Templo das Bacantes Vol. 2
45 Poison & Ice
Notas iniciais

Norte da Sibéria, 05:00am — Tundra Desértica
A alguns quilômetros do vilarejo de Bluegraad*, em meio ao enorme vazio do deserto de gelo siberiano, Camus fumava silenciosamente um cigarro enquanto olhava para as luzes bruxuleantes no céu. Talvez aquela fosse a última aurora boreal daquela estação, visto que já estavam na primavera e partir do mês de março o fenômeno celeste se tornava mais escasso. Uma visão bela causada por explosões solares e que atraía turistas de todo o globo para diversos países frios, curiosos à caça da aurora brilhante.
No entanto, ali onde estava dificilmente chegaria algum turista ou quem quer que fosse, não naquele lugar inóspito onde a própria sobrevivência era um milagre. Nenhum humano vinha tão longe para caçar as luzes no céu. A caçada de Aquário era outra.
O ruivo admirou mais uma vez o céu sentindo o vento chocando-se contra si a ponto de fazer sua capa branca tremular no ar e se soltar de sua armadura dourada voando para longe, então de repente sentiu um Cosmo conhecido se aproximar.
Nesse momento Camus fechou os olhos por um instante e fez uma prece silenciosa. Que os deuses o perdoassem pelo que faria, e se não fosse pedir demais, o ajudassem.
Os passos ritmados e o Cosmo firme e aceso de Escorpião contrastavam com os seus pensamentos ansiosos. O vento gélido e tão desagradável à pele bronzeada e pouco habituada a invernos rigorosos, era afastado como um inseto insistente pela queima de sua cosmo energia que usava para manter seu corpo minimamente aquecido. Os olhos azuis curiosos e um tanto receosos buscavam em meio ao deserto de brancura quase infinita pelo cavaleiro que o havia chamado, até que enfim avistou ao longe a cabeleira vermelha que bailava com o vento se destacando de todo aquele cenário.
Já a poucos passos de Aquário, que não havia saído de sua posição original a olhar para o espetáculo de luzes no horizonte, Escorpião perguntou um tanto cético:
— O que houve, Camus? Me chamou tão de repente! Vim o mais rápido que pude. — Milo disse a alguns passos do ruivo sem tirar sua atenção, que introspectivo nada respondeu, atendo-se apenas em continuar a fumar seu cigarro enquanto fitava o horizonte iluminado pelas luzes coloridas da aurora boreal daquela madrugada à meia luz. Cismado Milo emendou — Ei o gato comeu a sua língua? O que está acontecendo?
— Estou aqui cumprindo ordens diretas do Santuário. — Aquário respondeu de maneira fria e seca dando uma tragada profunda no cigarro.
Confuso e um tanto irritado com aquela resposta vaga o escorpiano insistiu.
— Por acaso os Guerreiros Azuis de Bluegraad resolveram nos dar trabalho de novo? Mas, você não é de pedir ajuda a ninguém, sempre prefere resolver tudo sozinho... Se me chamou aqui a coisa deve ser séria.
— Non tem nada a ver com Bluegraad e seus renegados. — disse sério Camus.
Milo ponderou por alguns instantes.
O Cavaleiro de Aquário sempre fora meio estranho, mas agora ele parecia muito mais esquisito, além disso, ao olhar em sua face ficava nítido que por trás da aparente frieza havia algo oculto nos gélidos olhos amendoados.
— Tem alguma coisa errada aqui... Primeiro um alerta de Shura que ainda nem consegui responder, depois você me chama para vir até aqui, nesse deserto de gelo no fim de mundo que é a Sibéria, e fica aí fumando e me encarando com cara de paisagem me dizendo que está em uma missão... — Milo já estava um tanto irritado, havia largado tudo para trás para responder aquele chamado pessoal, por sorte as moças e as famílias que estava ajudando já haviam chegado a um local seguro — Afinal de contas o que aconteceu no Santuário, Camus? Eu tô preocupado. O que vocês estão me escondendo? Está tentando me manter longe do Santuário? É essa a sua missão, me manter longe da Grécia? O que tá rolando por lá que eu não posso voltar?
Camus deu a última tragada no cigarro, o jogou no chão pisando em cima com a ponta da bota dourada de metal e encarou o escorpiano tagarela e furioso.
Não havia mais como adiar o inevitável.
— Non importa mais o que aconteceu ou deixou de acontecer no Santuário, non para você, Milo. — para o espanto do grego o Cosmo de Aquário começou a se elevar de maneira perigosa e extremamente hostil — Como disse, eu te chamei aqui pra cumprir ordens do Grande Mestre.
O ruivo agora adotava uma postura de ataque, ao passo que Milo franzia as sobrancelhas alarmado, mas antes que pudesse entender qualquer coisa o aquariano saltou em sua direção o atacando enquanto bradava a plenos pulmões:
— ESTOU AQUI PARA MATAR VOCÊ!
***
Grécia, 03:35am – Hospital Central de Atenas
Há milhares de quilômetros da Sibéria, Mu surgia como mágica dentro das imediações da Ala 5 do hospital onde Afrodite e Geisty estavam internados. Áries conhecia aquele local desde a infância, pois foi seu mestre Shion quem firmara o convênio e financiara a criação daquele espaço especial destinado aos cavaleiros, na época em que o Santuário ainda não tinha falido. Por isso, assim que se viu ali imediatamente correu pelos corredores vazios à procura da sala a qual sabia ter sido construída e equipada especialmente para atender aos cavaleiros de Peixes, já que, diferente das outras, essa possuía um sistema todo próprio de isolamento e sabia que a equipe do doutor Hermes teria levado Afrodite para lá.
Depois de correr por um extenso corredor dobrou a direita e se deparou com outro ainda mais longo, então julgou que talvez a sala estivesse alocada no final dele, visto que o local até tinha ares de quarentena, com alguns grossos plásticos vedando algumas saídas de ar que ficavam no teto e paredes brancas. Correu para dentro dele e de repente, quando já estava quase no final, se surpreendeu ao encontrar outro cavaleiro ali, do lado de fora de uma enorme porta de metal virando a esquerda.
— Misty? — Mu chamou-o parando à sua frente, confuso pela presença do loiro ali — O que faz aqui? Também veio saber notícias do Dido, ou está ferido?
Pego desprevenido, já que havia se perdido há muito em seus próprios pensamentos, e também porque não esperava que ninguém aparecesse ali tão cedo, Lagarto piscou os olhos como que para voltar à realidade, então respondeu à pergunta levando a mão até um curativo no braço.
— Ah, olá Mu! Eu... eu estou bem. Vim só para fazer um curativo e já estava voltando ao Santuário. — disse fingindo desdém, não daria o braço a torcer, ainda que estivesse de fato preocupado com o pisciano — Mas... de repente vi um bando de médico correr para cá e entrar nessa sala aí onde a Peixosa está e eu... — fez uma pausa e deu de ombros — Eu parei aqui para ver se conseguia saber de alguma notícia dela para reportar ao Grande Mestre, mas até agora nada.
— Então ele está mesmo aí dentro! — o lemuriano disse ao ir até a porta e tentar olhar pela pequena janela de vidro que tinha nela, mas tudo o que viu foi outro pequeno corredor com mais uma porta a alguns metros — Droga! Eu preciso urgentemente falar com o doutor Hermes e...
— O Dr. Hermes está afastado temporariamente. — Misty interrompeu o lemuriano — Quem está cuidando da Escamosa e da Geisty é o Dr. Hector.
— Hector? Não conheço, não é da minha época.
Sem esperar mais Mu tentou abrir a porta, mas como previu estava trancada, então deu alguns toques tentando chamar a atenção de alguém lá dentro, não usando a telepatia por medo de assustar algum dos profissionais que porventura pudessem estar fazendo algum procedimento delicado.
— Mas que droga! Será que eu vou ter que invadir o local? — Mu resmungou ao perceber que sua tentativa de chamar alguém era em vão.
— Eu já tentei chamar, mas ninguém aparece. — disse Misty — Mas olha, não acho bom você entrar lá não, Mu.
— Por quê? — o lemuriano quis saber erguendo uma das pintinhas.
— Porque entrou um monte de médicos aí, e eles usavam máscaras e umas roupas todas estranhas, pareciam até astronautas... A Afrobicha não deve tá bem não... Eu acho que você não deve entrar, Mu, pode não ser seguro.
— Que não é seguro eu sei, justamente por isso não entrei ainda, mas eles não vão conseguir ajuda-lo enquanto não soubermos o que está deixando o sangue dele tão tóxico. — disse o ariano visivelmente aflito, depois voltou a bater na porta na esperança de que alguém aparecesse, assim poderia pedir um pijama cirúrgico e uma máscara para entrar. Seu Cosmo não podia protegê-lo das toxinas de Afrodite, mas se as suspeitas de Shaka tivessem mesmo fundamento talvez precisasse investiga-lo para encontrar o fragmento de aço lemuriano perdido em seu corpo, então precisaria do equipamento de segurança como qualquer outro cirurgião dentro daquela sala.
Mu pensava em já usar telepatia para comunicar-se com o tal médico que estava substituindo doutor Hermes quando sentiu Misty puxa-lo pela manga da camisa.
— O que foi? — perguntou virando o rosto para trás, então encontrou os olhos alarmados do cavaleiro de prata a encarar os seus.
— Você disse que algo deixou o sangue da Peixosa tóxico? Foi isso que ouvi? — disse o Lagarto franzindo as sobrancelhas.
— Sim. Os russos usaram alguma coisa nele que afetou sua fisiologia, mas que também o está impedindo de usar o Cosmo, por isso preciso examina-lo com urgência, pois tenho algumas suspeitas e...
— Pó. — disse Misty enquanto encarava fixamente a costura da manga da camiseta do lemuriano, o interrompendo.
— O quê? — Mu perguntou confuso e sobressaltado.
Lagarto então levou mão ao próprio rosto, coçou a sobrancelha com as longas unhas e concentrado retomou pela memória algumas cenas daquela noite antes do início de todo o horror que se deu no Templo das Bacantes.
— Eu estou me lembrando aqui de algo que... — balançou a cabeça desassossegado, então voltou a olhar para Mu — Antes da merda toda acontecer, antes dos russos tocarem o terror lá no puteiro, eu estava no bar esperando o meu cliente, quer dizer, o desgraçado infiltrado da Vory, pegar umas bebidas para subirmos para meu quarto, quando vi um dos garçons substitutos, o maiorzão deles, outro russo filho da puta infiltrado, despejar um pó escuro em um copo... Era até que uma quantidade considerável de pó, por isso consegui ver... Logo em seguida ele saiu com uma bandeja cheia de drinks. Eu fiquei de olho no porco para ver aonde ele iria, e ele foi justamente para a mesa onde estava a Escamosa com outro bofe lá dos infernos.
— Pelos deuses! E só agora você me fala isso? — Mu falou alterado passando os dedos entre os cabelos.
— Ora, eu achei que não era importante.
— Como não era importante, Misty? Por Atena!
— E desde quando um Boa Noite Cinderela é uma ameaça para aquele viado? A Escamosa é imune a qualquer tipo de droga, e aquilo só poderia ser um Boa Noite Cinderela, o que mais seria?
— Afrodite ingeriu esse pó?
— Bom... eu acho que sim, eu o vi bebendo algo no mesmo copo em que o porco russo despejou o pó, mas...
— Pelos deuses, não pode ser o que estou pensando! — Mu o interrompeu completamente atordoado, então voltou-se novamente à porta agora decidido a abri-la, mas nem foi preciso usar a força, pois antes mesmo de tocar o puxador esta se abriu num solavanco brusco e dela três médicos, totalmente paramentados, saíram apressados.
Diante dos olhares perplexos de Áries e Lagarto, os três médicos abriram os trajes isolantes desesperados, se despindo por completo, ficando apenas com os pijamas hospitalares que usavam. Trêmulos e pálidos os três começaram a vomitar, visivelmente intoxicados, enquanto uma equipe de enfermeiros chegava pelo corredor para socorrê-los.
A situação era pior do que Mu imaginava.
***
Sibéria
Com a mesma rapidez que Aquário dera o golpe Escorpião esquivara se afastando poucos passos dele.
— O QUÊ? Você ficou louco, Camus? Me matar? — disse Milo com o rosto que antes denotava irritação mas que agora era pura incredulidade — Você quer me matar? — seus olhos sedentos de resposta fitavam os avelãs que lhe devolviam apenas algidez, deixando o escorpiano chocado.
— Non é uma questão de querer. — o aquariano respondeu no mesmo instante em que o clima que os acercava começava a se alterar, e nessa hora o belo show de luzes da aurora boreal que bailava no céu limpo e resplandecente foi encoberto por uma nevasca terrível que surgira feito magia.
Nesse momento o grego se lembrou das palavras aflitas de Ofiúco ao telefone, e pensou atormentado: “Será por isso que Shina mandou que eu não voltasse ao Santuário? Porque o cretino do Saga teve a insensatez de mandar me executar?... Mas, por quê? Não pode ser algo envolvendo a máfia... Deve vir direto do Santuário!”
— O merda do Saga quer me matar? É isso mesmo que entendi? E pelo visto ele não teve culhão para vir executar o serviço ele mesmo e mandou você! — fez uma pausa de poucos segundos dando um riso debochado, atento a Camus que já preparava outro golpe.
Mais ágil que o aquariano Milo elevou mais o seu Cosmo para deter a investida do amigo, pois não queria feri-lo, mas entender o que acontecia.
— RESTRIÇÃO!
O golpe emitia ondas de energia que atingiam o sistema nervoso central e endócrino do inimigo, anestesiando-o temporariamente, paralisando todas as suas funções e liberando o hormônio adrenalina causando medo e pânico. Milo queria que Camus se sentisse uma presa do Escorpião, já que acuado e com medo de morrer poderia tirar dele alguma informação que fosse...
O que não foi o caso.
— Meu Cosmo possui propriedades de criocinese, Milo. — Camus bradou enquanto elevava o Cosmo intensificando o poder da nevasca que se erguia sobre eles — Caso non se lembre, posso criar, moldar e usufruir de todo tipo de poder congelante, além de conseguir controlar qualquer substância circulante dentro do meu sangue, inclusive a adrenalina liberada pelo seu golpe. O ar frio neutralizou suas ondas.
Cansado daquela conversa o ruivo armou um contra-ataque avançando novamente sobre Milo, e dessa vez ambos se engalfinharam trocando alguns pares de socos e chutes em uma velocidade absurda antes de se afastarem novamente quando Escorpião arremessou Aquário para longe.
— Eu não entendo. — Milo bradou enquanto caminhava apressado até Camus — Por que essa ordem? E por que você? Logo você, Camus!... Eu o considerava um amigo... além do único dentro daquele Santuário que tinha um pouco de bom senso e enxergasse que aquele cara não passa de um inseguro e possessivo que toma decisões orientadas por ciúme quando eu estou no meio da parada... — gesticulava expansivo em meio a nevasca — Você sabe da rixa que ele tem comigo! Jamais imaginei que se dobraria aos desmandos absurdos desse lunático que se diz Grande Mestre! Não! Não, isso para mim já é demais! Eu esperava mais de você! E eu tenho certeza que tem alguma coisa de errado acontecendo e você vai me falar o que é.
Mas Aquário não respondeu, e novamente avançou sobre Escorpião levando ambos a reiniciarem o embate ferrenho.
Sem que o escorpiano espera-se, e fazendo uso de sua capacidade de prever os movimentos do inimigo, Camus usou seu Cosmo congelante somado à vantagem de ter o clima frio a seu favor para manipular o ar em torno deles e lançar a exorbitante nevasca contra Milo, tornando assim seus movimentos mais lentos, o que lhe permitiu golpear o grego com tanta força que o arremessou a metros de distância.
Aquário não queria conversar, não podia perder tempo ali, pois ansiava por notícias de Afrodite e precisa a todo custo vencer aquela batalha, já que sua vida e a de seu filho dependiam dela.
Com a força do golpe de Camus, Milo rolou violentamente pelo solo coberto de gelo até bater com as costas em uma geleira, então rapidamente levantou-se, atordoado e ainda mais furioso, limpando um filete de sangue que escorria de seu lábio cortado. Procurou por Camus em meio à nevasca enxergando ao longe os longos cabelos vermelhos que agitados se destacavam na imensidão branca, e logo o viu saltar novamente em sua direção, mas dessa vez conseguiu esquivar com precisão.
— Eu não entendi o que Shina quis dizer quando me ligou aflita e me pediu para que não voltasse ao Santuário, mesmo diante de um alerta de invasão... — disse em voz alta, para que o outro pudesse ouvi-lo mesmo em meio ao som troante do temporal, enquanto já preparava o contra-ataque, acertando um chute nas costas de Camus — Então era por isso!
— Argh!... Shina? — o aquariano repetiu ao mesmo tempo em que cambaleava para frente devido à força do golpe de Milo, mas logo reestabelecia a postura para voltar-se para ele encarando seus olhos.
— Era por isso que eu não devia voltar, não é mesmo? Você queria me matar. — rosnou o escorpiano, e a decepção em sua voz era palpável.
Camus então arqueou uma das sobrancelhas, curioso e surpreso, já que supostamente Shina não deveria ter conhecimento da ordem que Saga lhe dera para executar Escorpião.
— Quer dizer que Ofiúco entrou em contato com você? E o que exatamente ela te disse, Milo?
— Nada! Esse é o problema, ela não me disse nada! — Escorpião berrou enfurecido. A nevasca agora estava tão intensa que o obrigava a elevar ainda mais o Cosmo apenas para não ser congelado, além de ter que levar os braços a frente do rosto para proteger os olhos dos flocos de neve que o acertavam com violência.
Milo estava perplexo com a estratégia e covardia de Camus. Era óbvio que o local da luta fora escolhido para dar vantagem ao aquariano, pois até respirar agora lhe era difícil, uma vez que o ar congelante lhe feria os pulmões. Diante daquilo só conseguia pensar que o francês estava mesmo falando sério. Camus estava ali disposto a lhe matar de fato.
— E agora você me atrai para cá, para a merda da Sibéria, e também não me explica porra nenhuma do que está acontecendo, e pior, TENTA ME MATAR! — gritou Milo — MAS QUE PORRA! EU ATÉ AGORA NÃO SEI QUE MERDA ESTÁ ACONTECENDO! SE QUER ME MATAR EU PELO MENOS TENHO O DIREITO DE SABER O POR QUÊ!
Aquário de fato não estava disposto a conversar. Por isso, a única resposta que o escorpiano recebeu foi mais um golpe violento direcionado para acertá-lo em cheio.
— PÓ DE DIAMANTE!
No mesmo tempo em que desferiu o golpe Camus tentou mais uma vez manipular as correntes de ar ao redor de Milo para limitar seus movimentos e impedi-lo de esquivar-se, porém como o mesmo golpe não funciona duas vezes contra o mesmo cavaleiro o loiro percebeu e saltou para o lado antes de ser preso pela nevasca, também manipulando o ar a seu favor para criar um pequeno tornado que repeliu a nevasca de volta para o aquariano.
Quando Camus já armava outro golpe para atingi-lo, Milo contra atacou.
— AGULHA ESCARLATE!
O golpe de Escorpião fora preciso e certeiro, e Camus fora atingido em cheio por três agulhas que perfuraram sua armadura em pontos estratégicos que condiziam com a constelação de Aquário penetrando no corpo e o levando imediatamente ao chão. No entanto, apesar do veneno do Escorpião não lhe surtir efeito, já que era capaz de congela-lo dentro das veias, as agulhas acertaram diretamente seus receptores nervosos de dor, um deles na base da coluna, o fazendo soltar um grito terrível.
***
Grécia – Hospital de Atenas
Após terem sido socorridos pelos enfermeiros, os três médicos tomavam medicações para combater os sintomas de intoxicação enquanto já descansavam em um quarto próximo ao local onde Afrodite estava, e o qual fora equipado emergencialmente para socorrer os profissionais que se revezavam no atendimento ao pisciano.
Dentro deste quarto estava o Dr. Hector, parte de sua equipe, e também Mu e Misty, que tentavam entender o que estava acontecendo.
— Deixe-me ver se entendi. — Mu tomou a palavra após ouvir os médicos — Vocês estão se revezando para atende-lo entrando em grupos de três, e esse último trio conseguiu suturar e estancar a hemorragia, mas ele perdeu muito sangue e está sendo mantido vivo por fluidoterapia com... coloides.
— Exato. É um tipo de soro especial de auto teor proteico, mas é uma medida de emergência apenas. Ele evita que o corpo de Afrodite entre em colapso por falta se sangue, porque ele tem a função de atrair a água dos órgãos periféricos por osmose, mas logo perderá o efeito. — disse Dr. Hector enquanto analisava os resultados dos exames que acabaram de chegar em sua mão — Que estranho.
— O quê? — perguntou Mu alarmado.
— O exame de sangue aponta que ele tem uma intoxicação grave causada por um tipo desconhecido de metal pesado. — fez uma pausa assumindo um semblante concentrado — Isso explica os sinais neurológicos de convulsão, tremores e espasmos. — levantou a mirada e encarou os olhos de Mu com um suspiro cansado e desgastado — Mas essa informação de nada adianta agora, pois se não fizermos nada para reverter esse quadro de hipovolemia perderemos o Cavaleiro de Peixes por choque hipovolêmico, que é a falta de líquido, sangue.
Assim que ouviu as palavras metal pesado, Áries e Lagarto trocaram um olhar nervoso, então decidido e aflito Mu se levantou da cadeira onde estava sentado e se colocou na frente do médico.
— Adianta sim! Eu preciso entrar lá. Imediatamente! Vocês disseram não ter encontrado nenhum fragmento metálico dentro da perfuração, mas encontraram no sangue! Eu acho que sei o que é. É aço lemuriano!
Os médicos se entreolharam alvoroçados, e Misty levou ambas as mãos ao rosto tapando a boca e arregalando os olhos. Ali ele era o único que conhecia o tamanho e o perigo do problema, e pela primeira vez, desde as horas fatídicas que antecederam o ataque russo, ele sentiu remorso. Poderia ter impedido Afrodite de tomar aquele drink batizado, mas não o fez somente pelo prazer de ver o pisciano se dar mal. Agora sentia-se surpreendentemente arrependido e até um tanto culpado.
— Aço lemuriano? Nunca ouvi sobre isso, o que é? — Dr. Hector perguntou.
— Nunca ouviu falar porque é uma tecnologia do meu povo, restrita a nós, lemurianos, e um segredo do Santuário. Nem mesmo Dr. Hermes sabe da existência do aço lemuriano. — Mu encarou Misty ao reforçar o tom de voz na palavra segredo, e também para repreendê-lo por não ter dito o que sabia até aquela hora — Afrodite bebeu alguma coisa contento um pó misterioso pouco antes de ser golpeado, não foi, Lagarto?
— F-foi. — Misty respondeu em voz baixa afastando as mãos da boca. Sentiu o peso do olhar de Áries sobre si e engoliu em seco.
— E se esse pó for mesmo aço lemuriano isso explicaria todos os sintomas. — disse o ariano esfregando o rosto.
— Por quê? O que esse tal aço faz? — uma enfermeira questionou.
— Reprime o Cosmo de um cavaleiro de maneira não agressiva. Foi criado justamente para ajudar no treinamento dos cavaleiros de Peixes que ainda não tinham domínio total do próprio Cosmo e se tornavam muito tóxicos, pondo em risco a vida de quem quer que se aproximasse deles. — Mu explicava — Porém, o aço lemuriano sempre foi, e é, para ser usado com extrema parcimônia, por fora do corpo, como uma joia ou em casos particulares como algemas de contenção, jamais deve ser introduzido no corpo de um cavaleiro... Quanto menos ingerido em pó! — contorceu o rosto numa expressão de indignação e repulsa — Quão suja e covarde é a Vory v Zakone!
— Pela deusa! — Misty levou ambas as mãos ao peito.
— Eu desconheço um caso em que um cavaleiro ingeriu aço lemuriano, mas dado meu conhecimento sobre ele e sobre a fisiologia humana estou certo em dizer que o contato das partículas metálicas com as células e sistema nervoso podem causar efeitos devastadores. Portanto, se não fizermos algo não é apenas a hemorragia que vai matar Afrodite, mas sim o aço lemuriano acumulado nos órgãos e tecidos dele. É por isso doutor que eu preciso entrar naquela sala agora. Preciso ter certeza que Afrodite ingeriu mesmo aço lemuriano e pensar em como farei para retira-lo do corpo dele.
— Então vamos! Vamos preparar você para entrar. — disse Hector já se agitando para tomar as providências necessárias — Nossa próxima equipe está se preparando para entrar, dentro de dez minutos poderemos lhe acompanhar até...
Nessa hora Mu o interrompeu categórico.
— Se for o aço lemuriano o que está matando ele nós não temos esse tempo, doutor! Estamos agora em uma corrida contra o relógio e eu preciso entrar naquela sala imediatamente!
O chefe da equipe médica encarou o lemuriano ponderando suas palavras antes de tomar uma decisão.
— Está certo! — disse Hector antes de virar-se para sua equipe — Tragam um traje isolante para esse homem e também quero que tragam e deixem preparado todo o equipamento para uma possível filtragem sanguínea. Andem rápido!
A agilidade da equipe somada à pressa de Mu fizeram que em instantes ele estivesse totalmente paramentado dentro da roupa estéril isolante, um macacão que lhe cobria o corpo todo até a cabeça que era extremamente desconfortável, e então sozinho ele adentrou a sala de isolamento onde o amigo estava.
Foi um choque para Mu quando ele abriu aquela porta.
Deitado na mesa cirúrgica Afrodite estava inconsciente, entubado e ligado a vários aparelhos que monitoravam seus sinais vitais enquanto recebia fluidos coloidais na veia. Seu rosto belíssimo tinha uma palidez de morte, a pele alva manchada de sangue mostrava um tom cianótico e as extremidades dos dedos das mãos e pés, junto com os lábios, exibiam um tom arroxeado. Um odor forte de rosas impregnava todo o ar do ambiente e lhe chegava intenso às narinas lhe causando um forte enjoo, apesar de estar respirando ar filtrado pela máscara. Ao redor da maca, sobre suportes de instrumentos cirúrgicos e também no chão, haviam muitas gazes e panos cirúrgicos ensanguentados usados para conter o sangramento e que foram abandonados ali quando os médicos saíram as pressas.
O coração de Mu pesou entristecido. Não podia acreditar que alguém tão cheio de vida como Afrodite agora estava, à beira da morte estirado daquela maneira naquela maca.
Sabendo que não tinha o tempo a seu favor o Santo de Áries caminhou apressado até o amigo a fim de finalmente sanar suas dúvidas, e assim que se colocou ao lado da maca não conseguiu evitar de fazer um afago nos cabelos azuis com a mão enluvada.
— Vai ficar tudo bem Dido, vamos te tirar dessa, ok? Aguenta firme, meu amigo. — prometeu ao pisciano, a voz saindo abafada por causa do aparato protetor que usava.
Percebendo que seu organismo começava a sentir os efeitos das toxinas exaladas no ar, Mu fechou os olhos, encostou de forma cuidadosa ambas as mãos sobre o corpo do pisciano e concentrado usou seus dons raciais para rastrear a baixa vibração das ondas que o aço lemuriano produzia. O trabalho era árduo e exigia muito de sua mente e corpo, afinal procurar partículas tão pequenas não era uma tarefa fácil.
Do lado de fora Misty roía as unhas de um dos dedos esperando o retorno do ariano, assim como toda a equipe médica. Cada segundo que se passava era mais angustiante que o outro para o Cavaleiro de Lagarto, que não queria demonstrar tampouco admitir até para si próprio, mas começava a sentir no coração uma pontada de culpa. Desejava sim ver Afrodite derrotado, triste, abandonado, frustrado, mas não morto.
Após alguns minutos que mais pareceram horas intermináveis a porta do isolamento se abriu e por ela saiu um lemuriano levemente desorientado e cambaleante que conforme andava já retirava máscara e a roupa isolante às pressas.
— E então, senhor Mu, suas suspeitas se confirmaram? É o tal aço? — Dr Hector perguntou enquanto o ajudava a se sentar já lhe estendendo um copo com água.
Mu respirava devagar sentindo falta de ar e um mal estar terrível. Afrodite estava tão tóxico que mesmo com aquela proteção toda fora afeado.
Aceitou o copo de água de bom grado bebendo aos poucos para não vomitar devido ao enjoo.
— Sim... — respondeu um pouco mais recuperado — Foi difícil detectar partículas tão pequenas, mas elas estão lá. — disse com pesar, e depois que terminou de beber a água, enxugou a testa e encarou o médico decidido. O que faria seria encarado por ele como uma loucura, certamente, já que ele mesmo sendo cavaleiro sabia que seu corpo não era imune ao veneno produzido pelo amigo, mas não podia ficar parado sabendo que poderia ajuda-lo de alguma forma — Prepare todo o equipamento disponível e aplique em mim os medicamentos que ajudam a retardar os efeitos da intoxicação. Só o meu povo consegue manipular aço lemuriano... Eu preciso voltar lá. Vou tentar extrair o máximo de metal possível e para isso vou precisar da ajuda de vocês.
***
Sibéria
Prostrado no chão Camus tentava controlar a respiração e a dor que se alastrava da base de sua coluna para o corpo todo, mas mal teve tempo de se recuperar que Milo surgia diante de si enfurecido.
— FALA! Por que Saga mandou você me matar? — gritou alucinado antes de fazer uma pausa para respirar fundo e retomar o fôlego já comprometido pelo frio — Fala, porra!
Milo não queria atacar o colega covardemente, mas precisava saber o que estava acontecendo, e como o aquariano não lhe respondeu, e ele próprio já estava descontrolado de raiva, desferiu outra agulhada, agora no peito de Camus, à queima roupa.
— AHHHH — Aquário gritou levando uma das mãos ao peito dolorido enquanto tombava para frente em agonia.
— Por que você aceitou essa missão, Camus? — insistiu Escorpião — O que tá acontecendo, cara? Eu achei que você era meu amigo! — disse com a voz trêmula e pesarosa.
Camus se negou novamente a responder.
Assim que conseguiu reaver as forças Aquário, ainda de joelhos, tentou acertar Milo novamente com seu Pó de Diamante, mas o grego, mesmo com extrema dificuldade em se mover rapidamente conseguiu lançar-se para o lado e se esquivou com um rolamento.
Nessa hora, prevendo novamente o movimento do escorpiano, quase que simultaneamente, num movimento que parecia até ensaiado, Camus saltou na direção em que Milo havia rolado e na velocidade da luz conseguiu congelar a superfície dos pés da armadura de Escorpião, o que causara muita dor em Milo.
Surpreso e incrédulo Milo praguejou contra o francês, e mesmo com os movimentos ainda mais limitados devido o congelamento da armadura lançou-se sobre ele o golpeando no rosto. Os dois cavaleiros então se engalfinharam no solo congelado trocando socos e joelhadas violentas e só se separaram quando Escorpião conseguiu atingir Aquário com outra Agulha Escarlate, agora na coxa direita.
— Aaaaarrrggg! — Camus gemeu se contorcendo. A dor das agulhadas combinadas era muito intensa.
Aproveitando que Camus baixara a guarda Milo se arrastou para longe e rapidamente se colocou de pé usando o Cosmo para tentar derreter o gelo em seus pés, mas este continha o Cosmo poderoso de Aquário e ele não obteve sucesso. Enfurecido então estendeu o dedo indicador com a longa unha rubra perigosamente apontada para o aquariano e vociferou:
— Eu confiei em você, Camus! — não conseguia disfarçar a mágoa na voz — Eu o tinha como um grande amigo!... E você teve a covardia de me atrair até aqui! Pelo jeito está desesperado para cumprir a ordem do miserável do Saga, não é? Além de nada disposto a correr o risco de perder esse duelo. Me atraiu para uma armadilha usando da confiança que eu depositei na nossa amizade. Você é tão sujo quanto o Saga!
Ofegante e sofrendo espasmos devido à dor, Aquário encarou os olhos de Escorpião e lhe disse uma verdade que sabia que seria difícil para o outro entender.
— Non, eu non sou. Se fui eu a vir cumprir essa missão é justamente porque tenho consideração por você e por nossa amizade!
— Consideração? — ensandecido ao ouvir aquilo Milo avançou sobre Camus, o agarrou pelo encaixe do peito da armadura e o levantou apontando a agulha, a ponta da unha rubra, para seu rosto, ditando com voz áspera como poucas vezes o aquariano presenciara — Chega! Eu quero uma resposta objetiva e sem rodeios. O que está acontecendo no Santuário? Por que está aqui tentando me matar? Que merda de ordem foi essa do Saga? Fala de uma vez, Camus, ou eu juro por Atena que a próxima agulhada será bem no meio dos seus miolos.
Encarando os olhos do amigo, cara a cara e tão próximo a si, Camus sentiu o coração apertado como nunca, não pela ameaça que ele lhe fizera, mas porque sabia que só tinha uma resposta a dar a ele, e que esta o levaria à ruína.
Camus tentou a todo custo não revelar a verdade a Milo. Em seu íntimo nutria a esperança de poupar o amigo dela, mas percebeu que a compaixão o levaria a uma batalha de mil dias contra o escorpiano e não tinha todo esse tempo, havia muito o que fazer ainda na Rússia e na Grécia, queria estar com Hyoga, ansiava por Afrodite... Precisava ganhar aquela luta então daria a Milo o que ele tanto queria.
— Você foi condenado à morte por traição. — as palavras saíram sem emoção, mas dentro de seus olhos avelãs era possível notar o pesar de sua alma — Eu estou aqui para levar a armadura de Escorpião de volta ao Santuário.
— Do que... está falando, Camus? Traição? — Milo estava em choque — Que merda é essa? — transtornado encostou a ponta da Agulha Escarlate diretamente na têmpora de Camus pressionando levemente, pois já não sentia mais os pés congelados e não podia deixar o francês perceber ou tomaria como vantagem sobre si — Traição de que porra? Estão loucos? — cuspiu as palavras raivoso.
— Saga... Argh... — Aquário contraiu as pálpebras em desconforto — Você traiu o Saga.
Milo franziu as sobrancelhas confuso.
— Eu traí o Saga? — inquiriu nervoso — Do que está falando? É isso que ele te disse? É isso que aquele merda falou para você?
— Non... Foi isso que Dimitri disse. — Camus falou categórico, fazendo Milo assumir um semblante alarmado.
— Dimitri?... Dimitri o... — dizia Milo quando interrompeu-se para esfregar os olhos — Isso só pode ser uma piada. — deu uma risada debochada.
— Havia um pacto... entre Saga e os cavaleiros. — disse Camus, fazendo Milo voltar sua atenção para si — A gravidez da amazona teria que ser mantida em absoluto sigilo da Vory.
Nessa hora Milo arregalou os olhos e seu rosto voltou a ficar sério. Estranhamente seu coração disparou dentro do peito e a saliva em sua boca secou. Foi tomado por um súbito pavor.
— Do que está falando, Camus?
— Alguém entregou o segredo de Saga e Geisty ao Dimitri, Milo.
O Cavaleiro de Escorpião engoliu em seco, então primeira vez desde que chegara ali, naquele deserto de gelo, conseguiu enxergar as peças daquele enigma e enfim encaixa-las.
— Por Atena! — disse com os lábios trêmulos e os olhos arregalados — Que merda é essa que está dizendo, Camus?
Percebendo o abalo do outro Camus continuou.
— Você traiu o Santuário, Milo. Você entregou a amazona, traiu Saga!
— NÃO! — Escorpião balançou a cabeça negativamente com veemência, berrando em desespero diante da acusação — QUE MERDA É ESSA, CLARO QUE NÃO!
— Você disse a Dimitri que ela estava grávida, que eles estavam juntos!
— NÃO! EU NÃO...
— Non queria saber a verdade? Por que Saga quer você morto? A verdade é essa, Milo.
Em choque Escorpião soltou o aquariano e recuou alguns passos com muita dificuldade, mantendo os olhos arregalados cravados na face do outro.
— Não! Isso é... só pode ser um plano baixo do sujo do Saga... — disse o grego que tomado por uma angustia nefasta sentiu o peito gelar, e não era devido ao frio — Eu não entreguei ninguém. Como você pôde acreditar num absurdo desse? É MENTIRA! — gritou com a voz rouca que espremia-lhe a garganta.
— Os bebês morreram, Milo. — o rosto do grego contorcido em pavor fitava o ruivo.
Um silêncio se fez entre eles. Somente o som da capa de Milo batendo contra vento e a voz troante da furiosa nevasca era ouvida, até que Camus, percebendo o olhar perdido do escorpiano, continuou.
— O bordel foi atacado por conta de informações que você passou a Dimitri. — disse Camus ainda ofegante devido à dor.
— Não... eu nunca... — a resposta vaga saía dos lábios trêmulos.
— O próprio Dimitri acusou você, escreveu seu nome com sangue na pedra diante dos olhos de Saga, dos meus olhos, e dos olhos de Mu... sabe que qualquer mentira poderia passar ilesa pelos nossos olhos, mas nunca pelos do Cavaleiro de Áries. Ele entrou na mente de Dimitri e confirmou a veracidade da confissão.
— N-Não...
— Como um Vor eu fui posto a prova... Entende agora?
Ainda que aflito e um tanto confuso, Milo encarava o aquariano. Além de ter todo o seu castelo erguido de planos utópicos levado por um vento forte como o daquela nevasca que o castigava, podia perceber a situação delicada de Camus. Era matar ou morrer, e nesse momento o escorpiano foi tomado de desesperança, o fazendo tombar o braço que mantinha em riste sua agulha, baixando assim a guarda.
— Entende por que eu aceitei essa missão? — disse Camus — Saga se perdeu. Os filhos deles nem chegaram a nascer com vida. A amazona de Serpente e... o Cavaleiro de Peixes foram os alvos principais... ambos estão no Hospital de Atenas lutando pela vida. — sentiu um nó na garganta ao disser isso, mas manteve-se firme. Sabia o quão passional o escorpiano era e como aquilo o afetaria. Não que sentisse prazer em jogar daquela maneira, afinal não havia honra nenhuma no que estava fazendo, mas era sua própria vida que estava em jogo.
— A Geisty... ela... — balbuciou Milo que não conteve mais as lágrimas, que rapidamente se congelavam no mesmo instante que deixavam os orbes azuis. Apesar do choque e da dor que aquela revelação lhe trouxera ainda buscava no mais profundo de sua mente uma resposta, até mesmo alguma passagem ou lembrança que confirmasse sua culpa, e não se recordava de nada.
— A amazona está no Hospital entre a vida e a morte. Você entregou ela, Milo. Foram as suas informações que a condenaram. — enquanto falava Camus elevava seu Cosmo a medida que se aproximava do escorpiano, que parecendo em transe não se movia, tampouco esboçava qualquer reação. Aquela seria sua única chance — É por isso que estou aqui. Eu tentei poupa-lo da verdade, tentei te dar o alívio de ir em paz para os Elísios, ou para o Tártaro... mas você preferiu assim. Agora chegou o derradeiro momento de eu cumprir minha missão.
De repente Escorpião olhou alarmado para o torso de sua armadura e então se deu conta de que ela estava completamente congelada. Imediatamente ergueu a cabeça e se deparou com Camus que tinha os braços erguidos acima da cabeça e as mãos unidas. O Cosmo de Aquário estava elevado ao nível máximo e ele estava pronto para selar seu destino lhe aplicando sua máxima técnica. O golpe final.
— EXECUÇÃO AURORA!
***
Grécia – Hospital de Atenas
Com a equipe médica toda a postos Mu se preparava para entrar na sala de isolamento enquanto ouvia as últimas instruções dos médicos.
— Preste atenção senhor Mu. — disse Dr Hector que já estava trajado com as roupas especiais — Infelizmente não temos no hospital roupas de nível de segurança NBGE-3, elas nos isolariam completamente e nos forneceria oxigênio, de modo que seria 100% seguro ficar na presença do Cavaleiro de Peixes. Como disse, não estávamos preparados para um nível tão alto de toxidade. Por isso, nossos trajes filtram o ar, mas ainda assim as toxinas irão nos atingir com o tempo de exposição, já que passam partículas pelo filtro. Os medicamentos que tomou devem retardar os sintomas de enjoo, náuseas e falta de ar, e vão lhe fazer resistir a mais tempo lá dentro, mas ainda assim, no momento em que se sentir mal, deve sair imediatamente. Tente controlar sua respiração para consumir a menor quantidade de oxigênio possível, isso deve ajudar a retardar os efeitos.
Mu acenou positivamente com a cabeça e o médico prosseguiu.
— Mais uma coisa, não poderemos ficar lá dentro. Todos já fomos contaminados com certo nível de toxinas. Então entraremos com você, mas vamos sair logo após prepararmos o paciente. Em todo caso não se preocupe, o estaremos monitorando aqui de fora.
— Está certo. — Mu respondeu um tanto ansioso. O que faria ali iria lhe exigir muito de seu dom telecinético, concentração, precisão, coragem e um bom tanto de fé — Vamos de uma vez doutor.
Assim que todos se posicionaram as portas do centro cirúrgico se abriram e Áries, juntamente com doutor Hector e mais dois enfermeiros, entraram às presas.
O plano era simples; Mu havia teleportado cristais de alquimia lemuriana direto de Jamiel, e com a ajuda de uma máquina de hemodiálise adaptada removeria o máximo que conseguisse de aço lemuriano do corpo do sueco através de uma filtragem do sangue.
Assim que estava tudo pronto, veia do paciente canulada e máquina em ação, os médicos se retiraram da sala deixando o ariano sozinho no local, que sem perder tempo começou o processo de filtragem.
Este por sua vez era deveras complexo.
Com o Cosmo ativo, para dar mais resiliência ao próprio corpo e ganhar mais tempo, Mu se posicionou entre Afrodite e a máquina.
Momentos antes havia triturado e adicionado cristais alquímicos ao fluido utilizado na hemodiálise, e agora os energizava com seus poderes para que dessa forma, quando o sangue de Afrodite passasse pelos filtros da máquina, o aço lemuriano fosse atraído por eles, já que exerciam uma função de imãs. O fluído depois era descartado em um recipiente.
Enquanto todo o processo ocorria na máquina, Mu energizava não apenas as partículas no fluido, mas também levitava pequenos cristais sobre o corpo do sueco que tinham a função de atrair o aço lemuriano impregnado nas células o mandando para a corrente sanguínea, de forma a maximizar e acelerar a filtragem, já que a pressão sanguínea do sueco estava muito baixa.
Todo aquele processo exigia muito de sua concentração e em pouco tempo Mu já sentia os músculos sofrerem leves câimbras devido à ação do veneno que já atingia seu corpo. Ainda assim não estava disposto a desistir.
O sangue do amigo pisciano estava tão ralo e fraco que em vez de um vermelho escuro e denso o que passava pela máquina era quase uma água suja de vermelho vivo.
— Vamos, vamos... Eu não vou deixar você morrer assim. Está me ouvindo? Não vou! — Mu falou para si mesmo, a voz empostada e a respiração embaçando levemente a máscara que usava.
De repente, após alguns minutos de árduo empenho do cavaleiro, uma de suas mãos vacilou e os cristais flutuantes ameaçavam cair. Mu piscou os olhos procurando recobrar a concentração, mesmo sentindo fortes náuseas um pouco de confusão sensorial.
Mais alguns minutos tensos se passaram, até que sentindo-se mal e lutando para se manter de pé Mu sentiu, através de seu Cosmo ativo, o Cosmo do Santo de Aquário se elevar ao máximo e logo em seguida a armadura de Escorpião irromper mundo à fora retornando à Oitava Casa Zodiacal.
Mu arregalou os olhos em sobressalto e o choque daquela realidade lhe fora tão cruel que sucumbira de vez. Conseguiu apenas recolher os cristais os impedindo de caírem sobre o sueco e então foi ao chão, trêmulo e com falta de ar.
Do lado de fora doutor Hector, que vigiava apreensivo toda a operação através de um vidro na porta, assim que viu Áries de joelhos prostrado acenou para os mesmo enfermeiros que entraram com ele momentos antes e adentrou a sala já correndo em direção ao ariano.
— Rápido, ele está sufocando! — inclinou-se sobre Mu já o tomando pelos braços para levantá-lo — Temos que tirá-lo daqui.
A equipe foi rápida e eficiente.
Enquanto um dos enfermeiros desligava a máquina outro coletava uma amostra de sangue de Afrodite e fechava o acesso venoso em seu braço.
— Eu... Eu acho que consegui... um pouco... — Mu falava meio desorientado enquanto era carregado para fora.
— Shii não fale. Estão trazendo o líquido descartado, logo poderemos saber.
Misty, que acompanhava tudo de olhos arregalados, correu ao auxílio do lemuriano assim que ele cruzou as portas, pois tinha mais força que os médicos para lidar com um guerreiro do porte avantajado de Mu de Áries.
— Deixa ele comigo. — dizia enquanto já tomava o cavaleiro passando um de seus braços pelos ombros e o levava até uma cadeira confortável posta ali para ele se sentar. No caminho Misty tossiu algumas vezes e também esfregou os olhos, pois Mu estava impregnado com um odor fortíssimo de rosas que lhe irritava as vias aéreas — Pela poderosa Hera! A Peixosa nunca fedeu tanto!
Assim que sentou Mu ali rapidamente lhe arrancou a máscara e lhe abriu as roupas já livrando o ariano delas, deixando-o apenas com o pijama hospitalar que vestia por baixo enquanto um dos enfermeiros lhe entregava uma máscara ligada a oxigênio a qual colocou sobre o rosto de Mu.
— Toma, querido, respira fundo! — disse Lagarto visivelmente preocupado.
Momentos depois, enquanto Áries se recuperava ele acenou para o enfermeiro que trazia o fluido de hemodiálise coletado do sangue de Afrodite.
— Traga aqui, por favor... Me deixa olhar. — pediu Mu.
— Está aqui, senhor, tem uma sujeira cinza no fundo... É o tal aço lemuriano? — indagou o enfermeiro ao lhe entregar um frasco de vidro transparente e lacrado, pois poderia ser tóxico, contendo um liquido amarelado.
Áries segurou o frasco com a mão direita e o levantou a altura dos olhos, enquanto inalava profundamente o oxigênio da máscara que segurava com a outra mão, então estreitou os olhos e franziu a testa e a sujeira no fundo do frasco se agitou.
Mu sorriu.
— Sim. Pelos deuses! Sim é o aço lemuriano! Graças a Athena! Funcionou! — disse em êxtase.
— Mas que maravilha! — doutor Hector comemorou junto com a equipe médica que sorria animada — Examinem agora mesmo a amostra sanguínea para descobrirmos em quanto os níveis dos metais baixaram.
— Não se anime tanto doutor. — Mu falou com voz fraca — Antes de chegar ao meu limite eu senti que havia muito a ser retirado ainda. O metal dentro das células não sai fácil. Eu preciso voltar para lá.
— Eu sei, mas creio que já podemos ter alguma esperança e tentar novamente uma transfusão sanguínea. — o médico sorriu colocando a mão sobre o ombro do cavaleiro, que teve o próprio sorriso oculto pela máscara em seu rosto — Descanse um pouco, a batalha pela vida do seu amigo apenas começou.
Esgotado pelo esforço, Áries acenou positivamente com a cabeça e se encostou na parede apertando o frasco de vidro junto ao corpo.
Sim, a batalha estava apenas começando e como um bom guerreiro de elite Mu não sairia da frente de combate sem uma vitória.
***
Sibéria
O golpe fora dado.
O escorpiano se deixara acertar em cheio.
Agora caído no chão e já despido de sua armadura Milo respirava com dificuldade.
A dor que oprimia seu peito era sufocante, e estranhamente a Execução Aurora dada por Camus naquele momento foi um açoite de alívio diante do peso da culpa que o consumia por dentro como uma fera abominável e faminta.
E contra isso Milo simplesmente não tinha forças mais para lutar.
Não ele, o cavaleiro que apesar dos rumos que a vida o guiara ainda guardava dentro de si preceitos firmes de ética, que mesmo parecendo deturpados eram seus, eram a sua lei pessoal, a qual se agarrava de forma devota e passional, como tudo o que amava, assim como à Geisty. Por conta disso, jamais aceitaria a alcunha de traidor que para seu infortúnio acontecera de forma que nem mesmo ele sabia explicar, mas que já lhe era impossível de se conviver.
Talvez a morte fosse o seu único e merecido alento.
A nevasca parecia estar se atenuando, mas agora, à beira da inconsciência tudo o que via era um borrão dourado e rubro formado pelo contraste dos cabelos do aquariano que ricocheteavam contra a armadura dourada.
— Acredito que sua culpa em tudo isso seja um acidente, por isso foi melhor que fosse eu mesmo a vir aqui executá-lo, non o Saga... — disse Camus enquanto caminhava em direção ao escorpiano — A morte pelo frio non é como dizem.
A voz de Camus chegava os ouvidos de Milo incrivelmente nítida e calma.
Escorpião não retrucou, queria apenas se entregar ao pranto doloroso que lhe espremia a garganta quase adormecida, porém era impossível, pois até mesmo seus olhos pareciam ter se secado e as poucas lágrimas que conseguiram escapar se mantinham vitrificadas em suas pálpebras semicerradas.
— Ela é indolor. Você non vai sofrer, eu te prometo.
Súbito a voz de Camus se calou, então Milo percebeu quando ele se agachou a seu lado... logo em seguida veio o toque em seu rosto já quase completamente congelado, e este era gentil como jamais esperara.
— Eu espero, do fundo do meu coração, que encontre na morte a paz que perdeu pela culpa.
No instante seguinte Camus não estava mais ali.
Milo não soube dizer se era um delírio de morte ou se realmente vivenciava as lendas que remontam à passagem para o pós vida, mas naquele momento sentia um vazio aterrador, e este só não era mais terrível que a presença nefasta e incompreensível de algo, ou alguém, que percebia acercar-se de si.
Talvez fosse o próprio Hades que viera buscar a sua alma errática, ou então a própria Atena para lhe dar um sopro de alívio e permitir que sua alma encontrasse a paz.
Foi sem obter resposta que Escorpião confiou seu espírito a sua deusa de devoção e fechou seus olhos para o mundo.
*Bluegraad
Também conhecido como Bluegrad ou Graad Azul, é o vilarejo onde vivem os Guerreiros Azuis. Fica no leste da Sibéria e é um local extremamente frio. Segundo o Hipermito, após a primeira Guerra Santa contra Poseidon, Atena selou as almas do deus dos mares e seus marinas e as enviou para Graad Azul, sob os cuidados de alguns cavaleiros. Esses cavaleiros renegaram Atena e passaram a ser chamados de Guerreiros Azuis, pois coincidentemente todas as suas armaduras eram dessa cor.
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