Templo das Bacantes Vol. 2

40 Os três lados da historia: o meu, o seu e a verdade.


Notas iniciais
Bora pra treta Mafioso velho malvadão x Mafioso viadão malvadão? uahuahah O título do capítulo foi inspirado na frase de Joseph Charles Massino. E a arte é da nossa xuxuzinha Rosenrot...que Camus lindo taquipariu *-*

Templo de Baco

A água gelada havia cumprido seu papel e alguns instantes depois de despertar, ainda zonzo e desnorteado, Dimitri piscou os olhos e pigarreou palavras desconexas.

Assim que conseguiu focar sua visão levou um susto. Havia um par de olhos avelãs furiosos o encarando tão de perto que seus narizes quase se tocavam, o impedindo de ver o rosto todo do dono daquele olhar duro, embora nem fosse preciso enxergar na totalidade, já que conhecia como ninguém aquelas íris de fogo e também as peculiares sobrancelhas bifurcadas. Sua respiração acelerou de imediato quando sentiu tocar sua pele o ar frio e sobrenatural que saia das narinas que quase tocavam as suas.

Camus! — disse ele, baixo e chiado, sentindo um misto de alívio e dúvida, ainda que seu coração desse mais ênfase ao primeiro — O que... O que é isso? — aumentou o tom de voz quando tentou se mexer e se deu conta de que tinha os braços amarrados para trás das costas, então seu corpo sofreu um choque e seu espírito congelou-se — QUE MERDA É ESSA? CAMUS! O QUE É ISSO?

Isso é uma cadeira com cordas bem firmes. — a voz do Cavaleiro de Aquário saiu tão baixa e grave quanto um sussurro ameaçador.

Enquanto esperava seu Vor acordar o ruivo havia pego uma cadeira e se sentado de frente para ele. Estava agora de pernas abertas, com o peito e um dos braços escorados no encosto, enquanto encarava o homem à sua frente com tanta intensidade que se seu olhar matasse Dimitri já estaria fulminado.

Aonde... aonde eu estou?... Estamos na Grécia ainda? — disse antes de reabrir os olhos e olhar para o aquariano novamente. Notou curioso que ele tinha o rosto muito ferido. Um dos olhos estava bastante inchado, um hematoma enegrecido se formava abaixo da pálpebra inferior. Também tinha arranhões na testa, queixo e o lábio superior apresentava um corte já em fase de cicatrização — O que... O que aconteceu com a sua cara, Camus? — balbuciou.

Non te interessa. — Camus respondeu, seco e firme. Obviamente não iria dizer que apanhara de Afrodite no dia anterior — E sim, nós estamos na Grécia.

Houve silêncio, e então, como um cometa a cortar o cosmo em velocidade alucinante as lembranças de tudo que acontecera momentos antes naquela noite voltaram à sua mente. Dimitri engoliu em seco, e um tremor incontrolável tomou de assalto todo seu corpo.

O pânico tomou conta do russo ao se dar conta de sua situação nada favorável, mas ainda assim era Camus ali, seu mais fiel aliado, o cérebro da organização, braço direito, muitas vezes seu conselheiro e companheiro de todas as horas e ocasiões. Podia dizer até que seu mais íntimo amigo, aquele que sempre o protegeu e o tratou respeitosamente, com zelo e afeto devotos, que conhecia todos seus segredos mais privados, mas, acima de tudo seu, "filho", e o único homem na face da Terra que tinha poder para destruí-lo.

Ainda meio zonzo e confuso pela pancada na cabeça que tomara há pouco de Afrodite, Dimitri baixou a cabeça, fechou os olhos e apertou as pálpebras firmemente. Precisava reorganizar minimamente os pensamentos. Ainda que tivesse traído Camus, e que aquela zanga toda tivesse fundamento, não podia amolecer. Sabia o terreno que estava galgando, mas contava com anos de lealdade irrefutável do francês para consigo para tentar sair daquele apuro.

Camus... Retire as cordas. — disse rangendo os dentes, a boca salivando e os olhos alucinados cravados nos do fiel braço direito — Me tire daqui. Me tire dessa merda de cadeira, anda! É uma ordem! — debateu-se exaltado.

Eu non vou tirá-lo daí, e também non adianta tentar se soltar. — Camus respondeu ríspido — Eu tenho algumas perguntas a fazer a você, e sabe que ninguém escapa de meus interrogatórios.

Interrogatório? Mas que porra de interrogatório? Perdeu o juízo? — respondeu Dimitri já bem alterado — Anda! Me tire daqui! Meu jato já está nos esperando em um hangar em Plaka. Conversamos durante a viagem de volta a Moscou.

Eu acho que non entendeu. Eu e você non vamos a lugar algum, Dimitri Yurievich Volkov. — disse Camus aproximando ainda mais seu rosto ao do Vor — Non enquanto non me responder... POR QUÊ? — questionou rosnando as últimas palavras.

Dimitri olhou para o rosto enfurecido do francês e não se recordou de um dia tê-lo visto com expressão tão perturbada. A seus olhos Camus sempre fora um homem sério, frio, comedido, até quando a situação lhe exigia um pouco mais de furor, e aquela nova faceta não estava lhe agradando em absoluto. Em seu íntimo se perguntava se seria possível o Cavaleiro de Peixes ter amolecido e fragilizado tanto o seu valioso tesouro, tão cuidadosamente moldado a ferro e fogo. Sua mais poderosa arma, e seu herdeiro.

Uma ira irracional tomou o Vor por completo.

NÃO SE ATREVA A ME QUESTIONAR, CAMUS! — bradou ensandecido projetando o pescoço para frente para tocar seu nariz ao do francês o desafiando — Eu sou o seu Vor e eu mandei retirar as cordas, então sairemos daqui juntos e em Moscou teremos uma conversa franca. AGORA, CAMUS, OBEDEÇA! — grunhiu as palavras entre perdigotos.

A reação do aquariano foi imediata.

Camus se levantou da cadeira de supetão e a arremessou contra uma das paredes de pedra. Estava tão furioso que no trajeto esta havia se congelado e ao se chocar contra a parede se partiu em milhares de lascas de madeira petrificada.

Dimitri acompanhou tudo com os olhos vidrados, mas logo sua atenção foi tomada de volta ao aquariano quanto este, de pé a sua frente, segurou seu rosto com uma das mãos e o obrigou a olhar para si.

Esfriava a própria mão ao ponto de seu toque causar dor, enquanto apertava as maçãs do rosto do Vor. Com extrema lentidão se inclinou até poder encara-lo mais uma vez de perto, mas agora o olhava por cima.

Meu Vor... — disse com irônico respeito — Por que tentou me enganar?

O rosto odioso de Dimitri assumiu uma expressão incrédula, porém embora extremamente surpreendido por aquela reação de seu homem mais leal ele não sentiu medo.

A raiva que lhe tomava naquele momento era muito maior que qualquer temor que pudesse abalar seu espírito.

Ora veja só! — disse Dimitri com voz ofegante e gutural — O poste está tentando mijar no cachorro... Quem você pensa que é para me questionar sobre isso, seu moleque? Quem é a fraude aqui, Camus? Quem enganou quem primeiro?

Responda, seu verme! Por que agiu como um asno e atacou o Santuário? E o mais importante, Dimitri... — fez uma pausa correndo os olhos por todo o rosto do homem abaixo de si, respirou fundo e soltou o ar frio pela boca — Por que tentou me tirar o que eu mais amo?... Ma Belle Rose!

Ao ouvir a forma como o francês referiu-se ao cavaleiro sueco, Dimitri sentiu o rosto lhe arder de ódio. Nem o ar frio e cortante que saia da boca do aquariano lhe era mais incômodo que aquela verdade íntima, aquele desatino blasfemo, agora confesso por ele mesmo. Contraiu os olhos cinzentos e sua boca formou um arco. Estava completamente transtornado e enojado.

Você não percebe? — bufou de ódio o russo — Não percebe o absurdo que está dizendo? Você sempre foi fraco, sempre foi influenciável... Desde que veio para nós e fizemos de você um homem! EU FIZ DE VOCÊ UM HOMEM! Mas, bastou se distanciar um pouco da família e você se perdeu. Bastou você voltar a frequentar a Grécia e esse antro de pederastia o corrompeu novamente. Isso só mostra que você tem muito o que aprender ainda, e eu vim até aqui justamente para lhe dar uma lição!

— Como é que é?

— Se age como um moleque eu vou discipliná-lo como um, e te colocar de volta nos eixos. — ensandecido encarou os olhos furiosos do aquariano — ENTENDE AGORA? EU FIZ ISSO POR VOCÊ, CAMUS! EU FIZ ISSO PARA POUPA-LO DE UMA HUMILHAÇÃO MAIOR!

Camus soltou o rosto de Dimitri e se afastou irritado.

Você está muito enganado, imbecil! — apontou o dedo para ele — Quem transformou a criança franzina que eu era em um homem, em um Cavaleiro, foi meu mestre, a quem eu jurei lealdade e gratidão eternas. Apenas por isso, por ele, eu jurei lealdade à família. Por ele eu tatuei as estrelas no meu peito. Agora vamos esclarecer as coisas, pois eu quero entender. Em que momento essa sua mente demente cogitou que você sairia vitorioso atacando o Santuário?

Eu não vim atrás de uma vitória. — disse o russo em tom de escárnio — Você acha o que, Camus? Que eu me acovardaria apenas porque são cavaleiros? Eu não tenho medo dessa gentalha! Sabe muito bem que não temo a nada! — fez uma pausa tomando fôlego, pois estava tão tomado pela raiva que sua boca secara a ponto ter dificuldade para articular as palavras, então estreitou os olhos encarando o homem que lhe fulminava com o olhar — Eu descobri tudo, Camus... Eu sei de tudo, do seu... deslize!

Camus engoliu em seco e sentiu um aperto no peito ainda maior.

Achou que poderia esconder isso de mim? Até quando, Camus?— continuou Dimitri em tom soturno — A honra da Vory v Zakone, a minha honra, a SUA HONRA, estavam em jogo. E nós só conhecemos uma maneira de lavar a nossa honra, não é mesmo, Camus?... Um homem sempre deve cuidar de sua família. Foi isso que eu te ensinei, e foi exatamente isso que eu pus em prática hoje! Me espanta que em algum momento tenha passado por sua cabeça que eu nunca descobriria, e que descobrindo não retaliaria aquela maldita bicha, aquele sueco sujo, efeminado... e também aquela puta ladra!

Camus sentiu sua garganta apertar. Só ele sabia o quanto passou por sua cabeça que era possível que Dimitri um dia descobriria tudo sim, e que faria exatamente o que fez, tentaria matar Afrodite, por isso mesmo todas as mentiras inventadas.

Saga subestimou a Vory, e eu tenho culhões! — prosseguiu o russo — Eu queria a piranha dele morta, e também aquela aberração sueca, e se conseguimos isso, como acho que conseguimos, então a operação foi um completo sucesso!

Aflito e angustiado o Santo de Aquário respirou fundo. Sabia que precisava obter todos os detalhes, então usando sua vasta experiência em interrogatório se aproximou novamente do Vor e disse com falsa calma:

Pois bem, você fez o que quis e agiu como quis, e com isso meteu a nós dois em um mar de bosta, Dimitri. Se non abrir a boca e começar a falar eu non tenho como te ajudar. Eu posso fazer de uma mentira uma verdade, mas antes eu preciso saber onde ambas estão nessa história toda. — disse Camus — Dada a ausência de Saga do Santuário, e o estrago que vi lá em cima no salão, eu imagino que tenha posto em prática a Operação Terra Queimada, no entanto... O que o fez pensar que os seus homens conseguiriam parar os outros Cavaleiros?

O dossiê. — confessou Dimitri.

O... dossiê? — Camus ficou sério — O dossiê redigido por meu mestre?

Dimitri manteve o olhar parado, fixo ao do aquariano. Não piscava.

Eu assumo que, dada a urgência da situação, talvez tenha agido por impulso, mas... Quando deitei meus olhos naquelas malditas fotos eu não pensei em mais nada, apenas... que toda a família iria descobrir que você é um... — contraiu os lábios para não dizer as palavras que queriam escapar de sua boca — Não. Não! Você não é uma maldita bicha, Camus. — arregalou os olhos brilhantes e diminuiu o tom de voz. Aquele assunto, além de um tabu, era uma vergonha tão grande para o pai da Vory v Zakone que mesmo sozinhos naquele porão ele o tratava cheio de receios — Você não é! Eu sei que não! Mas eu não podia deixar que aquelas fotos caíssem em mãos erradas e que todos na família pensassem que o meu homem mais leal, o meu herdeiro, meu filho...

Interrompeu-se novamente quando viu Camus levar ambas as mãos ao rosto o cobrindo num gesto apreensivo, então, enquanto dava pequenos passos pelo espaço restrito ali, em sua cabeça agora só se passava o quão grave era aquela situação.

O dossiê referido por Dimitri era um documento redigido por Yuri Yurievich Volkov, seu mestre e irmão do líder da Vory v Zakone. Um enorme arquivo de dados com páginas e mais páginas de relatos do próprio Yuri e também de cavaleiros ligados à máfia que o atualizavam anualmente, e cuja identidade era mantida em segredo absoluto. Nele constam as descrições de cada Cavaleiro de Ouro, Prata e Bronze que portavam uma armadura. Dados como nacionalidade, idade, um breve levantamento pessoal e familiar, grau de periculosidade, e o mais importante: seus pontos fortes, mas principalmente seus pontos fracos.

Mon... Dieu! — Camus suspirou ainda com o rosto escondido pelas mãos trêmulas — Non posso acreditar que você usou o dossiê sem... sem o meu conhecimento.

Yuri Yurievich Volkov já havia se iniciado na máfia quando se tornara o Cavaleiro de Aquário. Assim como Camus ele ingressara muito jovem e desde então assumiu o papel de agente duplo. O dossiê foi a forma que Yuri encontrou de assegurar seu patrimônio e zelar pela segurança da família russa quando a aliança entre Santuário e Vory v Zakone foi firmada no passado.

Assim, de posse das técnicas de combate de cada cavaleiro, e principalmente de suas fraquezas, a máfia russa saberia exatamente com quem estava lidando, como se defender e também como atacar, caso fosse necessário. A aflição de Camus, portanto, era completamente compreensível, uma vez que só ele sabia o perigo que aquele documento representava para os Santos de Atena, já que expunha seus calcanhares de Aquiles.

No entanto, o dossiê apresentava algumas lacunas, informações tão restritas e peculiares que nem mesmo Camus tinha conhecimento, e essas estavam ligadas ao Cosmo e à essência de cada cavaleiro.

Por causa dessas falhas a Operação Terra queimada não tinha sido de todo concluída, e devido às mesmas falhas Dimitri agora estava atado àquela cadeira.

Os russos sabiam como atordoar e até matar cada cavaleiro que se encontrava no bordel naquela noite, mas não sabiam, por exemplo, que o Cosmo de Shina possuía regeneração rápida, o que a impediu de ser envenenada completamente e morta em seguida, tampouco imaginavam que Geisty, mesmo grávida e coagida, apresentaria um poder de luta avassalador, nem que Afrodite, ferido de morte por Aleksander e com o Cosmo intoxicado esbanjaria força e determinação impressionantes.

Mesmo que Camus desconhecesse esses detalhes, foi fácil para ele deduzir que se Afrodite e Geisty ainda estavam vivos era graças às lacunas do dossiê de Yuri Yurievich Volkov.

Você também agiu por diversas vezes sem o meu consentimento, Camus. — disse Dimitri — Desde que esse inferno de bordel foi aberto.

Nós tínhamos um pacto. — rosnou o francês agora encarando o Vor — Você nunca usaria o dossiê sem a minha supervisão! — apontou o dedo indicador para ele e cuspiu as palavras com ódio.

Perfídia por perfídia! — Dimitri franziu as sobrancelhas sério e impassível — Eu mesmo lhe ensinei que nunca devemos confiar em ninguém, nem naqueles que nos são mais queridos... Mas, eu compreendo o que o levou a me trair, Camus, meu filho! Eu compreendo! — eloquente o russo arregalou os olhos — Eu sei que jamais trairia a mim nem à sua família se estivesse em pleno exercício de seu juízo, mas... esse lugar, essas pessoas, aquele... aquele viado asqueroso e ainda por cima sueco... Eles são lixo, todos eles, e eu... Eu precisava traze-lo de volta, Camus. Não podia ficar de mãos atadas vendo você se perder e se distanciar cada vez mais da nossa família... de mim!

Camus sentia ganas em abrir um buraco no meio da face odiosa do Vor. Todo o zelo que tivera por anos para com ele, toda a devoção, e até mesmo algo que um dia chamou de afeto, caíram por terra no momento em que Dimitri invadira seu mundo particular, seu castelo de vidro construído junto de Afrodite.

Olhando fixamente para aquela figura decadente atada à cadeira sentiu o nó em sua garganta prestes a sufoca-lo.

Saga... Saga está ausente do Santuário pelo que me parece, ou ele já estaria aqui... Foi você? — disse o aquariano com esforço para fazer a voz sair de sua garganta.

Dimitri olhou fixamente para ele e soube que não adiantaria mais esconder nada. Talvez assim, sendo sincero, Camus enfim entenderia o que o levou a agir daquela maneira, em sua concepção, tão zelosa.

Foi. — disse em tom moderado, vendo a expressão do francês se agravar — Eu precisava afastar o líder e os Cavaleiros mais fortes... O dossiê mapeou cada ponto do mundo onde há uma entidade selada pela deusa a quem vocês servem, a tal Atena. Anualmente os Cavaleiros renegados que trabalham para a Vory me encaminham relatórios acerca desses selos, e há alguns meses recebi um relatório vindo do México, do Templo Mayor. O selo de Atena que mantinha a tríade asteca em cárcere estava se enfraquecendo... Logo os guardiões desse Templo iriam comunicar o Santuário e então o Grande Mestre seria solicitado para reforçar o selo, já que a tal Atena ainda não deu às caras nessa Era, não é mesmo? — encolheu os ombros e arqueou para baixo dos lábios murchos — Me pergunto... Será que ela abandou vocês?

Camus sentiu a respiração acelerar ainda mais. Estava ofegante, temeroso pelo que ainda ouviria sair da boca do Vor, porém ainda mais enfurecido dado o escárnio do russo.

Que eu saiba, conforme me disse Yuri ainda em vida, a vossa deusa maior já era para ter reencarnado nessa Era há muito tempo, não é mesmo? — o russo ergueu as sobrancelhas numa interrogação franca — Mas, ao que tudo indica ninguém sabe quando ela vai reencarnar, nem se vai. Por isso, o seu antigo Grande Mestre, o tal Shion, foi obrigado a firmar uma aliança conosco, já que, através dos milênios é a tal da Atena que assegura a estabilidade financeira que essa merda jocosa de Santuário grego aqui precisa para se manter, não é?... Yuri me disse que geralmente ela renasce em uma família de posses, filha de filantropos, milionários, de gente influente, ou simplesmente, através de sua... divindade... ela consegue doações para manter seu Santuário e seus cavaleiros de pé. Bem... infelizmente para Shion e o Santuário, e felizmente para a Vory v Zakone, a tal Atena ainda não deu o ar da graça nessa Era. Logo, ela não colocou dinheiro em seu Santuário e vocês quebraram. Mas, Shion foi fiel à aliança entre Rússia e Grécia até o fim, já o cretino do Saga e o irmão larápio dele...

Vá direto ao ponto, Dimitri. — disse Camus com voz gutural e falsa calma.

Dimitri suspirou e então desviou as vistas daquele olhos perturbadores que o encaram impetuosos, focando um ponto qualquer nas paredes de pedra enegrecida.

Eu mandei subornar um dos sacerdotes do Templo Mayor no México para que ele convencesse um dos Cavaleiros de Prata que fazem a guarda da região a romper o selo da divindade principal, já que este estava enfraquecido. — confessou o russo — Eu sabia que Saga seria obrigado a ir para lá imediatamente para selá-la novamente, e sabia que levaria consigo seus Cavaleiros mais poderosos, entre eles o tal Virgem, e parece que levou também Leão e Áries... E eu acho que meu plano foi um sucesso, pois nenhum dos três citados de fato estavam na Grécia quando desembarcamos em Atenas, em Plaka. Um espião infiltrado ficou ao encardo de me informar quem estava nas 12 Casas e quem estava no bordel. Somente o Capricórnio ficou no Santuário, mas sem poder deixar seu posto nas Casas Zodiacais ele não seria problema, e para Touro e Câncer nós já tínhamos uma estratégia traçada.

Que non deu muito certo, non é mesmo! — Camus ironizou, depois aproximou-se novamente do Vor e dessa vez se agachou à sua frente para ficar no mesmo campo de visão. Respirou fundo, pois precisava manter a calma e controlar suas emoções para conseguir o que queria dele — Só tenho mais uma pergunta. Como conseguiu ferir Ma Rose?

Houve uma longa pausa enquanto Dimitri, ao ouvir o modo como Camus se referia a Afrodite, contorcia seu rosto numa expressão de ódio e repulsa para no fim explodir colérico.

NÃO REPITA ISSO! — gritou enfurecido, a face vermelha e a respiração abafadiça — NÃO ADMITO QUE SE REFIRA AQUELE... ÀQUELA CRIATURA IMUNDA DESSA MANEIRA! — se debatia tentando se livrar das cordas.

Ma Rose! Mon amour! Ma vie... Meu homem! — disse Aquário encarando os olhos febris do russo, com voz decidida e potente, e enquanto Dimitri esbravejava aos berros, apanhou-o pelo colarinho da camisa, torceu o tecido entre seus dedos e puxou para perto de seu rosto — O QUE VOCÊ FEZ A AFRODITE? FALE SEU MISERÁVEL. COMO VOCÊ CONSEGUIU PARA-LO? — gritou num tom de voz ainda mais alto e gutural que o do Vor.

Dimitri olhou para ele firmemente, calado. O analisava incrédulo, um tanto enojado, mas ainda esperançoso.

Eu não posso crer que é da sua boca que está saindo essas palavras, Camus. — disse balançando a cabeça negativamente num gesto frenético, nervoso — Será possível que não percebe? Será possível que aquela bicha suja e promíscua o tenha enfeitiçado ao ponto de não conseguir enxergar que tudo que fiz foi para o seu bem?

O meu... bem. — disse Camus gaguejando as palavras, quase se sufocando com elas tamanha sua ira.

Sim! O seu bem! — afirmou Dimitri — Camus, você ficou no lugar do meu filho, do meu Mikail, meu único bem maior, mas que a vida me tirou tão precocemente. — não pôde conter a emoção ao citar o nome do filho morto há doze anos em uma emboscada de uma facção mafiosa inimiga — E eu o estimo como um pai estima um filho... E, tal qual um pai que zela pela felicidade e honra do filho você imagina o que senti quando vi você aos... aos beijos com aquele maldito viado efeminado?

Você colocou a merda de um detetive atrás de mim. — rosnou o francês.

NÃO! — Dimitri negou com veemência — NÃO! Não coloquei. Eu nunca desconfiei da sua lealdade, Camus. Fui na contramão dos meus próprios princípios e leis e confiei em você. Eu coloquei um detetive atrás do patife do Saga... mas o desgraçado de repente me saiu mais eficiente do que o esperado... — fez uma pausa e respirou pesadamente — Camus... eu precisava agir antes que fosse tarde.

Você non tinha o direito Dimitri... NON TINHA O DIREITO! — gritou o aquariano.

E VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO DE FRAQUEJAR! NÃO DEPOIS DE TANTO TRABALHO PARA TE TRANSFORMAR EM UM HOMEM DE VERDADE! — rebateu Dimitri fulminando o aquariano com o olhar — Eu não te dei todo o poder e influência que tem dentro da Vory para me trair! Não fiz de você um homem para ir chafurdar o meio das pernas de uma bicha efeminada ridícula e...

Súbito a voz de Dimitri de calou quando Camus, ensandecido, soltou o colarinho de sua camisa, ergueu-se e deu um sonoro tapa em seu rosto com o peito da mão.

A pancada forte fez Dimitri tombar para o lado e quase ir ao chão com cadeira e tudo. Ficou possuído pela raiva, mas apertou os dentes dentro da boca fechada, e respirando apenas pelas narinas, tão acelerado e forte que fazia ruído, com os olhos estatelados encarou o chão calado, em choque. Suas unhas cortavam a carne das palmas das mãos trêmulas, tamanha força impressa pelos dedos fechados, e sentindo a face arder na altura do osso malar voltou o rosto para frente novamente e encarou Camus.

Como... se atreve? — disse em voz baixa, com certa dificuldade em articular as palavras, não devido à pancada, mas à raiva, à magoa, à sensação horrível de impotência e incredulidade que tomavam de assalto seu espírito — Você é... meu filho... meu herdeiro...

Eu non vou perguntar uma terceira vez, Dimitri. — Camus rosnou enfurecido — O que fez com Afrodite?

Dimitri então lançou um olhar triunfante para o aquariano.

Ele está mal, não está? — disse em tom moderado sentindo seu corpo todo tremer de ódio — Eu o vi sangrando, infelizmente não tive o prazer de vê-lo morto. Mas... se o desgraçado não morreu com o golpe da lâmina de Aleksander... lembra dele? — fez uma pausa breve — O perito em armas de corte. Você mesmo o interrogou para que entrasse na família, então sabe o quanto Aleksander é eficiente em tudo que faz.

Acha que eu sou idiota, Dimitri? — retrucou Camus — As lâminas do cretino do Aleksander são inofensivas contra um Cavaleiro de Ouro poderoso como Afrodite.

Não se ele estiver com o sangue envenenado por aço lemuriano. — sentenciou o russo.

O sangue de Camus gelou. E não devido a ação de seu Cosmo.

Não conseguia imaginar de que forma Dimitri havia conseguido envenenar o sangue de Afrodite com aço lemuriano, já que àquela altura o ódio, a revolta, e principalmente o medo o cegavam e confundiam seu raciocínio. Medo de como Saga agiria diante de tudo aquilo, mas principalmente medo de perder Afrodite.

Talvez Aleksander tivesse usado uma lâmina feita de aço lemuriano, mas isso apenas bloquearia o Cosmo de Peixes e não envenenaria seu sangue.

Se aquele viado filho de uma cadela não morreu retalhado certamente vai morrer envenenado. — disse o Vor, despertando Camus de seu torpor emocional — E então você estará livre, meu filho. Livre da influência nociva desse degenerado. Livre para voltar para o seio da nossa família de onde nunca deveria ter saído. Livre para ser quem você verdadeiramente é, Camus. Um homem!... Vai esquecer esse momento de fraqueza que te acometeu.

Com os pensamentos a mil, a cabeça a latejar fortemente, o peito apertado e o coração aos gritos o Santo de Aquário olhou para o homem atado à cadeira, sentindo náuseas.

É isso que você acha? — disse o francês com a voz trêmula — Você movimentou um contingente gigantesco da Vory, sacrificou nossos melhores homens, e pelo que vi também gastou uma quantia considerável dos nossos cofres com subornos... porque achou que Afrodite estava me influenciando? Achou que minha aproximação com ele se deu por um momento de fraqueza minha?

Lógico que foi, Camus. Você não é uma maldita bicha! — disse eloquente o pai da Vory v Zakone — Eu precisava tirar essa aberração do seu caminho, mas eu também precisava mostrar ao tratante do Saga que a Vory é uma via de mão única! Uma vez firmado um pacto conosco toda e qualquer traição é cobrada e paga com sangue! Aquela vadia desgraçada nos roubou uma fortuna, nos enganou, demos uma chance a ela em troca de sua vida e o que ela fez? Seduziu o idiota, engravidou e o colocou contra nós.

Dieu! — Camus acenou negativamente com a cabeça, e então deixou escapar do fundo de sua garganta uma risada carregada de rancor e cólera — Você non sabe de nada!

O que disse? — Dimitri assumiu um semblante sério.

Você non sabe de nada. — repetiu pausadamente, depois inclinou-se para frente e encarou os olhos do Vor com fúria — Você é muito estúpido, Dimitri. Pelo visto o seu detetive non era tão eficiente quanto parecia. Sim, porque agora tudo faz sentido. As fotos... Você colocou fogo no seu próprio carro, non? Um dos corpos era dele, non? Mas, sinto lhe dizer que ele non sabia de tudo. Ah, non!

Dimitri engoliu em seco sentindo um gosto amargo lhe subir pela garganta.

Do que está falando, Camus? — perguntou confuso.

Se a amazona seduziu Saga ou non eu non tenho como lhe dizer, mas ele se casou com ela.

O quê?

Ela inclusive já mora no Santuário com ele, e para que vocês nunca desconfiassem de nada eu aconselhei Saga a pagar para a Vory o valor dos programas dela.

O QUÊ?... Então você sabia que...

É claro que eu sabia, Dimitri. Eu sempre soube. — disse Camus exaltado — O que você acha que existe entre mim e Afrodite?

Não seja um completo idiota! — esbravejou o russo — É obvio que você escondeu isso de mim a pedido daquele viado cretino! Ele... ele virou sua cabeça, Camus!

O conselho que dei ao Saga eu mesmo tomei para mim. Vocês obrigavam Afrodite a se prostituir para humilha-lo, para colocá-lo no seu devido lugar, non é mesmo? Pois saiba que por anos fui eu quem paguei os programas dele, com dinheiro da Vory. Dinheiro seu. — encostou o dedo indicador no peito do Vor exercendo uma leve pressão — Eu sou o homem rico e misterioso que compra a exclusividade dele.

Chocado os olhos de Dimitri saltaram das órbitas.

Não. — sussurrou o Vor.

OUI! Non só paguei os programas dele como o enchi de presentes obscenamente caros. O levei para viajar...

— NÃO, NÃO, NÃO, NÃOOO!

— Eu vivi com ele! E eu dei a ele tudo o que o dinheiro da Vory pode comprar. Non o poupei de nenhum mimo, nenhum luxo ou extravagância.

Não Camus. NÃO! — gritou o russo, e seus lábios frementes salivavam de ódio puro — Você está doente! DOENTE! Não seja burro! Não percebe que esse desgraçado está virando sua cabeça? Está te extorquindo? Ele só quer seu dinheiro, seu imbecil!... Se você queria comer uma bunda de viado que comesse então, mas jamais podia se deixar levar por isso, Camus. É uma aberração! Esse... esse sueco te enfeitiçou. Ele é ardiloso, tóxico em toda sua essência. Esse casinho de vocês vai ser sua ruína! A ruína da nossa família!

Você é uma besta quadrada mesmo. — Camus o encarou afastando-se minimamente — Non existe casinho. Afrodite e eu estamos juntos há três anos, Dimitri.

Não. — o Vor balançou a cabeça com um aceno negativo frenético, como e com o gesto brusco e repetitivo pudesse mandar para longe as palavras que ouvia.

E ele non é uma aberração ou criatura repugnante. Ele é meu namorado.

NÃO! CALE A BOCA! — bradou o russo raivoso.

Ele é o meu homem!

NÃO! CAMUS! — com o rosto contorcido Dimitri encava o homem à sua frente.

O amor da minha vida! — disse o francês com firmeza — Ma Belle Rose!

CHEGA! CHEGAAAA! ISSO É UM ERRO! — debatia-se entre as cordas enfurecido.

Non. — falou o aquariano — O único erro foi você achar que podia ferir e me tirar o que eu mais amo sem sofrer as consequências.

Você perdeu a razão, idiota! — continuava a se debater alucinado — Está jogando ao vento tudo que fiz por você, sua família, Hyoga, o seu cargo na Vory em troca de se deitar com outro homem! NÃO! NÃOOO! EU MATO VOCÊ, CAMUS! EU JURO! EU MATO E ACABO COM SUA REPUTAÇÃO, DIGO A TODO MUNDO O VIADO DE MERDA QUE VOCÊ É! VOCÊ ESTÁ ACABADO, CAMUS! ACABADO! EU VOU TIRAR TUDO DE VOCÊ, NÃO APENAS AQUELA BICHA SUECA MALDITA! EU TIRO HYOGA, TIRO SEU CARGO AAAARRGH!

A voz gutural de Dimitri calou-se de supetão quando a mão fria de Camus agarrou sua garganta, e então, como se sentisse ter as amigdalas transpassadas por uma agulha o russo tentou gritar de dor, mas de sua boca não saiu nenhum som.

Camus havia congelado suas cordas vocais.

Você non vai dizer nada, a ninguém. — Aquário disse baixo. Os olhos avelãs crispados a encarar impetuosos o rosto vermelho e assustado do Vor — Até porque mortos non falam, Dimitri. Você veio aqui atrás de honra, atrás de me dar uma lição, mas tudo que conseguiu foi me dar a liderança da Vory v Zakone em uma bandeja de prata!

Dimitri arregalou os olhos, chocado, incrédulo, paralisado. Tentou emitir algum som novamente e a dor o tomou de assalto o fazendo fechar os olhos e suar frio, então de repente um estrondo foi ouvido no recinto.

Rapidamente Camus soltou a garganta do russo, recuou alguns passos e olhou para trás. Viu Shina parada no batente da porta ainda segurando firmemente a maçaneta. Amaldiçoou seu momento de descontrole, pois fora ele quem o fez elevar o Cosmo a ponto de denunciar onde estava.

— CAMUS! — bradou a voz em tom surpreso da amazona de Ofiúco — O que faz aqui? Justo você aqui com esse russo filho da puta. Por que não está no Templo de Aquário? — correu seu olhar urgente pelos dois homens ali notando que Camus tinha o rosto bastante ferido e estava visivelmente nervoso — Seu cretino! Você veio direto para cá para salvar a vida desse covarde, não é?

Non! — Camus respondeu com uma calma fingida, enquanto se afastava de Dimitri e caminhava até Shina — Se eu quisesse solta-lo já o teria feito, Ofiúco!

Shina a passos duros desceu os dois primeiros degraus que davam para o interior do recinto indo de encontro ao aquariano, mas foi detida quando Misty apareceu ali transtornado e a segurou pelo braço.

— Mulher se acalma! — disse o Lagarto — Tudo que a gente não precisa é de mais gente perdendo as estribeiras agora.

— Me solta, porra! — retrucou a amazona irada, e com um solavanco se livrou do francesinho — Foi por isso que você tentou me impedir de entrar, né viado! Você é outro cretino, Misty! Sabia que Camus estava aqui de conluio com o desgraçado russo, não sabia?

— E-Eu... — Lagarto gaguejou enquanto procurava uma resposta, e antes que conseguisse encontra-la foi puxado pela gola da camisa pelas mãos fortes de Shina, que o trouxe para perto de seu rosto.

— Afinal de contas você está do lado dele ou do nosso, seu babaca? — inquiriu Ofiúco.

— Calma, Shina, não é nada disso que você está pensando! — disse Misty, e nessa hora seus olhos aflitos procuraram por Camus e o encontraram parado, ereto, a poucos passos à frente observando a discussão sem se intrometer.

— É o que então? FALA! — insistiu a amazona — Você deixou o cara que trabalha para os russos, os mesmos russos que estouraram o bordel, entrar aqui achando o quê? Seu idiota!

Então foi a vez de Camus tomar as rédeas da situação.

— Está enganada. Non existe o meu ou o seu lado, Ofiúco! — com certa impaciência o ruivo levou uma das mãos até a parte interna da própria armadura e retirou de lá sua cigarreira e um isqueiro. Acendeu um cigarro e apontou para Misty em seguida antes de dar uma tragada — Lagarto me deixou entrar aqui porque eu mandei. Eu sou uma patente superior. Eu ordenei e ele obedeceu, Shina... E nem que ele quisesse me impedir conseguiria, n'est-ce pas?

— Patente superior... — disse a amazona encarando com olhar colérico o aquariano enquanto soltava Misty com um tranco que o vez cambalear para trás — Então você acha que pode ignorar solenemente o alerta dado pelo Santuário e ao invés de se apresentar em seu Templo vir até aqui, justamente aqui, no bordel que acabou de ser estourado pela porra da SUA máfia, para bater um papinho com seu comparsa? E ainda esfrega a sua patente na nossa cara?

Oui! Exatamente isso que eu acho. — Camus deu uma longa tragada no cigarro e depois soltou a fumaça com desdém.

— Ah, francamente Camus! Faça-me o favor! — bronqueou Shina.

— Eu sou um Vor, de fato, mas também sou um Cavaleiro de Ouro. — disse Aquário, e seu rosto agora estava isento das emoções que há pouco lhe inundavam. Nele apenas havia indiferença e a frieza costumeiras — Portanto, a única pessoa a quem eu devo me reportar é ao Grande Mestre, non a você. Non lhe devo nenhuma satisfação, amazona.

Irada Shina olhou para o aquariano de cima abaixo sentindo asco.

— Vai tomar no cu Camus! — disse Ofiúco — Assim que Saga aparecer eu pessoalmente vou o colocar a par dessa bosta toda que você está envolvido.

Camus deu de ombros enquanto tragava mais uma vez o cigarro.

— Faça o que quiser, amazona. — disse impassível.

Misty, astuto como era, se viu na obrigação de agir imediatamente, ou tudo o que planejara iria por água abaixo.

— Ai... Ai... Shina, eu não me sinto bem... — levou uma das mãos à testa fingindo debilidade — O efeito do treco que o gostosão me deu está me dando mal estar de novo.

— Ah, para de palhaçada! E segura as pontas aí, não está vendo que estou com um assunto mais sério para resolver agora. — rebateu a amazona.

— Ai Shina, me ajuda. É sério! Eu estou tonto... está ficando tudo escuro... não para de rodar... — insistia o Cavaleiro de Prata agora se escorando em uma das paredes, cabisbaixo.

— Merda! — exclamou a amazona que mesmo desconfiada não podia negligenciar a saúde de Misty, até porque não sabiam o que de fato havia sido posto na bebida do Cavaleiro de Lagarto.

Ainda que a contra gosto, Ofiúco foi até ele e o amparou passando seu braço por cima dos próprios ombros.

— Anda, eu vou pedir para um dos servos leva-lo ao hospital de Atenas. Eu preciso de todos os Cavaleiros disponíveis para ajudar aqui, já que temos muitos corpos para remover e feridos para acudir. — disse ela já se encaminhando para porta de saída, mas antes olhou para trás e encarou a face de Camus lhe lançando um olhar dardejante — Olha aqui, Camus, isto está me cheirando a merda... E eu não quero saber que porra você veio conversar com esse velhote russo, mas eu quero deixar bem claro que eu estou de olho em você. E tenho certeza que não sou apenas eu, mas todo o Santuário. Os outros cavaleiros serão comunicados por essa sua postura. Não pense que vai ficar a sós com o seu colega russo... EU volto em instantes e você não vai a lugar algum enquanto Saga não chegar aqui para tirar essa história a limpo. — disse apontando para Dimitri — E se eu não for o suficiente para te segurar aqui, saiba que tem mais cinco Cavaleiros de Ouro prontos para lutarem do meu lado. E espero que você não seja prepotente o suficiente para cogitar fugir daqui com esse canalha enrugado aí, nem que o mate para se livrar de ser delatado. Hum... Boa sorte para livrar essa tua cara cínica.

Disse por fim, então passou pela porta levando Misty consigo e deu um tranco com pé para fecha-la.

Assim que se viu sozinho Camus deu um longo suspiro, jogou a bituca do cigarro no chão a apagando com a sola da bota da armadura e encarou Dimitri mais uma vez. Quando seus olhares se cruzaram Camus não se intimidou, pegou outro cigarro, se encostou na coluna e o acendeu calmamente.

Não discutiria mais com Dimitri ou sabia que não seria capaz de controlar sua ira. Temia mata-lo antes de poder provar sua lealdade ao Santuário, piorando ainda mais sua situação.

— Mas que dia de bosta! — reclamou em voz baixa ao apertar a ponte do nariz entre os olhos enquanto ouvia os resmungos e gemidos de dor emitidos por Dimitri ao tentar se soltar das cordas. “Dieu, preciso ir até o Hospital.”, pensou angustiado e com o espírito tomado pelo pavor de não conseguir salvar Afrodite a tempo “Preciso ajudar Afrodite! Preciso fazer algo!”

No momento em que quase agiu por impulso e pensou em partir para o Hospital eis que sentiu o Cosmo de Saga na entrada do Santuário.

Merde!

***

Santuário de Atena

Diante do primeiro degrau que dava acesso às Doze Casas Zodiacais um portal dimensional se abriu.

Por ele, pouco segundos depois, passaram os Cavaleiros de Ouro de Gêmeos e de Virgem, sendo fechado logo em seguida pela mesma pessoa que o abriu, Saga.

O Santo de Gêmeos, visivelmente abatido tanto pelo esgotamento físico quanto mental por conta da batalha contra a divindade asteca que finalmente foi selada, subia às pressas os degraus enquanto amparava pelos ombros o Santo de Virgem, que igualmente exausto, além de bastante ferido, caminhava com dificuldade.

Juntos eles subiam as escadas enquanto com seus corações angustiados e apreensivos viam a entrada do Templo de Áries completamente bloqueada pela Muralha de Cristal de Mu.

Desnorteado Saga apertou o passo e com a respiração suspensa e o peito apertado gritou pelo lemuriano ao chegar ao último degrau.

— MU! ÁRIES! — bradou o geminiano com voz gutural, porém quase simultaneamente a seu chamado eis que o guardião daquele Templo surgia diante de si trajando sua armadura de ouro e já desfazendo o bloqueio.

Assim que se viu diante deles os olhos de Mu imediatamente fitaram Shaka angustiados.

— Pelos deuses! Shaka! — disse alarmado o lemuriano que rapidamente acercou-se deles e auxiliou Saga a sentar o Cavaleiro de Virgem no degrau, então lhe retirou o elmo da armadura e analisou seu rosto, o vendo repleto de escoriações.

Através de seus dons raciais e seu ofício de ferreiro celestial, o Santo de Áries não apenas podia avaliar a gravidade dos ferimentos no corpo dos cavaleiros como também em suas armaduras sagradas, e a de Virgem parecia ter passado por uma grande provação, já que apresentava inúmeras rachaduras e fissuras profundas, o que indicava que havia absorvido um poderoso impacto, e que devido a ele o corpo de seu portador tinha sido privado de danos graves, porém deveria estar bem castigado.

Olhando rapidamente para Saga, Mu também enxergou pequenas fissuras em sua armadura, mas foi o que viu na aura do geminiano que mais lhe preocupou. Saga estava transtornado.

— Mu, o que aconteceu aqui? Onde está Geisty? Em qual casa ela se abrigou? Ela está em Gêmeos, não está? — perguntou Saga com voz túrbida de inquietação, e nem esperou a resposta do ariano, pois desesperado como estava já seguiu às pressas pela entrada do Primeiro Templo para cruza-lo correndo, porém Mu o impediu.

— Saga, espere! Geisty não está aqui. — disse agitado o ariano com o olhar preocupado.

Imediatamente Saga deteve seus passos e se virou surpreso para o outro.

— O quê? Não está aqui? — inquiriu o geminiano fitando o ariano com a vista turva de pupilas absurdamente dilatadas — Onde está a minha mulher, Mu?

Mu respirou fundo sentindo o coração bater forte.

— Eu não sei detalhes, pois cheguei há pouco também e ainda não estou a par do que está acontecendo. Tudo que sei é que Aldebaran há alguns minutos me contatou pelo Cosmo e me pediu para te avisar que houve um atentado ao Templo das Bacantes... Muitos foram feridos e Geisty foi levada ao Hospital de Atenas.

O geminiano estancou a respiração. Seu coração agitou-se ainda mais dentro do peito e uma sensação de medo o consumiu por inteiro.

— O quê? Um atentado? — Shaka se pronunciou pela primeira vez desde que haviam chegado, horrorizado.

Então Saga nada mais disse. Apenas deus as costas aos dois cavaleiros ali na entrada do Primeiro Templo e desceu as escadarias de volta em velocidade alucinante, desaparecendo de suas vistas em segundos.

— SAGA! — gritou Shaka esforçando-se para se levantar.

— Ele vai ao hospital. — disse Mu o amparando.

Shaka apoiou-se nos braços do lemuriano, respirou fundo e de olhos fechados fez uma careta de dor, depois levou uma das mãos ao rosto de Mu e o tocou com delicadeza fazendo uma carícia. Sentia um frio tão grande na alma que as escoriações em seu corpo pouco lhe incomodavam.

— Você está bem, Mu? — perguntou com o coração na garganta — Kiki está bem? Como está meu filho?

— Calma, meu amor, está tudo bem conosco. — o ariano respondeu amparando o esposo com cuidado.

— Como foi na praia? Meu coração ainda está imerso em angustia... — falava com voz assustada e então interrompeu-se quando sentiu a cabeça latejar mais forte.

— Os eventos da praia ocorreram perfeitamente bem, Shaka. Foi emocionante presencia-lo salvar nosso filho. Entretanto, houve um imprevisto logo após, envolvendo Jamiel.

— Um imprevisto em Jamiel? — o indiano perguntou apreensivo.

— Sim, porém aparentemente nada grave.

— Kiki? — o nome saiu de seus lábios trêmulos sujos de sangue como uma súplica.

— Kiki está bem, está seguro dormindo profundamente acomodado no interior de Áries, foi justamente por isso que ergui a barreira. — Mu respondeu o confortando.

— Ah, graças a Buda. — Virgem fechou os olhos e soltou um longo suspiro, depois baixou a cabeça e encostou sua testa na de Mu.

— Eu estava em Jamiel quando ouvi o chamado. Ao retornar não sabia de nada e como nosso filho está comigo eu não podia deixar o acesso livre para ser pego desprevenido, por isso enquanto estava fora ergui a barreira como medida preventiva. — o lemuriano então levou as mãos à face machucada do marido e o afastou para poder olhar para ele com a testa enrugada de preocupação — Eu não sei detalhes do que está acontecendo, mas aparentemente o alerta de Shura não envolve as Doze Casas... O ocorrido foi no Templo das Bacantes.

Shaka encarou as íris verdes do amado vendo nelas a mesma aflição que exibiam as suas.

— Será possível que... Eu tenha me enganado, Mu? — disse o virginiano pensativo — Será possível que o mal que vi acercar-se de nós não se relacionava a Kiki, mas... — arregalou os olhos azuis celeste como se tivesse tido uma epifania.

— Eu não sei dizer, Sha. — disse Mu tentando acalma-lo — Vem, vamos entrar pois também estou preocupado com você, está ferido e precisa de cuidados.

Shaka então segurou nas mãos de Áries com força considerável e olhou profundamente em seus olhos.

— Mu, eu preciso ir atrás do Saga. — disse resoluto — Não é prudente deixa-lo sozinho. Não agora. Preciso ir ao hospital.

— O quê? Espera, Luz da minha vida. — Mu arregalou os olhos apreensivo — Acabou de voltar de uma batalha, você está ferido, precisa de cuidados, eu...

— Mu! Mu escute! — Shaka fitou os olhos verdes do amado enquanto sua mente repassava em seus pensamentos um redemoinho de imagens, sons e sensações criando um balé caótico. Via as imagens do pesadelo que tivera na noite anterior, ouvia o choro do bebê que comia as próprias vísceras cada vez mais alto, sentia o cheiro da maresia misturado ao sangue vivo, via a face de Gêmeos no espelho de Tezcatlipoca — Eu preciso ir. Eu não posso deixar Saga sozinho, a... a minha visão, Mu.

— O que tem a sua visão? — Áries perguntou apreensivo.

— E se não foi Kiki que eu vi?

Horrorizado o lemuriano tapou a boca com as mãos encarando em terror a face do homem que amava.

— Pela deusa! — Áries não conseguiu completar a frase tamanho o horror que tomou conta de seu coração.

Imediatamente entendeu a aflição que via no fundo dos olhos azuis do marido, a mesma que também agitava sua aura.

No entanto, o semblante de Mu logo se fechou novamente numa expressão séria e concentrada, e ele então voltou a falar, agora com a seriedade de um cavaleiro para outro e não mais de um marido para seu esposo:

— Está certo, vá até ele e ajude no que for necessário. Não hesite em me chamar caso precise.

Shaka acenou afirmativamente com a cabeça.

— Erguerei a Muralha de Cristal novamente por precaução e montarei guarda em Áries. — completou o ariano, agora abrandando a voz, então se aproximou do marido e rapidamente lhe tocou a face, depois lhe deu um beijo singelo nos lábios — Se cuide, e volte para mim.

— Eu sempre voltarei para você, Mu. — disse Shaka recuando alguns passos.

— E não faça loucuras! — alertou o ariano — Manterei nosso filho a salvo, meu amor, mas quero que se cuide também. Por isso, ao menos permita-me auxilia-lo e lhe poupar esforço.

— Shaka promete. — Virgem sorriu para ele de forma discreta, então apanhou o elmo que havia deixado no chão e o recolocou na cabeça — Estou pronto.

Mu olhou para ele. Queria toma-lo nos braços e curar suas feridas, sanar suas dores, mas sabia que aquela não era a hora de pensar em si, em seus anseios.

— Ajude-os, Shaka. Se você não for capaz, então ninguém mais será. — disse antes de teleportá-lo para o Hospital de Atenas.

***

Em um piscar de olhos Gêmeos invadiu afoito o Hospital de Atenas pela porta de entrada da ala de emergência.

Olhava em volta tentando buscar qualquer rosto conhecido ou alguém a quem pedir informações sobre o estado de saúde da esposa e de seus bebês.

Buscava com o seu Cosmo pelo da amada, mas não conseguia senti-lo em parte alguma e isso o estava deixando ainda mais atordoado e temeroso.

— Geisty, cadê minha mulher? Geisty! GEISTYYYY!

Negrito—Traduzido do russo

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic

Notas finais
Nossa gente, é tanta treta que eu nem sei o que por nas notas finais... A conversa de Camus e Dimitri revelou muitos detalhes da fic e da personalidade complexa do ruivão..mas não tudo. Mas agora vem mais treta... se preparem para os próximos caps, principalmente quem gosta do casal Geisty e Saga =x