiguinho para brincar. Puxa! De repente esse Santuário vai ficar cheio de crianças! — disse o sorridente geminiano.

— Obrigado, Saga. Ontem fui eu a te parabenizar, hoje é você. A vida é mesmo cheia de surpresas. — Mu respondeu animado depois que apartaram o abraço.

— Sim. E como é!... Tire suas férias, cuide de seu filho, eu assumirei a tesouraria. Mas, já que me avisou em cima da hora, se precisar de algo o procurarei em Virgem.

— Fique à vontade. — Mu respondeu — A única coisa que peço é que, pelo menos por enquanto, mantenha sigilo sobre Kiki. Ele ainda é muito pequeno. Gostaria que ele ficasse um pouco mais forte antes de começar a receber visitas de fato. Inclusive, quero leva-lo à enfermaria do Santuário para que possa ser examinado ainda hoje.

— Não se preocupe. Leve seu filho e diga que o sigilo deve ser mantido por ordens do Grande Mestre. Você guardou o segredo de Geisty, não foi? Tanto que guardou até de mim. — riu descontraído — Quando começar a investigar o caso da lemuriana me comunique. É de interesse do Santuário saber quem é esse cavaleiro que a matou.

— Pode deixar. — Mu respondeu convicto — Bom, então eu já vou indo. Tenho que fazer umas compras para a casa, artigos específicos para recém-nascidos, e já sei que Shaka vai querer comprar uma biblioteca inteira de livros e revistas sobre cuidados com bebês. Tenho o dia cheio!

— Boa sorte! Eu hoje também tenho o dia cheio. Vou levar Geisty ao médico e iniciar o acompanhamento dela.

— Boa sorte para você também, então. Cuide bem daquela maluca.

Com um aperto de mãos amigável ambos selaram os acordos.

Mu já ia deixando a sala apressado enquanto fazia uma lista mental de tudo que teria que providenciar até antes do meio-dia, mas ao passar pela porta, se virou para trás e deu mais uma notícia.

— Ah, Shaka mandou lhe dizer que agora que é pai ele quer receber o soldo que tem direito no valor integral, inclusive os atrasados. — disse rindo, e em seguida saiu da sala a tempo de ouvir Saga resmungar um palavrão.

— Mas era só o que me faltava! — ralhou o geminiano ainda olhando para a porta já fechada — Aquele monge de araque...

Saga então olhou no relógio em seu pulso e franziu a testa em desassossego.

— Merda.

Tinha pensado em completar a ligação que fazia quando Mu apareceu ali, mas já estava atrasado para o compromisso que havia marcado naquela manhã. Sendo assim, enfiou a mão no bolso da calça e apanhou as chaves do carro. Repetiu o processo com o bolso interno do paletó de onde retirou o celular. Faria a ligação no caminho. Aliás, agora o geminiano tinha um motivo a mais para fazê-la!

Enquanto descia para a garagem lateral onde havia deixado a Mercedes estacionada quando chegou ali, discava os números apressado e ansioso, até que depois de vários e insistentes toques finalmente a pessoa do outro lado da linha atendeu.

— Alô.

— Até que enfim, Afrodite! — disse enérgico o cavaleiro, já sem paciência pela pressa enquanto abria a porta do carro — Pensei ter dito para ficar atento nesse celular porque posso precisar contatar você a qualquer momento, como agora.

— Eu heim, Saga. Ligou só para me gongar**, santa? São oito da manhã. Eu estava... estava dormindo, tá boa? O que foi? O Santuário foi invadido? A zona tá pegando fogo? Alguma amapô** morreu de sapinho? — disse o pisciano enquanto com o celular apoiado entre o ombro e a cabeça passava geleia de morango em uma fatia de brioche para em seguida servi-la a Hyoga, que sentadinho à mesa tomava o café da manhã na companhia da adorada “amazona” de Peixes e do inseparável patinho Dudu.

Ambos estavam em Aquário, uma vez que Camus havia saído para atender ao chamado de Saga e deixado Hyoga aos cuidados de Afrodite.

— Não, Afrodite. Não tem nada pegando fogo...

— Tá colocada*? — perguntou enquanto encostava o dedo indicador nos lábios pedindo para que Hyoga fizesse silêncio enquanto ele falava ao telefone.

— Que?

— Você bebeu, Saga? — disse em tom severo, porém sorria animado e festeiro para Hyoga enquanto lhe servia um morango direto na boca.

— Não! Eu não bebi!... Quer me deixar falar?

— Fala, santa!

— Ótimo!... Escute com atenção. Eu preciso que venha agora para o Templo de Baco e segure as pontas aqui para mim essa manhã, porque tenho que sair e volto só dentro de algumas horas.

— Alôca! — quase deixou o telefone cair, então endireitou a postura e segurou o aparelho com a mão firme rente à orelha — Como é que é?

— Mais tarde eu lhe explico. Mas, de imediato só venha para o bordel, está bem? Preciso de você aqui, agora. Estou saindo e não há ninguém que saiba das funções da casa para ficar aqui. — respirou fundo, tentando se encher de calma enquanto pelejava para fazer o carro ligar.

— Como não há ninguém? E o Mu? — disse Peixes um tanto quanto consternado, e sua agitação era percebida por Hyoga que o encarava com um semblante curioso no rostinho.

— O Mu não está aqui. Acabei de dar férias para ele.

— Férias? Tô sépian**! Como você me dá férias para o Mu em pleno final de ano, miolo mole? Mas... Aquenda o babado**! Aconteceu alguma coisa com o Mu para ele pedir férias?

— Afrodite, pelos deuses. Não aconteceu nada. Não posso conversar com você agora, só preciso que venha para cá, ok?

— Mas, eu... — olhou para Hyoga que mastigava um morango enquanto lhe encarava com os olhões azuis fixos em seu rosto —... Eu... Eu não posso sair... daqui... agora... — murmurou todo atrapalhado.

— Como não pode? Por que não pode?

— Porque... eu... eu estou... ocupado... — disse em voz notoriamente preocupada, enquanto apanhava na mão o pato Dudu que Hyoga todo sorridente acabava de lhe oferecer.

— Você está ocupado? Como assim está ocupado?... Peixes, você é meu funcionário e sua ocupação é comigo! Ora era só o que me faltava! Preciso de você aqui, agora, está entendendo?

— Mas, Saga, eu não...

Afrodite interrompeu-se quando ouviu do outro lado da linha o som contínuo do término da ligação, enquanto na garagem do Templo de Baco Saga já devolvia o celular ao bolso do paletó dando partida no carro.

*Sling — Também chamado de canguru, é uma espécie de carregador feito com tecido 100% algodão. Possui tamanho único e é ajustável por duas argolas sem emendas, as quais são presas em uma das pontas. Alguns slings possuem pequenas almofadas nos ombros para maior conforto de quem carrega o bebê, e pode sustentar uma criança de 0 a 20kgs de forma confortável, segura e com liberdade de movimentos.

**Dicionário Afroditesco

Amapô — mulher

Aquenda o babado – falar o que está acontecendo.

Colocada — drogado

Gongar – falar mal, xingar, chamar a atenção de alguém por seu mau comportamento.

Tô sépian – versão mais dramática e intensa de Tô bege!; estar chocado com algo

Notas finais
O cap foi dividido e no próximo teremos Geisty, Saga e os bebês *-* Grupo do face https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/