Templo das Bacantes Vol. 2

46 Entre tantos desalentos uma esperança.


Notas iniciais
Atrasou um tiquinho mas está aqui *-* Rosenrot ainda preparou dois desenhos lindos para a capa...lindo e tristes T.T

Hospital de Athenas – Início da manhã

Enquanto o Sol despontava no horizonte e iluminava um novo dia, na sala de espera próximo a ala de isolamento onde o Cavaleiro de Peixes estava lutando pela vida, Mu conversava com doutor Hector sob a vigilância atenta e curiosa de Misty de Lagarto.

— E então, doutor? A transfusão deu certo? — o Santo de Áries perguntou ansioso, uma vez que não iria embora daquele hospital sem antes saber se seus esforços foram válidos.

No entanto, a expressão abatida no rosto do médico, que trazia nas mãos os resultados dos últimos os exames, era nada animadora.

— Infelizmente não. — doutor Hector respondeu com um suspiro de desânimo — Embora a filtragem tenha colaborado para a estabilização do Cosmo dele e tenha baixado a produção de toxinas, não foi o suficiente para cessar totalmente a contaminação pelo metal. Além disso, o corpo de Afrodite durante esse período produziu uma enorme quantidade de veneno, e este ainda circula em seu sangue.

— Isso quer dizer... O quê? — Misty se intrometeu querendo logo ir para o que interessava.

O médico se voltou para Lagarto e lhe respondeu apontando alguns dados nos papéis que carregava consigo.

— Que o sangue, agora tóxico, do Cavaleiro de Peixes continua matando todos os eritrócitos do doador.

— Fala a minha língua doutor! — o francesinho reclamou roendo uma das unhas.

— O sangue do Dido está matando as hemácias, as células vermelhas do sangue transfundido, Misty! — Mu respondeu enquanto apertava uma mão na outra em um movimento visivelmente nervoso — Não adiantou em nada o que eu fiz?

— Mas é claro que adiantou! — Hector respondeu — Como disse, a reação tóxica diminuiu, proporcionando um ambiente menos nocivo para nós, apesar de que ainda iremos precisar de proteção para manipula-lo, mas o nosso tempo dentro da sala pôde ser aumentado. Além disso, aparentemente o limiar convulsivo diminuiu. Mas, é o que lhe disse, o quadro dele é complexo porque envolve muitos fatores, e o nosso maior problema nesse instante é que precisamos repor urgentemente a perda sanguínea, mas não conseguimos fazer uma transfusão eficiente. Para piorar, as hemácias destruídas do doador estão sobrecarregando o fígado, o que pode levar a uma insuficiência hepática aguda e irreversível, por isso foi necessário interromper a transfusão.

Os dois Cavaleiros ouvintes trocaram um olhar angustiado.

Mu então respirou fundo, ajeitou a franja que lhe caía incômoda sobre o rosto e tomou uma decisão.

— Eu vou voltar lá, doutor. Eu vou fazer outra filtragem agora mesmo e tentar remover mais uma porção do aço Lemuriano.

— Eu não creio que seja possível. — a resposta do médico foi uma surpresa.

— Por que não?

— Você ainda está sobre os efeitos das toxinas, e se expor novamente em tão pouco tempo não é seguro. — Mu estava pronto para rebater, mas doutor Hector ergueu a mão indicando que o deixasse terminar de falar — Além disso, a pressão e o volume sanguíneo de Afrodite estão tão fracos que ele não suportará passar novamente pela máquina de hemodiálise. Na verdade até mesmo uma transfusão é um risco. O hematócrito dele está tão baixo que talvez sequer suporte uma grande quantidade de sangue novo... isso se conseguíssemos transfundir... — era visível a desesperança no rosto do doutor — Estamos de mãos atadas, senhor Mu. Creio que não possamos fazer mais nada pelo Cavaleiro de Peixes. Orem por um milagre.

— C-Como assim... non podem fazer mais nada?

A voz grave soou assustada, e as palavras, ditas num acentuado sotaque francês, ecoaram na sala chamando imediatamente a atenção de todos os presentes.

— Camus! — Misty quebrou o breve silêncio que se fez no recinto quando todos deram pela presença do Cavaleiro de Aquário.

Para espanto do médico, e principalmente do Santo de Áries que não o sentiu chegar, Camus estava parado na porta da sala de espera e os encarava parecendo aflito e exausto. As manchas de sangue e os danos na armadura denunciavam a ferocidade da batalha recente e sua respiração ofegante denunciava que deveria estar ferido.

Mu apertou os punhos. Havia sentido a armadura de Escorpião retornar ao Santuário e o Cosmo de Milo desaparecer, e agora a visão do aquariano a sua frente enfim lhe trazia a certeza nefasta: Camus cumprira a missão, e Milo estava morto.

Um pesar tomou o Cavaleiro de Áries de assalto. Mu engoliu em seco sentindo o peito apertar, mas a voz potente e aflita de Aquário exigindo uma resposta do médico lhe forçou à voltar a realidade iminente que vivia ali.

— Ninguém vai me responder? — disse Camus dando um passo à frente, quase entregando-se ao desespero, quando de repente a realidade algoz de sua vida o laçou pelos ombros o impedindo de prosseguir e o forçando a vestir a máscara de frieza que usava para garantir sua segurança e dos que amava — Eu... eu vim até aqui pessoalmente para... para saber se a Amazona de Serpente ou o Cavaleiro de Peixes estão acordados. Eu... eu preciso tomar o depoimento deles... preciso de suas versões dos fatos para... para poder montar um álibi perfeito para os membros da Vory...

Camus lutava para esconder o que estava evidente. Era de fato muito bom nisso, em dissimular, mentir, convencer... Mas a verdade era que diante de Mu e Misty, mesmo que não soubesse, seus esforços eram em vão.

Após cumprir a missão na Sibéria, o Cavaleiro de Aquário havia regressado imediatamente à Grécia em busca de notícias de seu grande amor. Sabia que deveria estar na Rússia naquele momento, mas seria incapaz de fazer qualquer coisa sem saber como estava Afrodite, então seguiu para o Hospital de Athenas sem pestanejar. Quando chegou ao prédio os recepcionistas já instruídos das ocorrências daquela noite o encaminharam para a Ala 5, e uma vez lá dentro bastou guiar-se pelos Cosmos de Lagarto e de Áries para encontrar o setor de isolamento. Foi quando chegou àquela sala a tempo de ouvir as palavras terríveis de doutor Hector. Queria gritar, chorar, mas não podia se expor. Nem devia estar ali, no entanto estava, era mais forte que si.

— Devem saber que non é fácil apagar as evidências de uma ação grandiosa como a que foi executada pela Vory no Templo das Bacantes... eles... me farão muitas perguntas. — disse esforçando-se ao máximo para dar firmeza a voz, sem embarga-la — As informações de Peixes e Serpente me serão de suma importância... Esperava que ambos já estivessem recuperados o suficiente para poder conversar com eles mas... pelo que vejo... — a voz falhou um instante — O Cavaleiro de Peixes... Seu estado é tão grave assim?

Mu baixou os olhos diante da súplica angustiada que lia na aura do aquariano. Sabia que Camus mentia. Sabia que o ruivo estava ali porque amava Afrodite e tudo o que falara não passava de meras desculpas esfarrapadas, seu mecanismo de defesa. Ainda assim Áries não queria ser o portador da trágica notícia, por isso manteve-se calado.

Diante do recuo e silêncio do ariano, com o coração ainda mais apertado Camus buscou Misty com os olhos, e quando seus olhares se encontraram teve a trágica resposta que buscava. Os olhos azuis de Lagarto estavam marejados e sua bela figura era uma máscara de angustia e tristeza. Aquário estranhou de imediato, visto que Misty sempre mostrou certo desprezo por Afrodite, dadas as tantas brigas e ofensas que travavam, mas era nítida a preocupação do cavaleiro de prata com o pisciano, o que só aumentou sua aflição.

Sentiu uma fisgada no peito repentina, piscou os olhos e puxou o ar para os pulmões, mas antes que pudesse pensar em si e dizer qualquer coisa doutor Hector quebrou o silêncio atraindo sua atenção e sanando as dúvidas que tanto afligia seu coração.

— Sim. Infelizmente a vida de Afrodite está por um fio. E creio que a amazona também não possa dar nenhum depoimento. Ela está em coma. — disse o médico — Por favor, cavaleiro, vejo que está ferido, sente-se aqui e eu vou lhe explicar todo o quadro. — Hector falou indicando uma das cadeiras.

Camus estava em choque.

Com um ato mecânico, pois seu coração parecia ter parado de bater dentro do peito, sentou-se no local indicado pelo médico e sem falar uma só palavra, com o rosto paralisado em sua mais inexpressiva feição, ouviu pacientemente toda a explicação do que havia acontecido com sua belle rose e de como agora ele estava praticamente desenganado.

Foi duro ouvir aquelas palavras. A todo instante precisava lutar contra si mesmo e contra a vontade de desabar em um pranto sofrido e doloroso.

Mu, que podia ver toda a dor espelhada na aura escura e densa do ruivo, se compadeceu de sua situação. Camus realmente era um guerreiro com uma força de vontade e fibra como nenhum outro. Havia acabado de sair de uma batalha terrível, estava ali ouvindo que o homem que amava estava morrendo e conseguia esconder o que sentia de modo tão eficiente que se não fosse sensitivo jamais desconfiaria.

Áries só conseguia pensar que se fosse com ele, se fosse Shaka quem estivesse naquela sala de isolamento à beira da morte, provavelmente já teria enlouquecido de dor. Por isso, o ariano se posicionou ao lado de Camus pousando uma das mãos na ombreira da armadura dourada, discretamente lhe dando apoio naquele momento difícil.

Findada toda a explicação Aquário permaneceu sentado, calado e circunspecto, e após um breve momento assim levou a mão a altura do queixo e o apertou. Não era médico, mas sua mente já trabalhava rápido articulando as informações que recebera com o pouco de conhecimento que tinha acerca de si e de Afrodite. Seu raciocínio lógico suplantando suas emoções sufocadas.

Mu, Misty e doutor Hector, desconfortáveis diante do silêncio que se instaurou no local trocaram olhares aflitos, até que Lagarto, quando já ensaiava dizer algo foi interrompido por Camus que de forma abrupta se levantou da cadeira afastando Mu e o médico com um dos braços.

Sem dar qualquer explicação, e diante dos olhares curioso de todos, Aquário elevou seu Cosmo ordenando que a sagrada armadura de ouro deixasse seu corpo. Esta assim o fez montando-se sozinha ao seu lado. Em seguida, despido de sua proteção divina e trajando apenas a calça que usava por baixo, as feridas em seu corpo ficaram ainda mais visíveis, principalmente os locais das agulhadas dolorosas que recebera de Escorpião.

— Cada cavaleiro possui uma peculiaridade única, algo que além da força e das habilidades o torna especial. — Camus disse ao baixar o rosto e tocar o próprio peito onde havia recebido uma das agulhadas de Milo — Quando eu cheguei aqui, você, doutor, disse que apenas um milagre salvaria o Cavaleiro de Peixes, correto?

— Sim, eu disse.

— Pois eu serei o seu milagre! — Camus ergueu o rosto e encarou o médico, e sua face continuava tão inexpressiva quanto antes, mas em seus olhos ardia a chama da esperança e da determinação — Cavaleiros com habilidades de manipular o frio são capazes de usar seu Cosmo para, através da criocinese, resfriar substâncias químicas circulantes.

— Isso quer dizer... — Hector fez uma expressão confusa.

— Isso, de modo prático, me faz imune e resistente a toxinas e venenos. Se Peixes precisa de sangue, tome o meu! — estendeu o braço com o punho fechado na direção do médico — Meu sangue é o único que pode resistir ao sangue tóxico dele.

As palavras do aquariano foram como bálsamo divino para os três ouvintes.

Nem um pouco surpreso pela atitude de Camus, Mu não conseguiu esconder o sorriso esperançoso que se formou em seu rosto e em um ato de puro impulso abraçou o ruivo com força, emocionado.

— Muito obrigado, Camus! Sei que você e Afrodite têm uma história de conflitos, intolerância, desavenças, mas seu gesto não será esquecido! — o lemuriano disse em agradecimento, fingindo que nada sabia e mantendo a farsa existente.

— Não precisamos perder mais um irmão de armas hoje. — Camus respondeu firme assim que Áries se afastou.

Ao lado deles Misty esboçou um leve sorriso com o olhar fixo em Aquário. Sabia o peso que aquela ação representava para Camus, e não sabia se daria certo ao fim. A única certeza que tinha era de que não esperava outra atitude vinda do aquariano. Aliviado, ainda que sentido um leve amargor na boca causado por um sentimento de inveja que não tinha porque esconder de si mesmo, o cavaleiro de prata trocou olhar com o ruivo e foi se sentar em uma das cadeiras no fundo da sala. Agora só restava esperar.

— Então não vamos perder mais tempo. Cada segundo vale muito! — tão animado quanto os outros o médico imediatamente correu para a parede e acionou a campainha que chamava sua equipe — Vamos preparar tudo para iniciar a transfusão agora mesmo.

Após alguns instantes orientando a equipe que acabara de adentrar o recinto, e depois de constatar que o tipo sanguíneo e o fator Rh de ambos era compatível, ficou decidido que se faria primeiramente uma transfusão braço a braço. O motivo se deu pelo fato de que Camus precisaria manter o Cosmo ativo durante a transfusão e por tempo indeterminado depois dela, já que era seu Cosmo que manteria as células sanguíneas viáveis imunes ao veneno. Além disso, como o corpo de Afrodite ainda estava intoxicado pelo restante do aço lemuriano impregnado em seus tecidos e órgãos, o esforço do aquariano seria maior, uma vez que havia a chance de o metal interferir no funcionamento do próprio Cosmo.

Enquanto todo o equipamento para o procedimento era preparado, Camus pediu para esperar pela equipe já dentro do local onde o pisciano estava. A grande verdade era que precisava desesperadamente ver seu amado e estar a sós com ele nem que fosse por alguns breves instantes.

Quando teve permissão para entrar na sala cirúrgica deu as costas a todos e rapidamente abriu a porta, fechando esta atrás de si com a mesma ligeireza. Antes que pudesse dar o primeiro passo fora nocauteado de pronto pelo odor intenso de rosas que impregnava o ambiente deixando o ar quase sufocante. Cerrou ligeiramente os olhos e comprimiu os músculos da face angustiada. Conhecia como ninguém aquele perfume letal, mas agora ele estava diferente, mais ácido, muito mais intenso e corrosivo. Um amargor lhe subiu à boca, sentiu-se desnorteado, e antes que sofresse os danos do veneno ativou seu Cosmo, só então pode abrir os olhos e seguir até a maca.

Não estava preparado para ver Afrodite naquele estado. Não queria aceitar que seu maior medo havia se tornado real.

Quando seus olhos avelãs marejados divisaram o corpo desfalecido do pisciano sobre a maca, Camus precisou levar a mão à boca para conter um soluço sofrido.

Só poderia estar preso em um pesadelo, e foi com a lentidão angustiante de um que caminhou até o amado.

Non... — murmurou baixinho, maldizendo Dimitri em pensamento por ter reduzido alguém tão cheio de vida como Afrodite àquela figura fraca, pálida e débil.

E mesmo ali, no funesto limiar entre a vida e a morte, mantido vivo por fios e mais fios aderidos a seu corpo esguio cianótico, com um tecido azul a lhe cobrir o abdome recém operado e os lábios perfeitos castigados pelo tubo de respiração, a beleza de Peixes ainda era extraordinariamente única, como a mais perfeita das rosas que se destaca em um jardim em flor.

Ma Belle Rose... — deixou escapar um sussurro quando já ao lado do leito estendeu a mão até o rosto do pisciano e lhe acariciou algumas mechas do cabelo azul que lhe escapavam da touca cirúrgica — Pardon, mon amour, pardon...

Camus bem que tentou dizer mais alguma palavra, mas não foi capaz porque finalmente ali, sem ninguém por perto, permitiu que suas emoções viessem à tona e entregou-se em um pranto sofrido e doloroso. Sentia como se seu coração estivesse se rasgando dentro do peito, o ar lhe faltava, os braços doíam, e se pudesse morreria abraçado ao sueco naquele instante, acabaria com todo sofrimento, medo, com a farsa que angustiava seus corações, mas não podia, e também não suportaria viver sem Afrodite.

Movido pela dor e emoção o francês inclinou-se sobre o corpo do pisciano e por um momento ficou a admirar seu rosto de perto, depois foi incapaz de conter o ímpeto e beijou lhe a fronte delicadamente. Sentiu a pele dele extremamente fria, e molhou a maçã de seu rosto com algumas de suas lágrimas.

— Eu vou te trazer de volta, peixinho. — sussurrou rente aos ouvidos de Afrodite — Non aceito te perder. Hyoga e eu precisamos de você, precisamos do seu amor, da sua alegria... Sei que você é forte, por isso aguente mais um pouco, por favor, só mais um pouco... Eu nunca mais vou deixar nada nem ninguém te fazer mal, eu prometo.

Camus beijou a fronte de Afrodite mais uma vez, e logo seus ouvidos apurados detectaram a aproximação da equipe médica, por isso rapidamente se afastou do amado, engoliu o choro, enxugou os olhos com os dedos e como se nada tivesse acontecido endireitou a postura ficando no aguardo.

Segundos depois adentrava pela porta uma equipe de quatro enfermeiros, todos usando a roupa de isolamento especial e empurrando uma maca com os equipamentos necessários para a transfusão.

— Por favor senhor, deite-se nessa maca que iremos começar o mais rápido possível, antes que as toxinas dele nos afetem. — disse um dos enfermeiros, que assim que os materiais foram retirados de cima da maca a posicionou ao lado do pisciano.

— Está bem. — Camus respondeu prontamente já se colocando sobre o lugar.

Foi tudo muito rápido e eficiente.

Em pouco tempo havia uma agulha grossa em seu braço direito que estava ligada a uma cânula a qual conduzia seu sangue diretamente para o braço esquerdo do sueco. Para bombear o sangue precisava apenas apertar e soltar repetidamente uma pequena bolinha macia que lhe fora entregue. A cânula era um tanto fina, pois devido à fragilidade do paciente era favorável que o sangue entrasse lentamente para não exigir demais de seu corpo, por isso a transfusão levaria alguns bons minutos.

Por conta das toxinas de Afrodite a equipe médica não permaneceu no local, optando por monitorar os dois a distância através dos dados que os aparelhos ligados ao sueco lhes transmitiam. Além disso, caso o ruivo se sentisse mal, era só apertar uma campainha que estava em seu colo.

Sozinho e deitado lado a lado com seu grande amor, Camus voltou o rosto para ele e ficou a observa-lo fixamente. Estava cansado e machucado da batalha recente com Milo, esgotado emocionalmente, mas era por Afrodite que estava ali e tiraria forças de onde não tinha para manter seu Cosmo ativo dentro dele e lhe dar uma chance de vida.

— Vai ficar tudo bem, ma rose... Eu estou aqui. — tranquilizou a si mesmo e ao amado, mais uma vez deixando uma lágrima escapar de seus olhos.

Sim estava ali e salvaria Afrodite assim como ele o salvou de si mesmo, no passado, com o seu amor.

Do lado de fora, Misty e Mu aguardavam sentados nas cadeiras na mesma salinha de espera, ambos ansiosos e nervosos. Podiam sentir o Cosmo ativo e elevado de Camus emanando de dentro da sala de isolamento, e agora só lhes restava esperar e ter fé.

Aproveitando que teria alguns minutos até que a transfusão sanguínea se desse por completa o lemuriano se levantou abruptamente rumando até a porta de saída.

— Ei! Vai aonde? — Lagarto perguntou também se levantando assustado — Tá indo embora? Não vai ficar para saber se o picolé salvou a Peixosa?

— Não estou indo embora. Vou aproveitar o tempo da transfusão para visitar outra pessoa. Geisty está aqui também se esqueceu? Preciso saber notícias dela. Estou preocupado com ela.

Misty não respondeu. Com toda aquela confusão em torno de seu arqui-inimigo toda a sua atenção fora tomada ao ponto de nem mesmo ter tido tempo de buscar informações sobre o estado da amazona, mas também estava deveras preocupado com ela.

Sem esperar mais Mu deixou Lagarto ali e se apressou em procurar pela amiga nos tantos corredores daquele setor especial do Hospital de Athenas, mas não foi difícil encontrá-la, e com a ajuda de uma enfermeira muito solícita e gentil foi conduzido até um dos Centros de Tratamento Intensivo onde ela estava internada.

Antes de entrar, já devidamente vestido com o traje esterilizado, espiou a amiga através do vidro e seu coração apertou-se ainda mais. Não podia acreditar que poucos dias atrás estava ajudando Saga a mobiliar o quarto dos gêmeos, seus afilhados, para fazer uma surpresa à Geisty e agora a estava visitando em uma CTI lutando pela vida após sofrer uma cesariana e dar à luz a dois bebês mortos. Sentiu a garganta lhe apertar dolorida e com muita tristeza acompanhou a enfermeira até o leito onde a amazona estava deitada e inconsciente.

— Ela... Ela está tão pálida. — Mu comentou enquanto tocava a mão fria e sem cor da amiga lhe fazendo uma carícia. Era estranho vê-la ali cercada de aparelhos naquele ambiente estéril e incomodamente branco — O que realmente aconteceu com ela, e qual o seu estado?

A enfermeira atenciosa voltou o rosto para o cavaleiro e lhe respondeu com pesar na voz doce.

— A paciente teve um quadro grave de eclampsia. Quase a perdemos, mas com muito esforço e dedicação conseguimos estabiliza-la.

A jovem fez uma pausa. Mu então desviou os olhos da amiga soltando sua mão e voltou toda sua atenção para a enfermeira.

— Ela vai demorar muito a acordar? Vai ficar com sequelas? — inqueriu mais uma vez preocupado.

— Infelizmente ainda é cedo para dizer. Ela está em coma não induzido. Estamos aguardando sinais de melhora. Ela pode acordar a qualquer instante ou levar dias, mas só quando sair do coma é que poderemos avaliar se houveram sequelas neurológicas ou motoras... Porém, se tudo correr bem nas próximas 48 horas é muito provável que ela terá uma vida normal e que sua fertilidade não seja prejudicada. — disse na esperança de tranquilizar o cavaleiro.

Mu não perguntou mais nada. Extremamente entristecido voltou o rosto na direção de Geisty e mais uma vez lhe faz um carinho na mão.

— Ei dorminhoca... Eu sei que vai ser difícil quando você abrir os olhos, mas não se preocupe, minha amiga. Você não estará sozinha. — desolado Mu notou o ventre ainda inchado, porém vazio, sob o lençol e apertou gentilmente os dedos dela — Eu não quero imaginar a dor que irá sentir... Sei que sua perda é irreparável, mas tem gente te esperando, e eu estarei a seu lado... Você é forte, determinada, já passou por tanta coisa... Vai sair dessa, eu sei.

O lemuriano dizia palavras de conforto, mas em seu coração sabia que se estivesse na situação de Geisty não suportaria a perda de seu Kiki. Talvez por isso sua consciência não lhe permitira fazer qualquer tipo de julgamento de Saga por ter se rendido a seu lado funesto. Sentia até mesmo pena pelo geminiano e rogava à deusa que não fosse ele a ter de dar a triste notícia da perda irreparável que a amiga sofrera, uma vez que, por mais que Geisty se fizesse de forte para lidar com aquela terrível realidade, seus dons sensitivos lemurianos o fariam sentir a dor latente da mãe que acabara de perder os filhos e para Mu essa era a pior dor que alguém poderia sentir.

Procurando deixar os dois a sós a enfermeira se retirou do quarto enquanto Mu ainda falava palavras de carinho e alento para a amiga, e na mesma hora que saía doutor Hector ameaçava bater na porta.

O médico, que passava por ali a caminho do setor de isolamento, deteve seus passos ao ver o lemuriano através do vidro e notar a intimidade com que ele tratava a paciente, por isso, mesmo a hora não sendo das mais oportunas, decidiu levar a Mu um assunto delicado que estava pendente, mas que não podia mais esperar.

Após trocar algumas palavras com seu superior a enfermeira voltou para dentro do recinto, tocou o ombro do ariano e o alertou da presença do médico.

— Desculpe-me por interrompe-lo, mas o doutor Héctor está na porta e deseja falar com o senhor lá fora.

— Está bem. — respondeu o ariano com a voz entristecida.

Mu se despediu de Geisty com um beijo em sua mão e apressado deixou o CTI indo de encontro ao médico, preocupado de que algo tivesse dado errado com Afrodite.

— O que foi doutor? A transfusão deu errado? — perguntou já do lado de fora assim que fechou a porta.

— Não, o procedimento está indo bem, e ainda não acabou. O assunto que desejo tratar com você é outro. — Hector respondeu sério — Você é próximo à paciente Geisty de Serpente?

— Sim, somos muito amigos. Sou padrinho de casamento e seria também padrinho dos bebês... Na verdade sou o mais próximo de um familiar que ela tem.

— Ótimo, pois eu preciso justamente falar sobre os bebês natimortos. — na mesma hora que ouviu aquelas palavras Mu prendeu a respiração e franziu a testa em angústia, e notando o desconforto do ariano o médico foi o mais sincero possível — Veja bem, normalmente esse assunto é tratado com o cônjuge ou o pai das crianças, no caso o Grande Mestre, que se identificou como marido da paciente, no entanto a assistente social tentou de todos os meios entrar em contato com ele, mas todas as tentativas foram em vão.

Mu esfregou o rosto, visivelmente abalado e cansado.

— É preciso decidir o destino que será dado aos corpos dos bebês. — continuou o médico — Se serão levados para sepultamento particular ou deixados aos cuidados do hospital. Se forem deixados aqui o sepultamento será feito sem identificação, como quando morre um indigente. — o médico disse com pesar na voz — Seja qual for a escolha, precisamos de autorização assinada por um familiar, pois não podemos manter os corpos aqui por muito tempo.

Diante daquelas palavras a reação de Mu foi imediata. Sabia que Saga, completamente tomado pelo mau que habitava em si, não estava em condições de tomar decisão alguma, sem contar que seu lado maligno era bem capaz de não dar a devida atenção aos corpos dos filhos mortos. Além disso, apesar de terem nascido sem vida, Heitor e Dario foram muito amados e aguardados pelos pais e amigos, portanto mereciam um funeral e enterros dignos.

— Fez bem em me procurar. Como disse, eu sou o mais próximo de um familiar que ela tem. — Mu respondeu decidido e revoltado com a ideia dos bebês serem enterrados como indigentes — Pode pedir para o hospital agilizar os papéis para a liberação dos corpos dos meus afilhados. Eu mesmo irei providenciar o sepultamento dessas crianças. Assinarei os documentos necessários e virei busca-los assim que forem liberados para o funeral.

— Obrigado, senhor Mu. Leva algum tempo para preparar tudo, mas avisarei agora mesmo ao setor responsável para agilizar o processo de liberação e assim que estiver tudo pronto entrarão em contato com o senhor. Agora me acompanhe até a recepção para assinar a autorização, por favor.

Sem questionar Mu seguiu o médico até a recepção do hospital e enquanto assinava a autorização e tratava da burocracia para a liberação dos corpos dos bebês, na Ala 5, no isolamento, a transfusão sanguínea de Afrodite chegava ao fim.

Quando Áries e doutor Hector retornaram ao isolamento já encontraram Camus do lado de fora da sala. O aquariano estava sentado em um banco alto enquanto um enfermeiro lhe limpava as feridas de batalha e lhe fazia alguns curativos.

Misty, que acompanhava tudo de perto, logo veio recepciona-los.

— Mu! Deu tudo certo! Camus acabou de sair, ainda tá até fedendo a rosas! — Lagarto sorriu sem conseguir disfarçar a animação — Os médicos disseram que a carcaça flácida da Escamosa parece ter aceitado o sangue.

— Louvados sejam os deuses! — Mu agradeceu às divindades levando a mão ao peito.

— Eu posso doar mais se for preciso. Non foi pouco, doutor? — Aquário indagou para o médico.

— Você também está ferido, vamos com calma. Não podemos colocá-lo em risco, cavaleiro. — Hector respondeu.

— Mas eu posso...

— Eu sei que pode. — o médico interrompeu Camus ao se colocar a seu lado — Mas entenda, Peixes está muito fraco. Precisamos que o organismo dele se fortaleça um pouco mais antes de receber mais uma transfusão, que de fato será necessária, assim como novas filtragens para extração do aço lemuriano, ambas para acelerar o processo de desintoxicação. Poupe o seu sangue por enquanto, e poupe-se também, repouse. Se quiserem podem retornar ao Santuário e voltarem amanhã pela manhã. Precisamos ir com cautela tanto por ele quanto por você, e se por acaso houver algum agravamento do quadro dele eu os comunicarei imediatamente.

Apesar de não se importar consigo mesmo, Camus entendeu que deveria ser paciente. Realmente estava fraco e lhe era custoso manter o Cosmo ativo como estava fazendo, por isso confiou na equipe médica e aceitou as palavras do doutor.

Assim, depois que doutor Hector e sua equipe deixaram a antessala, sozinhos Camus, Mu e Misty trocavam alguns palavras enquanto se preparavam para seguir seu caminho naquele dia que não seria nada fácil para nenhum deles.

— Vai voltar para a Rússia? — Lagarto perguntou ao aquariano.

Oui. Tenho coisas a acertar lá. Mas antes passarei no bordel para pegar o corpo de Dimitri. Preciso atestar a morte dele ao alto escalão da Vory, que obviamente vai me exigir provas, depois inventar uma desculpa das boas... o que non me será muito difícil, já pensei em algo enquanto estava na sala doando sangue para o Cavaleiro de Peixes.

— Você é o novo Vor agora... — Áries não fez uma pergunta e sim uma afirmação, porém sua voz era carregada de pesar. Mu sabia o preço que o cargo cobraria do aquariano e se entristeceu por ele.

O ruivo por sua vez notou o tom usado por Mu e nada respondeu, apenas acenou com a cabeça. Não é como se tivesse escolha, na verdade nada em sua vida fora escolha sua... talvez apenas Afrodite.

— Sei que já agradeci, mas agradeço mais uma vez. Obrigado, Camus. Sei que não foi fácil fazer o que fez. — Mu se despediu trocando um olhar de certa forma cúmplice com o ruivo — Bom, nos veremos mais tarde então, também tenho coisas para acertar no Santuário, afinal eu deixei em casa um marido ferido cuidando sozinho de um bebê. Preciso ir.

Ao lado deles Misty prendia os longos cabelos enquanto interferia na conversa.

— Eu também preciso voltar ao Santuário. Shina me mandou para cá para fazer um curativo apenas, mas sei que ela ia querer notícias da Afrobicha e da Geisty, então acabei ficando para ter o que falar a ela, né. — disse Lagarto, claramente escondendo o motivo real de estar ali, o qual ele não ousava admitir nem para si mesmo.

Oui, todos temos que ir. Non se preocupem com o Peixes, eu vou à Rússia, mas voltarei assim que possível, ou se me chamarem para alguma emergência. — disse Camus com os olhos cravados em Misty, como se quisesse lhe dizer algo, mas que devido à presença de Mu ali não verbalizaria, porém contava com a esperteza de Lagarto para que entendesse a mensagem — Talvez eu volte amanhã mesmo. Qualquer emergência eu entro em contato.

O olhar do aquariano era tão intenso e profundo que Misty sentiu-se ligeiramente intimidado, mas entendeu o recado. Era para ficar alerta, pois Camus entraria em contato consigo.

Para evitar que Mu percebesse qualquer coisa, mesmo que não fosse preciso, já que o relacionamento de Peixes e Aquário não era segredo para Áries, Misty logo pegou no braço do ariano e desviou o olhar dando as costas a Camus e já puxando Mu para a porta de saída.

— Então vamos, né Mu. Shina deve estar precisando de ajuda. E você esteve com Geisty? Como ela está? Ela está muito mal? Pobrezinha, nem quero imaginar como vai ser quando ela souber que os bebês morreram e que o marido pirou de vez! — dizia Lagarto enquanto deixava juntamente com o lemuriano o isolamento.

Camus os observou sair e logo também se dirigiu à porta, mas antes lançou um último olhar para o quarto de sua bela rosa, através do vidro, e com o coração pesado e alma em ruínas despediu-se de Afrodite.

“Por favor, resista! Non me deixe sozinho. Eu te amo, ma belle rose.”, pensou antes de deixar a sala de cabeça baixa.

Com os corações repletos de preocupações, mas também plenos de esperança os três cavaleiros seguiram seus destinos.

***

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic

Notas finais
Nem só para dar cintadas em peixinhos indefesos serve um mafioso malvado né non? Finalmente os arremates finais desse momento difícil do enredo estão ocorrendo... não será fácil superar tantos obstáculos, e eu tenho pena dos nossos queridos...s e Afrodite tem uma esperança agora... só de imaginar realidade que Geisty enfrentará quando acordar meu coração fica apertadinho. Se tudo der certo talvez já no próximo fds tem cap ;) bejuuus