Notas iniciais
Mais um cap...ufa é as coisas tão se complicando... Acreditem está difícil até para nós lidar com tatas consequências ao mesmo tempo... por isso os capítulos estão sendo escritos de modo a facilitar o entendimento e não deixar muitas dúvidas (além das necessárias). Então sem enrolação...e bora lá. Arte da capa by Rosenrot

Instantes antes, logo após ouvir através da porta de madeira do porão a fatídica confissão do Vor russo, e ainda descrente em sua veracidade, Shina esgueirou-se pelas sombras da noite para não ser vista por ninguém e retornou ao Templo da Baco por um dos acessos laterais. Não foi difícil, dada sua agilidade nata, acessar o escritório da tesouraria sem ser notada.

Lá correu até a escrivaninha, apanhou o telefone e com os dedos trêmulos discou afobada um número que sabia de cor. A ansiedade para ouvir a voz do outro lado da linha era tamanha que sentia toda a carne de seu corpo tremer, enquanto praguejava pela demora, até que finalmente o amigo atendou no quarto toque.

— Milo! Pela deusa que demora! — disse enlouquecida, usando a mão para abafar a própria voz já sussurrada — Ouça... — tentava dizer quando foi interrompida pelo escorpiano que do outro lado da linha falava com voz fatigada.

“Shina?... Eu sei que estou atrasado, eu senti o Cosmo do Shura, mas é que a convocação me pegou bem no meio de um conflito civil e...”

— Cala a boca, Milo, só me escute! — foi a vez da amazona interromper o cavaleiro — Não venha para o Santuário! Não venha! Pelos deuses, por tudo que é mais sagrado, você não pode aparecer aqui, está me ouvindo? — disse atropelando as palavras em meio ao chiado da ligação ruim por conta da longa distância entre os dois pontos.

“O quê?”, a voz do outro lado da linha soou curiosa e apreensiva “Não... ir? Por que raios eu não compareceria a uma convocação?”, houve uma pausa breve, “Shina... aconteceu alguma coisa?”

O coração da amazona apertou-se ao ouvir a pergunta claramente em tom cismático, então ela engoliu a vontade de chorar respirando fundo e manteve-se firme.

— Aconteceu, mas não posso entrar em detalhes agora, apenas preciso que confie em mim, confiem em mim, Milo, pela deusa! Não questione, apenas me ouça. — disse soluçante, a voz lhe falhando a medida que sua respiração ficava mais tensa — Não venha para o Santuário, em hipótese alguma! Não venha!... É perigoso.

“Perigoso?... Mas que merda aconteceu aí, Shina?”, questionou o escorpiano que ao mesmo tempo em que falava ao celular carregava uma garota ferida nos ombros até a estação de trem que ficava na fronteira com a Rússia, lá a juntaria com as outras quinze civis que aguardavam o comboio para embarcarem em segurança.

— Eu preciso desligar antes que apareça alguém aqui. Assim que puder ligo novamente e te coloco a par da situação, mas por hora preciso que confie em mim, Milo, e não banque o curioso. Espere meu novo contato, por favor, e... se cuida.

Shina não aguardou resposta. Aflita desligou o aparelho o colocando com cuidado no gancho e da mesma maneira sigilosa que adentrou a sala também saiu sem deixar vestígios e sem ser vista. Mesmo com o coração apertado e os pensamentos em turbilhões Ofiúco retornou ao lado de fora do Templo de Baco onde a força tarefa de cavaleiros e amazonas recolhiam os corpos das vítimas. Havia muito a ser feito ali, mas ela só conseguia pensar no que faria Saga diante daquela declaração do Vor russo.

***

De volta ao porão, Mu, Máscara da Morte e principalmente Camus, olhavam assustados para o Grande Mestre.

— O quê? Como é que é? — o ruivo indagou a Saga, sem acreditar no que havia acabado de ouvir e até mesmo duvidando da própria razão.

— Exatamente o que você ouviu, Aquário. — Gêmeos pronunciou firme erguendo o queixo enquanto divisava de modo intimidador o rosto incrédulo do francês que mal piscava — Escorpião é acusado pelo crime de traição ao Santuário de Atena. E como você bem sabe, traição à sua sagrada Ordem é punida com a vida. Milo não é mais digno da honra de servir à deusa e nem a mais coisa alguma nessa Terra, nem mesmo de ser referido pela alcunha de Cavaleiro. — disse gesticulando com as mãos no ar, explanando de modo eloquente sua ordem imperativa. Em cada palavra proferida pelo geminiano era possível sentir de forma quase palpável o ódio que brotava de dentro de si direcionado a Milo.

Nessa hora, assustado e chocado com aquela sentença brutal Mu acercou-se do Patriarca dando um passo à frente.

— Mas, essa resolução me parece um tanto precipitada. — disse o ariano na tentativa de apelar para o bom senso de Saga, apesar de conhecer como ninguém as leis que regem o Santuário e saber que traição é um crime pago com a vida, porém não podia aceitar que mesmo na condição de Grande Mestre Gêmeos fosse capaz de dar uma sentença sem nem ao menos ouvir a versão do réu — Condenar Milo sem lhe dar chance de defesa, digo, sem ouvir sua versão dos fatos não me parece...

— Eu não pedi sua opinião, Áries! — Gêmeos bradou enfurecido interrompendo o lemuriano, depois voltou o rosto transfigurado em cólera em sua direção enquanto abria agitado os braços no ar — Acha a minha decisão precipitada? Por que, Cavaleiro de Áries? Acaso não posso confiar em sua palavra?

Mu endureceu a face ofendido.

— Por acaso mentiu quando me confirmou que aquele estrume dizia a verdade? — continuou o geminiano apontando para o corpo de Dimitri no chão — Ou será que está tentando proteger o traidor? Sim, porque me toma por um imbecil se pensa que eu daria chance a Escorpião de sequer tentar me ludibriar.

O Grande Mestre então avançou em direção ao ariano parando a poucos centímetros de seu corpo e o encarou de cima ameaçadoramente. Travaram uma breve batalha muda, olho no olho, até que Mu enfim quebrou o silêncio.

— Eu não menti em momento algum, tampouco tenho a intenção de proteger um traidor, só penso que todos devem ter o direito à defesa. — disse ele.

— Pois eu repito, caso não tenha ficado claro ainda: Você não pensa nada, você não opina nada, Áries, porque o Grande Mestre aqui sou eu! — disse o grego quase cuspindo as palavras e com extrema petulância — Emita sua opinião somente quando esta for solicitada por mim. — fez uma breve pausa enquanto observava satisfeito a face do ariano se enrubescer de ira — Caso contrário, mantenha-se calado que você ganhará mais!

Mu estava indignado. Foi preciso respirar fundo algumas vezes e cerrar os punhos para conter dentro de si a raiva que sentia. Enfrentar Saga naquele momento não seria nada prudente, e para piorar tinha certeza de que Dimitri não mentira, mas ainda assim não se conformava com um julgamento feito no calor da fúria.

Camus por sua vez, estava ainda atônito, processando indigesto aquela ordem.

Matar outro cavaleiro de ouro não era tarefa simples e matar Milo seria ainda mais complicado e penoso, já que tinha certa estima pelo escorpiano e algo que podia até chamar de amizade, aos seus padrões é claro, desde a infância. Por isso arriscou contestar a ordem, mesmo sabendo que isso implicaria na fúria de Gêmeos.

— E por que eu? — disse Camus em voz alta chamando imediatamente a atenção do geminiano — Eu já provei minha inocência, já ficou claro que non tive envolvimento nenhum com esse ataque da Vory ao Templo das Bacantes... Depois, agora que Dimitri está morto eu tenho muito o que fazer na Rússia.

Camus tentava se esquivar mais uma vez, visto que não queria de forma alguma ter de lutar com Milo, até porque não podia se dar ao luxo de morrer nessa batalha, pois o risco era grande e muitos dependiam de si, como Hyoga e a própria máfia que ajudara a alavancar, mas também porque tudo que mais queria era sair daquele porão e correr para o hospital para saber notícias de Afrodite. Aceitar aquela missão era como jogar roleta russa. Milo era um cavaleiro extremamente poderoso e ele não podia contar com a sorte nesse combate.

Diante das palavras de Camus, Saga virou-se para ele e o encarou com firmeza, retribuindo o olhar duro que o francês lhe dirigia, então de repente arqueou as sobrancelhas severas e deu uma gargalhada sádica que ecoou troante por todo o porão fazendo gelar a alma dos três cavaleiros presentes.

— Ora não seja ridículo, Aquário! — disse Gêmeos em tom debochado — Acha mesmo que a mim bastaria a palavra de Áries e uma merda de ligação sua à sua facção? Achou que só isso provaria sua lealdade a mim? Ao Santuário? Pois se engana. — voltou a ficar sério e rangeu as palavras seguintes — Eu não sou ingênuo, Aquário, tampouco simplista! Não confio em cão que morde a mão do próprio dono.

Ambos os cavaleiros travavam uma batalha visória, mas por dentro Camus sentia o coração palpitar agitado.

— Pelo tanto que aquele verme lhe suplicou por ajuda, a mim ficou mais que óbvio que havia uma ligação forte entre vocês. — continuou Saga — E mesmo diante de tais... laços, você não hesitou nem por um minuto em aproveitar-se da situação para tomar o lugar dele, não é mesmo? Não pensou duas vezes antes de declara-lo morto e se proclamar o novo Vor! Bem... diante disso eu sou levado a crer, por seu próprio mérito, que sua lealdade, Aquário, só é válida quando lhe é conveniente.

Máscara da Morte, que estava um pouco afastado ergueu as sobrancelhas e comprimiu os lábios numa expressão apreensiva. Era claro que os ânimos ali estavam prestes a se exaltar e isso não seria nada bom. Desde que vira Gêmeos transfigurado no hospital sabia que tempos difíceis esperavam por todos no Santuário e Camus não parecia querer facilitar a vida de ninguém.

Já Mu estava atento, mas permanecia calado. Conhecia Camus o suficiente para saber que ele não seria inconsequente ao ponto de desafiar Saga naquela altura dos acontecimentos, já que havia muito mais em jogo para si, como a vida de Hyoga e também de Afrodite, que precisavam dele agora mais do que nunca.

Gêmeos então se aproximou mais de Aquário, e os poucos passos que deu foram o suficiente para fazer o som de suas botas de ouro a baterem contra o chão de pedras gelar o coração do mais corajoso dos homens.

Frente à frente com o francês, Saga ergueu o braço e segurou firme em seu rosto com uma das mãos, apertando a face apreensiva com força enquanto o dardejava com os olhos que exibiam um misto de ódio e desprezo.

Estavam tão próximos que seus narizes quase se tocavam, e Saga impunha sua superioridade sobre Camus elevando seu Cosmo extremamente agressivo.

O ruivo por sua vez, mal respirava. Com os olhos arregalados fitava o rosto medonho do geminiano sabendo que sua situação estava por um fio, enquanto Áries e Câncer observavam a cena tão tensos que suas testas suavam, mas não ousaram se intrometer.

— Muito bem, Aquário, já que garante ser um cavaleiro nobre, um cão leal e fiel, vai me obedecer sem contestar. — Saga sussurrou ameaçadoramente, quase cuspindo as palavras na face pálida de Camus — A sua palavra não me basta. Eu quero que me prove sua lealdade. Só assim poderá continuar defendendo a Décima Primeira casa deste Santuário e terá permissão de vestir uma armadura de ouro... Você vai ceifar a vida de Escorpião e vai trazer de volta a sagrada armadura de ouro que está em poder dele de volta para o Oitavo Templo, caso contrário eu o irei declarar um traidor como ele. E você sabe qual é a punição que receberá, Aquário... A mesma a qual tenta barganhar ao seu companheiro de armas.

Camus encarou em silêncio o Grande Mestre, e a não manifestação do aquariano frente suas palavras o fez solta-lo e em seguida divisar seus olhos enquanto dava um sorriso maquiavélico com tons de satisfação.

— Exatamente assim que deve ser, Aquário. — disse Saga — Manda quem pode e obedece quem tem juízo! Nas barganhas a vantagem sempre será minha, nunca o oposto.

Camus respirou fundo. Sua mente teimava em trabalhar rápido na tentativa de encontrar alguma saída, mas foi com desespero que deu-se conta de que não havia de fato uma escolha.

Sem mudar a expressão em seu rosto de aparente frieza e sobriedade, mas ainda assim demonstrando seu descontentamento, o aquariano tomou a única decisão que lhe cabia.

— Se assim deseja, Grande Mestre, assim será cumprido. — o ruivo ditou com voz grave e rosto lívido, vazio de emoções — Considere feito!

Ao lado Mu comprimiu os olhos sentindo um aperto no peito enquanto Máscara da Morte coçou o queixo nervoso. Não que se importasse com Camus ou com Milo, já que não era dado a sentimentalismos e eram poucos no Santuário aqueles que considerava como amigos, mas mesmo para um homem como ele estava claro que aquela era uma das mais amargas missões a ser dada a um cavaleiro.

No rosto de Saga era possível perceber os sinais de satisfação ao ouvir a resposta de Camus. Por fim, o grego respirou fundo estufando o peito e ditou:

— Faça o que for preciso, e não poupe esforços para enviar aquela cria pestilenta de volta ao Tártaro!... E outra coisa, Aquário. Eu o ouvi dizer que, agora que é Vor absoluto, tem muito o que fazer na Rússia, pois você tem muito o que fazer é aqui! Quando concluir sua missão, quero que recolha toda a mixórdia que essa besta russa deixou em meu estabelecimento... Eu não construí o Templo das Bacantes e o fiz ser a merda do puteiro mais famoso e frequentado da Europa para perde-lo assim, para os ratos da Vory v Zakone. O Santuário precisa da receita que é gerada aqui e agora que nossa dívida com os russos foi quitada... — deu um riso sarcástico — Toda a renda do meu prostíbulo será aplicada ao Santuário e as benfeitorias que eu pretendo fazer. Há muito precisamos aumentar nossos contingentes, reforçar nossas linhas de frente, assim como fronteiras, enfim... Você vai varrer toda essa merda para debaixo do tapete, você me entendeu, Aquário? Eu te dou duas semanas para limpar a reputação do meu empreendimento e deixa-lo pronto para quando eu for reabri-lo em grande estilo! Será de sua responsabilidade essa tarefa.

Camus não respondeu, apenas franziu a testa e acenou positivamente.

De certo modo ele mesmo ter de dar cabo dos corpos o ajudaria a elaborar uma boa farsa para os russos a respeito da morte de Dimitri.

— Nada mais justo como primeira tarefa para comemorar a sua promoção, não é mesmo! — disse com ironia o Patriarca, acertando sua postura para em seguida dar às costas a Camus fazendo sua capa carcomida tremular no ar.

Com passos decididos Gêmeos seguiu para a porta que dava acesso àquela adega, mas não deixou o recinto sem antes fazer sua voz infesta ditar uma última ordem sem dirigir o olhar aos seus interlocutores:

— Áries, sua presença não é mais necessária aqui, retorne ao seu posto no Primeiro Templo imediatamente. Câncer, você limpa a sujeira desse verme na minha adega e o que mais precisar de suporte por aqui. Seja breve, pois você precisa retornar ao seu posto no Quarto Templo.

Dito isto o som da madeira pesada estancou atrás de si quando passou pelo batente encerrando sua presença no recinto, deixando para trás os três cavaleiros que se entreolharam receosos.

Assim que se viram sozinhos no porão, Camus finalmente conseguiu soltar o ar de seus pulmões.

— Eu preciso de um cigarro. — o ruivo disse em voz alta direcionando a mirada para Máscara da Morte, que tinha o olhar vago ainda cravado na porta entreaberta por onde o Patriarca saíra.

Assim como fez Camus o canceriano soltou longo suspiro fazendo um bico com os lábios e arqueando as sobrancelhas robustas.

Ma io preciso de todos! — disse, depois levou a mão até à parte de trás do pescoço onde deu um apertão para aliviar a tesão e então apanhou o maço de cigarros que sempre trazia consigo oculto na parte debaixo do peito da armadura. Apanhou um para si mesmo e estendeu o maço a Camus lhe oferecendo outro.

Merci. — Camus agradeceu enquanto levava o cigarro aos lábios e o acendia.

O clima entre os três cavaleiros era pesado, ruim, mas para o Santo de Aquário não era pior que o cigarro vagabundo que Máscara da Morte havia lhe dado. Assim que deu a primeira tragada o francês franziu a testa repudiando o gosto daquela porcaria, então sentiu-se minimamente pronto para perguntar o que havia acontecido além do que ela já sabia.

— Os bebês... Eles morreram mesmo? — Camus indagou a Mu dando mais uma tragada forçada no cigarro fedorento.

— Sim. — o lemuriano respondeu com voz baixa, ainda atordoado — Shaka estava com Saga no hospital quando tudo aconteceu... É tudo que sei. Ele não teve tempo de me contar maiores detalhes... Geisty também está mal e... — ergueu os olhos até encontrar os de Camus — Não tenho notícias de Afrodite. — disse com pesar.

Assim que o lemuriano tocou no nome do sueco, Camus trancou no fundo da garganta um soluço teimoso que queria tomar conta de se corpo, e nessa hora Máscara da Morte, que tragava seu cigarro, soltou ruidosamente a fumaça enquanto fitava contemplativo o corpo de Dimitri no chão.

— Afrodite está entre a vida e a morte... — disse em voz grave, baixa, e seu semblante nessa hora assumiu um ar odioso — Esse figlio de una cagna maledeta pelo jeito sabia muito bem como fazer o serviço. Os médicos estão tendo dificuldade em estancar o ferimento na barriga dele porque alguma coisa que foi usada nele tornou seu sangue tóxico. — ergueu o olhar e encarou o rosto de Camus de forma severa — Pelo jeito a sua máfia sabe muito mais sobre nós do que você imagina, non é vero, Aquário?

O aquariano nada respondeu. Ao em vez disso encarou Câncer com o olhar mais severo e vazio que possuía, sua perfeita máscara de frieza, mas em seu interior sentia todas suas forças ruírem ao saber que sua belle rose estava por um fio. Sua angústia e medo eram tamanhos que lhe causavam dor física. Sentia o peito apertar e a respiração sufocar.

Mas, se Camus conseguia esconder seus verdadeiros sentimentos de Máscara da Morte, aos olhos Muvianos de Mu eles estavam escancarados. Era com extremo pesar que Áries via a aura do francês se tornar ainda mais escura, pesada e sofrida. Aquário estava à beira de um colapso e ainda assim seus olhos avelãs nada demonstravam.

Tendo conhecimento dos reais sentimentos do ruivo, Mu deu um passo para frente e tocou em seu braço chamando sua atenção.

— Camus... Você vai mesmo matar o Milo? — o lemuriano o indagou com voz baixa.

O ruivo imediatamente se voltou para Mu e viu nos grandes olhos verdes um pequeno brilho de esperança, o que só fez o aperto em seu coração aumentar. Diante daquele olhar de preocupação genuína Camus abaixou um pouco a guarda e respondeu com sinceridade.

— E eu tenho escolha Mu? — tragou mais uma vez o cigarro — Verdadeiramente eu non desejo a morte de Milo, mas veja minha posição, coloque-se no meu lugar... Se você tiver uma opção melhor a me dar eu aceito. — a voz morreu e Áries abaixou os olhos.

Mu queria muito oferecer ao ruivo uma solução melhor, mas sabia que não havia nenhuma, não naquele momento. Ficou alguns instantes a fitar o chão com o silêncio sepulcral entre eles assolando suas almas, até que foi surpreendido pelo toque da mão de Camus sobre a sua.

— Mu... Eu preciso te pedir uma coisa. — Aquário ditou quase em um sussurro, e quando o ariano levantou os olhos se surpreendeu com a severidade do olhar que lhe era dirigido — Você agora é pai e vai entender o que vou lhe pedir... — Mu arregalou os olhos em expectativa e seu coração acelerou — Uma batalha entre dois cavaleiros de ouro pode durar mil dias e ainda custar a vida de ambos, você sabe. — novamente fez uma pausa, então fechou os olhos, respirou fundo e quando os abriu novamente encarou Mu — Se algo me acontecer... Se eu por acaso non retornar... Cuide de Hyoga.

Aquele pedido suplicante de um pai para outro acertou o lemuriano em cheio o fazendo ofegar.

Imediatamente fora arrebatado com todo aquele temor que rondava o aquariano de modo que não encontrou palavras para responde-lo, sendo assim apenas apertou seu braço com força e acenou positivamente com a cabeça, até que encontrou novamente as palavras presas em sua garganta.

— Tem minha palavra de cavaleiro, Camus! Se algo lhe acontecer eu cuidarei e protegerei Hyoga como meu.

Um pouco mais afastado, porém perto o suficiente para ouvir o que eles diziam, Máscara da Morte jogou a ponta do cigarro no chão e a apagou com a sola da bota da armadura, então espreitou ambos os cavaleiros colocando-se ao lado de Camus tão próximo que fez o francês obrigatoriamente olhar para si curioso.

Non quero interromper o clima de funeral, va benne? Ma é que... bem... — fez uma pausa, depois coçou levemente o queixo enquanto erguia a cabeça mantendo os olhos frios fixos aos de Camus — Seria antiético se eu te pedisse para me trazer a cabeça do Milo caso você vença a luta?

Camus encarou o canceriano tão estupefato que nem conseguiu disfarçar o revirar de olhos.

Mu por sua vez, ficou tão indignado e surpreso que abriu a boca inconscientemente, abismado diante de tamanho absurdo.

Perplexos com a falta de noção e da insensibilidade de Câncer, os dois cavaleiros se afastaram e deram o assunto por encerrado.

Camus encarou mais uma vez Máscara da Morte, então lhe deu as costas e saiu sem nem ao menos lhe responder tamanho disparate, ao passo que Mu cruzou os braços e balançou a cabeça repetidas vezes negativamente antes de franzir a testa e desaparecer.

Quando se deu conta o canceriano fora deixado sozinho na adega sob os olhares repreendedores dos companheiros.

Ma que? O que eu disse de tão absurdo? — questionou gesticulando com as mãos, até um tanto indignado — Ma va benne, eu nunca fui com a cara daquele farabuto mesmo!

Respirou fundo e em silêncio correu os olhos pelo recinto. O cheiro de sangue e nicotina era forte, mas o italiano estava mais do que habituado com ele. Olhou novamente para o corpo estirado no chão, demorando-se mais na cabeça esmagada.

— Que desperdício de uma bela peça! — murmurou antes de deixar o local para cumprir a ordem do Patriarca.

***

Casa de Virgem

No átrio da Sexta Casa Zodiacal Shaka levitava sobre sua lótus dourada.

Visivelmente abalado o virginiano tinha se dirigido até ali após banhar-se rapidamente para limpar os ferimentos em seu corpo, vestir uma túnica simples de tecido de linho branco e preparar uma mamadeira para Kiki, que sensitivo como era já tinha acordado e percebido a tensão que pairava na aura no pai indiano.

Shaka usava seu Cosmo para tentar acalmar o filho, mas seu desassossego era tamanho que mesmo tão empenhado não alcançava nenhum sucesso. O tremendo abalo que sofrera momentos antes ainda sufocava sua respiração, esmagava lhe o coração dentro do peito e açoitava seu espírito. Em sua mente perturbada as cenas de Saga sucumbindo ao mal se repetiam.

A fatal realidade da morte dos afilhados, o estado crítico de Geisty e de Afrodite, os danos causados a todos, principalmente a Saga e as consequências destes no futuro de todos ali tomavam conta dos pensamentos de Virgem, que só voltou a dar-se conta de si mesmo ao ouvir o choro de Kiki em seu colo, que balançando as perninhas tinha largado a mamadeira parecendo incomodado com algo.

Shaka respirou fundo, procurando sossegar o próprio Cosmo, mas somado a tudo que o perturbava também mantinha-se em alerta por Mu, conectado a ele e ao mínimo sinal de que Gêmeos pudesse oferecer algum perigo ao ariano.

Foi guiado por esse elo, afinal Áries sentia o Cosmo de Shaka em contato com o seu a todo instante, que Mu se materializou ao lado da lótus dourada, não podendo evitar de se ver surpreso ao encontrar o marido ali quando julgava que deveria estar acomodado no quarto, já que estava bastante ferido da batalha no México.

Com o semblante ainda transtornado pelos desdobramentos da reunião no porão do bordel o cavaleiro de Áries nem se deu ao trabalho de questionar o virginiano, já estendeu a mão e o tomando gentilmente pelo braço o puxou para fora da lótus, obrigando Shaka a firmar os pés no chão e se colocar de pé a sua frente com Kiki no colo.

— Pelos deuses, a situação é pior do que parece, luz da minha vida! — Mu desabafou, então abraçou o indiano junto do filho por um breve momento antes de começar a andar o conduzindo para a parte residencial do Sexto Templo — Venha, vamos para o nosso quarto. Deveria estar repousando e não aqui na lótus.

— O que houve lá? O que Gêmeos queria de você? — Shaka perguntou apreensivo enquanto andava ao lado do lemuriano.

— Vou cuidar de você enquanto te conto tudo. — disse Áries visivelmente consternado.

Não levou mais que alguns poucos minutos para que Mu inteirasse Shaka dos acontecimentos recentes, enquanto com todo carinho e zelo cuidava de seus ferimentos.

Áries tinha se despojado de sua armadura de ouro e apressado acomodado o indiano sobre a cama, enquanto deitava Kiki ao lado dentro de um moisés para que Shaka pudesse ter os braços livres. Entre uma passada e outra de unguento sobre os ferimentos do marido, Áries narrara o que havia se passado no porão, e Shaka ouvira a tudo atentamente praticamente calado. Comentara muito pouco. Vez ou outra franzia as sobrancelhas loiras desconcertado, emitia uma palavra de repúdio ou alarde, ou simplesmente balançava a cabeça ao modo indiano manifestando desaprovação e espanto.

Virgem estava exausto, físico e emocionante.

— Por Buda, eu não posso acreditar que isso esteja acontecendo. — murmurou o virginiano enquanto Mu lhe passava os unguentos no pulso ferido — E Aquário vai mesmo cumprir essa ordem descabida? Não é claro que Gêmeos não está em seu juízo perfeito?

— E ele tem outra saída? — disse Mu — Se Camus se negar a matar Milo ele estará se colocando diretamente na posição de culpado. Para você ter uma ideia do quão ele está abalado e ciente da gravidade do que está prestes a fazer ele me pediu para cuidar de Hyoga caso o pior lhe aconteça. Aquilo me partiu o coração. — quando terminou de espalhar o unguento no pulso do esposo, Mu pousou a própria mão por cima do local do ferimento e concentrou seu Cosmo na palma a fim de acelerar o processo de regeneração — Apenas Cosmo não será suficiente para sua recuperação. Seu corpo está muito machucado meu amor, precisará de alguns dias de repouso. — constatou com pesar ao olhar o pulso inchado com hematomas, depois apanhou ataduras e se pôs a enfaixar cuidadosamente.

Shaka baixou a cabeça com a testa franzida e os olhos cerrados. Em seu coração pesado sentia toda a tristeza e apreensão que pairavam sobre o lemuriano, e seu pensamento também não conseguia se desvencilhar da tragédia que destruíra a família residente do Terceiro Templo.

Se ao menos tivesse interpretado as visões da forma correta...

— Ei! — Mu soltou o pulso do companheiro e levou a mão até seu queixo segurando com carinho, e assim o fez erguer o rosto — Eu sei o que está pensando. Você não tem culpa de nada, está me ouvindo Shaka? Não quero que fique se martirizando por aquilo que não temos controle.

De forma afetuosa o lemuriano deu um beijo suave nos lábios do marido depois se afastou.

— Depois do banho trocamos essas ataduras, mas por hora é o suficiente. — disse o ariano recolhendo os materiais de primeiros socorros para guarda-los na maleta — Eu não me sinto bem em te deixar aqui sozinho, mas estou preocupado com a Geisty e o Dido, principalmente com ele, já que ninguém tem notícias do verdadeiro estado dele, então estava pensando em dar um pulinho no hospital, coisa rápida e...

Shaka respirou fundo e com um gesto brusco segurou na mão de Mu com força interrompendo sua fala, então quando o ariano levantou o olhar seus olhos verdes encontraram os azuis do indiano a encara-los com firmeza e certa ansiedade.

— Sim! Vá, Mu. Eu estou bem, não se preocupe comigo. — disse aflito — Não podemos mais contar com Saga, e Geisty está completamente sozinha naquele hospital sem sabermos se... se ela vai resistir ou não. — fez uma pausa engolindo em seco — Não podemos fazer mais nada por Saga, Geisty e os bebês, mas talvez você possa salvar Afrodite.

Nesse momento a preocupação que rondava Áries ganhou ainda mais peso e ele se viu obrigado a encarar o loiro dentro dos olhos, perturbado.

— O que você quer dizer com isso Shaka? — perguntou, e assim que conseguiu ler as emoções contidas nos profundos olhos azuis do marido ficou mais sério — Você sabe de mais alguma coisa, não sabe?

— Na verdade não, mas tenho uma suposição, ou uma... intuição, talvez. — disse Virgem — O médico que está acompanhando o caso de Afrodite disse que ele está com o sangue altamente tóxico e por isso não conseguem suturar os ferimentos, mas, além disso, ele em nenhum momento usou o Cosmo para agilizar o processo de regeneração de seu corpo. Não acha isso deveras estranho, Mu?

— Sim, de fato, mas...

— Mesmo inconsciente Afrodite deveria ser totalmente capaz de usar o Cosmo, visto que ele é um Cavaleiro de Ouro e domina o Sétimo Sentido.

Mu ficou ainda mais sério e apreensivo.

— Você acha que...

— Eu desconfio que Peixes foi atacado com aço lemuriano, mesmo que não tenham encontrado fragmentos dentro de seu corpo, e se realmente estiver certo só você pode salvar a vida dele, Mu. — disse Shaka encarando os olhos do amado.

Imediatamente os olhos de Áries se arregalaram alarmados.

— Pelos deuses! — Mu deixou escapar.

No momento seguinte o lemuriano já havia se posto de pé e agora corria até o closet para colocar uma roupa adequada e pegar um calçado para os pés.

— Se você estiver certo eu não posso perder tempo, Afrodite pode não resistir. — Mu dizia afobado, e de volta ao quarto já vestido sentou-se na cama para se calçar — Luz da minha vida, tente descansar um pouco e cuide de Kiki. Vou agora mesmo ao hospital, mas prometo voltar o mais breve possível.

O indiano acenou positivamente com a cabeça e visivelmente preocupado suspirou ruidosamente, chamando a atenção do lemuriano que logo aproximou-se e lhe fez uma carícia no rosto.

— Ei... Nada de ficar pensando bobagens, tudo bem? — Mu chamou sua atenção, então inclinou-se e lhe deu outro beijo suave nos lábios — Se você estiver certo, logo terei notícias melhores.

— Eu espero que sim. — disse Shaka pousando a mão sobre a de Áries e lhe depositando um beijo na palma.

No momento seguinte o ariano se afastou do marido e após dar dois passos para trás franziu a testa e desmaterializou. Shaka então acomodou-se nos travesseiros e puxou o moisés de Kiki para perto de si. Seus pensamentos estariam com o lemuriano, como sempre estiveram, mas naquela hora estavam voltados também para Geisty e Afrodite.

A vida de Peixes agora poderia estar nas mãos de Mu.

***

Templo de Baco

Já fora da adega o Patriarca teve a sensação de que sua primeira grande decisão como líder absoluto do Santuário havia sido perfeita. Agora tinha uma tarefa muito mais importante para si a realizar. Queria ver com os próprios olhos todo o estrago que fora feito em seu bordel pelos russos liderados por Dimitri, e avaliar os prejuízos. Por isso, seguiu direto pelos fundos da construção rumo ao piso principal do Templo de Baco.

Ao se deparar com o cenário a sua frente os olhos incrédulos de Gêmeos correram o amplo salão analisando toda a destruição e desordem feita pelos homens da Vory v ZaKone. O que antes era um luxuoso ambiente burlesco frequentado pela mais alta estirpe social, recanto de beleza e prazeres onde verdadeiras beldades circulavam embaladas ao som de músicas instigantes dava lugar ao que mais parecia uma praça de guerra. Mesas tombadas, poltronas de veludo carmim, mesas e colunas perfuradas por projéteis de grosso calibre, os riquíssimos lustres de cristal, completamente destruídos pelo tiroteio, pendiam do teto e insistentes se mantinham luminosos mesmo que parcamente, o palco lavado em sangue abrigava inúmeros corpos que aguardavam para serem empilhados na área externa junto com vários outros que enfeitavam o carpete de tom terroso. Por fim olhou para o bar totalmente destruído, sem uma garrafa inteira para contar história, e no chão se formava um lago de misturas alcóolicas.

Todo o odor ali era repugnante, o sangue, a pólvora, o álcool... Tudo cheirava à morte.

Seus prejuízos eram extensos demais para serem calculados de forma prévia, mas um deles era incalculável, e foi com esse pensamento em mente que seguiu para a escada que dava acesso ao segundo piso do Templo das Bacantes.

Ao segurar no corrimão da escadaria sentiu um odor forte e característico impregnar suas narinas quando seus dedos tocaram um material viscoso. Enquanto fitava a madeira talhada manchada de vermelho levou próximo ao nariz os dedos sujos reconhecendo imediatamente o dono do sangue que fora ali deixado.

— Peixes. — disse para si mesmo enquanto seguia subindo a escada.

No andar de cima, quando adentrou o corredor, pela primeira vez teve uma breve noção do quão audacioso fora o plano de Dimitri. Pisando sobre os escombros sem nenhuma cerimônia averiguou os quartos rapidamente, um a um, pois estes tinham as portas abertas ainda, salvo um, então parou em frente a esse em especifico e ao abrir a porta viu as três bacantes mortas. Sua boca se curvou para baixo em um arco e ele praguejou qualquer coisa inaudível antes de fechar a porta novamente e seguir para a próxima dependência, o quarto da joia da casa.

Ateve-se por alguns segundos a fitar a porta entreaberta do aposento de Geisty, de onde brotava uma meia luz nefasta. Sem que pudesse compreender sentiu um peso no peito, um pesar no âmago e sentindo ganas em entrar avançou alguns passos parando no batente da porta.

Após um momento ali em completo silêncio adentrou o recinto, então seus olhos viperinos e sedentos por respostas correram ágeis capturando cada detalhe e seguindo os traços deixados na tentativa de remontar toda a ação ocorrida naquele cenário caótico.

Logo na entrada a luz branca que escapava do closet — que tinha a porta aberta tornando possível se ver um vestido luxuoso largado displicentemente no chão — iluminava o carpete marfim manchado por pegadas de sola de sapatos sujos da terra arenosa que recobria o estacionamento do Templo de Baco. Poucos passos adiante jazia o corpo de um homem que olhava alarmado para a eternidade enquanto ainda segurava em uma das mãos a pistola de pente vazio.

Perto da cama uma poça de sangue que já se coagulava encerrava as pegadas sanguinolentas que partiam do banheiro. Gêmeos então as seguiu caminhando em direção ao estreito corredor à direita. No caminho esfregou os olhos algumas vezes, torceu o nariz assumiu um semblante de desconforto, já que o cheiro irritante do gás lacrimogênio, que parecia estar encalacrado no papel de parede, ainda era forte e presente. A granada vazia se escondia em meio às pernas de um defunto russo que atrapalhava a passagem. Fora chutado para o lado com descaso pelo geminiano.

Foi diante da porta do banheiro que a expressão de repudio do Grande Mestre deu lugar a de espanto, acompanhada de uma rápida sensação de mal-estar ao ver as incontáveis marcas de projéteis que salpicavam toda a parede e porcelana branca, restando ainda inteiro somente a banheira ao fundo do cômodo. No chão, recoberto de cacos de porcelana e blindex, jaziam dois dos homens da Vory, cada um com uma arma em punho e um tiro em cada cabeça.

Pisoteando os cacos pelo chão Gêmeos se aproximou da banheira e olhou em seu interior para verificar o que acreditava ser a última peça daquele quebra cabeças, então pode perceber manchas discretas de sangue. Concluiu que Dimitri e seus homens subestimaram a amazona de Serpente, que mesmo acuada não desistiu de lutar e abateu um a um os seus agressores.

Quando partia em retirada do aposento, antes de alcançar a porta pode notar uma peça que havia passado despercebida. Esta estava caída em um canto escuro do quarto, oculta nas sombras, mas um feixe de luz iluminava justamente a empunhadura esculpida em ouro branco na forma de um urso pardo. A bengala de Dimitri. Saga chegou perto e só então pode notar a lâmina longa e pontuda presa à empunhadura. Sabia que já havia visto em algum momento uma peça semelhante com aquela, então a apanhou do chão e novamente sentiu o odor conhecido e característico de Afrodite impregnado nela. Deduziu a participação do sueco na defesa da amazona grávida.

Com desprezo atirou a arma branca de volta ao chão deu meia volta e se retirou do quarto.

Estava tão perdido em seus pensamentos por conta do sucesso inacreditável dos russos, que para si não passavam de um bando de civis medíocres, que não se deu conta de que era observado por um par de olhos verdes ariscos que quase saltavam da face pálida ao olhar para ele.

Com passos escabreados Shina avançou na direção do geminiano transfigurado, e diante daquela mudança medonha a amazona teve a certeza de que algo terrível havia se desdobrado no hospital.

Mesmo atordoada por aquela noite terrível e a sentença desumana ditada a Milo, Ofiúco precisava saber notícias de Geisty, ou acabaria por ter um surto nervoso antes do amanhecer tamanha ansiedade e preocupação com a melhor amiga, por isso ao sentir o Cosmo de Saga no Templo foi até ele, ainda que receosa.

Quando já estava a poucos passos de Gêmeos, este se virou dando um passo à frente e causando surpresa a ambos, então Shina estancou seus movimentos.

Ofiúco, que jamais havia se deparado com aquela faceta sombria do geminiano, sentiu um arrepio pelo corpo, a sua voz emudeceu, e como se estivesse em choque, hirta sem conseguir se mexer, ficou assistindo ele lhe dirigir um olhar duro enquanto avançava em sua direção, até que de repente ele parou.

Parecendo confuso e cansado Gêmeos engoliu em seco, e nessa hora Shina percebeu o corpo dele cambalear para o lado sem equilíbrio. Em reflexo a amazona correu em seu auxílio escorando de forma meio desajeitada o corpo que era bem maior que o seu.

— Saga! O que houve com você? — perguntou apreensiva e emendou mais uma pergunta que mantinha martelando em sua cabeça constantemente — Como está a Geisty? E o Afrodite? Tem notícias deles?

Mas a resposta tão aguardada não veio, em vez disso Shina recebeu uma mirada severa das orbes jades mergulhadas em um tom encarnado, e um safanão, ainda que fraco.

— Me solte! — disse o grego afastando seu corpo para a lateral.

Com perceptível dificuldade Gêmeos aprumou o corpo, mas os efeitos da batalha que travara contra a divindade Asteca no México agora cobrava seu preço.

Eram poucas as escoriações que ele tinha pelo corpo, nenhum ferimento realmente grave, visto que lutara mais com o Cosmo, mas o desgaste físico e de energia, somado ao estresse que fora vivido por sua outra faceta no hospital, agora abatiam seu corpo e sua mente já exausta sem compaixão.

Respirou fundo, e seco ordenou à amazona:

— Ofiúco, o que faz aqui? Ordeno que supervisione a desova dos cadáveres desses ratos russos e que se coloque à disposição de Aquário, caso ele precise de mão de obra para a tarefa de sumir com todo esse lixo daqui. Essa é sua única meta no momento, amazona. — disse, com a respiração já mais pesada que o normal — Qualquer necessidade de mudança deve ser comunicada ao meu secretário, Gigars, não a mim. Não quero ser incomodado.

Sem aguardar uma resposta Gêmeos deu as costas à Ofiúco, que ficou a observá-lo alarmada enquanto ele seguia para as escadas.

Ao deixar o Templo de Baco o Grande Mestre subiu o monte passando pelas Doze Casas em completo silêncio até chegar ao Décimo Terceiro Templo, onde despiu-se de sua armadura e seguiu cambaleante até a suíte. Por mais que quisesse manter-se acordado e a par de tudo seu corpo judiado pedia descanso e um alívio daquele fastidioso dia.

***
Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.

Notas finais
Galera apesar de não termos esmiuçado isso tão bem na fic, nós deixamos essa característica do canon: Camus é amigo do Milo... acha ele um idiota mas mesmo assim para seus "padrões" de rabujice Milo é seu amigo, então pra ele Camus ter que lutar com Milo não foi uma notícia agradável. No próximo cap teremos o último e derradeiro desenrolar desse ataque, tanto para Afrodite como para Camus... estejam preparadas. É sério. beijos