Templo das Bacantes Vol. 2
3 Polka Russa!
Notas iniciais

***
Templo de Baco, 12:57am
Na garagem dos fundos, Saga estacionava a sua Mercedes e puxava com força o freio de mão que soltava um rangido audível pelo lado de fora do veículo.
A se julgar pela forma como o grego saltou apressado do carro e bateu com força a porta, era notório que seu dia não caminhava para um dos mais tranquilos.
Seguindo a passos largos e duros para dentro do Templo dedicado ao deus do vinho, abotoava apressado o blazer, enquanto na mente remontava àquela manhã problemática.
Havia passado a manhã toda envolvido com o mais novo empreendimento da máfia grega, a qual já começava a dar os primeiros passos sozinha, o mini cassino Pilipino, que mal abrira as portas e girara suas roletas para às apostas já sofria uma batida policial em busca de drogas.
Foi à base de muita conversa, telefonemas e uma quantia generosa de propinas, que Saga conseguiu se livrar, pelo menos naquele dia, do olfato não tão aguçado da polícia, porém isso lhe custou mais favores devidos ao Prefeito de Atenas, Praxedes, sem contar com um novo rombo nos cofres da emergente máfia grega.
Ao adentrar no salão do bordel, o Santo de Gêmeos seguiu diretamente para o bar. Até mesmo o silêncio naquele lugar se fazia incômodo para ele, que ansioso serviu-se de uma dose de whisky a cowboy, o qual jogou garganta abaixo num único gesto enquanto rezava para o álcool aliviar a tensão daquele dia tão enfadonho.
No entanto, as preces do geminiano não seriam atendidas.
Pela entrada principal do Templo, passos calmos e cadenciados interromperam o silêncio arrancando um suspiro cansado de Saga, que sem ao menos se virar para a direção do visitante, disse em tom fastidioso:
— Boa tarde, Aquário. Aceita uma dose?
— Non. — o francês respondeu sem muito entusiasmo — Quero resolver logo o que quer que precise ser resolvido e voltar para meu Templo. Estou muito ocupado hoje.
— Está bem. Acompanhe-me até meu escritório. Mu ainda não voltou, mas ele não é do tipo que se atrasa. Logo estará aqui. — disse seco, sem esperar resposta do outro, enquanto se adiantava caminhando para a sala localizada no primeiro andar.
Ao entrarem, Saga acomodou-se em uma poltrona indicando a outra para que Camus fizesse o mesmo. O silêncio na sala era sepulcral. Gêmeos tentava sem sucesso esquecer o dia desagradável que tivera, mas o atraso do cavaleiro de Áries não lhe ajudava em sua tentativa.
Tamborilando os dedos no braço da poltrona, o geminiano tinha os olhos cravados nos ponteiros do relógio. Aquela espera lhe era indigesta, e o silêncio de Camus apenas contribuía mais para seu desconforto. Olhava de soslaio para o francês o analisando de cima a baixo, mas este se mantinha impassível como sempre, tal qual uma estátua fria de mármore, causando ainda mais irritação ao grego, que em seu íntimo rogava para que Mu chegasse logo.
E parecendo que algum deus misericordioso resolvera atender seu desejo, eis que toques na porta foram ouvidos. Saga rapidamente autorizou a entrada do ariano que de pronto adentrou a sala trazendo consigo um calhamaço de pastas e fichários debaixo do braço.
— Desculpem o atraso, pessoal. Precisei pegar os relatórios na minha sala. — Mu claramente encontrara a melhor desculpa para sua demora, e enquanto ajeitava os cabelos meio bagunçados dirigiu-se até a escrivaninha do geminiano e sobre ela deixou a papelada toda que trazia consigo, dirigindo-se a eles logo em seguida — Bom, enfim... Me desculpem.
— Está certo, Mu. — disse Saga impaciente — Vamos logo com isso. Diga a Aquário o que descobriu.
Surpreso ao ouvir o geminiano, Camus ergueu uma sobrancelha e dirigiu sua atenção ao Santo de Áries. Percebeu que ali havia algum problema.
Assumindo um semblante sério, Mu apanhou uma das pastas e a entregou a Saga, puxando em seguida uma cadeira para sentar-se entre os dois cavaleiros.
— Está bem. Vamos lá. — disse Mu — Camus, como sabe, desde que voltei à Grécia tenho estado à frente de todas as transações financeiras do Templo das Bacantes, e também de algumas do Santuário. Desde a abertura dessa casa de tolerância, o pagamento do empréstimo bilionário que a Vory fez ao Santuário no passado é feito através de inúmeras pequenas transações bancárias, em contas abertas por laranjas.
— Oui. Eu sei disso. — Camus disse encarando os olhos verdes do lemuriano.
— Sim. Os nomes estão todos em uma lista contida naquela pasta azul. — Mu apontou para a pasta em questão que estava em meio a outras sobre a escrivaninha — Você pode conferir se quiser, eu fiz uma cópia para você e outra para o Saga. A Vory também dispõe dessa mesma lista, e são essas contas que usamos para depositar, mensalmente, as prestações. Esse dinheiro então é somado e abatido do montante da dívida que temos com vocês.
— Eu sei de tudo isso, Mu. — disse Camus ainda sem entender o propósito daquela conversa — Mas, creio que non foi para me explicar como é feito um processo de lavagem de dinheiro ilegal que me chamaram aqui, non?
— Isso mesmo, Aquário. Não foi para isso. — quem respondeu foi Saga, um tanto irritado — Eu o chamei aqui, porque a maldita Vory v Zakone está nos roubando! E não falo dos juros abusivos! — estendeu o braço ao francês e lhe entregou a pasta que tinha em mãos.
— Como? — Camus indagou, agora preocupado e atento, pois Saga estava visivelmente alterado e o assunto ganhava contornos delicados — Está me acusando de algo, Gêmeos?
— Veja por si mesmo. — respondeu o geminiano fazendo o ruivo apanhar a pasta que Mu lhe entregara.
Áries, vendo que a conversa caminhava de uma maneira perigosa, resolveu interferir.
— Tenham calma, os dois. Não estamos te acusando de nada, Camus... Ainda. — disse em tom sereno — Saga, me deixe explicar antes, por favor.
— Então vamos, me explique! — pleiteou o francês com o semblante rude.
— Pois bem. — prosseguiu Mu — Todos os bancos cobram taxas por suas transações financeiras, as quais são descontadas do valor pago pelo Santuário à Vory. De modo simples, e dando um exemplo: Nós depositamos 100 Dólares nas contas de laranjas da Vory, mas os bancos descontam suas taxas durante a transação e no final a Vory recebe apenas 96 Dólares. E é esse valor, 96, que consta nos relatórios que a Vory nos envia todo mês, e que é abatido na dívida. Até aqui, aparentemente, está tudo correto, certo?
— Oui. Está. — Camus assentiu que sim com a cabeça.
— Não. Não está. — Mu respondeu, pegando o aquariano de surpresa — Por favor, Camus, quero que vá à página 35 deste relatório que tem em mãos e verifique as cópias dos comprovantes de transferências, realizadas por nós, o Santuário, os pagadores. Reparou algo estranho nas partes que grifei em amarelo?
Camus, atento, foleou as páginas indicadas e encontrando o grifo analisou os comprovantes anexados.
— Menos 2% de TTGR... — Camus leu em voz alta — É mais uma taxa bancária, pelo que parece.
— Exato. — Mu completou — Eu demorei a perceber, mas com o tempo comecei notar que esse TTGR só aparecia nas transações das contas de laranjas que usamos para pagar à Vory. — Áries se levantou, pegou um punhado de folhas que estava em outra das pastas sobre a escrivaninha e voltou a sentar na cadeira, entre Saga e Camus — Eu investiguei essa taxa, Camus. Ela se chama “Taxa de Transferência entre Grécia e Rússia”. Conhece essa tributação? Já ouviu falar dela alguma vez?
— Non. — Aquário respondeu encarando o ariano, agora mais surpreso que confuso.
— Pois é. Eu também nunca vi nada parecido, em nenhuma outra transação, inclusive. E olha que temos fornecedores de diversos países da Europa... E, indo ainda mais a fundo, descobri que essa TTGR é uma taxa ilegal. Olhe aqui... — entregou os papeis que havia pego nas mãos do francês, que de pronto os apanhou para logo analisá-los — Esta é uma cópia das normativas bancárias internacionais. Esses 2% cobrados são ilegais. Pode conferir, eu trouxe todos os comprovantes.
— Non preciso conferir. — Camus desviou os olhos daquela papelada e agora os cravava no rosto sério do ariano — Eu já entendi, Áries. Descobriu um golpe financeiro. Mas, pelo que explicou até o momento, isso em nada tem a ver com a Vory, ou comigo. Esse banco está lesando a ambos.
— Aí que está, Aquário. — Saga interrompeu com voz grave — Quando Mu me mostrou esse golpe, há alguns meses, eu pensei o mesmo. Mas um detalhe nos deixou curiosos.
— Que detalhe? — perguntou o aquariano.
— O banco é russo. — disse Saga — E somente as transações do Templo das Bacantes é que vinham taxadas por esse tributo, o TTGR. Foi então que Mu me pediu autorização para investigar mais a fundo esse banco russo, e também o bancário dono dele. Eu o autorizei e adivinha o que descobrimos?
Tão apreensivo quanto surpreso e curioso, Camus agora corria os olhos para ambos os rostos de Gêmeos e Áries, esperando ansioso por uma conclusão.
— Conte a ele, Mu. — Saga disse encarando o francês com um olhar ameaçador.
— O dono de 67 % das ações deste banco se chama Alyosha Olegich Volkov. — disse Áries com voz vigorosa — Reconhece esse sobrenome, não?
Camus suspirou pesadamente.
— É o primo de terceiro grau de Dimitri Yurievich Volkov. — disse o aquariano levando uma das mãos ao rosto para esfregar as pálpebras num gesto nervoso. — Acho que estou entendendo tudo agora.
— Então você concorda que a Vory v Zakone está diretamente envolvida com essa merda de desvio, Camus? Dimitri é o Vor máximo dessa corja, e não por acaso o primo dele é dono de um banco russo que administra as transações feitas entre Rússia e Grécia? — Saga falava sem se importar com o tom de voz elevado.
Mu esticou o braço e pousou suavemente a mão sobre o braço de Saga, num gesto mudo para lhe pedir que tivesse calma, depois continuou a explicar ao francês o que havia descoberto.
— Camus, eu descobri que essas taxas nem sequer existem no sistema bancário desse banco em questão. Elas aparecem somente nos nossos extratos. Em sigilo, eu mesmo abri mais duas contas nesse mesmo banco, com registro civil grego, e fiz transações pequenas por dois meses com empresas russas. Nenhum TTGR foi cobrado... E tem mais. Alyosha doou, nesses dois anos de funcionamento desta casa, montantes obscenos de dinheiro à instituições de caridade russas. Aí eu te pergunto: Alyosha é apenas um homem de bom coração? Ou ele estava lavando esse dinheiro para o Dimitri?
Estupefato, Camus não sabia o que responder. Apenas olhava para o Santo de Áries sentindo-se tão ludibriado quanto ele, então Saga lhe trouxe de volta a realidade ao elevar o tom de voz.
— Cavaleiro de Aquário, vai negar que todo o dinheiro desviado das transações feitas para o pagamento do empréstimo que o Santuário fez à Vory está indo direto para as contas do bastardo do teu chefe? — Gêmeos quase rosnava — Que além de nos manter presos a uma dívida que nunca será quitada, ainda nos lesa, enriquecendo à nossa custa? Não bastam os juros exorbitantes que aquele pulha me impõe?
— Non. Non vou negar. Mu fez todo um estudo minucioso e realmente non há o que contestar. O desvio está muito claro. — disse Aquário encarando os olhos faiscantes de Gêmeos.
Saga então se inclinou sobre a poltrona para que seu rosto ficasse ameaçadoramente perto do rosto de Camus.
— Então agora eu quero saber de você, Camus. — o grego disse rangendo os dentes — Até onde você, Cavaleiro de Ouro de Aquário, meu subordinado, mas também braço direito daquele porco russo do Dimitri, e um dos Vors da Vory v Zakone, aquela... — bufou de ódio — Até onde VOCÊ está envolvido nessa fraude? E não ouse mentir para mim, Aquário! É claro que você está envolvido... Roubando o próprio Santuário ao qual jurou fidelidade e obediência! Por que compactuou com isso? Por que não nos avisou?
O clima naquela sala pesou de vez.
Camus estava completamente ciente da gravidade da acusação e também de suas consequências. Saga por sua vez, estava muito hostil, por isso o aquariano precisava ser cuidadoso em sua resposta.
— Eu non os avisei porque acabei de tomar conhecimento desse golpe nesse exato momento. — Camus respondeu com voz firme, cravando seus olhos nos de Saga, que os estreitou num gesto ameaçador.
— Está me dizendo que o braço direito do Dimitri, o queridinho daquele canalha do Cocito, não sabia de nada? Está achando que sou algum idiota, Cavaleiro Aquário? — disse Gêmeos quase aos gritos.
— Non, non acho que seja um idiota. — Camus respondeu se levantando da poltrona para também encarar o grego — Me pediu a verdade e a estou lhe dando. A mim também é... perturbador, o fato de Dimitri me esconder isso.
Camus concluiu, verdadeiramente preocupado, pois Dimitri sempre o deixara a par de toda e qualquer ação da Vory, mesmo as que envolviam o Santuário, já que a confiança do russo em Camus era inabalável. Mantê-lo fora e completamente ignorante dessa ação era um indício claro de que a confiança do Vor em si já não era mais tão sólida, e isso significava problema! O que mais Dimitri estaria escondendo de si?
Percebendo que os ânimos estavam muito exaltados, e que a reunião fugia ao controle, Mu resolveu interferir novamente.
— Ei, gente. Pega leve. Saga, ele está dizendo a verdade. — disse o Santo de Áries, depois usou telepatia para falar apenas com Gêmeos, diretamente à sua mente — “Saga, mantenha a calma. Sabe que meus dons lemurianos me permitem enxergar além do que os olhos humanos são capazes de ver. Vejo a aura do Camus e ela está muito agitada e confusa, porém não demonstra vacilo ou dissimulação. Ele está verdadeiramente surpreso, e até temeroso. Posso assegurar que ele não está mentindo. Por favor, acalme-se para que possamos resolver isso”.
Controlando o próprio ímpeto, Saga olhou para o cavaleiro de Áries, depois para o de Aquário, em seguida voltou a sentar-se na poltrona sendo acompanhado pelos outros dois.
— Pois bem. — o geminiano disse depois uma breve pausa e um longo suspiro resignado — Vou lhe dar mais esse voto de confiança, Aquário, e já que não sabe de nada, também vou lhe dar uma missão. Quero que investigue o fato e confirme essa suspeita, porque, apesar de todo esse dossiê levantado por Áries, ainda não podemos provar nada de efetivo contra a Vory. Já que é um agente duplo, é a vez de servir ao Santuário. Quero que reúna provas dessas doações e as entregue a mim.
Camus ia dizer algo, mas antes dele Mu se pronunciou, já prevendo sua dúvida.
— As provas serão usadas apenas para que possamos obrigar Dimitri a adicionar todo esse valor que foi roubado do Santuário no abatimento da nossa dívida. Não se preocupe, Camus. Eles não saberão que foi você. Também não usaremos essas provas imediatamente. Antes darei um jeito de serem atribuídas a informantes, ou a mim mesmo, afinal tenho dons especiais e os russos já me detestam. Por dois anos não conseguiram me comprar com suas ameaças, subornos, ou propinas. Eles sabem que estou de olho neles. Não foi à toa que a fraude foi tão bem elaborada e que não envolvia diretamente a mim. Não usarei nada que possa te entregar ou abalar sua posição com seu Vor. Assim como não contei nada a Saga sem ter certeza. Tem minha palavra, Camus, de que não será envolvido.
Camus respirou fundo, apertando as têmporas com ambas as mãos. Era uma missão complicada e difícil, e que o colocaria em uma posição delicada e arriscada, mas entendia que era necessária. Mesmo entre ladrões havia um código de conduta, e o que Dimitri estava fazendo poderia prejudicar a credibilidade da Vory em outros negócios.
Além disso, agora estava ainda mais preocupado com a segurança de Hyoga, Afrodite e a sua própria. Afinal, o que mais Dimitri lhe escondia?
Independente da ordem de Saga, agora ele mesmo queria saber se ainda detinha a confiança incontestável do “pai” da família russa de criminosos. Num mundo onde traição e retaliação é a lei maior, um segredo como esse cheirava a perigo, e era preciso ainda mais cuidado a partir de agora.
— Está bem. — disse o aquariano levantando-se da poltrona — Eu aceito a missão, Grande Mestre. Ainda vou ficar alguns dias no Santuário, mas assim que retornar à Rússia iniciarei as investigações. É só isso? Posso levar esses documentos comigo para estudá-los melhor?
— Deve! — respondeu Saga estreitando os olhos ao encará-lo.
Mu, que queria provar que nenhum dos dois ali estava desconfiando da palavra do francês, munido de toda sua cordialidade e delicadeza levantou-se e aproximando-se de Camus lhe pousou a mão no ombro.
— Essas são cópias que fiz para você. Os originais estão comigo. Pode ficar com elas, e se precisar de ajuda com alguma documentação sabe onde me encontrar. — disse o ariano.
— Oui. — Aquário respondeu somente.
— Está dispensado, Camus. — Saga se levantou e de pronto caminhou até o pequeno bar ao fundo do aposento — Faça o seu melhor. Traição e roubo é muito mais que apenas um jogo entre máfias. É a liberdade do Santuário que está em jogo.
Camus acenou levemente com a cabeça e deixou a sala levando consigo os documentos entregues por Mu. Usaria seu tempo ali na Grécia, longe dos olhos da Vory, para entender a fundo aquele golpe.
Dentro do escritório de Gêmeos, este agora se servia de uma dose de whisky para depois voltar-se a deliberar com Áries sobre o que acabaram de conversar.
— Você acredita que ele possa nos trair e ser conivente com aquela corja de ladrões? Camus afinal cresceu no meio deles. — questionou encarando fixamente a porta por onde Camus havia deixado o recinto — Ainda não sei qual sua verdadeira essência...
Saga almejava estar um passo à frente da detestável máfia russa, mas Camus não parecia querer facilitar as coisas para si. Irritado, encarou o rosto sereno de Mu, que agora ganhava traços alarmados, já que o ariano percebia uma considerável mudança na aura do cavaleiro de Gêmeos desde o início daquela conferência.
— Eu... eu acredito que ele não irá nos trair, Saga. — disse Áries — Camus sempre foi muito fiel e dedicado ao Santuário. Para te dizer a verdade, a reação dele foi até melhor do que eu esperava! — respirou buscando tranquilizar a si mesmo — Eu te falei que ele poderia não estar envolvido. Apesar dos pesares, Camus é um cavaleiro de Ouro honrado, mesmo imerso no mundo do crime desde muito jovem nunca se esqueceu de seu papel junto à deusa Athena. Me surpreenderia ele compactuar com algo desse nível.
— Certo. — disse Gêmeos sem nenhum entusiasmo — Vamos aguardar o próximo passo dele. Espero que Aquário e a Vory não me subestimem. Até agora fui conivente e procurei resolver os problemas do Santuário com parcimônia, mas... Se Dimitri descumprir o nosso acordo eu juro que mandarei toda a merda da Ordem Mundial ao colo do sujo do Hades e farei aquele russo voltar a seu lugar de origem... O chiqueiro rodeado de porcos imundos a que ele pertence.
— Creio que não será necessário instaurar o Caos na Terra para colocar Dimitri em seu lugar. — disse o lemuriano com um sutil sorriso no rosto, procurando acalmar o grego — Afinal nós, cavaleiros, existimos para fazer justamente o oposto, não é? Tentar manter a paz... E, que tal começarmos pela nossa própria? Hoje é dia de festa, de descontração... Ah! Antes que eu me esqueça, hoje pela manhã chegou umas encomendas em seu nome.
— Encomendas?
— Sim. Uma é do estúdio fotográfico que você contratou no mês passado, a outra é de uma loja de Atenas.
— Ah sim! Já não era sem tempo! Estão atrasados por sinal. — dizia já abrindo a porta e sendo acompanhado pelo ariano — E onde estão?
— Na minha sala. Chegaram um pouco antes de eu sair para o almoço. Vamos até lá? — disse, depois esperou que Gêmeos abrisse a porta e juntos caminharam até sua sala.
Ao chegarem ao escritório de Mu, o lemuriano entregou as encomendas a Saga, que foi incapaz de esconder o sutil sorriso que se formou em seus lábios fechados.
— Acho que tem uma pessoa que gostaria de abrir esses pacotes com você, não? — perguntou o lemuriano todo faceiro.
Saga sentiu seu rosto corar levemente. Para alguém que é capaz de ler as auras das pessoas, ficava difícil esconder segredos.
— Não sei do que você está falando, Áries. — tentou disfarçar — Então, nos vemos à noite?
— Sim.
— Conseguiu convencer o Buda de galochas a ir à festa? Eu espero que sim, porque a decoração da Arena me custou o dobro simplesmente pela frescura do Shaka em não pisar neste Templo.
— Seus esforços serão recompensados e devidamente reconhecidos. Ele vai sim. — Mu respondeu com uma risada descontraída.
— Hum... Eu acho bom! Até mais tarde, Mu. — disse Gêmeos ao deixar a sala.
— Até mais tarde, Saga. — respondeu Áries, que logo voltou ao trabalho fazendo telefonemas a fornecedores diversos.
Saga seguiu animado para seu quarto no segundo piso.
Enquanto ganhava os degraus, calmamente seus pensamentos vagueavam na busca de soluções mirabolantes para cada problema que rondava sua vida feito corvos famintos a ambicionar a carniça. Novos ou antigos, os dilemas do Santo de Gêmeos, e Grande Mestre do Santuário, pareciam crescer a cada dia.
Ao chegar a seus aposentos empurrou a porta em um movimento sutil e trivial, adentrando o cômodo e já caminhando em direção à cama, onde jogou os pacotes que trouxera consigo.
No entanto, algo passou despercebido de sua atenção.
Atrás da porta, a qual fora fechada com um leve chute que Saga lhe dera ao entrar, calada e imóvel estava a amazona de Serpente encostada à parede.
Em uma das mãos segurava uma caneca, enquanto com a outra passava as chaves na porta a trancando. Olhava surpresa para o geminiano, que mesmo sendo uma pessoa de percepção aguçada não a percebeu ali, e Geisty já imaginava por qual motivo.
Em um pouco mais de dois anos de convívio o casal havia se tornado muito mais que meros amantes. Eram companheiros na vida e cúmplices nas atitudes que tomavam, uma vez que juntos traçaram uma meta: venceriam os jogos da máfia dentro das regras estabelecidas. Saga e Geisty eram o ombro amigo e o porto seguro um do outro. A amazona de Serpente, com toda a percepção que lhe cabia, aprendera a identificar os pequenos sinais de preocupação e nervosismo que causavam a instabilidade do geminiano.
Como agora, em que a cabeça do namorado deveria estar fervendo de preocupações, e isso nunca foi um bom sinal.
— Olá, amore mio... — disse a amazona com voz calma e doce, porém causando, mesmo assim, um leve espanto ao cavaleiro que se voltou a ela surpreso — Demorou a subir. Algum problema?
— Puxa! Você estava ai? Desculpe, nem percebi ao entrar... — respondeu o grego massageando a fronte.
— Eu notei. Não precisa se desculpar. — disse Geisty caminhando na direção dele com um sorriso carinhoso no rosto. Deu um gole na bebida que trazia na caneca e ao parar na frente do geminiano este lhe tomou pela cintura e ambos trocaram um beijo ligeiro — Parece preocupado. Muitos problemas hoje? — disse ela acariciando o rosto grave de Saga, que aparentava estar exausto.
— Muitos! Porém, os mesmos de sempre, e a razão da minha insônia crônica... Aqueles russos de merda da Vory v Zakone... o nosso mal necessário, infelizmente.
— Tome, beba um pouco. É chá de camomila. — disse Geisty lhe estendendo a caneca — Fiz enquanto você estava reunido com Mu e o porco do Camus lá embaixo. Já imaginava que deveriam estar tratando de algo estressante. Vamos, beba. Vai ajudá-lo a se acalmar.
Saga aceitou de bom grado e logo deu um gole generoso na bebida, soltando o ar quente pela boca enquanto fazia uma careta.
— Ah... Nem foi a reunião. O que tratamos eu já havia estudado com o Mu... Só chamei o Camus para dar uma prensa nele e ver se não estava envolvido.
— Se não foi a reunião, então o que foi? — perguntou curiosa.
— Os russos... Aqueles malditos russos, Geisty. Sempre agindo por debaixo dos panos, movendo os pauzinhos deles para atrasarem os nossos projetos e nos manterem no cabresto. — olhou para a morena que lhe devolvia um olhar confuso, sem entender ao certo do que se tratava o desabafo.
— Hoje pela manhã eu fui até o cassino novo que abrimos com dinheiro exclusivo nosso. Nosso primeiro investimento solo, sem a participação da Vory, mas... Nós nem abrimos as portas para o público e a polícia recebeu uma denúncia anônima de tráfico de drogas no estabelecimento...
Geisty olhava alarmada para Saga.
— E você acha que isso tem o dedo dos porcos da Vory?
— Se eu acho que tem o dedo? Deve ter uma companhia inteira de polka russa dançando em cima dessa merda toda... — concluiu Saga irritado.
— Porca madonna! — exclamou a morena, agora também irritada. Pegou a caneca das mãos do geminiano e em agito deu um gole generoso no chá de camomila, o devolvendo depois ao namorado.
— É claro que foram eles que fizeram a denúncia anônima. Quem mais iria querer atrasar os meus negócios, atrapalhar os nossos investimentos e impedir que alcancemos nossa independência financeira?
— Figlios de um cane... E a polícia? Encontraram alguma coisa nessa batida? — a amazona perguntou alarmada.
— Não. Por sorte Aldebaran já havia despachado os malotes de cocaína que estavam escondidos lá. Metade deles, por sinal, eram da Vory... Sempre ela... — fez uma pausa até que retomou a fala — Foi por um triz, Geisty! Só por um triz que não fomos pegos. — esfregava o rosto em um gesto nervoso enquanto suspirava.
— Eles foram embora em seguida?
— Porra nenhuma! Aqueles filhos da puta só faltaram arrancar o taco do chão do meu cassino. Estavam destruindo tudo e... e eu não tive outra alternativa a não ser recorrer ao Praxedes... — falou desanimado.
— Ah não!
— Não me restou outra escolha.
— Não! Você não fez isso!
— O que eu podia fazer?
— Saga, por Athena! Não me diga que agora está devendo mais favores aquele gorducho babão? — dizia inconformada, batendo a mão na coxa em contrariedade para em seguida pegar a caneca mais uma vez das mãos do grego e dar outro gole no chá — Afrodite vai te matar! Sim, porque é aquele viado histérico que paga as suas dívidas com o gorducho do Prefeito... e eu também, né. Só que eu nem toco nele, já o Afrodite...
— Eu sei... Mas, era eu recorrer ao Prefeito ou deixar que a polícia interditasse o cassino por tempo indeterminado. Como eu não estou podendo me dar a esse luxo, liguei para o Praxedes. Ele impediu a interdição do estabelecimento, mas precisei pagar uma propina estratosférica para os policiais.
— Porca miséria!... E assim o gorducho vai ganhando noites e mais noites de cortesia aqui na casa. — dizia a amazona com o rosto visivelmente desanimado pela notícia.
— Tenho a impressão de que dou um passo para frente e dois para trás. — disse resignado, bebendo o resto do chá.
Geisty notou o desânimo que se abateu no namorado, e esfregava lhe os braços em uma tentativa de animá-lo.
— Ei, não desanima... — disse bem próximo a seu rosto, quase lhe tocando os lábios — As coisas estão se ajeitando, Saga. Devagar, mas estão.
— Penso se toda essa desgraça não é um castigo de Athena por eu ter...
— Ei... Athena não tem nada a ver com isso. — Geisty acariciou o rosto do namorado — Lembra da nossa promessa? Pode ser difícil, pode parecer impossível, mas nós vamos sair dessa. Nós vamos conseguir.
O grego a encarou nos olhos cintilantes e esperançosos, se deixando contaminar por aquela energia. Tomando o belo rosto da morena entre as mãos, Saga depositou um beijo nos lábios de Geisty. Só ali encontrava a coragem que precisava para encarar cada árduo obstáculo que sua vida, tão atribulada, lhe apresentava.
Só nos lábios de sua amada é que matava a sua sede de energia e adquiria força para perseverar.
Ao apartarem com delicadeza do beijo, ainda mantinham suas testas apoiadas uma à outra, e a italiana, apertando firme o corpo do amado contra o seu, disse com voz aveludada e plena de convicção:
— Eles não vão conseguir nos dobrar... Somos guerreiros, cavaleiros e amazonas, e não míseros ladrões como esses porcos da Vory.
— Sim... — respondeu Saga com um sussurro, enquanto vivia aquele momento.
Foi pelo olhar interessado da amazona que o abraço aconchegante se desfez.
— O que são essas coisas que você trouxe? Não vai me mostrar? — disse ela com uma animação que brotava por conta da curiosidade, mas pensando também em desviar o foco do assunto para tentar animar o namorado.
— Sabia que você perguntaria. — respondeu o grego pousando a caneca no móvel próximo e pegando um dos embrulhos, um longo e largo canudo — Esses são os novos pôsteres de propaganda daqui do Templo das Bacantes. Trouxe para ver com você e aprovar.
— Ah, pela deusa! Ficaram prontos! Me deixa ver, anda! — afoita Geisty tentava acelerar a ação do namorado o ajudando a abrir o embrulho.
— Calma, sua apressada! — Saga agora sorria, divertindo-se com o entusiasmo da garota, enquanto puxava para fora o maço de papeis os desenrolando todos de uma vez.
— Pelos deuses! Saga!... Ficaram lindas as fotos!
Geisty corria os olhos pelos pôsteres que continha sua imagem capturada. Nela estava seminua, apenas enfeitada com muitas joias de aparência luxuosa, um sapato de saltos altíssimos e um leque extravagante em tamanho e decoração, feito de longas plumas de flamingos. O rosto, muito bem maquiado, de olhar profundo e lábios carmins era um convite sedutor a quem o encarava.
Contudo, Geisty não conseguia se reconhecer nela mesma. Aquela mulher sedutora que estampava aquele pôster não era ela, a amazona de Serpente, criada a moldes duros e penosos para se tornar uma guerreira forte, honrada e corajosa. Porém, foi principalmente se armando dessa última virtude, a coragem, que se despiu de sua honra como amazona para se sujeitar a uma vida censurável em prol de uma causa muito maior.
— Sim, todas ficaram muito bonitas.
— Você gostou? — Geisty perguntou sem olhar diretamente nos olhos do amado. Sabia o que se passava pela mente dele, mas lhe daria essa privacidade nos sentimentos.
Com um sorriso discreto desenhado nos lábios finos, Gêmeos respondeu:
— Sim, gostei, gostei muito! Ficou muito bonita, mas porque a modelo possui um o brilho principal.
— Que bom que gostou. — disse a amazona, que deixou escapar um suspiro — Você acha que está convidativo? Que vai atrair mais clientes?
— Olha, se eu estivesse passando por ai e visse essa mulher linda me olhando desse jeito tão cativante... Eu acho que gastaria todo o meu suado salário do mês para vê-la mais de perto. — brincou o geminiano em uma tentativa de disfarçar o desconforto pela situação em que colocara a amada. Fora a culpa, também tinha que conviver com o ciúme que sentia por todo o assédio e cobiça que Geisty sofria por parte dos outros homens.
— Seu exagerado. — disse a amazona dando uma leve cotovelada no cavaleiro.
— Estou falando a verdade. – Gêmeos sorriu, enquanto abraçava a morena por trás e depositava um beijo em seus cabelos.
— Obrigada por ter me acompanhado na seção de fotos. Esse olhar foi direcionado exclusivamente a você. Meu convite é seu, meu cavaleiro, mas também à nossa liberdade! — disse Geisty se virando de frente para tomar os lábios do grego num beijo apaixonado, provando agora com mais ternura da boca do amado até que lhes faltasse o ar — E o outro embrulho?
Saga soltou um sorriso sonoro, satisfeito com a pergunta.
— Lembra que lhe prometi as fantasias para a festa de hoje à noite?
— Sim. Você fez questão de que fossem surpresa e eu lhe dei meu voto de confiança. Olha lá o que vai me aprontar! Cadê elas? Me mostre logo, eu estou louca de curiosidade há dias! — ansiosa encarava o pacote esfregando as mãos uma contra a outra.
Saga tentava inutilmente conter o riso, mas antes mesmo de terminar de desembalar já começava a rir. Ao que as fantasias foram reveladas, a voz da amazona se propagou pelo quarto em uma mistura de assombro e alegria.
— Ma que? — soltou uma gargalhada divertida e escandalosa, a qual fora acompanhada pelo grego que enxugava os olhos já marejados de tanto que ria — Saga! Eu não acredito que você teve essa ideia. Você não presta!
— Não! — respondeu se entregando a uma gargalhada sonora, sem se importar com quem do lado de fora ouvisse a agitação que acontecia no quarto.
— Eu adorei, mas... — disse a amazona um tanto quanto vacilante.
— Mas, o quê?
— Amore mio, será que não é arriscado usarmos essas fantasias?
— Arriscado? Para quem? Só se for para o...
— Arriscado para nós mesmos. — concluiu ela — Porque, convenhamos, nós vamos de casalzinho. Acho que vai ficar muito na cara que somos um casal de fato, não?
— Ah Geisty, meu amor! — disse o geminiano puxando a amazona para junto de si enquanto girava seus corpos jogando a ambos na grande cama — Você acha mesmo que nesses dois anos juntos nós conseguimos esconder dos nossos companheiros de armas nosso relacionamento com tamanha eficiência? Não se esqueça de que trabalhamos com Aldebaran e Máscara da Morte, os dois maiores fofoqueiros desse lugar. Nem se fossemos do serviço secreto conseguiríamos esconder algo desses dois por tanto tempo. Além de que, a festa não é aberta ao público, só vai ver quem possivelmente já desconfia. — disse Saga sorrindo para em seguida atacar o pescoço perfumado da amada com beijos famintos.
— Eu sei... Mas, por Baco! Assim também é deixar explícito de uma vez.
— Você não gostou da escolha? Eu achei que ela é perfeita para nós. Além da oportunidade de tirar um sarro da cara do Afrodite. — brincou dando uma risada.
— Eu adorei, amore mio! Melhor impossível! — Geisty o acompanhou sorrindo junto, enquanto já o puxava para mais junto de si.
Aproveitariam juntos aquelas poucas horas antes de se aprontarem para a festa de Halloween que seria dada na Arena, aos cavaleiros, amazonas, servos, aprendizes e também para as bacantes.
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